Deathwish

11 Capítulo 11


ATO 11: os nossos sentimentos

Caminhamos em direção ao grande portal daquela igreja cinza, alguns anjinhos olhavam para nós calmos e resplandecentes, ignorando os passos cambaleantes de Gerard que ia a minha frente.

Eu ficava imaginando no que ele ia pensando, se estava pensando em algo para me dizer ou se pela mente dele não se passava nada apenas um vazio inútil.

Ele se abraçava enquanto andava, senti uma vontade terrível de correr o espaço que nos separava e lhe dar aquele abraço... Mas havíamos chegado ao portal.

— Hei, amigo? Você vai ficar bem? – disse o rapaz de cabelos loiros, com uma expressão sincera.

Gerard sacudiu a cabeça:

— É... Preciso de um pouco de ar...- consegui responder.

— Claro... Qualquer coisa, sei lá... Se você quiser companhia, eu estou aqui... – ele disse meio sem jeito.

— Ta. Obrigado, Bob... – ele disse e saiu.

Bob ficou olhando para nós enquanto saiamos.

O ar estava úmido, respirávamos grandes lufadas molhadas e vento forte trazia a chuva até os nossos pés sob a marquise da igreja.

Gerard me deu as costas. E eu pensei por onde deveria começar a me explicar, mas havia algo a se explicar? Lembrei-me do que Destino havia dito, não havia meios de me explicar. O desespero começava a me subir pela espinha.

— Eu não sou um idiota... – Gerard disse de repente me assustando. – Uma vez você me disse que não poderia abrir mão do que você era, então não vou pedir para que você me explique nada, ok? É isso que você sempre faz, nunca me diz o porquê das coisas...

Meus olhos desviaram para a chuva que caia como se isso pudesse significar uma salvação, uma fuga daquelas costas que me ignoravam.

— Mas, não peça para que eu aceite tudo isso numa boa. – a voz dele estava tão seca.

— Você tem todo o direito de estar revoltado comigo...

— É, eu tenho não é? – ele se virou e me olhou.

O que corria dentro de mim pareceu gelar, minha cabeça deu uma volta me causando vertigem. Será que foi efeito do olhar dele?

— Mas, por mais triste que eu esteja, no fundo do meu coração eu entendo que não é culpa sua...

— O que? – disse assustada.

Gerard se aproximou de mim e segurou o meu rosto com as duas mãos me fazendo olhar para ele:

— Eu sei que não é culpa sua. Eu sei isso desde o dia em que eu te vi, sei o quanto você sofre.

Comecei a chorar. Ele enxugou minhas lágrimas com os dedos.

— Que tipo de pessoa eu seria se só dissesse que te amava, e se não te aceitasse, se não te entendesse.

Eu não podia acreditar naquilo que ele me dizia. Parecia um pesadelo se esvaindo em fumaça escura.

— Me desculpe por ter gritado com você... Desculpe o meu transtorno lá dentro...– ele me abraçou.

— Como você faz essas coisas? – meus braços estavam moles, colados ao meu corpo. – Como pode ser tão perfeito?

— Não sou perfeito, você deveria saber... Tenho meus vícios, minhas esquisitices, minhas tendências suicidas. Não sou perfeito.

— Olhe para você... Pedindo-me desculpas. Você não precisa fazer isso... Se existe alguma razão na vida e na morte, ela é inteiramente sua, a razão de quem perde, de quem sai lesado.

— Peço desculpas por que eu te amo. – ele disse baixinho ao meu ouvido.

O abracei.

— Você é perfeito para mim.

Ele encostou a testa na minha:

— Antes, me diga que ela está bem... – disse se referindo a Helena.

— Ela ama muito você. Ela está bem, é muito cheia de luz.

— Eu também a amo, mas... – ele respirou fundo e continuou com a voz abafada de choro. – às vezes eu sentia que a decepcionava. Nunca quis que minhas ações a fizessem sofre.

— Tenha certeza, — dessa vez eu o fiz olhar para mim, — de que ela sempre entendeu você, mas do que qualquer pessoa nesta vida.

As lágrimas rolaram pelo rosto de Gerard.

-Obrigado...

— Quando vocês se juntarem novamente serão muito felizes.

— Quando eu me juntar a vocês duas, serei muito feliz. – ele disse fechando a minha boca com a sua. A chuva acoitava nossos pés.