Deathspell

1 Prólogo.


Cegos de nossa existência, os vivos caminham pelos corredores da vida sem poderem voltar atrás ou antecipar seus destinos, afinal de contas, diferente de nós, eles estão vivos. Os vivos não podem provar nossa existência, mas instintivamente temem nossa presença, ou ainda, nossas foices, que são as armas que usamos para matar os vivos. Estar vivo é como caminhar nu e indefeso na escuridão, segurando em suas mãos um lampião a óleo, que simboliza a vida. Nós somos as criaturas das profundezas das trevas, que rastejam às proximidades dos vivos, aguardando o momento de suas mortes. Não existem regras para nós, e podemos matar até saciarmos nossa sede, mas de uma forma geral espera-se que o óleo do lampião se esgote antes de se roubar a alma de um ser vivo. Mas não somos um clã, ou uma sociedade. Não há leis ou regras, nem espera-se que existam, porque, afinal de contas, somos Ceifadores, senhores da morte e seres da escuridão, não é como se precisássemos de objetivos, razão ou emoções, que são elementos essenciais aos vivos. Nós somos imortais, onipotentes, onipresentes, oniscientes, mas isto é em teoria. E jamais se saberá o que realmente somos ou temos capacidade de fazer, porque este tipo de reflexão só é necessária e importante para quem carrega a luz da vida. Para nós, que carregamos o vazio da morte em nossos corações, roubar a luz daqueles que vivem é suficiente. Este é um mistério que nunca será explicado, porque aqueles que buscam conhecimento não somos nós.

Eu? Eu sou Daud Litt, e tinha 17 anos quando morri. Mm? Minha explicação é muito superficial? Bem, eu tenho 167cm de altura e peso 56kg, mas para alguém como eu, altura e peso não importa realmente, já que leis da física não se aplicam a mim ou a nós. Já deve ser óbvio a esta altura, mas vou te dizer para que você tenha certeza. Eu sou um Ceifador, conhecido entre os humanos como a Morte, ou melhor, “o” Morte-- ah, quer saber, deixa para lá. O que importa é que, sim, eu mato seres humanos. Não precisam ser exatamente seres humanos, às vezes matamos cachorros e gatos, mas só se estivermos realmente entediados. Tenho certeza, entretanto, que você deve estar curioso como eu acabei assim. “Como nasce um Ceifador?”, “qual é o propósito de um Ceifador?”, “você escolhe tornar-se um Ceifador, ou é tudo decidido pelo destino?”, são, imagino, o tipo de pergunta que brotaram ou brotarão de sua cabeça, porque, veja bem, você está vivo, e este tipo de coisa pode lhe soar interessante. Uma coisa que nós não temos é a curiosidade, mas eu já fui vivo como você, e por isto tenho ideia do que se passa por sua cabeça. Apenas uma ideia, entretanto.

Contudo, uma história é uma história, e por isto é importante que haja um começo. Por isto vou te contar como tudo começou; desde uma época em que a vida era algo contido em meu corpo. A época em que eu ainda estava vivo. Nostálgico, não acha? Em retrospectiva, lembro o quão quente era a vida. Ser um Ceifador também significa não ter um corpo físico ― motivo pelo qual posso dizer que somos imortais ―, mas como consequência a sensação é a de que sempre está frio. Não há luz que ilumine nosso caminho, nem fogo que aqueça nossa alma. Este é o fardo de um Ceifador, um preço que nem todos podem pagar.