Deathspell
3 Capítulo II: Evilgate.
Notas iniciais
É difícil descrever o que aconteceu, pois meus sentidos estavam todos confusos. Ainda assim, lembro de sentir estar deitado em algo duro, frio, e grosseiramente rugoso. Talvez um chão de pedra, ou de cimento. Só sei que estava frio demais, e quanto mais eu recobrava os sentidos, menos ligava para onde eu estava deitado em. Tato havia sido uma das primeiras coisas a despertar, e lembro-me de tentar me mexer dali, mas algo restringia meus movimentos. Algo atava minhas mãos unidas, às costas. Algo também parecia me segurar no chão, mas logo eu perceberia que era meu próprio peso. Eu nem era gordinho nem nada, mas estava tão tonto que sentia que se abrisse os olhos, veria o mundo girando ao meu redor e acabaria enjoado. Na verdade, eu estava enjoado antes mesmo de fazê-lo. Ainda assim, eu os abri. E não fiquei tonto!-- Quero dizer, estava mais escuro do que eu imaginara. Certamente era noite, e bem tarde, o que explicava o frio também. Minha cara estava encostada no chão, que roubava o calor de meu corpo. Esticando minha cabeça, vi que estava com minhas mãos amarradas. Era meio óbvio, mas àquela hora eu estava confuso demais para entender obviedades. Na verdade, eu acordei sem lembrar que havia sido raptado. Mas logo lembraria. Quando olhei nas amarras das minhas mãos, pude ver com o canto dos meus olhos duas silhuetas. Eu tive que me virar para ver melhor o que era, e isto foi bem difícil. Eu não sentia que minha força havia voltado, e meu corpo era pesado demais para minhas pernas. Será que eu havia sido drogado ou algo do gênero? De qualquer forma, não era uma boa sensação. Rolei, raspei a cara, tive cãibras e xinguei feito louco, mas de alguma forma consegui me virar. E vi meu amigo e minha amada jogados no chão, igualmente amarrados. Nesta hora eu me perguntei sobre o que diabos estava acontecendo ali, e eu finalmente lembrei do ataque. Então, eu sinceramente paralisei. Estávamos ali, indefesos. Eu havia sido o único a acordar, e imagino que fosse porque eu havia sido derrubado antes, e não parecia que estávamos mais perto do colégio. Não, meu palpite era que estávamos numa das florestas às margens do cidade. Eu não fazia ideia do horário, então nem sabia se a polícia já havia sido alertada sobre nossos desaparecimentos. Meu sangue, de repente, começou a ferver e nem o frio eu sentia. Só pensei em uma coisa: acordar aqueles dois.
Daud: “Lavit! Lavit, acorda! Acorda seu idiota, droga, ACORDA!!”
Eu já estava gritando, mas abaixei a voz na hora, quando um pensamento passou por minha mente. Este era o de que talvez estivessem por perto, os raptores. Se me ouvissem, seria o fim. Eu não podia gritar, então eu me arrastei feito um verme até Lavit.
Daud: “Ei, cara, acorda. Sério, o bicho vai pegar se tu não acordar agora...!”
E ele realmente acordou! Meu poder de persuasão é incrível, não acha? Funciona em vivos, dorminhocos e até em mortos.
Lavit: “Hãã, ahh, o-o que é-- AH, Daud, onde estamos?!”
Daud: “Shh! Fale baixo!”
Lavit: “C-Certo, desculpe. Mas, Daud, onde estamos?”
Daud: “Não tenho ideia.”
Lavit: “Tampouco acho que ganhamos algo palpitando. Daud, vá acordar a Freya enquanto eu tento desfazer minhas amarras!”
Espera, por que eu? Ele disse isto com um sorriso malicioso, fazendo eu me lembrar de uma certa ocorrência com uma borracha branca.
Lavit: “Espera, eu tenho uma ideia de como fazê-la acordar. Dê um beijo nela.”
Daud: “...”
Isto não foi nem engraçado... mas por algum motivo me deixou sem jeito. Tá, o motivo era bem óbvio até mesmo para mim. De qualquer modo, ele começou a tentar forçar as amarras, ou puxar algum fio do nó, mas estava com dificuldades. Eu, por minha vez, rastejei-me até Freya e, sob olhar atencioso de Lavit, aproximei-me de seu ouvido. Eu estava meio encabulado, mas envergonhado por isto, já que não parecia ser a hora certa para sentir-me assim. Espera, por que eu estava fazendo o que ele mandou?!
Lavit: “Daud, rápido! É sua última chance de provar sua masculinidade!!”
Quê--?! Não é como se eu precisasse provar minha masculinidade para ele!
Daud: “F-F-F-F-F-F-F-Freya, acorde agora senão eu te dou em beijo.”
Lavit teve majestosos acessos de riso, que mal ele conseguiu conter. Ele tremia de tanto rir. Tanto que já não estava mais tentando desfazer-se das amarras. Espera, era tão ridículo ouvir isto de mim?! Se eu conseguisse, teria erguido meu dedo médio para ele. Que má hora para estar com os braços amarrados!
Lavit: “Era para xavecá-la, não ameaçá-la!”
No meio desta confusão fora-de-hora, Freya de repente acordou. Eu e Lavit olhamos para ela, que não fazia nenhum ruído, e só olhou silenciosamente para mim. Então ela corou, e abaixou a cabeça. Espera, parando para pensar, estávamos todos com a cara no chão, então não faria sentido ela ter a abaixado ainda mais. Ainda assim, pela minha perspectiva ela pareceu ter a abaixado. De qualquer maneira, logo depois ela virou-se, ficando de lado, então dobrou as pernas, ficando em “posição” fetal, e então se virou novamente, conseguindo ficar com os joelhos no chão. Ela então ergueu-se, e ficou em pé. Ela ainda corava e desviava seu olhar de mim, enquanto eu e Lavit deixávamos nossos queixos caídos se arrastarem no chão. Como cargas d'água ela fez aquilo?! Ela pesa tanto quanto uma pena ou algo assim, para ter erguido o corpo daquele jeito?! Ah, bem, foi vergonhoso continuar no chão enquanto ela ficava lá em pé, imaginando porque raios não nos levantávamos também. Eu acho.
Lavit: “J-Já descansei o suficiente, sabe! Hora de levantar!”
Daud: “É-É! Boa ideia! Vamos ver quem levanta primeiro?”
Lavit: “Pode crer! O primeiro a levantar vai acompanhar a Freya até a casa dela!”
Freya: “Hã!?”
Ela exclamou corando um pouquinho mais. Ela realmente era delicada e meiga, mas muito tímida. Ela ficou olhando de mim para Lavit, e de volta para mim, assistindo nossa batalha épica pelo primeiro lugar. Naquela hora deixamos de ser humanos e viramos bestas selvagens, que se matariam pelo coração-- digo, pela mão-- digo, por uma chance de acompanhá-la até sua casa. Não que ela tivesse concordado em primeiro lugar, mas só o fato de ter sido misturado na bagunça já havia sido o suficiente para fazer dois amigos vivarem dois arquirrivais. Não que eu entendesse como que eu não estava todo tímido por estar perto dela, mas creio que toda a situação havia me feito esquecer sobre encabulamentos.
Em nossas mentes, sincronizamos a imagem de um juiz bigodudo e baixinho, vestindo uma blusa azul por baixo de suspensórios de cor vermelha. Depois de jogarmos Mario tantas vezes, podíamos até ouvi-lo dizer “Itsa me, Mario!” logo que entrou em cena. Piadas à parte, eu realmente imaginei ele. E quando ele deu um spin-jump, nossa furiosa batalha começou-- espera, pensando bem, cadê a decência nesta estória que põem personagens aleatórios? Eu não faço ideia, mas sei que de repente enterramos nossas fuças no chão, usando nossos pescoços para erguer nossos torsos com toda nossa fúria. No processo, é claro que abrimos uma fenda em nossas testas. Mas tudo valia naquela luta entre a vida e a morte. Quando meu queixo encostou no colo do meu pescoço, eu sabia que era o máximo que eu conseguiria erguer meu torso, então puxei lentamente minhas pernas, dobrando-as e, por fim, ficar de joelhos. Naquela posição, eu parecia estar me prostrando, mas isto não importava. Sem perder tempo, eu ergui minha cabeça, deixando meu torso reto e, olhando para cima, eu vitoriosamente-- observei que Lavit já estava em pé, me olhando com um olhar piedoso. Uma fenda estava aberta em sua testa.
Perante minha derrota, tudo que pude fazer foi cair de joelhos, vencido. Em minha frente, eu só pude engolir minha inveja e ciúmes enquanto via Lavit e Freya com suas costas juntinhas, um tentando desfazer o nó do outro. Bem, é inegável que só dava para fazer isto de costas um para o outro, já que nossas mãos estavam em nossas costas. Mas ainda assim, as mãos dele pareciam perto demais da quadril dela! Maldito, aposto que ele estava usando isto para fazer coisas obscenas e culpar o fato de não ver o que está fazendo! Mas para minha sorte — e ela também -, ela fez outro milagre, conseguindo desfazer os nós que de Lavit num instante. Espera, do que esta garota é feita?! Um corpo que desafia a gravidade e mãos tão habilidosas que podem desatar nós de costas e olhos fechados?! Parece um sonho-- quero dizer, que garota extraordinária! E não, não está saindo sangue de meu nariz! Veja bem, já está (estava) saindo sangue suficiente pela fenda na minha fuça. E não repare que estou misturando o agora com algo que já aconteceu. De qualquer modo, logo depois de Lavit se soltar, o mesmo virou-se e, com uma cara ligeiramente frustrada, passou a desatar os nós de Freya. Incrível como, mesmo olhando a amarra, ele demorou tanto em comparação com ela.
Lavit: “Mas que nó difícil!”
E logo depois ele se abaixou mais para concentrar-se no nó. Eu, já em pé, olhei para Freya, que desviou os olhos e corou. Eu estava encabulado também, mas era minha chance.
Daud: “F-F-Freya, v-v-você não e-está com m-medo?”
Era me olhou um pouco surpresa, mas logo depois desviou seu olhar.
Freya: “Eu... t-tive um sonho m-muito aconchegante, que mesmo depois que acordei, deixou-me tranquila.”
Espera, não me diga que...
Daud: “U-Um sonho? Q-Que l-legal, sobre o quê?”
Freya: “Eu sonhei que... que...”
Este rostinho rubro, esta voz tremida, estes olhos que não paravam quietos e que davam olhadas rápidas em mim... Não podia ser.
Freya: “Você vinha me acordar... com um beijo...”
OH-- MY-- GOD!!-- Quero dizer, AH MEU DEUS, uma confissão?! Era tudo o que eu queria, e meu coração ficou pulando. Acho que àquela hora, meu nariz começou a sangrar. Lavit, que até então estava contendo risos, parara de tentar desatar o nó e fizera cara de pasmo. Acho que nem um cara como ele esperava por uma revelação deste porte, não de alguém como a Freya. Quem sabe na verdade ela seja realmente ativa, mas apenas tímida? Isto sequer faz sentido?
Daud: “F-Fre--”
E então um ranger estridente ecoou na sala. Congelados, nós olhamos para a porta, que se abria vagarosamente, tão lentamente que parecia que era uma cena em "slow motion" de um filme. Mas logo a sensação nostálgica de que tudo não passava de um filme de terror brega passou. A porta escancarou repentinamente, provavelmente quando ele viu que estávamos todos em pé, e revelou um homem carregando um punhal. Ele tinha olhos sádicos, suas mãos eram trêmulas e trajava um sorriso malicioso. Não prestei a atenção a detalhes como forma física ou cor da pele, para ser sincero, porque tudo que eu consegui notar foi aquele punhal. O punhal. Que punhal. Um punhal cheio de ferrugem, manchado de sangue. A mão que segurava o punhal era tão trêmula que me fez pensar que o desgraçado erraria o corte e me faria sangrar como um porco até a morte. Se bem que talvez esta fosse a intenção. Ele sorria, do fundo daquela alma podre que ele tinha.
Assassino: “Meu nome é Tard, vamos nos divertir muito juntos, jovens!”
Daud: “Quê...?”
Lavit: “Espera, ele tem um punhal. Melhor não provocar.”
Tard: “Não se preocupem, eu já cuidei dos meus comparsas! Eu matei todos eles para que nós pudéssemos brincar sem sermos interrompidos!”
Após fazer esta afirmação grosseira, ele se virou e saiu da sala. Nós nos entreolhamos, e provavelmente pensamos a mesma coisa, que aquela não era apenas uma situação perigosa e assustadora, mas também ridícula. Um assassino que falava como uma criança. Se não fosse pelo punhal, nenhum de nós o teria levado a sério. Porém, depois de um minuto atordoados, percebemos nossa situação. E decidimos sumir dali o quão antes fosse. Lavit apressou e se irritou e praguejou como se não houvesse um amanhã, e finalmente conseguiu desamarrar Freya. Enquanto ela massageava os pulsos ela se aproximou de mim e pediu que eu me virasse. Eu o fiz e ela se abaixou para desatar minhas amarras. Enquanto isto, Lavit correu um pouco ao redor daquele depósito. Isto é, se é que aquilo era sequer um depósito.
Lavit: “Droga, não tem nada que possamos usar como arma!”
Daud: “E nossas bolsas também não estão aqui.”
Lavit: “Não é como se tivéssemos armas em nossas bolsas...”
Daud: “Eu tenho. Eu sempre carrego comigo um canivete.”
Atrás de mim, Freya parou de me desamarrar e Lavit ficou me olhando, atordoado. Bom, provavelmente não é muito comum (e nem sequer legal) carregar armas brancas por aí, mas não era como se eu tivesse usado ela. Na realidade, era mais para me sentir psicologicamente seguro do que realmente seguro. Convenhamos, quando a hora chegou, nunca tive a oportunidade de usá-la.
Mas antes que alguém pudesse fazer outro som, a porta rangeu novamente.
Tard: “Voltei, meus amiguinhos!”
O desgraçado havia retornado! Mas espera, ele estava trazendo algo... Argh. Peço que leitores de estômago fraco não leiam esta parte, porque uma poça de sangue se formava aos pés do assassino. Com sua mão esquerda ele carregava não um, mas três cabeças decepadas pelo pescoço. Agarrando-as pelos cabelos, um mar de sangue jorrava para fora das jugulares expostas dos comparsas do homem. Que grande amigo, tratando aqueles que o ajudam assim! O homem sorria. Ele era definitivamente insano. Eu senti meu sangue gelar e minha temperatura cair. Meu corpo estremeceu. Meu rosto-- não, meu corpo suava frio. Tenho certeza que minha cara estava tão pálida quanto uma folha de papel (não aqueles reciclados). Aliás, Lavit, à minha frente, estava tão pálido que eu achei que ele fosse desmaiar. Ele tremia levemente e estava boquiaberto. Eu, por minha vez, estava paralisado. Freya se levantara e agarrara minha blusa.
Nós somos um trio de idiotas. Ficamos perdendo tempo e agora o desgraçado voltara. Tenho que ser sincero, porém, e dizer que, no fundo, eu não tinha levado esse assassino a sério. Eu achei que ele aquele tipo de vilão que tropeça no próprio pé e ainda cai por cima do próprio punhal, morrendo na hora. Mas ele matou, degolou e mutilou seus três comparsas, homens que estavam prontos para matar tanto quanto ele. Eles estavam armados, não estavam amarrados, e não tinham nada a perder. E morreram. Talvez eu não estivesse certo em todas estas considerações, mas levando em consideração o pior cenário, este assassino era brutal, insano, e profissional.
Tard: “Vocês são muito bons, muito bons! Livraram-se das amarras e ficaram me esperando! A maioria foge, mas nunca escapam de mim. Isto é porque estamos em meus terrenos. É um bosque muito denso, molhado e frio! E mesmo que vocês cheguem até os muros, eles são muito altos para serem escalados. Poucos fugiram da minha casa, mas nenhum escapou daqui vivo!”
Há uns minutos atrás, ele realmente soava infantil. Então ele soa tão psicótico e mortal. Por isto odeio pessoas com distúrbios mentais. Nada contra distúrbios mentais, exceto quando eles poem a vida de outros em risco.
O rosto branco de Lavit de repente foi se tornando vermelho. Eu entendia sua fúria. Se ele dizia a verdade, porém, só havia uma forma de sair dali vivo.
Tard: “Primeiro vou matar os meninos, porque brincar com as meninas no final é mais excitante!”
E esta foi a gota d’água. Meu sangue também estava fervendo. Ele achava que botaria aquelas mãos nojentas na Freya? Repugnante! Ele achava que nos mataria facilmente e depois estupraria a garota que eu amava? Só sobre meu cadáver-- não. Nem depois morto permitirei algo assim! Eu estava pronto para avançar, quando Lavit ergueu a mão para mim.
Lavit: “Eu vou. Daud, você tem que cuidar da Freya! Esqueça de mim e fuja com ela, eu vou acabar com este miserável!”
O assassino deitou levemente a cabeça. Eu já havia ouvido esta história umas mil vezes em filmes. Quem diz sempre morre. E quando eu imaginei Lavit morrendo, mais ódio borbulhou em minhas veias. Ninguém tocaria na minha amada. Ninguém mataria meu melhor amigo.
Tard: “Oba, vamos nos divertir!!”
Jogando para um canto da sala as cabeças, o homem ergueu o punhal e avançou para cima de nós. Lavit, por sua vez, ficou à frente e, gritando, partiu para a briga.
O assassino voltou o punhal para si mesmo e, com a ponta da empunhadura, bateu na boca do estômago do Lavit, que, tossindo, tentava recuperar ar. O assassino o segurou e o empurrou para cima das cabeças degoladas. Lavit, derrotado, caiu sem resistência, contorcendo-se devido à dor.
Então o assassino voltou-se para mim o Freya. E foi nesta hora que eu lembrei que ainda estava amarrado. Aparentemente, Freya entrara em estado de choque e não pôde fazer mais nada. Não queria culpá-la, mas se lutar com ele com dois braços era difícil, sem eles seria pior. Foi esta hora que Freya se afastou de mim e se encostou na parede atrás de nós.
Tard: “Não vai gritar? Não tem graça assim. Eu gosto de mulheres barulhentas!”
Meu sangue ferveu. E o pior é que ele não estava a fim de nos matar. Não ainda, pelo menos. Ele sorria psicoticamente, esticando suas mãos para mim. Mãos imundas, banhadas com sangue, e em breve estariam banhadas do nosso sangue. Aquele sorriso jamais deixaria meus pesadelos, aquela sensação de perigo, sua vida passando perante seus olhos num tom sépia.
E em pânico, Freya saiu correndo. Bem, ela ao menos tentou fazer isto. O único caminho estava atrás do assassino, e ela realmente tentou fugir por ali, andando ao redor dele colada à parede. Infelizmente para ela, ela não tinha habilidades ninjas. Claramente, o assassino a pegou antes que ela fugisse, pelos cabelos. Com sua força absurda, ele agarrou e a puxou para si, enquanto ela gemia e gritava de dor. No canto da sala, Lavit se levantava.
Daud: “Seu desgraçado! Solte ela!”
Claro que ele não a soltou. Ele se aproximou e me deu um chute, que doeu infernalmente. Do que ele é feito?! A dor era tão intensa que me fez cair de joelhos. Com o canto dos olhos, porém, eu vi Lavit investir nele novamente. Mas ele falhou. O assassino jogou Freya na direção de Lavit, que, num salto, a segurou, mas perdeu totalmente a postura para atacar o cara. E depois ele ainda me olhou como se dissesse, “agora é contigo”. Canalha, eu ainda estava amarrado. E nesta hora o assassino segurou o punhal para matar. Eu senti o intuito de matar no ar. Ele começara a respirar com força, parecia excitado. Ou melhor, provavelmente estava. Seus olhos estavam fixos em mim, pronto para atacar sua presa, e devorá-la. Aposto que à esta altura ele já percebera que Lavit e Freya não eram páreos para com ele, e por isto nem se dera ao trabalho de checar se eles estavam se comportando. Em retrospecto, eu teria sido muito grato se alguém tivesse tido a coragem de fazer algo, nem que fosse arremessar cabeças decepadas nele. Qualquer coisa ajudaria um cara com as mãos amarradas às costas. Mas infelizmente isto nunca aconteceu, e, muito pior, aquele assassino estava sério sobre o serviço. Então ele fez menção de que ia investir, e parou. Eu pulei para trás, assustado, e ele riu maquiavelicamente. O maldito estava se divertindo, mas eu não, e não permitiria que aquilo continuasse. E com isto eu corri e me joguei para cima dele, usando a única força que meu corpo me permitiria: meu peso. Não que eu fosse gordão, mas foi incrivelmente efetivo, tanto que eu conseguira fazê-lo bater a nuca na maçaneta da porta. Foi um baque surdo mas alto, e então nós dois caímos no chão, eu encima dele.
Lavit: “Uau! Daud, conseguimos! Dominamos ele!”
Daud: “Não fale como se você tivesse ajudado em algo...”
Lavit se levantou e ajudou Freya a levantar-se, então, fazendo “positivo” com seu polegar, veio em minha direção, sorrindo e falando. Freya ainda estava em estado de choque, e olhava para mim, atordoada.
Mas algo estava errado. Havia um sentimento estranho, similar àquele que se tem quando se está passando mal, mas ainda não se tocara disto. O misterioso sentimento dominou meu corpo, embaçou minha visão, desequilibrou meu raciocínio. Mesmo assim Lavit estava tagarelando enquanto desfazia minhas amarras. Acho que ele fala demais depois que toma um susto deste nível, exceto que eu já não conseguia discernir bem o que ele dizia. E quando as amarras foram desfeitas, eu tentei me levantar. “Veja bem”, “não deixei Freya cair”, eram poucos trechos que eu compreendia do que ele dizia. Mas ignorei tudo isto, e tentei me levantar, usando meus (agora) livres braços para me impulsionar para cima quando uma dor insana gerou no meu peito e atravessou meu corpo todo.
Daud: “Argh--!”
Freya: “Ahh! D-Daud, s-sangue...”
Lavit arregalou os olhos. Freya estava em choque completo, não conseguira completar a frase. E eu? Eu olhei para meu peito e tudo fez sentido.
Eu havia caído sobre o punhal, e na hora do pânico e adrenalina, eu mal senti o punhal penetrar em meu peito. Por outro lado, tirá-lo era infernalmente doloroso. Não vou nem comparar com aquele chute. Mas os problemas só pioraram, já que, para meu infortúnio, Lavit entrou em desespero.
Lavit: “D-Daud!! V-Você tá bem!? Cara você não pode morrer! C-Cara deixa comigo eu vou te tirar desta!”
E então ele me puxou para trás, tentando me erguer. Eu tentei gritar para ele não fazer isto, mas meu corpo não tinha forças para resistir, para falar ou para me manifestar. E com isto ele passou os braços por baixo dos meus, e, fazendo algum tipo estranho de alavanca, ele puxou meu corpo para cima e trás. Mas o punhal ficou na mão do assassino. Para ser sincero eu não consigo entender a força que esse cara tinha. Mesmo desacordado ele conseguia segurar aquilo com tanta força.
E o pior aconteceu, minha cabeça estava pesada e pendeu imediatamente para baixo, e foi quando eu vi com clareza. O punhal havia penetrado meu coração. Sangue começou a fluir para fora do meu corpo, encharcando minha roupa (o que já não estava encharcado, quero dizer) com meu sangue. Gotejando grosseiramente no chão. Turvando minha visão. Meu perfurado coração, esvaziando a vida de meu corpo. Tudo estava bagunçado, difuso. Minha audição estava estranha, os sons se misturavam, eu não sentia as extremidades do meu corpo, não conseguia levantar as braços. Estava tudo muito pesado, principalmente minha cabeça.
Lavit: “Daud... or favo... ão... mor... ! Daud!”
Mas eu já não o ouvia mais. Suas últimas para mim, contudo, foram bem óbvias. “Por favor não morra”. E quanto a Freya, ela começou a gritar. Na verdade a se espernear. Mesmo minha audição podre ouviu muito bem os berros dela, enquanto ela correu até mim (depois do longo tempo em completo choque), e tentou segurar minha mão. Mas era tarde, minhas mãos estavam frias e eu nem as sentia mais. Depois ela mandou Lavit me deitar e tentou parar a hemorragia com as mãos, apertando a ferida. Ela chorava. Mas era tudo em vão. Meu coração estava furado, se eu não sangrasse para fora sangraria para dentro.
É claro que eu não exigiria que eles me salvassem naquele momento. Éramos todos crianças, e como tal, era de se esperar que reagíssemos de forma descontrolada.
Minha última visão foi dos dois chorando sobre meu corpo.
...Então eu despertei. Eu ainda estava deitado sobre aquele chão, e perante meus olhos havia aquele mesmo teto. De repente eu senti que não havia morrido, e, sentindo-me leve como uma pluma, eu me levantei num salto. Num canto, Freya derramava lágrimas incessantemente. Próximo dela, Lavit tremia, mas seu resto estava escondido por seus braços. Ambos estavam sujos de sangue, mas Lavit estava muito mais sujo. E isto me deu um mau pressentimento, um tão grande que me fez ignorar o fato óbvio de que, se eles não haviam notado que eu estava em pé ao lado deles, então havia algo errado comigo. Mas logo eu notaria isto, sendo que antes olhei para o outro lado daquele galpão. E congelei. Perante meus olhos, o assassino estava mutilado. Seu corpo estava todo esquartejado e, especialmente a cabeça, estava desfigurado. Se eu não soubesse que era o assassino, jamais conseguiria dizer. Agora, isto foi violência de verdade. Do tipo que eu não achei que eu um dia veria, ou que Lavit poderia executar. O punhal do assassino jazia ao lado de Lavit, e eu não sabia dizer se o sangue que encharcava o chão e o próprio Lavit era meu ou do assassino. Mas provavelmente de ambos.
Daud: “Lav--”
Foi nesta hora que a ficha caiu, e eu percebi que ninguém havia reparado em mim. Rapidamente olhei para baixo, e confirmei meus temores. Meu cadáver estava lá, jazendo. Foi uma visão nojenta. Talvez até mais do que ver o corpo mutilado ao lado, já que se tratava do meu corpo. Tudo havia acabado, tudo estava perdido. E para lucrar ainda mais eu agora seria uma alma penada? Poupe-me. Contudo, isto me perturbava, já que eu, como alma, não via a alma do assassino. Significaria isto que eu realmente me tornara uma alma penada? Eu me sentei e ponderei ― cá entre nós não havia nada melhor a fazer.
E foi nesta hora que algo completamente impensável aconteceu. O espaço do galpão se contorceu e se dobrou, gerando uma rachadura vertical no ar. A rachadura abriu horizontalmente, revelando um eterno negro que me lembrou imediatamente de um buraco negro. Olhando rapidamente para trás, notei a falta de reação dos meus amigos vivos, e portanto conclui que era um acontecimento, digamos assim, espiritual. Da perfeita escuridão do buraco, uma mão surgiu e agarrou a borda esquerda. Depois uma perna surgiu, pisando normalmente no chão do galpão, até que o corpo todo surgisse. Eu fiquei, é claro, boquiaberto.
O ser que surgira da escuridão aparentava ser um homem, e trajava uma longa capa negra que cobria seu corpo completamente. Um capuz cobria e ocultava seu rosto. O traço que mais me chamara a atenção era uma longa, comprida, e de fato enorme foice que ele carregava. A foice era relativamente simples; um cabo e uma lâmina, mas de alguma forma pareciam surreais, pois a foice era feita de uma massa negra um tanto quanto irregular e inconsistente, às vezes algumas partes encolhiam, outras aumentavam. Prestando a atenção, a capa dele reagia igualmente. O homem parou perante mim, e um silêncio mortal tomou o ambiente, silenciando até mesmo os soluços do chorar de Freya.
Naquele silêncio absoluto, uma voz sombria como a noite sussurrou no meu ouvido algo como uma oração. Num déjà vu, meu corpo estremeceu.
“Meu coração é agora um túmulo.
Meu coração é vazio e frio.
Na escuridão, eu não tenho forma.
Nas trevas, meu coração se apaga.
Meu caminho é regido pela noite.
E os portões da morte abrem-se.
Não há mais luz neste mundo.
Meu mundo agora é a escuridão.
Evilgate, abri e mostrai aonde levais.”
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