Deathspell
2 Capítulo I: Holyball.
Tudo começou no meu último ano do ensino médio. Mais especificamente, era o fim do último dia das férias de verão, 31 de Janeiro. No dia seguinte seria o primeiro dia de aula. Já eram 23:27, mas eu não estava com sono. Durante as férias inteiras eu não fizera nada senão dormir, jogar videogame, dormir e dormir. Dormi tanto que eu sentia que poderia madrugar e não sentir sono na sala de aula. Não que eu pudesse fazê-lo, já que minha mãe não me permitiria fazê-lo. Ela viria à meia noite verificar se eu já teria ido dormir, e, caso não, ela me daria uma bronca. Se ainda assim eu não fosse dormir, ela voltaria e me daria um sermão. Era um saco. Mas tudo para mim era um saco nesta época. Estudar era um saco, ir à aula era um saco, ouvir as pessoas era um saco, ter amigos era um saco; resumindo eu achava minha vida um saco. E eu sempre fui assim desde que me lembro. Afinal de contas, eu sou um preguiçoso, e antissocial. Para quê ter amigos quando em jogos você já tem centenas? Relações humanas são um saco, nunca me dei bem com isto. Considere-me um caso perdido, pois era o que todos achavam de mim.
Aliás, eu estava jogando tetris, que por sinal é um jogo que me tocava profundamente (no sentido figurado). O jogo era cheio de emoção, e eu já estava com placar de 40 mil pontos. As peças caíam na velocidade da luz e, se não fosse um jogo, tenho certeza que o fundo da tela seria perfurada pelos projéteis e suas diversas formas. Aliás, minha peça preferida era, definitivamente, aquela coluna. Digo, a peça em forma de coluna, ou de linha se você a girasse. Pois bem, era uma peça que encaixava em qualquer lugar e te salvava de qualquer encrenca, diferente daquela peça em forma de “S”, que sempre aparece quando você não tem onde encaixá-la. Daí sempre sobra aquele vácuo entre as peças, aquele maldito vácuo que acaba com os combos e geralmente te obrigam a fazer enormes construções para se conseguir preenchê-la. Isto quando não eram dois ou mais vácuos na mesma linha.
Pois bem, o jogo estava emocionante e eu meu placar era de 80 mil pontos (bom, eu ainda estava jogando), quando a luz caiu e meu jogo foi pro saco. “Maldita energia”, pensei, mas algo não estava normal. Um pressentimento corria com meu sangue em minhas veias. Impulsivamente eu corri para a janela do meu quarto, que dava para a rua de casa. Estava tudo escuro, não haviam estrelas no céu, nem uma lua. Na escuridão da noite, somente um poste estava iluminado, no final da rua. Esticando-me, eu pude ver, à distância, um homem. Mas ele não estava no chão. Os cabos de força dos postes o mantinham acima do chão, amarrados ao redor de seu pescoço. O homem estava enforcado, definitivamente morto, cri, devido à falta de movimento de seu corpo.
Daud: “Mas que... merda...”
Foi a única coisa que me passou pela cabeça, e que pude dizer. Como era possível alguém se enforcar nos cabos de energia? Como diabos ele fora parar lá? E por que tinha que ser na minha rua, justo quando eu estava prestes a quebrar meu recorde no tetris, que era de 100 mil e uns quebrados? Espera, esqueça esta última parte. Sinceramente, eu senti medo. Imagino que ele não tenha feito isto sozinho (se ele o fez, palmas!), mas é ainda mais assustador assim. Mas cogitar não mudaria nada. E, é claro, eu saí correndo avisar minha mãe que havia alguém morto na rua. Ou melhor, nos cabos de luz.
O que aconteceu depois disto eu resumirei. Minha mãe ficou cética no começo, mas depois de ver o cara lá, pendendo de um lado para o outro com a ventania, ela empalideceu, e chamou a polícia. Os caras vieram e abaixaram o cadáver de lá, e então veio um veículo velho do IML levá-lo embora. Nós fomos para casa e fomos dormir. Pois é, nada especial realmente. Exceto que eu realmente fui dormir, já que toda a situação me tirou qualquer vontade de jogar. Mas também porque eu perdi meu jogo e estava emocionalmente ferido por isto.
No outro dia, o primeiro dia de aula. O sol escaldante queimava meu corpo, que, molenga, rastejava-se em direção ao colégio. Eram 13:00, e eu ainda teria que escalar uma montanha ― quero dizer, uma ladeira, para chegar ao meu destino. Mas quando cheguei aos pés daquele morro ― quero dizer, ladeira, meu corpo parou de se mexer. Quer saber? Eu odiava o sol. Ele bem que poderia se explodir. Eu estava de boa com uma noite eterna ou coisa assim. Se bem que se assim fosse, o calendário teria que mudar também, e isto só seria mais um incômodo.
De repente, algo tocou, aliás, bateu em minhas costas, fazendo meu corpo molenga cair no chão como uma fruta podre. Com o som do baque, algumas pessoas sem mais o que fazer ficaram me observando. Qual será o problema delas? Nunca viram um cara cair de bunda para cima na rua ― droga, agora que penso melhor, foi uma posição muito embaraçosa. Ainda mais porque aquele que estava logo atrás de mim, e que também me empurrou, era meu melhor ― aliás, meu único amigo. Ele era um, de acordo com as garotas, cara bonitão, louro, inteligente e descolado. Não que eu tenha amigas para ouvir isto delas, mas rumores são rumores, e até seres sombrios, isolados, mudos, e nerds como eu sabiam deles. De qualquer modo, o nome deste “herói grego” era Lavit, e eu até hoje não tenho ideia de qual era o sobrenome dele, mas era alguma mistura de Djalma com Jobban, ou algo assim. De qualquer maneira, ele era gentil o suficiente para ― espera, esta linha soou homossexual. Não é que eu seja homofóbico, mas todo cuidado é pouco quando queremos que nossas sexualidades sejam claras. Principalmente para um cara como eu, que nunca falou com ninguém exceto Lavit, e isto pode parecer gay para alguns. Ah, de qualquer modo, ele era gente boa o bastante para de dar uma mão para me levantar, e não dizer nada sobre minha queda embaraçosa.
Lavit: “Queda embaraçosa, não? Daud, você precisa rever suas maneiras.”
Por favor, esqueçam aquela história sobre ele ser gente boa. Na verdade ele era só um cara metido a sabe tudo. Espera, ele era um idiota metido a sabe tudo.
Daud: “Calado! É você quem tem que rever suas maneiras! Quem é que chega empurrando pessoas desconhecidas na rua?”
Lavit: “Mm? Desconhecidas? Mas oras, nós somos amigos!”
Daud: “Somos nada.”
Lavit: “A-ah! Mas você disse--”
Daud: “Que te ensinaria matemática, não que seríamos amigos. Aliás, só o faria porque você concordou em me deixar em paz depois disto.”
Lavit: “Isto não faz de nós amigos? E que história é esta de te deixar em paz? Nunca concordei com nada!”
Realmente, acho que não houve este acordo. Para ser sincero, ficar sozinho estava tão difundido em minha alma que eu não conseguia me imaginar tendo amigos. Tampouco mantendo-os. Mas este era um assunto que não era para ser discutido com Lavit. Isto porque ele era apenas um rapaz saudável e... famoso entre as garotas. Não sei o que diabos ele tinha na cabeça para andar com alguém totalmente introvertido e sombrio como eu, mas ele de alguma forma parecia não se importar de falarem mal dele por causa disto. Não que eu me importasse. Nós podíamos ser amigos, mas nunca decidimos isto. Não acho que eu tinha responsabilidade sobre a imagem dele. Parando para pensar, talvez eu seja um tolo por me importar com isto.
Só sei que seria um tédio explicar isto para ele, e por isto, àquela hora, decidi dar as costas a ele e subir a estrada montanhosa, com seus 115° de inclinação. E por falar nisto, àquela época a rua estava em obras para ser aterrada, ou algo assim. Sei que várias máquinas de construção civil estavam espalhadas pelos lados, e várias obras menores já estavam em andamento para remover o pavimento. Deveras, a circulação de veículos já havia sido restringida, e eu só podia caminhar por ali porque ainda não haviam removido as calçadas. Sinto pelas famílias cujas casas ali se localizam, já que elas tiveram que se mudar para que as obras ocorressem. Haja saco.
Lavit: “Eeei, Daaauud! Não vá sem mim!”
Lá vinha ele novamente. Incessante como sempre, parecia que eu era algum magneto que fazia ele sempre andar comigo. Mas não fora sempre assim. Ainda mais no passado, ter uma pessoa andando ao meu lado não era possível nem em sonhos. Porém, eles apareciam um monte em pesadelos. Enfim, eu não percebia, e nem perceberia, mas no fundo eu era feliz por ter alguém para me fazer companhia. Alguém que dizia ser meu amigo. Mas eu jamais entendi o significado desta amizade, até o dia em que eu a perdi. Bem, o lado positivo foi que eu não me enchi de pensamentos negativos enquanto ia ao colégio. Seria frustrante.
Lavit: “Acho que é melhor você não andar mais sozinho por aí.”
E ele disse isto num tom sério. Quando eu me virei, ele estava lá, parado, olhando diretamente para mim. Eu quase avisei a ele que eu não pendia para “aquele” lado, quando a cena do homem enforcado de ontem me veio à cabeça. Ele provavelmente estava falando disto.
Lavit: “Muitas pessoas têm morrido ultimamente por aqui. Dizem que tem um assassino em série por trás disto.”
Daud: “Nunca ouvi falar de assassinos em série que enforcavam pessoas nos cabos de energia, e além disto este não fora o primeiro incidente?”
Lavit: “Você não lê jornal não? Nem vê TV? Já faz algumas semanas que as pessoas estão morrendo assim, brutal e silenciosamente. Como num filme de terror.”
Filme de terror era falar disto no meio da rua. Todos que passaram davam olhares curiosos que me queimavam meu pavio. Mas de volta ao assunto, eu não gostava de jornal e odiava TV, que para mim só servia para ligar em videogames, portanto não, não sabia que este caso tinha precendentes.
Lavit: “Mas é a primeira vez que alguém acaba assim, de fato. Não precisa ser necessariamente a mesma pessoa.”
Daud: “Falar disto no começo do dia não é depressivo?”
Meu dia, é claro, começava de tarde, porque eu dormia a manhã inteira.
Lavit: “Começo do dia? Já é de tarde! Espera, não me diga que você―”
Voz feminina: “Bom dia Freya!”
Meu coração parou por unidades de segundos àquele momento, e é claro eu não ouvia a mais nada que Lavit dizia, quando eu ouvi uma voz oriunda do outro lado da rua chamar este nome. É embaraçoso simplesmente dizer isto, mas Freya era a garota que eu gostava. Na época eu diria “amava”, mas hoje não sei dizer se eu tinha a capacidade de amar alguém de verdade. Ainda assim, meu coração acelerava ao ouvir seu nome, meu cérebro paralisava ao ouvir sua voz, meus olhos pregavam em sua silhueta, e eu tinha tonturas ao sentir o doce aroma que ela emanava. Eu já sabia que isto era obra dos feromônios (malditos pestinhas), mas, como um humano, eu não podia simplesmente fingir que não sentia o que eu sentia. Mesmo sendo uma subida infernal, escalar aquilo ouvindo levemente a voz de Freya era um céu. Ao meu lado, Lavit observava minhas atitudes friamente. Ele certamente já estava ciente da minha paixonite e, como todo garoto “de atitude”, ele achava que eu tinha que mexer meus músculos para chegar nela. Mas algo deste porte era impossível para meu “eu” daquela época.
Lavit: “Daud, por quanto tempo vai ficar parado no meio do caminho olhando a Freya passar?”
Pode soar ridículo, mas eu, como se num transe, fiquei observando ela. Mas logo que Lavit me despertou de meu transe, eu tentei disfarçar. Ele estava com uma cara que sinceramente me dava vibrações negativas. Considerando que ele já sabia dos meus sentimentos, ele provavelmente estava de saco cheio da minha falta ― ou melhor, inexistência ― de atitude.
Daud: “La-Lavit, não a-acha que v-vão ter q-que derrubar t-todas estas casas p-para fazer e-esta obra?
Mas eu gaguejei, e Lavit não caiu. Pensando bem, que mudança de assunto absurda foi esta? Ele, por sua vez, suspirou e deu as costas para mim, seguindo em frente. Imagino o que ele pensou na época. Algo como “o que esse idiota tá fazendo” ou “ele realmente achou que eu cairia nesse truque”. Truque ou disfarce, de algum modo eu acertei em cheio quando disse que as casas seriam derrubadas. Uma semana depois, a quadra inteira estaria interditada. Mas quando esta semana chegasse, eu não estaria mais ligando para montanhas, morros, ladeiras ou obras. No final deste mesmo dia, meu mundo não apenas viraria de cabeça para baixo, como também seria totalmente desmontado.
Quando finalmente chegamos aos portões do colégio, eu me dirigi diretamente à sala, sentei no canto mais afastado que, no fundo da sala, tinha e lá fiquei. Era meu lugar especial, que ninguém pegaria. Eu era mais ou menos um fantasma ou uma sombra, existindo ali apenas por existir, sem nenhum sonho, sem nenhum propósito, sem objetivo. Pensando bem, eu esqueci de dizer minha aparência. Eu era magro, tinha cabelos negros e ligeiramente ondulados, e branquelo. Sim, pálido como a lua, frio como a noite. Creio já ter dito que eu odiava o sol, e ainda o odeio, mas nem por isto eu saía à noite. Na verdade eu também odiava o mundo. Odiava o fato de que as pessoas usavam a noite para se esconderem, usarem drogas, cometerem crimes, e fazer festas idiotas e sem sentido. Para mim a noite era o momento da tranquilidade, mas por causa destas pessoas, eu nunca pude caminhar sob a lua, o que seria mil vezes melhor do que caminhar sob o sol.
E eu lá jazia, naquele canto humilde e ignorado. Ninguém gostava de conversar comigo, nem sequer olhar para mim. Eu estava contente com isto, porque eu tampouco gostava de falar. A única exceção era Lavit, que vinha todo sorridente, rodeado de amigos e amigas, se bem que dizem que homens não têm amigas, têm parceiras em potencial. Err, bem, eu não sei o que ele pensava delas, mas de qualquer modo, ele atravessava a sala toda, puxava uma carteira para meu lado, e sentava-se, sorrindo para mim como se tivesse sido a primeira vez que nos víamos àquele dia. Enquanto isto ocorria, todos os seus “seguidores” se dispersavam, me dando olhares de ódio, como se eu estivesse roubando-o deles.
Lavit: “Boa tarde Daud!”
Era estranho ser cumprimentado quando já tínhamos nos visto.
Daud: “Ah, bom di-- Espera, por que estamos nos cumprimentando de novo?”
Lavit me olhou com perplexidade.
Lavit: “Você não está considerando aquele empurrão como um cumprimento, está? Haha!”
A risada alta dele me fez lembrar que eu estava muito irritado àquela hora para cumprimentos. E também que ele me fez cair numa posição escrota na frente de todos. Infelizmente, eu não fui o único a lembrar disto, e eu pude ouvir risadas brotarem na sala. Mas não era como se eu fosse gente para eles ainda, então em poucos segundos toda a sala já estaria concentrada na aula. Lavit, por outro lado, não parecia estar dando a mínima para a aula. De fato, ele carregava em seu rosto um sorriso bobo. Era assustador.
Do outro lado da sala, diagonalmente em relação à minha posição, estava Freya. Ela era tão bela, tão bela. Ela tinha cabelos claros e delicadamente cacheados, olhos claros, pele clara e delicada e cheirosa, e cabelos cheirosos, e olhos lindos e brilhantes, e uma voz gentil e meiga e doce. Ela era minha deusa. O impacto que ela causou em minha vida foi tanto, que eu ainda lembro destes detalhes, e, em especial, de meus sentimentos. E seriam estes os sentimentos que me trariam desespero mesmo depois de perder tudo.
Eu tentei meu máximo, mas não conseguia desviar meus olhos da minha paixão. A matéria no quadro estava escrita em idiomas desconhecidos, a voz do professor ecoava silenciosamente num tom monótono, ininteligível. Não que eu estivesse prestando a atenção à aula, e muito menos que eu sequer precisasse, pois eu realmente aprendia tudo sozinho, mas eu sabia que o professor era de matemática. Acho que ele estava tentando ensinar limites, ou eram derivadas? Bem, só sei que não era exatamente o tipo de conteúdo que alguém veria antes da faculdade, e eu não fazia ideia do que aquele professor queria. Bem, na verdade eu não estava prestando a atenção de qualquer modo, então acho que não tenho o comentar nada. De repente, o sinal tocou. Ainda teria duas aulas de matemática. Que tédio.
Quando me dei conta, eram 17:30. Horário de saída. É verdade que estou ignorando o intervalo, mas não é como se tivesse acontecido algo interessante. Toda a sala se retirou, inclusive Lavit com sua turminha, e também Freya com suas amigas, e eu fiquei sozinho. Eu, é claro, estava feliz por isto. Na saída, devido ao meu isolamento consciente, eu esperava todos deixarem a sala antes de deixá-la eu mesmo. Caminhando sozinho pelos corredores, o soberbo silêncio do anoitecer sobrepondo-se a bagunça da saída dos alunos. Não havia ninguém que andasse comigo àquelas horas. Apenas às vezes, Lavit me aguardava aos portões, fingindo que estava esperando alguém. Eu sempre o ignorava e seguia em frente, e ele sempre me seguia. Acho que era nossa forma de amizade. Até porque, não é como se amizade fosse algo definido. Creio que amizade tenha mil e uma formas, e, bem, esta era a nossa. Eu só sei que quando me aproximei do portão, vi uma silhueta, encostada na parede. Logo de cara pensei que lá vinha ele com perguntas sobre a matéria de hoje, ou talvez contando alguma história aleatória cuja eu não dê a mínima para. Mas quando cheguei mais perto, a silhueta era diferente. Menor, mais delicada. Um longo cabelo que descia até a cintura. Mesmo que eu estivesse a alguns metros, eu já podia sentir um cheiro suave e doce. O cheiro da Freya. E lá estava ela, encostada naquela parede, que parecia tão suja e feia perto da beleza dela. Mas oras, o que ela estaria fazendo ali? Com certeza esperando alguém, e com certeza não era eu. Por isto, eu fingi que não a vi, e passei por ela sem olhar para trás.
Freya: “Daud!”
Mas ela me chamou, e não era impressão, ou um espirro, ou mesmo um bocejo, pois, quando eu me virei, ela estava olhando para mim. Os belos olhos dela desviavam-se dos meus, olhando ora para baixo, ora para os lados. Ela segurava suas duas mãos unidas, sem jeito. Parecia estar segurando algo, na verdade. Seu rosto estava rubro, mas mesmo assim belo. Era uma visão linda. Uma linda garota, doces reações. Obviamente eu fiquei mudo perante ela, sem nem lembrar meu nome. Eu até tentei formular frases, mas nada inteligível saía. Afinal de contas, eu nunca imaginei que um desenvolvimento digno de um anime ou mangá fosse acontecer comigo. Por um momento, eu até senti que era mero personagem fictício de uma estória fictícia. Mas isto logo passou, porque eu estava vivo, e parado perante a pessoa que eu gostava.
Daud: “O-o-o-o-o-o-o-oi.”
Não digo que foi pateticamente gaguejante porque já foi milagre o suficiente eu ter conseguido gerar sons com minhas cordas vocais. E ainda expeli-los com meus pulmões! Eu não podia pedir por outro milagre que me fizesse falar direito. Falar já era difícil. Não, pensar já era difícil. Ficar em pé era difícil. Mas de algum modo eu consegui fazê-los. A pergunta agora era, o que está acontecendo? Por que ela está aqui, e por que logo ela? Ela vai se declarar? Ela vai me dizer algo? Com as mãos delicadas dela, ela realmente parecia segurar algo. Ela vai me dar alguma coisa? Ó, céus, ela se aproximava. A passos curtos, ela vinha até mim.
Freya: “Daud, Lavit me pediu para te entregar isto...”
E com isto, todas as minhas esperanças se foram. Bem, é sempre assim, mas, bem, que seja. Na verdade eu fiquei brabo.
Daud: “Laaaaviiiiiit!! Eu sei que está escondido por aqui, estão apareça!!”
Na mosca! Na mesma hora, ele saiu detrás de um muro, com uma das palmas em sua testa.
Lavit: “Ahh! Você me pegou desta vez.”
Daud: “É sua culpa por fazer uma coisa tão óbvia assim. E por que diabos você estava nos observando escondido?!”
Lavit apenas riu, provavelmente não querendo mostrar as cartas de seu jogo.
Freya: “D-Daud, sua borracha...”
Ela estendeu sua mão para mim e a abriu, revelando uma borracha branca usada. Era a minha. Como aquilo foi parar lá-- já sei. Provavelmente fora o Lavit. Ele deve tê-la pego enquanto eu estava distraído olhando para “alguém” em especial. Quando olhei para ele, com cara braba, ele só sorriu. Ainda não sei se ele era um gênio ou um idiota, mas ele era tranquilo e calmo. Bem, até então ele nunca mostrara violência ou raiva. Mas eu ainda teria a chance de ver, mas não iria gostar nadinha disto. Pegando a borracha e a pondo em meu bolso, eu agradeci ela. Estranho, depois que o Lavit apareceu e eu fiquei brabo, eu relaxei. Consegui dizer sem gaguejar.
Daud: “Obrigado...”
Deve ter sido porque qualquer clima romântico havia sido destruído. Mas ainda assim, eu não me importo muito, porque nunca achei que eu teria alguma chance com a Freya. Bem, se viesse a existir uma oportunidade, eu não negaria, é claro.
Daud: “Lavit, explique o significado disto.”
Foi uma ordem e ele sabia disto. Meu orgulho besta de homem isolado estava em jogo.
Lavit: “Pois veja bem... você derrubou sua borracha e eu não podia te entregar, então tive que pedir para nossa querida Freya aqui te entregar em meu lugar! Sim, sim! Eu sou inocente, vê?”
Mentiroso. Segundas intenções estavam escritas por todo seu rosto.
Daud: “Não podia me entregar você mesmo mas podia ficar escondido nos observando? E que história é esta de eu derrubar a borracha se eu nem tirei ela da mala hoje?”
Xeque mate! Ou assim esperei.
Lavit: “Ah, err-- Nem tirou da mala? Que feio, Daud! Você precisa levar os estudos mais a sério!”
Argh, ele mudou de assunto! Que sujo! Bem, não posso negar que não levei a sério as aulas daquele dia. E nem do dia anterior. Mas, isto não estava no escopo! Não tem nada a ver com os planos sombrios que ele estava tramando. Ainda assim, eu sabia que não poderia ganhar dele, e por isto não persisti nisto. Ao invés disto, fiquei imaginando o que dizer para Freya, que passara o tempo todo olhando para nós, enquanto discutíamos. Infelizmente, no momento em que eu voltei a pensar nela, eu fiquei todo embaraçado, todo envergonhado. Droga, não conseguia dizer nada!
E foi naquele momento que algo estranho aconteceu. Algo felpudo e gelado foi pressionado contra meu rosto, e um odor ardente entrou em minhas narinas. Uma mão forte pressionava um pano com álcool contra meu rosto, e o cheiro insuportável do líquido volátil rapidamente entrou em meus pulmões, e foi absorvido para a corrente sanguínea. Em segundos, meu cérebro já estaria inconsciente. Na minha frente, Lavit investiu contra outro homem que tentava pegar Freya, que se encolhia no muro. Um terceiro homem o pegou, e pôs um pano, certamente com álcool também, um seu rosto. Eu mesmo tentei me livrar do capanga, mas ele era muito forte para meus bracinhos finos o derrotarem, ou sequer afastar o álcool do meu rosto. Não dava para gritar, não dava para fazer nada. E então, Lavit e Freya foram puxados para fora do meu campo de visão. Lavit urrava e xingava. Freya gritava e se esperneava. Minha visão, por sua vez, borrou e escureceu. Eu perdera a consciência.
Na clareza de minha inconsciência, eu pude ouvir uma voz sussurrar o que eu achei que fosse uma oração, ou uma reza. Uma que eu jamais esqueceria.
“Sob meus pés o mundo se trinca.
Sob mim, o mundo se desfaz.
Sobre minha cabeça o céu cai.
Sobre mim, o cosmos se desata.
Minha consciência se perde.
Perante meus olhos, a luz.
Não esperança, mas sim morte.
Acorrentado, este é meu caminho.
Holyball, guiai-me com vossa luz.”
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