Deathlines
4 Capítulo 03: National Anthem
Notas iniciais
Sentado na calçada, Trent encarava extasiado uma pesada coluna de fumaça enegrecida subir em câmera lenta, manchando o céu da noite sufocante que o envolvia. Podia sentir seu sangue correndo embaixo da pele, o couro cabeludo arrepiar, os membros estremecerem e os músculos do seu rosto enrijecerem à medida que a brisa fria passava por ele feito flecha. À sua frente, a costa estava um verdadeiro caos.
Ele não conseguia contar quantas pessoas tentavam alcançar visão do resultado do desastre causado pelo colosso marítimo, impedidas pela faixa de contenção improvisada. O navio havia engolido o Big Natchez quase que completamente, deixando restos de sua estrutura destruída como uma amostra do quão brutal fora. Guindastes já começavam a ser posicionados para erguer os destroços, cercados por dúzias de veículos policiais, ambulâncias, caminhões de bombeiros e barcos da guarda costeira auxiliando no processo de remoção de corpos encontrados boiando na água. Existiam muito mais submersos.
Macas iam e vinham, carregando feridos e muitas e doloridas vezes, mortos ensacados. Por breves segundos, Trent acompanhou um dos corpos ser levado até o carro do legista. Aquele poderia ser Cael e só a ideia de que seu ex-namorado fosse uma das vítimas, o deixou apavorado.
Relances das luzes das viaturas tingiram o olhar penetrado do rapaz, que não conseguia formar frases simples ou proferir uma única palavra, mesmo que suas amigas enchessem-no de perguntas. Elas soavam apenas como ecos distantes. Diferente de Anisah, que se debatia nos braços de um dos policiais que tentavam fazer a contenção. Ela não cansava de gritar pelo nome de Tess, esperando que a namorada surgisse entre a multidão e desfizesse o mal-entendido causado pelo seu sumiço.
— Minha namorada está na merda do píer, me deixa passar! Ela tá lá! — Berrou a plenos pulmões, os olhos vermelhos de chorar encarando a cena se discorrer. — Eu quero passar! Eu preciso... Tess!
— Para trás, mocinha, o perímetro está isolado. Isso é pela sua segurança. — Dizia o homem, abrindo os braços, prestes a perder a paciência. — Eles estão fazendo o possível para encontrar todos os desaparecidos.
Trent viu Sky segurar o braço de Anisah e recolhê-la, trazendo uma figura completamente abatida para perto do grupo. Anisah encolheu-se no abraço apertado de Sky, que deixou-a esbravejar e colocar tudo para fora, enquanto afundava o rosto em seu ombro, fragilizada. Kara gravava o que podia, os olhos repletos de lágrimas, e uma Mina tomada pelo choque segurava sua mão. Ela não imaginava que Trent poderia estar certo sobre a tragédia, e de algum modo, sentiu que aquilo lhe deixaria em claro pelo resto da noite.
De repente, as garotas viram Trent levantar da calçada em um movimento impensado. Era como se ele continuasse entorpecido, fitando o nada. Os passos letárgicos seguiram ao longo da calçada, arrastando-se para lugar nenhum. Ele queria cair na realidade, mas em sua mente apenas a imagem do navio invadindo o píer, atropelando pessoas e transformando tudo em sangue. Sentia-se fraco, pronto para cair, mas continuou fazendo seu percurso, tendo suas amigas no encalço, algumas amparando outras. Todas amparando a si mesmas.
— Isso é tudo que eu lembro... — A voz de Trent saiu fraca, desaparecendo no ar frio da sala.
O garoto evitava olhar para frente e ter que encarar os dois homens uniformizados outra vez. Era angustiante ser encurralado daquela forma, os olhares afiados de quem quer arrancar de você seus maiores segredos.
Tudo que Trent queria naquele momento, era estar longe de qualquer acusação. Principalmente depois de ouvir mencionarem a palavra “terrorismo” durante burburinhos no interrogatório. O único crime inafiançável que teria cometido, fora o de não ter subido naquele palco e ajudado Sky Grace de alguma forma.
Ele não tivera tempo até que a imagem horrenda de sua amiga subindo e despencando, presa ao equipamento de sua apresentação de dança, saísse de seus pensamentos. Haviam se passado poucas horas desde que deixara o auditório do New Orleans Theatre, logo após a chegada das autoridades, e o garoto ainda não sabia como estava ali sentado naquela sala cinzenta, dando seu depoimento confuso para agentes federais acerca do Big Natchez. O que era estranho, já que era a polícia local que deveria estar à frente das investigações.
Queria chorar pela morte da amiga, mas ser chamado para depor pegou-o de surpresa. Contudo, controlou-se com dificuldade e tentou focar em contar a verdade, independente de acreditarem ou não na sua versão.
— Então, posso ir agora? Vocês não podem me manter aqui por mais tempo. — Disse sério, já levantando do assento.
Um dos agentes, na casa dos trinta anos e de boa aparência, concordou com um aceno de cabeça. O outro mais velho, barbudo e com cara de poucos amigos, encarou o garoto e ironizou:
— É claro, meu bom rapaz. Acha que te manteríamos preso? — Riu falsamente. — Embora, tenho a impressão de que não será a primeira e nem a última vez que conversaremos. Visões? Pff!
Trent não manteve contato visual e nada respondeu, marchando rapidamente para fora da sala, e consequentemente, para fora dos inúmeros corredores do prédio para o qual fora levado. Os passos apressados e o coração rasgando o peito não significavam somente a urgência de deixar o local.
Ele tinha outro lugar para ir, antes que pudesse desabar em paz.
X-X-X-X-X
— Ei, garoto, espere um minuto!
Trent já estava a alguns metros da saída das instalações policiais e farto de estar rodeado por autoridades, quando foi interceptado por um homem de terno e sobretudo, que parecia estar a sua espera no saguão da recepção e foi ao seu encontro assim que o viu.
Seu porte de classe e o semblante arrogante estampado no rosto por trás dos óculos Armani de armações escuras lembraram o jovem de onde lhe era familiar. Trent o vira no píer na fatídica tarde do acidente, acompanhado de pessoas tão elegantes quanto ele, assim como o vira morrer também. Então, quer dizer que ele sobreviveu... A sensação epifânica de estar na sua frente de novo fez seu estômago embrulhar. Trent torceu para que fosse rápido.
— Sei que deve estar cansado de ouvir as pessoas falando sobre o que aconteceu no píer, mas queria ter a oportunidade de te agradecer pessoalmente pelo que fez ontem. — O homem disse, tirando a mão de dentro do bolso do sobretudo e estendendo na direção do garoto. — Minha noiva… — E Levi interrompeu a si mesmo para respirar fundo, antes de continuar — ...Namorada ficou muito aliviada de me ver em casa, depois do que ouviu a respeito da tragédia.
Trent não fazia a mínima ideia do que responder, sua cabeça girava e ele só queria acabar logo com aquela tortura. A verdade era que sua atitude no Big Natchez foi movida inteiramente pelo desespero. Não teve a intenção de se tornar um suposto terrorista ou sequer um herói. Trent só queria externar seu medo.
— Estou feliz que esteja bem. — Foi o que respondeu, ainda incerto, apertando a mão do homem e buscando algum detalhe visual no saguão que não fossem seus olhos azuis de lince.
— Levi Sunderland.
Onde Trent já havia ouvido aquele nome antes? Era um sobrenome forte, talvez viesse de uma família poderosa. No momento, ignorou as opções que surgiram em pensamento e repousou o olhar em um relógio digital na parede, ao lado do emblema do Departamento de Polícia de Nova Orleans. Piscou algumas vezes, disparando:
— Eu preciso ir!
Correu porta afora, deixando um Levi desconfiado, sozinho e em silêncio, encarando-o ir embora.
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Tema: Come To This
Haviam várias fileiras de assentos dispostos ao longo do corredor estreito e iluminado do necrotério. Em uma das fileiras, Anisah encarava a presilha de cabelo favorita de Tess, enquanto brincava com o objeto metálico entre seus dedos pálidos e trêmulos para se distrair. Cada minuto que passava sem notícias era como uma eternidade perturbadora.
Até que a garota avistou Trent apontar no corredor, andar descompassado e respiração ofegante. Apesar de tê-la cumprimentado com um aceno breve de cabeça, preferiu sentar-se alguns assentos depois. Os dois não trocaram nenhuma palavra no tempo em que ficaram sentados. E sabiam exatamente o porquê do clima pesado ter se instalado entre o grupo.
A morte de Sky havia abalado a todos, causando uma ruptura nas interpretações sobre a briga que antecedera o acidente da amiga. Naquela nuvem cinza estavam: Mina e Kara, que voltaram inconsoláveis para o hotel, mesmo na companhia de Taylor e Jimmy; a família de Sky, que agora precisava lidar com o luto e as burocracias funerárias em meio à dor; e Trent e Anisah, que receberam ligações e foram chamados para fazer o reconhecimento de dois corpos encontrados entre os destroços do Big Natchez.
Ambos ficaram diante da possibilidade de finalmente encontrarem seus amados, mas não da forma como queriam, e a situação os consumia.
— Acha que ainda temos chances de reencontrá-los vivos? — Anisah quebrou o silêncio, enfiando-se cada vez mais dentro da jaqueta. — Afinal, você é o mais otimista de todos.
Trent engoliu em seco.
— Eu não sei. — Ele ponderou, olhando para as manchas de sangue seco na própria camisa, enquanto escolhia cautelosamente as palavras. A iraniana tornou-se um campo minado. — Mas penso que prefiro que sejam eles aí dentro, do que passar o resto da minha vida sem respostas.
Anisah pareceu aceitar o ponto de vista de primeira, balançando a cabeça. Estava tentando retomar o controle de seu temperamento por conta das últimas circunstâncias, sentindo-se esgotada até para discordar do pensamento resignado do amigo.
O breve diálogo da dupla foi interrompido pelo legista de plantão.
Ele abriu a porta da sala e pediu que os jovens o seguissem. Assim o fizeram. Anisah entrou primeiro e sentiu a mão gélida de Trent tocar a sua. A hacker não se opôs ao gesto e apertou-a fortemente, aquela seria sua maneira de prestar apoio. Por mais emocionalmente distantes que estivessem, eles só tinham um ao outro no momento.
O médico apontou para as duas macas em um canto da sala refrigerada e os amigos de mãos dadas encararam os corpos que repousavam debaixo de panos brancos. Inicialmente, nenhum dos dois tomou a iniciativa de se aproximar e continuaram estáticos por alguns segundos.
— Eu não quero ver. — Anisah despejou num sussurro fraco, soltando a mão de Trent e recuando um passo. — Se for a Tess, não quero que essa seja minha última lembrança. Será que você pode…
— É claro. — O garoto concordou, virando-se para as macas outra vez.
A cada passo, uma parte de si ameaçava despencar, mas ele queria ir até o fim. Então, calmamente tocou o pano que cobria o primeiro corpo e seu coração pulou da garganta. Ele ainda segurava o tecido quando olhou por cima dos ombros e com os lábios trêmulos sentenciou sem que saísse qualquer som:
“É ela”.
Anisah travou da cabeça aos pés, sentindo uma rajada de balas atravessar seu peito. Naquele instante, desejou ter morrido no lugar de Tess. Desejou ser ela mesma a pessoa sobre a maca. E não suportou nenhum segundo a mais dentro do necrotério, deixando a sala de maneira impetuosa.
Não havia nada que Trent pudesse fazer àquela altura, de modo que engoliu o choro entalado e partiu em direção à segunda maca, onde um corpo maior o aguardava. Nos segundos que levou para retirar o pano do rosto da vítima, uma porção de memórias boas de seu relacionamento com Cael apareceram na mente para enchê-lo de nostalgia.
No segundo seguinte, todos viraram borrões e seu mundo desmoronou.
Ele encarou Cael dormir como um anjo. A feição pálida e silenciosa do namorado o encarou de volta e Trent imediatamente sentiu o nó no estômago, correndo para fora da sala aos prantos. Ele correu vários metros ao longo do extenso corredor e encostou na parede do elevador, puxando o celular do bolso e discando para o número de Mina.
Mal a garota atendeu, ele adiantou-se:
— Eles estão mortos. Cael e Tess estão mortos!
Então, o celular escorregou para o piso e Trent encolheu-se no canto, agarrando seus joelhos e chorando tudo o que não chorara antes.
X-X-X-X-X
A manhã seguinte demorou mais do que devia. Pelo menos, foi a impressão que Kara teve.
Ela caminhava sozinha pela praça de alimentação de um Outlet, os cabelos rosados dançando com a brisa da mesma costa onde dias antes, a viagem tomou rumos trágicos. Quem a visse com aquela maquiagem preparada especialmente para esconder o abatimento, não imaginava o que a garota estava sentindo.
Ela não conseguira dormir. Foram longas horas madrugada adentro para conseguir pegar no sono de verdade. Depois de saber da morte de seus amigos, seria difícil pregar os olhos e não se sentir mal pelo que acontecera. Porém, a garota ainda possuía assuntos inacabados na cidade e já que a estadia em Nova Orleans estava com os dias contados, precisava resolver as pendências o quanto antes.
Kara notou algumas pessoas dispersas em seus mundos, enquanto outras comentavam sobre o píer. Não poderia negar que era o assunto do momento.
Foi aí que avistou a mesa sob um guarda-sol descrita na mensagem. Era para lá que ela iria. Aproximou-se, o coração aumentando o compasso, e encarou o homem sentado.
— Um lugar público dessa vez, Garry? Achei diferente. — Sorriu para ele, sentando-se na cadeira da frente. — Já estava com saudades.
Garrett aparentava ter muito menos idade do que realmente contabilizava. A pele era negra e fios grisalhos se escondiam na barba grossa e espessa. Ele tinha olhos pequenos e lábios sisudos, os quais Kara não parava de encarar. Além de ser corpulento e atlético, o que chamava ainda mais atenção para sua figura madura.
— Kara, nós precisamos conversar.
— Primeiro me conta o que tá achando da cidade. Ela é linda, né? Um pouco medonha, mas... — A garota olhou em volta, parando assim que percebeu seu semblante sério. — Não estou gostando dessa cara, Garry. Vai, me conta o que aconteceu.
— Kara, a verdade é que… Não vim só pra te ver.
A garota franziu o cenho e arrumou a postura na cadeira. Seja lá o que ele fosse dizer, ela já sentira um clima estranho chegando junto com seu tom de voz.
Então, ouviu-o continuar:
— É sobre nós dois. Não posso continuar com isso.
— Mas que tipo de brincadeira de mau gosto é essa? — Kara sentiu-se ofendida.
— Olha, — Ele fez menção de segurar sua mão e a garota tirou-a de cima da mesa rapidamente — faz tempo que ando refletindo sobre como nossa conduta foi errada. Você é só uma menina, tem a vida toda pela frente...
— Quê? Eu também quis, Garry. Você não me forçou a nada, lembra? Não fizemos nada de errado.
— Kara, olha pra mim e olha pra você. Isso não está certo. — Ele suspirou, olhando para os lados e falando mais baixo. — Eu sou o líder da comunidade, havia um limite e nós ultrapassamos ele, ok?
Kara estava a ponto de explodir, mas sabia o risco que corria quando se envolveu com Garrett.
A influencer passou grande parte da vida sob os cuidados de Shineville, uma comunidade independente nos arredores de Los Angeles. Desde que fora deixada lá pelos pais biológicos, os quais não via há vinte e dois anos, ou sequer conhecia. Ela era apenas um bebê quando ingressou em Shineville e ganhou uma família nova, composta por todos os moradores que ali viviam. Cada um desempenhando um papel importante para manter a paz e o equilíbrio do lugar.
Até que, anos mais tarde, o líder e responsável pela administração da comunidade contraiu uma tuberculose e veio a falecer semanas depois, por recusar ir para um hospital. Seu braço direito, o doutor Garrett, assumiu o posto e continuou a aplicar seus ensinamentos, desta vez pedindo a ajuda de Kara para cuidar das tarefas que antes eram delegadas a ele.
No meio desse processo, Kara se viu completamente envolvida pelo homem, passando dias inteiros juntos. Fazendo terapias semanais juntos, e repentinamente veio a primeira noite de sexo e Kara sentiu que não poderia voltar atrás. Ela queria mais daquela intensa sensação, que nunca teve dentro daquelas paredes.
Nem mesmo a saída da garota de Shineville meses depois afastou-os. Pelo contrário, a ida de Kara para o centro de Los Angeles só permitiu que pudessem se ver com mais frequência. Garrett continuava sugerindo as sessões de terapia, para ajudá-la a lidar com a mudança e em todas elas, Kara sentiu-se dentro da vida dele.
E com isso, o psicanalista entrava cada vez mais na sua cabeça.
— Eu não entendo, estávamos indo bem. As sessões me faziam bem. Você estava me fazendo bem! — Com os olhos marejados, a influencer encarou-o chocada.
— Sinto muito. — Ele baixou o olhar e enfiou a mão no bolso da calça, tirando uma folha de papel.
Kara já levantava para ir embora, quando o homem estendeu o braço, mostrando-lhe o conteúdo, que mais parecia uma ficha.
— Entendo que esteja brava, mas tem uma última coisa que quero fazer por você. — A voz era a mesma das sessões, penetrante e persuasiva. Kara parou para ouvir. — Esse é o atual endereço da sua família biológica. Eles residem em Nova Orleans há dez anos. Encontrei em meio aos arquivos da comunidade e senti que deveria te entregar. Você decide o que fazer partir daqui.
A garota tocou o papel involuntariamente. Os lábios tremendo, ela preferiu não responder. Amassou a folha e jogou na pequena bolsa que trouxera.
Em questão de segundos, Kara refez o semblante confiante, jogou os cabelos e inclinou-se sobre a mesa, encarando o copo de limonada que o psicanalista havia pedido antes dela chegar.
Disse:
— Nenhum homem vai me quebrar. Vai se foder!
Com um sorriso malicioso anunciando o que viria a seguir, Kara lançou a limonada contra o rosto de Garrett. Deu meia-volta e desfilou para longe.
X-X-X-X-X
O relógio biológico desajustado de Daniel o fez levantar mais cedo que o normal, por mais que quisesse prolongar o sono. Abriu as cortinas do apartamento e respirou o ar quente, decidindo fazer algo produtivo durante a manhã. Rapidamente tomou um banho, vestiu roupas leves, pôs óculos de sol, chinelos e saiu.
Nas ruas, observava resquícios do Mardi Gras sobrevivendo nas fachadas dos estabelecimentos e das casas, e na sua mente só havia espaço para o acidente com a embarcação. Era o Big Natchez quem estampava a capa dos jornais, sites e não saía da boca do povo. Quem precisava do Mardi Gras quando se podia consumir tamanho desastre?
Lembrou-se que foi uma noite cheia. Câmeras em todos os lugares, repórteres famintos por notícias, várias perguntas e fotógrafos capturando o maior número de ângulos do que restara do píer e de seus possíveis sobreviventes. Talvez soasse como um paraíso para quem sempre buscava visibilidade como ele, mas Daniel sentiu-se ligeiramente desconfortável naquele instante, como se aproveitasse de uma tragédia para ganhar minutos na mídia. Realmente não tinha sido assim em boa parte de sua vida?
Dias depois, para ele a ideia já não parecia absurda. A culpa momentânea desaparecera e ele não perderia mais oportunidades.
O modelo desceu a avenida em direção à orla, e chegou até a calçada do East Rivers em questão de minutos. Olhou automaticamente para a costa e constatou que a limpeza dos destroços não havia sido concluída. Eram muitas as pessoas que ainda arriscavam parar para fotografar ou acompanhar os guindastes movendo restos da estrutura.
Impaciente, voltou à caminhada, até que esbarrou em alguém que vinha na direção oposta.
— Ei, olha por onde anda, cara! — Repreendeu, mas logo notou que ele conhecia aquele rosto. — Espera. Bruno, é você?
O segundo rapaz demorou mais para reconhecê-lo e abriu um sorriso de orelha à orelha quando caiu a ficha. Não acreditava que depois de meses sem manter contato, eles se veriam novamente e por obra do acaso.
— Caramba, que coincidência, né? — Daniel sorriu.
— É bom te ver também, Daniel Fonseca.
— Você trabalha aqui?
A pergunta viera porque Daniel havia percebido o nome do restaurante impresso em uma toalha que Bruno carregava consigo. O jovem também brasileiro, que usava um cavanhaque charmoso, ergueu a sobrancelha e quebrou a reação de surpresa em um riso desconcertado, respondendo:
— Sim, as coisas mudaram bastante pra mim. Inclusive, estou começando o horário do meu expediente. Quer tomar alguma coisa? Para o rosto mais bonito da TV é por conta da casa. — Piscou.
— Como assim?
— Ué, não era você naquela reportagem no píer? — Bruno franziu o cenho, sentindo o sol bater no seu rosto. — Cara, o East Rivers todo parou pra ver tua declaração. Eu sei que deve ter sido uma barra estar lá, mas que bom que saiu ileso. Posso dizer que deve ter conquistado vários corações depois daquela entrevista. Aí sim, garanhão.
O bartender bateu de leve no ombro de Daniel. Foi como se o cérebro do modelo estalasse e o despertasse de vez pra realidade. Ele sabia exatamente o que teria que fazer.
Por isso, despediu-se rapidamente de Bruno e retornou pelo mesmo caminho de onde viera. Agora, indo direto ao Hotel Andorras.
X-X-X-X-X
Sentada sobre travesseiros e de pernas cruzadas em posição de meditação, Angelita ficou coberta de fumaça provinda dos incensos espalhados pela grande suíte do hotel. Dentro do seu hobbe de seda, inalou o aroma forte e nauseante, fazendo um careta de desgosto.
— Isso é mesmo necessário, Martina? — Perguntou à cartomante sentada do outro lado da mesinha de centro. — Tenho medo desse cheiro ficar impregnado no meu quarto pra sempre.
A senhora corcunda e usando uma flor enorme no cabelo estava mergulhada em uma concentração ritualística. Ela era amiga da família Andorras há anos, já morava em Nova Orleans quando compraram a construção em que hoje se localizava o hotel e possuía uma quitanda de frutas, onde também realizava atendimentos mediúnicos.
De olhos fechados, não dizia uma palavra. Seus dedos engelhados de mais de meia-idade deslizando sobre as cartas dispostas, enquanto respirava fundo diversas vezes. Angelita acompanhava seu trabalho impacientemente, querendo que ela parasse de enrolação. Mas interrompê-la seria como despertar uma maldição.
Olhou para a mesa e encarou algumas das cartas, como se seus olhos já marcassem as que seriam selecionadas.
A mulher assustou-se com o movimento brusco de Martina.
— Tire cinco cartas.
Angelita deu de ombros e fez o que a senhora pedira. Assim que escolheu as cartas, revelou o que estava escondido sob cada uma delas. A expressão que Martina fez ao encarar tais cartas fez Angelita erguer a sobrancelha.
— E aí, o que tem pra mim?
— A situação não está nada bem, mi pequeño ángel. — A cartomante proferiu, a voz de fumante ficando perceptível. — Há uma nuvem escura vindo na sua direção e não foi você quem causou as consequências a si mesma.
Angelita piscou algumas vezes, ficando confusa.
— Trata-se da interferência de outra pesssoa. Me parece ser um jovem rapaz. — Ela encarou as cartas. — Essa nuvem escura é perigosa e pode trazer sua ruína, se não ficar atenta e fizer as escolhas certas. Porque ele estará sempre te rodeando e querendo cuidar de você. Mas lembre-se, é ele quem está trazendo a nuvem escura.
Ao final da explicação, a herdeira dos Andorras estava séria.
— Nuvem escura? Mais desgraça, Martina? — Cruzou os braços e levantou, caminhando pelo quarto e indo até as cortinas que estavam fechadas. Abriu-as e os fortes raios de sol invadiram o recinto, machucando seus olhos. — Te chamei porque queria saber se depois daquela porcaria de acidente, você teria coisas boas pra mim, mas pelo visto, não.
— As cartas querem te avisar, mi pequeño ángel. Elas não mentem. — Disse a senhora, recolhendo seu material. — Tome cuidado.
Angelita bufou e segurou um dos incensos, jogando-o pela janela. Em seguida, ouviu batidas na porta e foi atendê-la a passos largos.
— Quem é você? O Mardi Gras já acabou.
A figura prostrada na porta sorria feito psicopata. Parecia ter saído diretamente de um filme de Spielberg. Chamativa, era uma versão remasterizada de Cindy Lauper com cabelo volumoso e roupas que nunca se perderiam numa multidão. Ao mesmo tempo, havia certa seriedade no seu porte, o que deixou Angelita abismada.
— Me chamo Belinda Twine, já deve ter ouvido falar do meu programa, Médium Days. — Disse a recém-chegada, entrando no quarto sem precedentes. Carregava uma bolsa enorme a tiracolo. — Que cheiro forte. São incensos vegetais? Interessante...
— Opa, opa, opa! — A latina a alcançou, pondo-se na sua frente. — Eu realmente não sei quem você pensa que é, mas não pode entrar assim nos aposentos alheios. A propósito, quem te convidou?
— Você.
— Quê? — Angelita pôs as mãos na cintura. — Mais uma louca, Santa Madrezita de Guadalupe!
— Não, você não entendeu. Quis dizer que estou aqui por sua causa. Angelita Maria Andorras, a rainha do drama mexicano. — Respondeu, reparando na presença da velha cartomante.
— Ok, já entendi. O que quer comigo?
— O meu programa tem uma das audiências mais elevadas dentre a programação de médiuns na TV, modéstia parte. E já que todos estão de olho no famigerado píer, queria propor uma entrevista exclusiva sua para o Médium Days. Você é a pessoa certa para esquentar um pouco as coisas, se é que me entende. O que acha?
Apesar de toda a nítida empolgação da apresentadora tagarela, Angelita não recebeu bem a proposta.
— Está perdendo seu tempo, “Belinha sei lá das quantas”. — Virou as costas, andando pelo cômodo. — Estou farta desse assunto, não quero ouvir falar de Big Natchez tão cedo.
— Tem certeza? Seria o momento oportuno perfeito de brilhar. Aquele seu reality já está meio ultrapassado. Não acha? — A mulher sibilou.
— Se veio até aqui pra me ofender, não espere sair viva desse quarto.
Angelita lançou um olhar flamejante na direção da médium, que encolheu-se e encurtou o assunto:
— Tudo bem, Andorras. Mas se mudar de ideia… — E retirou um cartão da enorme bolsa, entregando-lhe. — Entre em contato com minha produção.
— Não. Estou. Interessada! — Angelita cuspiu fogo e apontou para a porta. — Conhece o caminho da saída.
Depois de Belinda deixar a suíte, a socialite passou a encarar o cartão, pensativa.
X-X-X-X-X
Do outro lado da porta, Mina ouvia o barulho ensurdecedor vindo de dentro do quarto de Trent. Ela bateu na porta diversas vezes e até chamara pelo seu nome, mas ele não deu ouvidos. Estava ficando impaciente.
Até que decidiu pular as etapas de privacidade e abriu a porta abruptamente. Encontrou Trent deitado na sua cama de solteiro, em uma posição desconfortável. Com o corpo estirado e a cabeça para fora do móvel, ele encarou a amiga entrar ao som alto da canção que saía dos auto-falantes do home theater.
Cho entrou nos aposentos em seguida. Passos curtos, a cadela pulou sobre uma poltrona.
— Quer ficar surdo?! — Mina berrou, indo até o aparelho.
— Por favor, não desliga! — Trent levantou. — Me ajuda a pensar.
Mina resolveu apenas baixar o volume e logo sentou ao seu lado na cama. Encarou-o por alguns instantes, incerta de como começar.
— Agora que está menos agitado, quer me contar como foi no interrogatório essa noite?
— Foi ridículo! — Apertou os punhos e baixou a cabeça. — Eles me olhavam como se eu fosse responsável pelo navio ter desgovernado. Acredita que suspeitam de terrorismo só porque tinham alguns políticos importantes por lá?
— Eu entendo que eles estejam desesperados pra ter uma explicação pro que aconteceu, mas suspeitarem de você? Você salvou vidas!
Trent ergueu o olhar e Mina o acompanhou. A cama de Cael vazia, o lençol amassado, roupas espalhadas.
— Era a bagunça que ele gostava. Está do mesmo jeito que ele deixou antes de sairmos naquela tarde. — Os olhos do garoto encheram-se de lágrimas. — No fim, não salvei tantas vidas, né?
— Desculpa te fazer lembrar. — Mina tocou seu ombro lentamente. — Queria que ele estivesse aqui também. Assim como a Tess, a Sky… Mas tudo está acontecendo tão rápido…
— A verdade é que não vou esquecer, muito menos sair daqui tão cedo.
A oriental sentiu o pesar das palavras e franziu.
— Do que tá falando?
— Estamos proibidos de deixar a cidade até sermos liberados da investigação. Até onde sei, eu previ o acidente. — Odiou-se por isso. — Eles disseram algo sobre normas federais.
Mina engoliu em seco, levantando da cama e refletindo. Concluiu:
— Não pode ser… Tudo está acontecendo muito rápido. Nossa estadia aqui no hotel se encerra em três dias. Além do mais, conversei brevemente com a irmã da Sky. A família dela vai levar o corpo pra ser velado e enterrado em Los Angeles essa noite.
Trent sentiu o soco no estômago, jogando-se para trás. Caiu de costas no colchão e passou a encarar o teto. Como se não bastasse tudo o que acontecera, eles ainda perderiam a chance de se despedir uma última vez de Sky e dos outros. Aos poucos, Trent perdia o que mais amava na vida.
De repente, Kara entrou no quarto. Seu silêncio inicial era preocupante. Pegou Cho no colo, fazendo carinho em seu pêlo e sentou na poltrona, olhando os dois amigos. Mina torceu os lábios, pensativa.
Falou:
— Não te vi sair.
— Fui dar uma volta, espairecer. Demorou pra você pegar no sono, então não quis te acordar.
A oriental agradeceu e sorriu de lado. Decidiu atualizá-la de tudo o que sabia até agora. Uma parte de Kara estava atenta ao monólogo e outra divagava sobre a conversa com Garrett. O desgraçado havia realmente entrado em sua cabeça, mas ela não daria o braço a torcer.
Quando Mina concluiu, a influencer teve uma ideia.
— É isso! Já que não podemos ir ao funeral da nossa amiga, vamos trazer o funeral até nós.
Os amigos se entreolharam, confusos. Trent pareceu mais chocado. Kara retomou o raciocínio:
— Não vamos deixar de dar nosso último adeus à Sky, Tess e Cael. Vamos fazer um memorial pra eles. Dedicar nossas últimas homenagens, o que acham? Eu posso arrumar o local, vocês as fotos e as flores.
Trent levantou, inquieto, o rosto ficando vermelho.
— Não sei se é uma boa ideia. A Anisah tá sumida desde a madrugada, a moto dela nem está mais no estacionamento. — Pôs as mãos na cabeça. — Eles mereciam da gente muito mais do que isso…
Mina sinalizou com a cabeça para a melhor amiga e Kara e respirou fundo. Foi até o garoto e o envolveu num abraço, sentindo as lágrimas quentes caindo em seu ombro.
— É exatamente por isso que vamos fazer o possível pra nos despedir deles, ok?
Como uma criança sendo consolada pela mãe, Trent fungou, assentindo. Por trás do olhar entristecido, a esperança de que dias melhores viriam.
X-X-X-X-X
Jimmy entrou no East Rivers um pouco acanhado.
Sem Taylor na sua cola, a sensação era a mesma de estar em rota de colisão com um encontro de aplicativo novamente. Não sabia ao certo o que pretendia ali, não fazia parte dos seus planos ir até o restaurante. Passava em frente quando resolveu entrar, de modo que demorou a decidir o que fazer em seguida.
Sentou-se de frente para o balcão do bar, ombros encolhidos, e esperou Bruno terminar o drink voador que preparava para uma cliente deslumbrada com suas habilidades.
O bartender então virou-se para Jimmy e despejou um sotaque latino carregado:
— O que vai querer, esquisito? — Bruno observou-o dar de ombros. — Me parece perdido. Tomou outro bolo? Sabe que tenho a bebida certa pra dor de cotovelo.
Jimmy agradeceu, mas recusou.
— Talvez, uma água com gás...
— Pedir uma água gaseificada no East Rivers é tipo um crime hediondo, sabia?
Não foi Bruno quem disse aquilo.
A jovem sentada na banqueta ao lado do jornalista encarou-o com o olhar estreito. Jimmy sequer a viu chegar, mas percebeu sua energia mudando o ambiente. Ela possuía uma pele negra jovial, olhos claros de felina, lábios grossos e usava tranças curtas nos cabelos. Parecia uma garota que parou de envelhecer na adolescência.
— Isso que tá tomando é água com gás também. Assim, só pra sua informação. — Jimmy resmungou.
— Pois é. — Ela deu com os ombros. — Sempre achei que seria presa antes dos trinta, então por que esperar, né? — E bebericou um gole da bebida, ainda encarando-o de soslaio.
O loiro riu. Só aí notou os acessórios que a garota usava: uma gargantilha com algumas pedrarias coloridas, um colar do que talvez fossem pequenos ossos de aves e brincos grandes que combinavam com o objeto no pescoço. Acessórios mórbidos e exóticos.
De alguma forma, Jimmy sentia-se estranho perto dela, uma sensação constante de djavu congelava sua espinha.
— Tá tudo bem contigo?
— Sim, sim! — O jornalista sorriu desconcertado, procurando rapidamente se recompor, mas se atrapalhando no processo. Quase bateu o braço no copo que Bruno acabara de depositar sobre a bancada de mármore. — Desculpa, qual o seu nome?
— É Aisha. — Estendeu a mão e Jimmy a apertou, suando e estampando um sorriso amarelado. — Agora tenho que ir. Foi um prazer conhecê-lo pessoalmente, James Labanca.
Ela enfiou alguns dólares embaixo do copo vazio e levantou. O loiro acompanhou-a sair e precisou de mais alguns segundos para que sua mente despertasse. Jimmy encarou o próprio copo de água gaseificada e pensou alto:
— Ninguém nessa droga de cidade lembra meu nome artístico. Quem é essa garota?
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O terno havia caído bem, preto era uma cor que combinava com seu ar superior, mas Levi ainda sentia que faltava algo. Ele observou seu reflexo no grande espelho colocado nos bastidores e deu um último toque na gravata também de cor preta. O luto estava completo, afinal.
— Tem certeza de que não quer repassar o discurso novamente, meu amor? Estamos com alguns minutos de sobra. — Melanie surgiu no reflexo, atrás dele, mexendo na gravata. — Deve ficar perfeitamente alinhada à costura, sabe disso.
O casal estava se preparando para dar início à cerimônia em memória das vítimas do desastre ocorrido durante o Mardi Gras, primeiramente com uma coletiva de imprensa. Todos permaneciam em polvorosa para ouvir da boca do principal assessor do presidente dos Estados Unidos o que eles pensavam a respeito. Jornalistas, fotógrafos, equipes de televisão e figuras de poder aguardavam do outro lado da estrutura montada para recebê-los àquela noite.
— O que seria de mim sem você, não é? — Repousou um beijo tenro lábios da namorada. — Deve ter dado trabalho à Casa Branca pra conseguir vir, depois de tudo que seu pai disse a respeito de eu ter te trazido pra cá. Foi uma ideia imprudente, eu sei, mas eu queria fazer uma surpresa. Estrearmos o apartamento e...
— Ei, nada de se martirizar, amor! — Melanie segurou seu rosto por um instante, encarando no fundo dos seus olhos elétricos.
Ela está deslumbrante! — Levi não deixou de anotar mentalmente. Ela sempre dá um jeito de ficar ainda mais linda.
— Eu tive uma conversa franca com ele ontem. — A dama continuou. — Está tudo resolvido. Meu pai só estava preocupado e tinha certa razão pra decretar meu retorno urgente à Washington. Nova Orleans estava um caos e ele queria ter certeza de que eu ficaria bem. Principalmente, depois das insinuações de ataque terrorista repercutindo país afora.
Levi concordou com um aceno, sentando em uma cadeira.
— EUA e seu rabo preso. — O homem comentou, recebendo um olhar raivoso de sua companheira. Suspirou. — Por falar no assunto, averiguei as investigações a mando do presidente. Eles colheram o depoimento de um garoto chamado Trent Landon, acham que um adolescente possa ter a ver com o acidente. Não é louco?
— Na verdade, não. — Melanie apontou. — Hoje em dia, os jovens e seus traumas ou desejos revolucionários reprimidos são capazes planejar, e até executar, muitas atrocidades. Massacres em escolas, por exemplo.
Levi pegou-se digerindo facilmente aquelas palavras. Quando queria, Melanie Watts era tão persuasiva quanto o pai e disso o assessor entendia muito bem.
Seu corpo esbelto encaixado no sóbrio vestido azul e preto, o salto batendo no piso, ela caminhou até ele.
— Agora vamos acabar com essa angústia, meu amor. — Sorriu, lhe dando as mãos. — Temos um memorial para conduzir e alguns políticos canastrões pra canonizar.
Levi levantou e deixou ser guiado pelos passos leves da amada em direção à concentração de pessoas. Colocou a mão no bolso da calça e conferiu se a caixinha que guardara com cuidado estava ali. Então sorriu.
Porém, mudou de expressão para ficar diante do púlpito repleto de microfones acoplados. Levi encarou todos os convidados presentes e exibiu sua melhor face de compaixão. A coletiva iria começar.
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— A verdade é que toda a América está mobilizada a ajudar. Não só nesse momento difícil pelos qual as famílias das vítimas estão passando, — o porta-voz da Casa Branca apontou com o olhar para o grupo de civis que o assistia — como também a reerguer parte do legado cultural da cidade, destruído junto do Big Natchez, uma das maiores memórias do povo ancestral de Nova Orleans, e dos esforços político-sociais de uma das vítimas, nossa querida prefeita Patricia Clarke. — Voltou-se para as câmeras. — O presidente Ronald Watts reitera sua participação ativa nas buscas por soluções eficazes e nas investigações minunciosas para encontrar o ou os responsáveis por essa tragédia. O governo não irá descansar enquanto não obtivermos as respostas para o caso.
— Mas e os boatos de atentado terrorista, senhor Sunderland? — Uma jornalista perguntou em meio aos demais. — O país entrou em estado de alerta?
— O governo pretende voltar a intervir nas políticas de imigração? — Dessa vez, foi um jornalista quem fez a pergunta, antes que o assessor pudesse responder a anterior.
Levi aproximou-se dos microfones, a pose firme, e respondeu de maneira curta e direta:
— Aqui declaro encerrada a coletiva. Podemos dar início às homenagens.
O assessor desceu os degraus e piscou para Melanie e seu semblante orgulhoso, indo na sua direção.
Enquanto se erguiam de seus assentos e levavam flores, cartazes e lembranças para o altar projetado para as vítimas, as pessoas presentes na cerimônia eram contempladas com uma trilha sonora fúnebre e melancólica. O hino nacional dos Estados Unidos.
Discretamente Melanie agarrou o braço de Levi e começou a arrastá-lo entre as pessoas, eufórica. Parecia estar entalada com palavras e não via a hora chegar a algum lugar.
Confuso, ele se conformou em segui-la cegamente.
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Kara podia ver a iluminação noturna vindo da propriedade vizinha, cercada de muros altos e grossos, cercas elétricas e câmeras de vigilância, ao longo da colina esverdeada. Uma melodia ressoava distante e lembrou-a do que fora fazer ali. Afastou-se da janela e deu um pulinho ao se deparar com Taylor atrás de si.
— Te assustei? — Disse o loiro barbudo, carregando uma caixa.
— Poucas coisas estão me assustando nos últimos dias. — A garota deu de ombros. — Queria te agradecer por ter cedido a chácara da sua família pra realizarmos o memorial.
— Era o mínimo que poderia fazer. — Ele sorriu de bom grado, e ainda sim, desconfiado por não estar sendo totalmente sincero quanto a isso.
O terreno em que estavam era mesmo dos Dippoli, mas atualmente estava no nome de um velho fazendeiro em estado catatônico, para não levantar tantas suspeitas. Era assim com a maioria das propriedades pertencentes à família, com exceção da residência oficial, onde morava com a mãe e a avó. Por estar largada há algum tempo, Taylor pensou que pudesse ajudar de alguma forma cedendo a chácara, e ele não soube como dizer não à Kara quando a garota o procurou para fazer o pedido.
Taylor também havia trazido Jimmy. Kara topou que todos permanecessem juntos, os acontecimentos inevitavelmente acabaram conectando-os.
— Aonde vai com essa caixa?
— Vou largar essas tralhas em algum dos quartos lá em cima. — Ele ergueu o cenho. — Por que? Quer vir comigo?
Kara o encarou séria, retrucando:
— Sei que consegue carregar uma caixa sozinho, Taylor de ontem.
A garota virou-se e deu um sorriso fora de visão, andando até a sala.
A energia que o cômodo trazia pesou mais do que ela imaginava. Olhar para o mural montado era de partir o coração, mas era a forma de dizer que todos eles foram importantes de algum modo na sua vida e mereciam saber.
Parado diante das fotografias que imprimira, Trent analisava com os olhos marejados cada detalhe dos sorrisos felizes, poses engraçadas e lugares estranhos que ele e Cael já tinham frequentado juntos. Velas iluminavam as fotos de Sky e Tess, flores trazidas por Mina e pequenos mimos deixados por Kara para representá-las.
— Ficou lindo. — A influencer se aproximou e murmurou. — As meninas iriam gostar.
— Provavelmente o Cael odiaria. Ele reclamaria das fotos, com certeza. — Trent riu, nostálgico, parecendo se esforçar para não desmoronar. — Aquele idiota não deveria ter feito isso comigo…
— Infelizmente na vida, algumas pessoas nos deixam sem sabermos o porquê. Elas simplesmente vão embora. — Kara evitou que uma lágrimas despontasse em seu rosto. — E a gente tem que ser forte para não ficar pra trás.
Trent riu fracamente, concordando.
— Essa conversa me deixou de garganta seca. — Ela comentou. — Vou buscar algo pra bebermos.
Mina, que acompanhava a cena sentindo o coração aquecer, aproveitou que o amigo ficara sozinho e se aproximou como um felino sorrateiro.
— Tenho que te mostrar uma coisa, vem comigo. — Segurou na mão do rapaz e o levou para fora da casa.
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O ar do lado de fora estava agradável, diferente de noites atrás, e a grama rasteira exalava aroma de terra molhada. As árvores mexiam-se conforme a brisa chacoalhava seus galhos e Cho seguia sua dona como uma sombra pequena e felpuda. De repente, o animal começou a correr pelo terreno, abanando o rabo e ficando alheio à dona.
Os dois jovens caminhavam próximos da cerca e Trent não fazia a mínima ideia do que a coreana queria com ele, mas esperou paciente o assunto vir à tona. Escolheram sentar em um banco de madeira e só aí o garoto notou o envelope nas mãos da amiga. Mina parecia pisar em ovos, mas logo disparou:
— Eu andei pensando muito sobre o que conversamos ontem, no salão de jogos. E primeiro, queria pedir desculpas por ter tratado o assunto de maneira tão convencional e pouco empática, citando dados científicos e etc. Meio que isso já faz parte de mim. — Sua voz parecia verdadeiramente envergonhada. — Me senti culpada por ter passado por cima de outras coisas que também acredito e resolvi pesquisar o assunto.
Mina abriu o envelope e vasculhou a papelada ali existente. Entre impressos de diversos artigos, pesquisas, relatos da internet e xerox de páginas de livros, ela sacou um punhado de folhas. Colocou-as no colo do amigo e deixou que ele conferisse por si próprio.
— Passei a madrugada em claro, separando esses documentos. A maioria encontrei em fóruns online. Os que te entreguei são relatos de um ocorrido em 2006, em Cancun, México. Uma turma de universitários curtia as férias na cidade, quando uma das jovens, Carly, teve uma visão devastadora, assim como você, de que o hotel em que ela e os amigos estavam explodiria e desmoronaria.
Trent estremeceu no banco. O pensamento de que alguém pudesse ter passado pelo mesmo que ele, lhe deu uma pontada de alívio, significava que não estava sozinho. Porém, ele não esperava o que viria a seguir.
Dentre os documentos, ele observou algumas fotografias grotescas. Corpos queimados, mutilados e estourados.
— Mina… O que é isso? São fotos do acidente? — Ele engoliu em seco.
A garota negou com a cabeça. Procurou as palavras certas, mas não haviam palavras certas:
— São imagens dos amigos da Carly, dias após o acidente.
— Não estou entendendo onde quer chegar.
— Um por um, todos eles morreram em circunstâncias misteriosas nos dias seguintes ao acidente. Um deles morreu em um passeio de lancha, outro atingido por fogos de artifícios…
Trent ficou abismado com a naturalidade que a amiga falava. Ela não se abalava nem um pouco ao descrever os acontecimentos. Era uma parte de Mina que o garoto ainda achava profunda demais para desvendar.
Ele balançou a cabeça, erguendo-se do banco.
— Estava começando a achar que isso me aliviaria, mas só está me assustando.
— Trent, espera! Eu apenas…
— Sei que só quer me ajudar e te amo por isso. O problema sou eu. — E começou a correr sem rumo. — Eu sou a aberração daqui.
— Trent! Volta aqui, Trent! TRENT! — Mina berrou, mas ele já tinha sumido de seu campo de visão.
Assim como Cho. Mina não encontrava a cadelinha em lugar nenhum.
— Tendo uma noite ruim? — Jimmy perguntou, surpreendendo a loira. — Seu amigo parecia aborrecido.
Mina aqueceu-se com os braços ao redor do corpo e assentiu, detestando a si mesma pelo que acabara de fazer. Sabia que era cedo para mostrar aqueles documentos para Trent. Era coisa demais para ele absorver. Fora demais para ela também.
— Quer conversar? — Propôs o rapaz. — Eu não seguiria meus próprios conselhos, mas ainda sou ser humano capaz de ter sentimentos.
Um sorriso escapou dos lábios da oriental, que passou a analisá-lo melhor dessa vez. Jimmy geralmente passava despercebido. Sempre muito tímido ou muito calado, ele não demonstrava ter algum tipo de senso de humor por trás do semblante melancólico que insistia em acompanhá-lo. Era Taylor quem costumava empurrá-lo para as conversas.
Sua aproximação deixou a garota contente, entretanto, Mina ainda tinha que encontrar Cho.
— Jimmy, pode me ajudar a achar minha cadelinha?
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Foram alguns minutos de caminhada campal pelas colinas da gigantesca propriedade do governo disponibilizada para realização do memorial. Apesar de estar ventando bastante, Levi suava embaixo do terno. Mas no seu interior sabia que era por um motivo nobre, que ia além de seus egoísmos bobos.
Com um sorriso malicioso no rosto, Melanie escalou o topo da colina sobre seus imponentes saltos e os retirou, quebrando completamente a visão mágica de Levi. Olhou por cima dos ombros e desceu depressa.
— Você não vem? Tenta me alcançar.
— Sabe que sou mais rápido. — O assessor provocou, correndo atrás.
Levi conseguiu alcançá-la ao final da descida, agarrando sua cintura. Ambos caíram na gargalhada e deram um beijo apaixonado. O homem abriu os olhos e parou de beijar quando observou o ambiente.
Eles haviam chegado até uma construção que lembrava um chalé. De onde estavam, podiam ver além das vidraças, artefatos militares e estatuetas lá dentro, como também móveis rústicos, elegantes e brilhantes. O ambiente cheirava a canteiro de rosas e Levi ficou maravilhado com os detalhes. O chalé de dois andares fora todo feito em madeira envernizada e dois pinheiros enormes se erguiam como obeliscos na entrada. Aquele lugar respirava ar político.
— Que lugar incrível! — O assessor sorriu.
— E essa nem é a melhor parte. Vem! — Melanie puxou sua mão, como uma criança querendo mostrar o que aprontou.
O casal deu a volta na construção e chegaram aos fundos, onde a melhor parte citada pela namorada os aguardava. Não houve reação imediata por parte de Levi. Logo, o engravatado apenas encarou a surpresa boquiaberto.
Havia uma mesa para dois inteiramente decorada, castiçais, singelos pratos e um champanhe francês. Melanie arriscou pétalas de rosa, um pouco incerta. Ela sempre fora o lado menos romântico da relação, era Levi quem segurava as pontas sentimentais, de modo que aquilo também era uma forma de retribuí-lo.
— Você quem preparou? Como você…
— Eu tive uma ajudinha especial, mas foi de coração. — Ela piscou. — Vamos sentar.
Já acomodados e com as bebidas servidas, a filha do presidente reparou que o namorado não parava de encará-la, os olhos brilhando.
— Então, o que achou?
— Está tudo incrível, que nem sei o que dizer. — Pigarreou.
— Você sempre sabe o que dizer.
— Não agora.
A mulher sorriu, mas notou uma ressalva surgindo na expressão do amado.
— Desculpa perguntar, Mel, mas o que estamos comemorando? Afinal, saímos no meio de uma cerimônia de luto. — Ele bebericou um gole da bebida.
— Enquanto eles lamentam a morte, nós celebramos a vida. — Melanie sorriu de lado, erguendo sua taça e ignorando a insensibilidade daquela fala. — Só de pensar que poderia ter te perdido naquele desastre, já fico toda arrepiada. Você nasceu de novo e é isso que estamos comemorando, meu amor.
Levi estava profundamente feliz, se sentindo grato e amado. Porém, mexeu-se na cadeira incomodado. Talvez fosse o nervosismo por estar com sua própria surpresa dentro do bolso e não saber como proceder. Ele poderia aproveitar o jantar para pedi-la em casamento. Talvez ela tivesse usando a intuição feminina e quisesse aquilo. Melanie poderia ter criado um pretexto para adiantar o pedido. De fato, era muito intuitiva.
Ao mesmo tempo, o porta-voz da Casa Branca tinha medo do futuro. Ele amava Melanie Watts mais do que tudo. Era a mulher dos seus sonhos, eles eram perfeitos juntos, como o casal modelo, o exemplo a ser seguido. Entretanto, Levi chegou a considerá-la demais para ele. Ela era a filha do todo poderoso Ronald Watts, que poderia esmagá-lo com o mindinho, enquanto ele era seu assessor, a quem jurou fidelidade e serviência. E se aquele rapaz que saiu de Nova Orleans para ganhar o mundo rachasse a perfeição da obra? Se o filho do corrupto derrubasse o castelo de cartas?
Levi não se perdoaria, mas enfrentaria o medo e continuaria lutando pelo amor de Melanie. Então, retirou a caixinha do bolso e começou a brincar com o objeto entre os dedos.
— Estive pensando em escrever uma biografia. — A mulher disse de repente. — Soube que a da Michelle Obama foi um sucesso, e agora sei o motivo. As pessoas gostam de histórias de superação, dessas que arrancam lágrimas. Posso contar como quase fiquei viúva antes dos trinta, que tal?
— Seria campeã de vendas, amor. A Cher com certeza te seguiria de volta.
Melanie deu uma gargalhada gostosa.
— Deus te ouça!
— Teve algo que não contei sobre aquela tarde. Só estou vivo porque um garoto previu o acidente no píer. — Riu nervoso, sem sequer tocar na comida em seu prato. Ele nunca tinha ficado assim diante de discursos ou monólogos. Levi era exímio comunicador, mas não sabia explicar o que o travava. Diante da expressão confusa da namorada levando uma garfada à boca, continuou: — O garoto deu um chilique e avisou o que aconteceria com o navio, fiquei atordoado e saí.
— Simplesmente saiu?
— Simplesmente. Trent Landon o nome dele.
— Esse não é o rapaz que estão investigando? O suposto terrorista?
— Se houver um terrorista, não é ele. Estou te dizendo, o garoto sabia exatamente o que ia acontecer. Foi inexplicável!
— Você está começando a falar que nem um maluco. — Levantou. — Vamos dar uma volta, podemos despistar os seguranças.
O homem sorriu, gostando da ideia.
— Esqueceu que é Melanie Watts? Não dá pra despistar seus seguranças sem disparar um alarme. — Levi sussurrou.
— Olha aí você me subestimando de novo. Acha que é o único que pode ser maluco?
Então, os dois saíram abaixados, torcendo para que os seguranças não tivessem visto. E entraram no chalé por uma vidraça aberta na lateral.
X-X-X-X-X
Kara e Taylor beberam o último gole da bebida contida nos copos e se entreolharam, ambos sentados no chão diante do mural, enquanto o álcool entrava na corrente sanguínea. Não sabiam onde os outros tinham se enfiado, mas ouviam barulhos do lado de fora.
Anisah subia os degraus da varanda feito um zumbi, cambaleando e se segurando onde podia. Não demorou até que abrisse a porta e entrasse na casa num ímpeto, assustando os dois. Ela encarou o lugar, o mural, os copos.
— Que palhaçada é essa?! — Arregalou os olhos vermelhos.
O cabelo de Anisah estava um amontoado de fios acobreados e embaraçados, Kara notou. Sua jaqueta, um lixo. Seriam manchas de vômito? A cereja do bolo ficara por conta da garrafa de vodka nas mãos da iraniana, que voltou a encarar os jovens e entrou como um trovão na sala.
— Me fala, porra, que merda é essa? — Apontou para o mural e cambaleou até Kara. — ME FALA!
Taylor levantou e se colocou entre as duas. Os lábios da influencer tremiam involuntariamente, mas ela estava disposta a falar.
— Relaxa, Anisah, é só um memorial. Queríamos nos despedir dos nossos amigos. Não tem nada demais. Todos concordaram. — Então, a negra percebeu o erro na fala e não havia tempo para consertá-lo.
— Eu não concordei! Mas, como sempre, vocês me excluem… — Soluçou.
— Ficamos preocupados, você sumiu o dia inteiro. Não sabíamos onde te encontrar. — Engoliu em seco. — Como chegou até aqui? Você está… — E suspirou. — Veio de moto? É perigoso andar por aí assim no seu estado.
Anisah balançava a cabeça a cada palavra proferida pela influencer. Sentia seu sangue borbulhar e seu mundo girar ao mesmo tempo. Tirou o celular do bolso com dificuldade e chacoalhou o aparelho na frente dos dois.
— Esqueceu que sou a SkullgrIM? Rastreei seu telefone e te segui até aqui, Kara. — Deu uma risada, soluçando. — Encontrei outras coisas no seu celular também, mas essas deixo você ver com seus próprios olhos.
Taylor reconheceu o nome, franzindo. Ela é a hacker...
A ruiva apertou somente um botão e notificações chegaram aos montes para a influencer.
Kara conferiu e tapou a boca quando visualizou suas últimas postagens nas redes sociais. Sua conta havia postado dois vídeos. O primeiro tratava-se da noite caótica do píer, seu rosto iluminado pelas luzes da emergência; Trent paralisado, Anisah berrando ao vento. Já o segundo, o momento exato em que Sky cai de cabeça no chão pela primeira vez, o grito de Kara ecoando ao fundo. O vídeo é cortado antes que a cabeça possa atingir o chão outra vez.
Mas o vídeo tinha tempo suficiente para o mundo de Kara vir abaixo.
— O que você fez…
Anisah encarou séria e tonta, quase caindo.
Taylor foi segurá-la, mas Anisah o repeliu fortemente com um empurrão.
— Não toca em mim, porra! — E lançou a garrafa na parede.
O loiro desviou a tempo, vendo o vidro explodir atrás do mural.
Enquanto a iraniana caía sentada no chão, sem forças para ficar de pé, Taylor observou uma Kara estarrecida, a tela do smartphone iluminando seu rosto. Ela encarava imóvel a chuva de notificações acerca dos vídeos postados por Anisah.
Ou melhor, SkullgrIM.
X-X-X-X-X
Trent entrou pelos fundos e finalmente havia encontrado um lugar para ficar sozinho. Livrar a mente de pensamentos ruins seria impossível, então recostou-se contra a parede de um dos quartos vazios do andar de cima e olhou para fora, a luz da lua escorregando pelo piso.
Até que ouviu um barulho e percebeu que vinha de dentro do cômodo. Em outro canto, uma caixa descansava e dentro dela, algo se debatia. O rapaz olhou confuso e se aproximou devagar.
De repente, um ganido e no meio da bagunça, a velha e empoeirada bandeira dos Estados Unidos sacudiu freneticamente. A caixa se moveu e Trent ligeiramente puxou o tecido, vendo Cho sair de lá correndo. A cadela apavorada pulou em seus braços.
Arrepiou-se. Se não tivesse visto a tempo…
— Cho, você me preocupou! — Mina entrou no quarto e sua amiga peluda chacoalhou o rabo em resposta, saltando pro colo da companheira. — Obrigada por encontrá-la, Trent.
O jovem pensou em contar o que presenciou, mas não queria continuar ali. Acenou e saiu do quarto, esbarrando acidentalmente em Jimmy que esperava no corredor.
Ele e Mina se entreolharam e o seguiram.
Os três desceram as escadas e chegaram até a sala, deparando-se com Kara e Taylor sentados ao lado de uma Anisah estirada, resmungando coisas ininteligíveis.
Porém, Trent pôde ouvir da bêbada:
— Não vou ficar… Vou embora amanhã, vou pegar minha moto e vazar dessa merda…
Antes que pudessem fazer qualquer pergunta, uma corrente fria entrou pela porta aberta e arrastou o mural com força. Fotos voaram, flores caíram, velas acesas rolaram pelo chão e Taylor levantou rápido para apagá-las. Jimmy ajudou.
Trent encarou toda a cena, sentindo algo se aproximar. Algo que ele não poderia descrever.
— Estão ouvindo a música? — Pensou alto.
— Que música? Não tô ouvindo nada. — Mina respondeu. — Trent, tá tudo bem?
— É o hino nacional.
X-X-X-X-X
Assim que puseram os pés dentro do chalé, Melanie e Levi deram de cara com uma estátua enorme de um soldado, que segurava uma lança que ia até onde a visão dos dois alcançava. O assessor ergueu o queixo até visualizar o teto, alto o suficiente para parecer inatingível.
Na ponta dos pés, Melanie apressou-se até um elevador de acesso ao andar superior. Chamou Levi e apertou o botão. Logo, ambos estavam dois níveis acima, caminhando pelo segundo andar. Lá de cima, a vista para o campo através da vidraça era uma bela composição.
A mulher de cabelos dourados tocou o vidro frio e sentiu as mãos de Levi em torno de seu corpo. Ele pousou o queixo em seu ombro e o casal sorriu.
— Essa foi a melhor surpresa de todas. — Ele beijou seu pescoço.
Então, uma Melanie empolgada desfez o abraço e saiu andando, as mãos para trás, querendo que ele a seguisse. O engravatado, que acabara de tirar o paletó, passou a observar os detalhes.
O andar parecia mais como um museu particular de algum figurão afortunado. Sobre eles, a bandeira dos EUA pendia em alguns suportes cilíndricos. Bustos de políticos renomados enfileirados em peças de bronze, quadros bem-preservados dispostos nas paredes retratando momentos históricos marcantes, coleções em miniaturas de réplicas de veículos famosos pelas suas tragédias.
— Lincoln conversível 1961, modelo 74A. — Levi apontou, fascinado com o trabalho artístico.
— John F. Kennedy. — Melanie retrucou de onde estava. — Tem gente que tem gosto pra tudo.
Assim que o assessor ergueu o semblante curioso, deu de cara com um cartaz metalizado de Tio Sam apontando o dedo na sua direção. “I want you”. Na verdade, Levi notou que ele parecia apontar para algo além de seus ombros, então se virou.
Antes que pudesse repreender, Melanie já retirava a AK-47 dourada do suporte de vidro na parede e a segurava firmemente.
— Desde pequena, meu pai me ensinou a atirar. Nascer em família de amantes de caça esportiva me deu algumas vantagens, apesar de não ligar pra essas coisas. — Pigarreou, destravando a arma. — Eles mantém balas de borracha nos artefatos com poder de fogo mantidos aqui, sabia?
— Até onde vai a excentricidade norte-americana, não é mesmo? Esse fuzil nem deveria estar aqui, pra começar. — Levi replicou, um pouco receoso e suando frio. — Melhor guardar isso, Mel. O título de Maluco da AK-47 está com o falecido, agora.
A dama riu, repondo a arma no suporte, que quase deslizou. Levi correu e o segurou no último minuto.
— Ok, vamos parar de brincar de republicanos extremistas e descer. Chega desse santuário de relíquias patrióticas…
— Está nervoso, amor? Eu te protejo.
— Você acabou de apontar uma Kalashnikov. Por favor.
Melanie deu de ombros e deu a mão para o amado.
O coração de Levi acelerou até que não estivesse mais disposto a esperar e sacasse a caixinha do bolso da calça. Assim que a loira percebeu, tapou a boca, os olhos brilhantes encarando o anel de diamante que surgiu ao abrir a caixinha.
Ambos foram bombardeados por um misto de sentimentos e Levi não segurou as lágrimas, assim como a futura esposa dava pulinhos eufóricos, envolvida pelo próprio choro de felicidade.
— Melanie Watts, quer casar comigo?
— É óbvio! — Ela gritou, agora sem se importar se os seguranças ouviriam. Deixou que ele pusesse o anel em seu dedo e sorriu largamente, dando-lhe vários selinhos. — Eu te amo, meu amor!
— Eu também te amo.
Levi ergueu a noiva no colo e rodopiou, vendo seu penteado se desfazer e os cabelos esvoaçarem. Os dois se encararam por ínfimos segundos, que pareceram eternos. Logo, ouviram um rangido.
Os dois pararam e olharam ao redor. O som de algo desparafusando. O assessor instintivamente encarou o suporte da AK-47 de minutos atrás e viu o exato momento em que ele desprendeu da parede e derrubou o armamento pesado no chão. Lembrou de ouvir o som de destrave, mas não o som que a travaria novamente. A arma continuava destravada.
Ao chocar-se contra o chão, a AK-47 disparou sua rajada para cima. As balas de borracha atingiram os cilindros que sustentavam a bandeira norte-americana estendida acima de suas cabeças, fazendo-a despencar velozmente em efeito pêndulo na direção deles.
— MELANIE, ABAIXA! — Levi berrou a plenos pulmões e a mulher o fez no último segundo.
Melanie sentiu a bandeira passar a centímetros da sua cabeça, cortando o ar, e viu o noivo não abaixar a tempo, sendo atingido pelo cilindro.
O impacto foi suficiente para fazê-lo ser arremessado para a borda do andar, que tinha apenas uma amurada feita de barras de ferro como proteção. Levi rolou através da amurada, seguido pelos gritos engasgados de Melanie. O homem ainda tentou agarrar-se na bandeira, agora pendurada por um único cilindro.
Melanie levantou, atordoada, correndo para a borda e olhando para baixo. Levi segurava o tecido azul, vermelho e branco; o olhar apavorado na direção dela.
— Segura! — Ela berrou, estendendo a mão.
Longe demais para ser alcançada.
— Não dá! — Ele respondeu.
Contudo, com seu peso, o tecido da bandeira rasgou e Levi não teve mais onde segurar, entrando em queda livre. Eram dez metros até lá embaixo, mas o assessor nunca chegou ao piso.
Levi despencou na vertical, direto na estátua do soldado que enfeitava o térreo. A lança do militar atravessou violentamente seu corpo, adentrando na virilha e saindo em suas costas, algum pedaço de órgão pendendo em sua ponta. O terno rasgado era banhado pela quantidade absurda de sangue que vazava das aberturas. Ele cuspiu mais sangue e seu corpo deu espasmos, antes de parar.
O som molhado aterrorizaria Melanie para sempre, e vendo os seguranças entrarem no recinto, ela soltou um grito agonizante. O qual seria ouvido por qualquer pessoa à quilômetros de distância.
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