Deathlines

2 Capítulo 01: Adrift (Parte II)


Notas iniciais
Capítulo contendo as introduções dos personagens e o acidente inicial. Escrito por todos os escritores.

Pisar em Nova Orleans era diferente de ver a cidade apenas por fotos. A sensação não poderia ser descrita nem se Mina quisesse. Notou a mudança brusca assim que ela e o grupo chegaram até a fachada do hotel em que ficariam hospedados por uma semana. O Hotel Andorras ficava bem localizado no centro, uma construção colonial que parecia ter passado por inúmeras reformas, sem perder o charme tradicional. Três andares elegantes, com varandas brancas adornadas de detalhes e aroma de flores.

Mina amarrou o cabelo tingido de loiro em um rabo de cavalo, pegou suas malas e recolheu Cho que dormia no banco do carro de Trent. Ela já tinha informações de que o estabelecimento aceitava bichinhos, contanto que fossem de pequeno porte, o que era o caso. Ela não queria deixá-la sem sua companhia em casa, por mais que ficasse sob os cuidados atenciosos de sua avó materna, também coreana. Então, rumou para dentro do hotel junto de Sky, que comia uma barrinha de cereal.

Antes que pudessem ultrapassar a porta, uma pessoa surgiu de repente ao lado das duas, erguendo as mãos. Sky deu um pulinho, quase cuspindo todo seu nutriente.

O indivíduo usava uma máscara de caveira de gesso repleta de enfeites coloridos ao redor e uma fantasia brilhante, e logo saiu saltitando pela rua, seguindo caminho ao lado de mais uma porção de outras pessoas vestidas da mesma forma.

Sky recuperou o fôlego e caiu na risada.

— Isso foi assustador... — Comentou, encarando o semblante encantado da oriental.

— Nem um pouco. — Mina respondeu ao entrar no estabelecimento, um sorriso brotando dos lábios. — Só não estamos acostumadas a ver tanta gente fantasiada essa hora da manhã. Eles começam os preparativos muito cedo. Veja quantas pessoas já estão se preparando!

Sky deu uma breve olhada por cima dos ombros e concordou. Contudo, as duas garotas dirigiram-se até o balcão da recepção para fazerem o check-in. A Sra. Grace, mãe de Sky, havia sido muito gentil fornecendo a estadia — que Mina sabia ser cara — para todos os amigos da filha. Sem aquele presente, eles teriam se hospedado em um Hostel qualquer no máximo.

As próximas horas seriam bastante agitadas e o grupo já tivera indícios para acreditar nisso. Um dos vários motivos que os levaram até Nova Orleans era experimentar, pela primeira vez, o que chamavam de “a maior festa gratuita da Terra”. O Mardi Gras era um evento tradicional que acontecia todos os anos, reunindo pessoas de todas as partes do mundo e levando-as às ruas. Exemplares exóticos de fantasias coloridas, carros alegóricos, bandas e comidas típicas da região eram só a ponta do iceberg do que o Mardi Gras poderia oferecer aos moradores locais e turistas que decidissem desfrutar de um dia regado de festejo e diversão.

Tema: The House of The Rising Sun

Mina estava animada pelos dias que viriam, assim como Sky, embora os motivos de sua amiga fossem completamente diferentes.

Ao fundo, uma música em volume ambiente tocava pelo hall:

There is a house in New Orleans

They call The Rising Sun

And it's been the ruin of many other poor boys

And God, I know, I'm one

A jovem oriental sempre ouvira falar das lendas que cercavam a cidade e da forte influência espiritual e esotérica ali existente, de modo que fora atraída imediatamente pela ideia da viagem. Mina Song era apaixonada pelo desconhecido, assim como o mórbido e tudo aquilo que ele representava. Gostava da dualidade de seus gostos indo de encontro a uma confusão causada pela sua aparência meiga e ligeiramente frágil.

My mother was a tailor

She sewed my new blue jeans

My father was a gamblin' man

Down in New Orleans

Esse apetite insaciável pelo mórbido levou-a a buscar desvendar a psicopatologia através do curso de Ciência Forense e Criminalística na faculdade. Um de seus maiores sonhos era poder entender a mente de serial killers e ajudar a capturá-los. Inclusive, era um hábito de Mina carregar alguns livros sobre temas pertinentes de criminalistas famosos para onde quer que fosse.

Foi colocando-os sobre o criado-mudo que ela terminou de desfazer boa parte da mala. Jogou-se na cama do quarto que escolhera dividir com Kara e encarou o teto. Segundos depois, sentiu Cho pular sobre ela e lamber seu queixo.

— Pelo visto, essa bola de pêlos também está eufórica. — E apertou-a contra suas bochechas.

Kara ergueu o celular para tirar uma selfie de frente à janela e inclinou-se para ver a movimentação lá embaixo. Os foliões começavam a encher as ruas e ela poderia enxergar um carro alegórico sendo trazido no horizonte.

— Eu conheço essa cara. — Mina comentou, sentando na cama. — Passamos por uma loja de fantasias subindo a rua. Quer dar um pulinho lá?

De repente, Kara recebeu uma notificação e acabou ignorando o comentário da amiga. Rolou os olhos pela mensagem, sentindo seu coração acelerar. Tratava-se de um convite do homem que mexia com todos os seus sentidos, para se encontrarem na manhã seguinte. Os olhos da influencer brilharam à luz do sol.

— Terra chamando Kara? — Mina despertou-a dos pensamentos com um estalar de dedos, mas ela ainda parecia distante. — O que deu em você, hein?

— Ele está aqui, amiga. O Garrett está em NOLA e quer me encontrar amanhã.

XXXXX

Volta e meia Anisah pegava-se encarando as instruções contidas no email enviado a ela. Seu trabalho era simplesmente entrar no servidor de uma Companhia de Seguros e realizar algumas transferências bancárias sem que deixasse rastros no sistema. Ela tinha ciência da pessoa por trás do remetente. Ou melhor, das pessoas. E não faria perguntas, porque no fundo, não estava interessada nas respostas.

Era um universo perigoso e saber mais do que devia significava lidar com mais problemas. A hacker queria se manter na zona segura.

— Ani, me dá sua opinião. — A voz de Tess tirou-a dos pensamentos.

Anisah fechou o computador desajeitada e apressadamente, virando-se na direção da namorada, com um sorriso forçado. Adiantou-se:

— Estava dando uma olhada no Google Maps, nos pontos turísticos mais acessíveis.

— Legal. — Tess também sorriu. — O que acha dessa roupa? Extravagante demais? Quero entrar no clima do festival.

A indiana estava dentro de uma cropped com lantejoulas e uma saia longa colorida. No cabelo de mechas azuis, uma pequena presilha. Ela deu uma voltinha e parou em uma pose engraçada. Anisah riu e concordou.

— Se não te conhecesse, diria que é uma verdadeira foliã do Mardi Gras. Mas definitivamente eu não usaria. — Comentou.

— Você é muito sem graça pra usar uma dessas.

Anisah deu de ombros. Talvez fosse verdade.

— Seu celular. — Tess avisou, sentando na cama para calçar as sandálias.

Só então, Anisah reparou nas notificações do seu smartphone. Esticou-se para pegar o aparelho e conferiu as mensagens.

— É a Kara... — Suspirou. — Ela e os outros já estão prontos e nos esperando em um bar aqui próximo. Precisamos mesmo ir?

— O que acha que viemos fazer aqui? — Tess olhou-a chocada, quebrando em um riso em seguida. Não seja boba, amor, eu espero você se aprontar.

— Ué, estou pronta! — Rebateu, encarando a própria jaqueta de couro.

Tess franziu. Aquela era, sem dúvidas, a Anisah que conhecia.

Alguns minutos se passaram. Ainda que do hall do hotel, a dupla conseguira ver a aglomeração de pessoas indo e vindo, enfiadas dentro de fantasias de todos os tipos. Máscaras, acessórios ou qualquer coisa colorida e brilhante que pudesse chamar atenção no meio na multidão.

A partir da porta, uma mistura de música, vozes e gritos animados enchiam o ambiente. E elas também passaram a fazer parte da mesma multidão, desviando dos foliões e dos grandes enfeites espalhados pelas calçadas. Enfrentando caminhos estreitos, não demoraram para chegarem até o estabelecimento combinado, que ficava localizado no final da rua.

Tema: A-YO

O East Rivers Bar & Restaurante estava lotado, não só de pessoas comuns, como também de participantes do evento. Cem por cento das mesas e cadeiras permaneciam ocupadas, algumas pessoas de pé com bebidas em mãos, o balcão do bar abarrotado de clientes tentando conseguir ter seus pedidos atendidos e um salão de jogos extremamente barulhento. Anisah logo localizou seus amigos e segurou Tess pela mão, guiando-a entre as mesas.

As duas foram recepcionadas por Mina, Sky e Trent. As garotas estavam cobertas de adereços e penduricalhos, como mandava o figurino do festejo anual, enquanto o rapaz parecia ter sido obrigado a usar a máscara de gesso pendurada em seu pescoço. Para Anisah, o olhar de desespero de Trent só confirmava sua suposição.

— Vocês estão ótimos. — Ela disse, apontando para os trajes e segurando o riso.

— Estão com sede? — Sky perguntou, recebendo um aceno negativo da ruiva.

— Eu sim! — Disparou Tess, decidida a aproveitar. — Vamos até o bar.

E de mãos dadas, saíram dali. Por alguns segundos, Anisah e Trent se entreolharam um pouco perdidos e deslocados. De algum modo, eles entendiam os gestos desconfortáveis um do outro.

— Que tal jogar alguma coisa? — Mina sugeriu. — Sou péssima de sinuca, mas posso tentar.

A oriental empurrou levemente os ombros de Trent para perto das sinucas do salão de jogos. Anisah veio junto e fez uma careta quando avistou Kara debruçada sobre uma das sinucas, soltando gritinhos animados. Ela apontava o celular para Cael, do outro lado da mesa. O rapaz negro de porte atlético fazia uma jogada qualquer.

O taco atingiu a bola, que atingiu outra, que caiu diretamente na caçapa. Cael fez uma pose de vitorioso para a câmera e caçoou do seu oponente.

— Você nunca pegou em um taco e acertou assim de primeira. — Disse o homem loiro e barbudo que disputava a partida. — Sorte de principiante.

— Quem disse que nunca peguei em um taco? — Cael replicou, lançando um olhar sugestivo para Trent, que havia acabado de chegar e já não sabia onde meter as bochechas vermelhas.

O desconhecido pareceu ter entendido e piscou para o garoto, que encolheu os ombros.

— Quer jogar, bonitão?

— Vou passar essa, obrigado.

Trent apressou-se em ir até Kara e sussurrar em seu ouvido:

— Vocês tão bêbados? E quem é esse?

— É um cara que a gente acabou de conhecer. — Ela continuou gravando o jogo, sorrindo maliciosamente. — Ele não revelou o nome ainda, mas gostei. Tem uma vibe de cowboy alternativo e mendigo gourmet que chama atenção, sabe?

— Sério, qual o problema de vocês? — O garoto riu espantado.

— E ele não está só. Aquele cara que não tira os olhos da Anisah veio com ele. — Kara meneou a cabeça para a outra extremidade da mesa de sinuca e deu um aceno para o outro rapaz.

Ele também era loiro e tinha o cabelo um pouco mais comprido. O olhar melancólico dizia muito do seu comportamento menos atirado. O que não o impediu de encarar Anisah novamente e fazê-la perder a paciência.

— Perdeu alguma coisa em mim?

— Desculpa, não queria soar pervertido. Você só me lembrou alguém importante pra mim. — Tentando se retratar, estendeu a mão. — Meu nome é Jimmy e desculpem meu amigo também, ele não costuma dizer o nome de primeira.

A garota suspirou, incerta do que dizer e achando tudo uma baboseira. Retrucou:

— Tudo bem… Jimmy. Satisfação aí. Só não me olha mais dessa forma, é estranho pra caralho.

Ele riu, levando a situação constrangedora com leveza.

— Ok. Agora, que todos foram definitivamente apresentados, vamos curtir, pessoal! — Kara concluiu.

A influencer pulou no ombro de Trent, balançando os quadris e arrancando dele um sorriso. Neste momento, Sky e Tess retornaram e a segunda depositou um beijo rápido na namorada, enquanto Jimmy acompanhava a cena de maneira nostálgica.

— Então, vocês vão para o Big Natchez quando saírem daqui? — Sky indagou ao grupo, referindo-se ao famoso píer. — Soube que vários foliões vão pra lá pra ver o pôr-do-sol.

— Se o Mardi Gras vai até lá, nós também vamos! — Kara ergueu seu copo e viu as garotas fazerem o mesmo. Todos concordaram em uníssono.

XXXXX

— Isso foi… Caliente. — Angelita fez uma pausa para arfar e sentiu as gotas de suor deslizarem entre seus seios. Encarou o teto e passou a mão na testa ensopada. — Mas você tem que ir agora.

A mulher surpreendeu seu acompanhante no instante em que levantou da cama num ímpeto, trazendo todo o cobertor consigo e envolvendo-o ao redor do corpo. Encarou o homem mais uma vez e contou mentalmente até cinco. Diante da indiferença dele, berrou:

— O que tá esperando?!

— Mais gentileza da sua parte, ora. — Ele respondeu, o sarcasmo triunfando em seu rosto.

Ainda nu, levantou da cama e caminhou até o telefone displicentemente.

— Alô, é do serviço de quarto? Uma porção de croissants e costelinha para a Suíte Master, por favor. Ah! E um vinho branco pra acompanhar. Não demorem. Obrigado. — E desligou.

Angelita encarou a cena estagnada, mas sentiu o sangue ferver pela petulância.

— Você não fez isso, Daniel! — Cerrou os dentes e catou do chão a primeira peça de roupa que encontrou. A calça do homem voou em seu rosto. — Se veste e cai fora da minha suíte! Ou melhor, do meu hotel!

Parecendo conformado, o acompanhante bronzeado e de corpo definido começou a se vestir. Apesar do seu olhar cafajeste pairando a todo momento sobre ela, Angelita estava irredutível.

— Ao menos, ainda lembra do meu nome.

— Nomes comuns como o seu são fáceis de decorar. Tem um Daniel em cada esquina. Agora, se me der licença, o estamos patrocinando o Mardi Gras esse ano e tenho que cuidar dos meus negócios. — Disse ela, pondo de volta a lingerie e procurando seu vestido caríssimo entre as demais roupas jogadas pelo chão. — Cadê essa porcaria?

— Você mesma disse que nem se importa com os negócios da família. — Assim que ouviu-o dizer, Angelita notou que ele segurava seu vestido. — Está procurando por isso?

— Me dá isso! Eu estava sob efeito de álcool, poderia ter dito qualquer coisa pra sentar em você. — Ela puxou a vestimenta, bufando. — E me ajuda com o zíper.

Daniel sorriu e com o dedo no fecho do zíper, comentou:

— É bom ver que não é mandona só na cama.

— O QUE DIABOS AINDA FAZ AQUI? — Começou a empurrá-lo na direção da porta.

— Deixei meu número no seu celular, caso queira repetir a dose, ok?

— Vai ver se eu tô no inferno! — Ela bateu a porta com força. Já recostada na porta, deslizou até o chão de maneira dramática. — Santa Madrezita de Guadalupe, que hombre gostoso! — E abanou o rosto com a mão.

De fato, Angelita Maria Andorras não se importava com os negócios de família. Apesar de vir de uma linhagem multibilionária, donos de uma rede hoteleira espalhada não apenas nas terras do Tio Sam, como em algumas localidades específicas do México, ela não possuía o mínimo apego ao que herdara de seus pais. Inclusive, o Hotel Andorras de Nova Orleans era uma das menores propriedades da família. Filha de mexicanos legítimos, viveu a vida toda embaixo de suas asas e aproveitando de toda a regalia que poderia ter.

A socialite era extremamente vaidosa. Suas feições latinas contrastavam com sua pele clara, olhos grandes, boca carnuda, corpo esbelto e cabelos longos e negros que o até a cintura. Também não dava a mínima às críticas que faziam quanto à sua personalidade ou atitudes. Paris Hilton era fichinha perto do que Angelita Andorras poderia fazer com seu dinheiro e dos motivos pelos quais já estampara a primeira página de jornais ou as principais matérias de tablóides ao redor do mundo.

Começou na mídia ainda pequena, aparecendo em algumas novelas mexicanas. Em seguida, na adolescência, fez comerciais de tevê para marcas de perfume e produtos de cabelo. E com a fase adulta chegando, parecia ter decidido dar um tempo para seu rosto descansar. Errado. Sua entrada em um reality show adulto, o Georgie Shore Acapulco, trouxe novas polêmicas à tona, reacendendo sua imagem e fazendo-a ficar mais reconhecida pela participação no reality do que pelo próprio legado dos Andorras.

Os ciclos midiáticos se repetiam a cada ano e “Lita”, como era chamada a queridinha mexicana dos holofotes, ainda esperava por um acontecimento que pudesse transformar sua vida.

Os pensamentos foram interrompidos por batidas na porta. Angelita estava pronta para sair, os enormes brincos de brilhantes chacoalhando.

— Quem é?

— Serviço de quarto, senhora.

— Senhorita! Arg! — Rosnou, abrindo a porta. — Ah, não… Você de novo?

Daniel estava parado no corredor, segurando o carrinho do serviço de quarto com a comida que pedira e um maldito belo sorriso.

— Convenci o funcionário a trazer o carrinho até aqui. Pensei que pudéssemos comer juntos e quem sabe, você me contar mais sobre… Você.

— Já estava de saída. Passe mais tarde.

— Vai perder a oportunidade de receber um croissant na boca? — A mistura de olhar safado e pidão fez a socialite engolir em seco, hiperventilando.

Até que resolveu lhe dar uma chance. Relaxou os ombros, jogou os cabelos e refez sua postura fina.

— Estou indo até o píer, se quiser me seguir... Finja que é um paparazzi e leve os croissants, posso ter fome.

Angelita acenou com os dedos de unhas grandes e vermelhas, desfilando no corredor como se não o conhecesse. Antes de chamar o elevador, deu uma olhada por cima dos ombros.

Sorriu.

XXXXX

Daniel estava encostado na borda do parapeito da entrada do píer Big Natchez, enquanto observava a multidão fantasiada passar em sua frente. Jovens bêbados, inconsequentes, dispostos a ter o melhor dia de suas vidas. Afinal era tudo o que os presentes naquele carnaval queriam.

Naquele mesmo momento, um barulho distante vindo de um navio que estava atracado em um porto próximo chamou a sua atenção, enquanto bebia mais uma garrafa de cerveja.

Honestamente, ele já tinha perdido as contas de quanto havia bebido.

Enquanto estava parado ali, percebia que muitos rapazes e moças o encaravam com certa malícia nos olhos. Algumas vezes, como foi no caso daquele cara que, segundo ele mesmo, parecia um “político almofadinha”, parecia um olhar de julgamento.

Falem bem ou mal, o importante é que falem de mim.

No fundo, Daniel Fonseca adorava ser notado, mesmo que os outros não percebessem isso.

Antes de ter sua vida virada do avesso há seis anos atrás, Daniel sempre tinha sido um zero a esquerda, mais um rosto perdido na multidão. Entretanto, o destino o colocou em todas as capas de revistas e jornais depois de se tornar o único sobrevivente de uma série de ataques de um serial killer. Especulações surgiram de todos os lados e chegaram até mesmo afirmações de que Daniel era o assassino, mas o próprio foi a público para desmentir as acusações.

De um dia para outro, Daniel Fonseca havia se tornado o principal rosto do Brasil.

O tempo passou e Daniel decidiu investir na sua carreira de modelo, obtendo ainda mais sucesso. Apareceu em vários outdoors espalhados por metrópoles ao redor do mundo, desfilou em alguns dos maiores salões de moda. Daniel havia conquistado não só o Brasil, mas o mundo inteiro.

E ele amava isso. Depois daquele incidente, o rapaz descobriu que adorava ser o foco, ser fotografado, ser entrevistado, estar na capa de todas as revistas. Mas como se duas personalidades brigassem dentro de si, por um outro lado ele sentia que tudo isso era porque tinha medo de ser esquecido.

Por muito tempo Daniel foi rejeitado e apagado, então nunca largaria a oportunidade de ser amado e lembrado por todos ao seu redor. Mesmo que as pessoas não conhecessem o seu verdadeiro eu, escondido sob camadas de flashes e escândalos.

— Olá de volta, queridinho! — Angelita surgiu vindo do lado oposto do pier. — Está gostando ou preferia ter ficado no hotel?

— É... Até que está dando pro gasto. — Daniel falou. — Isso parece muito com o Carnaval do Rio.

— Nunca fui, mas morro de vontade. — Angelita respondeu o rapaz. — Dizem que o país para nesses dias, né?

— Você não faz ideia, Lita. Como eu sou do Rio, ia todos os anos, e você precisa ver… As pessoas se transformam lá, literalmente.

Angelita jogou o cabelo para o lado e então falou:

— Literalmente como? Elas viram Pokémons por acaso?

— Pior. — Daniel falou, chamando Angelita para mais perto. — Elas até deixam de ser “heteras”.

Angelita deu um pulo para trás, rindo.

— Não me diga…

— Então não vou te dizer nada. Mas é tudo no sigilo, então…

— Meu Deus, Daniel! Você não presta mesmo. — Angelita falou, enquanto bebia um pouco da garrafa de cerveja do rapaz. — Credo, já tá quente!

— Eu vi gente vendendo mais na frente do píer. Tá a fim de andar um pouco?

Angelita meneou com a cabeça e olhou ao redor, antes de se virar para Daniel novamente.

— Vamos lá então. Só toma cuidado com os paparazzi no meio do caminho. Eles são insuportáveis às vezes.

Entretanto, quando Angelita falou a palavra mágica, a mente de Daniel já estava longe lembrando de Bruno. Os dois haviam se conhecido no Carnaval do Rio do ano passado e entre as idas e vindas do destino (e da bebida), acabaram ficando, apesar de Bruno continuar afirmando que era heterossexual. Com o passar do tempo, aquilo acabou virando uma amizade mas infelizmente já aziam uns dois meses que eles não se falavam.

Apesar da alta probabilidade de se esquecer disso no dia seguinte, Daniel prometeu a si mesmo que retomaria o contato com Bruno ainda naquele dia.

XXXXX

As ondas produzidas no lago estavam tranquilas, chocando-se contra os pilares de madeira que seguravam o píer Big Natchez. Ele era relativamente largo e longo, estendendo-se cerca de quinhentos metros para dentro das águas. No extremo oposto da entrada havia um local de embarque de barcos de menor porte, enquanto por toda a sua extensão pessoas caminhavam despreocupadamente. O sol estava se despedindo, e enquanto parecia que uma chuva cairia em breve, o Mardi Gras estava sendo um grande evento como de costume.

Sentindo os seus cabelos negros balançados pela brisa, Trent estava com os braços apoiados no parapeito observando o pôr-do-sol enquanto fumava um cigarro, completamente distraído. Observava um navio de cruzeiro tentando sair do porto da cidade.

Finalmente estava em Nova Orleans, a famigerada cidade que mudou sua vida, embora poucas pessoas soubessem disso. A ligação estreita que o rapaz tinha com aquela cidade era sobrenatural, por motivos que ele mesmo demorou a entender. Mas ali estava, a cidade que segundo a música era a ruína de muitos pobres garotos. Porém, Trent sabia que não era um deles.

Repentinamente, Sky apareceu ao seu lado, também encostando na amurada.

— Eu já não te disse pra parar de fumar, Trent?

A garota estava repleta de adereços, mas o que mais chamava a atenção nela eram os vários colares de beads que ela havia conseguido. Os tais beads eram na realidade colares de miçangas coloridas, um dos símbolos do Mardi Gras.

— Já disse que vou parar, Sky. — Trent falou, se virando para a garota, enquanto a luz do sol fazia o seu rosto cheio de glitter brilhar.

— Sei… Você sabe que isso é só preocupação né? Eu não quero ver-

— Nenhum de nós morrer cedo. Eu sei, cisne negro, fica tranquila. Nós ainda teremos uma vida inteira pela frente, mas se não aproveitarmos o tempo que temos agora…

— Ótima desculpa, mas não me convenceu.

Trent riu, e então falou:

— Aí já não posso fazer nada.

No mesmo momento, ambos sentiram o vento aumentar um pouco, fazendo os dreads de Sky balançarem. Repentinamente, um pássaro pousou na beirada, chamando a atenção de Trent. Era um corvo, que olhava fixamente para o garoto, fazendo ele ter um arrepio e olhar para uma tatuagem que tinha no antebraço, que era exatamente um pássaro alçando voo.

Depois de alguns segundos, o corvo voou novamente, mas dessa vez pra cima de Trent que instintivamente bateu os braços afastando-o.

— O que você tá fazendo, Trent? — Sky perguntou intrigada. A atitude de Trent havia assustado a garota, que estava distraída mexendo na casca de um pequeno machucado no braço.

— Você não viu aquele corvo voando pra cima de mim? — Trent perguntou, depois se virando na direção do céu onde nada podia ser visto. Sentiu um arrepio passar pelo corpo.

— Trent, eu não vi nada. — Sky respondeu assustada.

XXXXX

Enquanto caminhava pelo píer com as amigas, Trent ainda se lembrava daquele momento com o corvo. Será que foi minha cabeça? Eu devo ter bebido muito...

— Onde a Anisah foi? — Sky perguntou.

— Ela disse que ia parar para comprar cachorro-quente ali atrás. — Mina respondeu e depois completou: — Falou que não ia beber, e no fim, exagerou na dose.

— Assim que é bom. — Kara falou, rindo.

— A minha sorte é que não sou eu quem está dividindo quarto com ela. — Mina comentou.

— Falando em dividir quarto… E a Tess? — Sky perguntou.

— Ela achou um lugar pra fumar com o Cael escondido. — Kara comentou. — Só não deixem a Anisah saber disso, disfarcem o máximo que puderem. Se ela souber, corta a cabeça da Tess.

— Minha boca é um túmulo. — Mina falou.

— A minha também. — Sky concordou.

— E você Trent?

— Eu? — O jovem falou. — Eu namorei o Cael por quase dois anos. Se eu ligasse pra maconha, já tinha reclamado com ele.

Alguns segundos depois, uma voz pôde ser ouvida pelo píer.

— Espera aí! — Anisah gritava, enquanto carregava o cachorro-quente nas mãos.

Os quatro pararam, rindo da cena, ao passo que esperavam a garota. Assim que a descendente de iranianos chegou, disse:

— Onde que tá minha namorada?

— Ela disse que ia no banheiro, mas logo voltaria. — Kara mentiu. A princípio o grupo ficou preocupado que Anisah desconfiasse, mas aí a garota simplesmente deu de ombros.

— Poxa, nem pra me falar nada. Mas tudo bem.

— Kara, não olha agora mas aquele cara do bar tá de olho em você. — Sky falou, discretamente, referindo-se a Taylor e Jimmy, que estavam à direita do grupo.

— Você tá brincando comigo. Sério? — Kara respondeu, exibindo certa excitação nos olhos, enquanto mexia nas mechas rosas do seu cabelo.

— Eu ia. — Trent comentou. — Olha o tamanho da bunda daquele homem, é enorme!

— Eu ainda prefiro o outro. Achei o amigo dele um fofo. — Mina falou.

— Não acredito que vocês tão falando de macho de novo. — Anisah disse, revirando os olhos.

De repente um grande som de buzina de navio preencheu o ar, fazendo todos taparem os ouvidos. Trent, que estava virado para a direção onde Taylor e Jimmy estavam, conseguiu ver que o segundo, desorientado pelo som, acabou tropeçando em uma madeira que aparentava não estar fixa.

— Toma cuidado, Jimmy! — Taylor falou, puxando o amigo. — Esse píer não deve ser tão seguro.

Distraídos, o grupo nem percebeu que um grupo de homens bem vestidos chegavam. Percebendo que bloqueavam a passagem, Levi Sunderland falou de forma educada, embora já estivesse passando no meio do grupo:

— Com licença, moças.

Assim que Levi passou, Trent percebeu que ele ia na direção do fim do píer, onde podia ser visto um barco logo na frente dele.

E próximo do barco, estava o responsável pelo som. O grande navio de cruzeiro tinha saído do porto, mas parecia se aproximar perigosamente do píer.

— Vocês não acham que ele está muito perto? — Mina perguntou, apontando para o navio.

— Relaxa, amiga, não vai acontecer nada. — Kara falou, mas existia alguma dúvida em seu olhar.

— Eu não tô me sentindo muito bem… — Trent falou, olhando ao redor. Ao olhar na direção que ia para a terra firme, conseguiu ver o que parecia ser um casal alheio a tudo, com algumas garrafas de cerveja nas mãos um pouco atrás. Subitamente, sentiu um estranho tremor sob seus pés, fazendo alguns beads escorregarem pelo chão de madeira.

— São as ondas? — Sky perguntou. — O vento está bem forte.

— Eu preciso procurar a Tess. — Anisah falou. — Espera, onde está o Cael?

Foi quando um folheto voou por entre os pés do grupo. Trent foi o primeiro a perceber e pegou o papel, lendo-o em seguida e percebendo que era sobre a prevenção ao suicídio.

Entretanto, a frase inicial provocou um súbito arrepio no seu corpo.

Nem sempre a morte é o melhor destino. Ligue 1-800-273-8255, valorize a sua vida!

— Meninas, pode ser coisa da minha cabeça mas...

No meio da multidão, alguém gritou. Trent percebeu que as pessoas mais próximas da borda começavam a correr diante da iminência do choque com o gigante marítimo que se aproximava cada vez mais de ré.

Completamente fora de rumo.

XXXXX

As ondas do lago aumentaram com o cruzeiro estando em rota de colisão com o píer, enquanto as pessoas que estavam no Big Natchez já corriam desesperadas, percebendo o que estava prestes a acontecer. Inclusive o grupo composto por Trent e suas amigas, que começaram a correr aflitos conforme o navio desgovernado se aproximava.

Como o píer estava relativamente cheio, se tornou fácil se perder no meio da confusão.

— Segura minha mão! — Trent gritou, enquanto Mina agarrava a mão do jovem que assumiu a dianteira. A mente de Trent já estava a mil por hora, e enquanto só pensava em escapar com as meninas, a imagem de Cael vinha constantemente em sua mente. Onde ele estaria?

Kara correu para agarrar a mão de Mina, fazendo assim um cordão humano, sendo seguida por Anisah, que com a confusão havia derrubado o hotdog, e Sky por último, ambas correndo angustiadas. A iraniana olhou para trás a tempo de ver o navio se aproximando cada vez mais do barco até o ponto de finalmente se chocar, estraçalhando um dos lados do mesmo e jogando a embarcação contra os pilares de sustentação do píer.

O momento de distração acabou custando caro. Na correria do momento, Levi Sunderland também se encontrava desesperado junto com os outros políticos. Quando se deparou com o cordão logo na sua frente e todos os outros lados bloqueados, os homens de terno não hesitaram em empurrar Anisah, separando o grupo. Ao perceber que uma brecha havia se aberto, Levi correu junto deles, deixando as meninas para trás.

Quando Kara percebeu o que aconteceu, virou-se e começou a procurar as duas amigas na multidão, junto de Mina e Trent, os três completamente apavorados.

— Meu Deus, onde elas estão? — A garota de cabelo colorido falou apreensiva.

— Ali! — Mina apontou para um lado, em que podia ver Sky e Anisah completamente perdidas na multidão com Jimmy e Taylor correndo logo atrás. O impulso de Trent foi levantar o braço para que as meninas os achassem. No mesmo momento, Sky viu Trent e um sorriso se abriu em seu rosto.

— Ali, Anisah!

— Meu Deus, o barco! — Mina gritou no mesmo instante que a embarcação chocou-se contra o píer de madeira, esmagado entre o cruzeiro e a passarela.

Com o impacto, vários pedaços de madeira saíram voando e atingindo a multidão. Um dos destroços, uma grande ponta afiada de madeira voou exatamente na direção de Sky, e Trent assistiu em horror o pedaço de madeira entrar na parte traseira de sua cabeça, atravessando-a com brutalidade e molhando o rosto de Anisah com sangue fresco.

A única reação que a garota teve foi gritar.

— SKY! — Kara berrou ao lado de Trent, que ainda olhava anestesiado a cena. Mas o tempo de luto não durou muito, até o momento em que sentiram o chão tremer.

O casal de latinos já estava mais à frente, mas assistiam tudo horrorizados. No instante em que a destruição começou ainda bebiam despreocupadamente, mas agora na corrida que faziam, Daniel xingou-se mentalmente por conta do seu vício desmedido. O rapaz tentava se manter em pé mas a bebida fazia-o correr de forma errática e quando finalmente caiu, sentiu todas as garrafas de cerveja que carregava se estilhaçando e os cacos escorregando no chão do píer. Felizmente, escapou sem ferimentos enquanto Angelita corria em seu socorro.

No mesmo instante, sentiram o píer tremer. Devido ao impacto do barco contra os pilares de madeira, parte da sustentação se rompeu, fazendo a estrutura começar a desabar e arrastar as pessoas na direção do navio de cruzeiro. Já o mastro do barco menor que ainda estava intacto era empurrado para dentro dos pilares do píer, desestruturando-o.

Entre os que caíram estavam Jimmy e Anisah, que foram ajudados por Taylor a se levantarem. Já Levi não teve a mesma sorte. Com o tremor, o homem caiu exatamente de cara nos cacos das garrafas de cerveja de Daniel, que haviam escorregado.

O urro de dor que Levi soltou poderia ter sido ouvido de longe, não fosse ele estar sendo pisoteado pela multidão que corria desesperada. Levi sentia todos os seus ossos sendo quebrados, uma dor lancinante o perpassar por completo, enquanto as pessoas corriam sem pena nenhuma sobre ele, somente querendo salvar as próprias peles. Não havia compaixão contra os que já estavam subjugados no chão do píer.

Como se fosse um golpe de piedade, algum folião acabou chutando a cabeça do assessor, permitindo que os cacos de vidro perfurassem seu crânio. Mas no momento que estes entraram no corpo do rapaz, ele já tinha expirado.

Mina, Kara e Trent corriam entre os corpos já espalhados pelo píer, enquanto Jimmy, Taylor e Anisah vinham atrás e mais próximos de serem engolidos pelo cruzeiro. A estrutura do píer já mostrava ser extremamente frágil e qualquer passo em falso poderia ser fatal.

Ao perceber que ela e os rapazes estavam ficando para trás, a iraniana gritou:

— Esperem por nós!

O primeiro grupo virou-se na direção dos três, observando a face de Anisah envolta em terror e com algumas gotículas do sangue de Sky, enquanto Jimmy e Taylor corriam logo atrás. Foi tão rápido que ninguém sequer percebeu.

Anisah corria rapidamente, até o momento em que simplesmente foi tragada para baixo, quase levando Jimmy junto. O rapaz parou bruscamente, também assustando Taylor por conta da parada. Algumas madeiras do píer acabaram cedendo devido ao impacto dos destroços do barco, justamente no trecho onde Anisah estava, fazendo a garota ser levada junto.

Contudo ela nunca atingiu o lago. Anisah caiu na direção de um dos pilares de sustentação completamente destruídos, fazendo-a ser empalada verticalmente. O tronco acabou saindo pelo pescoço da garota, degolando-a e fazendo sua cabeça ficar pendurada no pescoço somente pela cartilagem.

Tudo isso sendo assistido de cima pelo grupo restante, especialmente Jimmy, que ficou em choque com a cena.

— Me dá a mão! — Trent falou, surgindo do outro lado do buraco que tinha sido aberto.

Jimmy ainda tremia diante do que tinha visto, até que Taylor, ao observar como o navio estava próximo, gritou:

— VAI LOGO JIMMY!

O loiro finalmente acordou e com a ajuda de Trent, conseguiu pular a falha aberta, correndo para ficar no parapeito de madeira esperando Taylor.

Já a situação para o outro estava mais difícil. Taylor deu a mão para Trent, que puxou o homem com força para o lado seguro do píer, momentos antes do mastro começar a se chocar contra o pedaço onde ele estava.

Um som de madeira sendo quebrado foi ouvido no mesmo instante. O grupo se entreolhou até que Taylor gritou, mas já era tarde demais.

— JIMMY SAI DAÍ!

O parapeito de madeira rachou-se justamente onde o loiro estava, e numa fração de segundo o corpo do rapaz caiu do píer para o lago, fazendo Taylor correr para a borda desesperado.

Pouco depois, o loiro apareceu batendo os braços na água em pura aflição, enquanto tentava manter a cabeça fora da água, sem sucesso. Ele havia sobrevivido à queda mas Taylor sabia que era o fim. O Jimmy não sabe nadar.

Taylor só conseguiu assistir o amigo afundando melancolicamente nas águas do lago, para nunca mais emergir.

Então foi aí que Kara puxou o rapaz. O cruzeiro se aproximava cada vez mais e não havia tempo mais para luto.

O grupo agora era liderado por Kara, seguida de Trent, Taylor e Mina. Os quatro corriam abalados e desviando dos corpos e de vários beads espalhados pelo chão. Até perceberem mais à frente que Angelita tentava levantar Daniel mais uma vez, completamente aflita.

— Levanta, merda! Eu vou te deixar aí!

Nesse momento ela percebeu que o carrinho de cachorro-quente estava parado um pouco adiante dela.

Mais atrás, com a mente completamente focada em escapar dali e em completo estado de alerta, Mina acabou não percebendo os vários colares de beads espalhados pelo chão, escorregando em um deles.

— Mina! — Kara gritou, vendo o que estava prestes a acontecer.

Mina tentou levantar-se, mas acabou escorregando novamente, dessa vez caindo de costas e batendo o crânio com força. A jovem levou a mão até a cabeça, percebendo que ela sangrava, enquanto ouvia os gritos distantes de Kara e Trent. De repente, ela percebeu o chão afundando e logo pensou no mastro do barco que vinha quebrando o píer.

Quando ela finalmente ergueu a cabeça, soltou um berro ao ver o casco do navio logo atrás dela.

O navio continuou seguindo seu percurso de destruição, engolindo o pedaço do píer onde Mina estava e a oriental sentiu seu mundo desabar. Entretanto, ainda no ar, a garota acabou sendo esmagada brutalmente pelo navio que passou por cima do pedaço de madeira onde ela estava, estraçalhando a garota em vários pedaços.

— Mina... — Trent falou de forma melancólica, enquanto observava a oriental ser tragada para baixo do navio. As lágrimas de desespero e medo desciam pelo seu rosto, enquanto via o fim se aproximar cada vez mais.

Trent puxou Kara mais uma vez, os dois tentando correr mais rápido do que o navio, este avançando rapidamente. A garota de cabelo rosa estava desesperada, enquanto chorava copiosamente observando o navio se aproximar. À frente, Taylor sentiu um tremor no píer, no mesmo trecho em que Daniel e Angelita estavam, junto do carrinho de lanches.

O mastro do barco esmagado havia atingido justamente o ponto onde todos estavam, fazendo os pilares de madeira começarem a ceder para trás. Com a força do tremor, Trent, Angelita, Daniel e Kara não conseguiram se segurar e caíram, e quando Trent percebeu, Kara deslizava para a borda do píer.

— KARA!

— TRENT ME AJUDA!

Trent ainda tentou se levantar para correr atrás da garota, mas não foi rápido o bastante. Kara caiu em queda livre justamente na direção do navio e seu corpo, assim como o de Mina, também encontrou o casco da embarcação antes de atingir a água. Com o impacto, a garota foi partida ao meio como se fosse uma boneca antes de ser engolida pelas ondas, que já estavam tingidas de vermelho.

Mais um tremor e Taylor, que já estava próximo do pedaço do píer que ainda não tinha sido atingido pelo mastro, ousou olhar para trás. Quando percebeu que o navio finalmente estava parando depois de tamanho desastre, sentiu uma pontada de esperança no meio do caos.

Esperança essa que já não existia para Trent, principalmente depois de ver Kara morrendo na sua frente sem poder fazer nada. Todas as minhas amigas estão mortas. Mortas. O peso daquela palavra doía em Trent.

Quando finalmente acordou do seu torpor, conseguiu ver Angelita e Daniel tentando correr para a parte que estava estável, sendo que Taylor já estava lá.

Repentinamente, mais alguns pilares cederam e parte do píer cedeu para a direita, fazendo Angelita, Daniel e Trent caírem mais uma vez. O último ainda estava um pouco atrás então conseguiu ver o que aconteceu sem ser atingido.

O carrinho de cachorro-quente virou na direção dos dois, e toda a água quente que ele armazenava caiu na direção do rosto da Angelita que soltou um grito de dor, enquanto sentia o seu rosto sendo queimado. O guarda-sol erguido sobre o carrinho também despencou, apenas para seu gancho de metal prender-se com força na parte de trás da cabeça de Daniel, antes que o carrinho finalmente descesse arrastando os dois para o lago, quebrando o frágil parapeito.

Trent conseguiu ver os dois caindo no meio da água sangrenta com o carrinho em cima deles, logo em seguida. O píer continuava a ceder, e ele se segurava, ainda em choque. Então viu que Taylor ainda estendia a mão para ele.

— Vem, eu te seguro! O navio já parou!

Com cuidado, o rapaz conseguiu se levantar e começou a andar, ao mesmo tempo em que sentia o chão atrás de si ceder. Até o momento em que sentiu o nada. Trent estendeu a mão o máximo que pode, e sentiu a mão de Taylor a tocar, mas não a pegando.

Quando já achou que ia cair, Taylor conseguiu segurar sua mão pela ponta dos seus dedos.

Estava tudo terminado. Ele estava vivo.

No fundo do navio, algo estava impedindo as hélices de funcionarem. Vários pedaços de madeira originários dos pilares de sustentação do barco destruído e do píer haviam se juntado; e a hélice, apesar de grande, estava tendo problemas em quebrar esses pedaços.

Até agora.

A hélice do navio voltou a girar com potência máxima, moendo todos os pedaços de madeira e empurrando o mastro mais um pouco, exatamente no ponto onde os dois estavam.

— SEGURA FIRME! EU VOU TE PUXAR! — Taylor gritou para Trent, que confirmou com a cabeça.

Entretanto, antes que Taylor puxasse o jovem, o mastro destruído atravessou o pilar de madeira que segurava o ponto onde os dois estavam, fazendo tudo ceder. Os dois rapazes caíram em queda livre na direção do lago, mas só um alcançou a água. Nos segundos antes de atingir o lago, Trent pode ver Taylor caindo de cabeça na direção do pilar destruído e uma explosão de sangue logo depois.

Nenhum grito foi ouvido, a morte do rapaz tinha sido instantânea. A única coisa que foi escutada naquele cenário de destruição, foi o corpo decapitado de Taylor caindo na água junto de Trent, ainda vivo.

O jovem sentiu a água ao seu redor, completamente manchada de sangue, queimar as feridas do seu corpo. Estava cansado, estava destruído, seu corpo já não tinha mais forças para lutar, embora ele ainda estivesse segurando a respiração.

Quando abriu os olhos, percebeu o vermelho escuro dançar diante de si, junto com vários corpos mutilados, destruídos, vidas inteiras perdidas por conta de um erro humano. Então a necessidade de respirar veio, e a água entrou com força por suas narinas e boca, queimando tudo por dentro e asfixiando o jovem. Era uma sensação angustiante.

Enquanto se afogava, Trent sentiu que estava sendo puxado para trás juntamente da água ao seu redor, e nos seus últimos lampejos de lucidez olhou na direção de onde a água estava indo. Quando ele viu a hélice do navio ainda funcionando, o seu último grito não veio.

Trent fechou os olhos pela última vez, deixando que a hélice partisse o fio da sua vida.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Não esqueçam de comentar, as reviews são importantes para a continuidade do projeto.