Death or Treat
1 Culpado de Existir
Notas iniciais

Coisas ruins acontecem com boas pessoas. Destroem suas almas e mentes, moldam suas ações e caracteres. O que resta para eles é uma vida infeliz...
...Ou a glória de lapidar seus monstros e os tornar suas armas mais poderosas. Porque, às vezes, seu monstro é seu único amigo verdadeiro.
Ass: O Imitador.
***
Poeira cobre os móveis ao redor da grande mesa de carvalho da sala, mas os oito assassinos não se importam com isso, absorvidos demais pelos papéis em suas mãos. O ar é denso, abafado, e as únicas iluminações vinham das velas laranjas consumidas sobre o tampo, que projetavam sombras instáveis pelas paredes descascadas e a claraboia suja no teto. O ar do ambiente é uma mistura esquisita de cera queimada e de ferro velho, com um toque de algo doce demais para ser vinho rodopiando pelo aposento.
Um ruído grave ecoa entre as paredes, o som parece vir de dentro delas, um zumbido constante, quase elétrico. Nenhum deles fala, mas todos escutam. Quando chegaram, quase simultaneamente, 15 minutos atrás, não trocaram nenhum cumprimento. Apenas adentraram as portas abertas da mansão e seguiram o corredor iluminado pelas velas. Ao longo do caminho, abóboras esculpidas com expressões grotescas iluminavam móveis cobertos por lençóis brancos com caveiras bordadas. Uma delas, a maior de todas e centralizada no topo da escada pela qual não subiram, tinha um relógio preso entre os dentes, marcando exatamente onze e quarenta e nove.
Por um ou outro instante, flashes rápidos de sombras foram captados por suas visões periféricas. Pareciam corpos se movendo ou reflexos distorcidos de si mesmos vistos em espelhos quebrados, mas o vidro devolvia expressões que nenhum deles reconhecia como de si. Por não compartilharem essa informação, apenas entraram na sala e se sentaram nas cadeiras rangentes.
Nove cadeiras. Nove envelopes lacrados com um aviso que parecia tinta vermelha. Ou talvez sangue.
Abrir apenas quando o relógio badalar doze vezes.
— Mais uma regra estúpida. – O Artista quebra o silêncio, jogando-se de qualquer jeito na cadeira.
— Vamos ser bonzinhos, até mandaram carros blindados nos buscar. – A Duquesa Origami senta-se com elegância, cruzando as pernas. – Este suposto jogo...
— Jogo? Não. – Ele dá de ombros, não se importando com sua falta de educação. O olhar que recebe dela gelaria até mesmo a alma mais corajosa entre os vivos. – Death or Treat é como o último ato de uma peça ruim que ninguém quer admitir que escreveu, mas quer nos fazer de idiotas e corrermos em círculos para descobrir um suposto imitador. Péssima ideia.
Ele sorri para os demais, que o encaram com indiferença.
— Se não acredita que está sendo plagiado, por que veio? – Pergunta o Mercenário.
Eles falam demais. Sempre falam demais.Pain se acomoda na poltrona, encarando os mesmos com divertimento e certa reprovação.
— Porque cada um de nós é uma pincelada da mesma pintura grotesca, imperfeita e humana. Eu apenas aceitei o papel que me coube e decidi transformar esse circo em arte. – Conclui, cruzando os dedos em cima da barriga. – E você, por que veio?
— Eu não tinha nada melhor para fazer, e o dinheiro é ligeiramente tentador. – O Mercenário dá de ombros, encarando o relógio de parede em forma de caveira.
O Juiz o observa por um longo instante. Nenhum traço de emoção aparece em seu rosto. Uma sombra atrás dele, mais velha que o próprio Juiz, mais fria, mais cruel, conhecida como Pain observa, esperando o momento certo para começar a ditar as regras do jogo.
Ele se diverte ao vê-los sem entender nada, sem saber que foram confinados ali por ele. Todos à sua mercê.
Dor. Apenas dor revela a verdade. Essa é sua filosofia de vida.
— Você chama de arte o que não passa de compulsão. – Fala, por fim. – Cada morte que você “pinta” é só uma tentativa de esconder o vazio que devora sua alma. Eu acredito que este jogo existe para expor isso. Para lembrar que toda obra é uma confissão disfarçada.
O Artista inclina a cabeça, pensativo, e deixa escapar uma risada baixa.
— Então estamos de acordo, Juiz. – Subitamente sério. – Toda confissão, afinal, é arte em sua forma mais brutal.
Quando a décima badalada do relógio antigo de parede é ouvida, cliques de portas sendo fechadas são ouvidos como pontos finais para desistirem das decisões que os levaram até ali. O som metálico lembra trancas automáticas, daquelas que muitos já tiveram que arrombar para matar seus alvos.
Os oito se entreolham, mas ninguém diz nada a princípio.
Um abajur em cima da cômoda perto da janela coberta por tábuas se acende, revelando nove pastas pretas empilhadas.
— Acho que o jogo começou. – O Marionetista fala, já se levantando para pegá-las.
O Marionetista puxa os fios que não o levam a lugar algum. Pain não deixa de pensar, passando seu indicador pelo lábio inferior.
Como o cômodo quando entraram era composto apenas pela mesa, cadeiras, cômoda, estante sem livros e relógio de parede, não passou despercebido por nenhum deles o surgimento repentino do abajur e das pastas. O Marionetista pega a pasta com seu nome e deixa as outras no centro da mesa.
Um por um, pegam a sua.
Não precisam de muito tempo para entender o conteúdo de uma folha na pasta.
— Que espelunca! – Resmunga aquele que apelidaram de Sacerdote, passando o indicador sob o nariz irritado pelo cheiro de desinfetante misturado à poeira. – Se sabiam que viríamos, deviam ao menos ter limpado esse chiqueiro.
Os cabelos prateados, curtos e penteados para trás, deixavam à mostra um rosto de traços fortes e olhos incomuns, um tom rosado que beirava a púrpura, brilhando com desdém e fervor quando pairavam sobre qualquer um.
— Tenho que concordar. – Diz o Artista, largando o papel já lido na mesa.
Sendo o mais novo entre os oito sentados, era também o mais impaciente.
— Esta é a primeira vez que encontro todos os meus concorrentes de uma vez, e é em uma mansão decrépita no meio do nada... – Ele sorri de canto, com arrogância. – Seria isso uma brincadeira de Halloween? É hoje, não é? 31 de outubro.
Por falta de resposta, o Artista jura ouvir crianças rindo do lado de fora da mansão, mas isso não seria possível. O lugar fica no meio do nada, certo? Certo.
Seus olhos azuis claros carregam a energia e a imaturidade da pouca idade. O cabelo loiro, levemente desalinhado, cai sobre o rosto jovem demais para um assassino. Ele exala o tipo de beleza caótica que encanta e enoja ao mesmo tempo. Como autoproclamado Artista, já havia encontrado alguns ali presentes no passado, mas jamais trocara mais que duas palavras ou alguns olhares arrogantes com eles.
E muito menos invadira seus territórios, assim como eles também nunca roubaram sua assinatura. Para ele, aquilo tudo era no mínimo inusitado. E perigosamente empolgante.
Quando seus olhos se voltam para a mesa, seu papel não está mais lá. Não dá forma desleixada com a qual ele soltara, e sim dentro da pasta preta, alinhada meticulosamente.
Que estranho, pensa.
— Se for uma brincadeira, está me custando tempo. E tempo é dinheiro. — Resmunga o Mercenário, sem desviar os olhos do papel em suas mãos. – Apesar desse suposto prêmio ser generoso, posso conseguir três vezes mais de outras formas...
A cicatriz que corta seu queixo até o maxilar denuncia uma vida de muita luta. O olhar, frio e calculista, é o de quem já matou mais vezes do que dormiu em paz. Ninguém pergunta como ele faria para conseguir mais do que o dinheiro oferecido, afinal, quem entre eles não conhece a fama implacável do assassino de aluguel mais ativo e temido chamado o Mercenário? Ele vive para o trabalho.
— Por que temos que ficar até o amanhecer aqui mesmo? – Pergunta o Sacerdote, já ficando entediado.
— Por que ao amanhecer, temos que dizer o nome da pessoa que acreditamos ser o imitador. E quem acertar leva o prêmio. – Responde o Mercenário, encarando o mesmo com reprovação visível.
Sem fazer movimentos perceptíveis, o Ilusionista deixa de fingir que lê o dossiê em suas mãos. Nada ali lhe é desconhecido para ele, é apenas um apanhado de informações sobre cada um deles. O que lhe interessa é o que está nos envelopes pretos lacrados que ninguém abriu ainda. Sua mente afiada sempre busca está 3 passos à frente de seus inimigos.
Então, ele apenas os observa em silêncio como todos agem e reagem as provocações lançadas.
O Ilusionista sorri enquanto mente. Ele acredita que a ilusão é um dom. Mal sabe que é o único que ainda acredita em mim. Uma risada sarcástica deixa os lábios de Pain, mas ninguém ouve.
Seus cabelos escuros caem sobre seu rosto pálido, há algo de inquietante em seus olhos negros, como se enxergassem mais do que deviam. Cada piscada parecia uma antecipação de movimentos alheios. E ele realmente antecipava movimentos, porque para vencer o Ilusionista aprendeu a ler seus oponentes de forma tão magistral, que sussurram que ele prevê os ataques antes mesmo deles se formarem nas mentes de seus inimigos.
— É Halloween, mas poucos seriam estúpidos o suficiente para nos reunir depois de se autodeclarar nosso imitador. – Pondera o Juiz, deixando o papel cair sobre a mesa. – Não é uma pegadinha... Mas talvez alguém morra hoje após ser julgado por sua estupidez.
Ele cruza os braços e recosta-se na cadeira rangente.
Sua palidez era acentuada pelos cabelos ruivos escuros, penteados de forma metódica. Os vários piercings metálicos, no nariz, nas sobrancelhas e nas orelhas, reluziam sob a luz das velas, como símbolos de penitência.
— Ainda mais afirmando que esse imitador é um de nós. – Completa quem chamam de Duquesa Origami, a única mulher presente no grupo de assassinos. E talvez, a mais perigosa. – Uma jogada ousada, devo admitir. Mas igualmente burra. – Sua voz reverbera na sala, como se ecoasse por um corredor estreito. – A perfeição é uma forma educada de crueldade, e ninguém consegue replicar isso como eu. Seja quem for que tente se passar por mim, nada mais é que um amador com um grande desejo de morrer cedo. Eu só preciso de um nome...
Os olhos acinzentados contrastam com o cabelo azul preso em um coque firme. O batom vinho e o terno preto de corte preciso reforçam o ar de elegância letal. Ela não fala alto, mas poucos ousam a interromper. Sua fama não foi conquistada em vão, e todos ali sabem disso. Seu belo rosto de anjo esconde uma letalidade que apenas suas vítimas já viram. E nenhuma sobreviveu para contar.
— A afirmação de que o imitador é um de nós é perigosa. – O assassino conhecido como Marionetista se pronuncia, tamborilando seus dedos no tampo da mesa ao ritmo de Thriller, fazendo a poeira levantar. – Principalmente quando se coloca em xeque nossas habilidades por um valor tão irrisório.
O silêncio paira no ar. O vento lá fora uiva entre as janelas rachadas, fazendo as chamas das velas oscilar. Por um instante, o tremular das chamas parecem vir de lâmpadas oscilando. Entretanto, uma piscada basta para tudo voltar ao breu levemente fantasmagórico.
O Mercenário ri baixo, sem humor.
— Um milhão em barras de ouro não é irrisório, Marionetista. Mas dividir com oito pessoas... – Ele encosta o corpo na cadeira, estalando o pescoço. – Isso sim é uma afronta ao meu orgulho. Quanta liberdade este dinheiro não pode comprar?
— Liberdade é uma ilusão para quem nunca aprendeu a puxar os fios certos. – Réplica, parando de tamborilar os dedos. – Você tem uma visão de mundo limitada.
— Você é materialista demais, Mercenário. – Diz o Sacerdote, recebendo um olhar mortal em troca. – E Marionetista, não seja hipócrita. O pecado é a forma mais sincera de oração, e pelo que eu sei, todos aqui são muito íntimos desse conceito.
O Tubarão ergue as sobrancelhas, divertido. Até então estava apenas absorvendo a energia do lugar, de seus concorrentes. Classificando-os como baixo, médio e alto perigo. Pelo pouco que já conviveu com alguns deles e agora ali conhecendo os outros, ele já sabia com quem deveria ter cuidado.
O Tubarão é instinto cru. Mata sem remorso. É um predador imprevisível, mas cauteloso. Pain analisa, entre uma piscadela e outra.
— Ora, talvez esse seja o verdadeiro teste, não? Ver quem sobrevive para ficar com tudo após descobrimos quem é o filho da puta que está nos plagiando. – O brilho em seus olhos é de puro fanatismo, mas são seus dentes serrilhados que roubam a cena. – Por que sabemos que todo mundo aqui sangra do mesmo jeito. A diferença é quem morde primeiro.
O Ilusionista apenas sorri, um gesto tão leve quanto perturbador.
— Talvez o imitador só esteja antecipando um futuro trabalho nosso... – Opina, inclinando-se para frente. – Ou vocês nunca pensaram em acabar com a concorrência? Cuidado com a resposta. A mentira pode ser o dom mais humano que existe, mas ninguém aqui é humano de verdade.
E é nesse instante que uma nova folha cai da claraboia agora aberta, planando até o centro da mesa com graça.
Nove nomes.
Nove vítimas.
Cada uma morta à maneira de um deles.
O papel pousa sobre a mesa com a leveza de uma pena. Por um instante, ninguém se move. E quando acontece, é rápido demais para olhos comuns. Algo semelhante a uma shuriken atravessa a claraboia com a rapidez de uma bala de nove milímetros. É um origami modificado, endurecido e afiado com vidros em suas extremidades, quebra a claraboia e acerta o nada.
— Acertou?
— Não. – Resmunga a Duquesa, sem encarar o Sacerdote, franzindo a testa. – Quem derrubou esse papel fez de forma remota ou o jogou de algum lugar do telhado que não está em nosso campo de visão.
— Ninguém disse que seria fácil. – Um sorriso predatório aparece nos lábios do Tubarão. – É isso que deixa tudo ainda mais divertido, a expectativa da estripação.
Ela volta a se sentar, emburrada.
— E quem disse que o imitador é um prêmio só seu? Eu também quero matar esse desgraçado. – O Sacerdote logo deixa claras suas intenções.
— Pegue uma senha e entre na fila. – Resmunga o Artista, tirando de suas vestes um punhado de argila. Suas mãos rapidamente começam a trabalhar, moldando-a. – Se quer preferência, reza pro seu deus Jashishin te dar.
— É Jashin, seu pagão na puberdade. – Rosna, ficando realmente irritado.
A Duquesa suspira, colocando algo semelhante a uma flor de origami em cima da mesa, com o pequeno detalhe das pétalas serem extremamente afiadas. Ela arranca uma sem esforço e começa a entalhar formas sem sentido no tampo.
O barulho irrita, mas ninguém ousa questionar sua forma de aliviar a frustração.
Sua mira era excepcional, então quando seu alvo escapava, ficava ligeiramente emburrada. Na sua direita, o Juiz lhe olha de esguelha, sabendo que mais daqueles projéteis estavam guardados por seu corpo. Já à sua esquerda, o Ilusionista partilha do mesmo pensamento. Mas nunca havia ficado sob a mira da Duquesa Origami como o Juiz já havia estado, então não sabia o quão opressora e implacável ela podia ser.
Pain se aproxima um pouco, não saindo das sombras. Os olhos vidrados na mulher. Por um instante, ele se deixa fascinar por sua beleza, quase saindo de seu esconderijo para tocar a mexa de seu cabelo que se desprende de seu penteado. Mas quando recupera seu equilíbrio, pisca várias vezes.
Em ti vejo o reflexo do que um dia fui. Um ser partido, mas sublime. As tuas dobras de papel sangram como as minhas cicatrizes. Somos feitos do mesmo material: fragilidade disfarçada de poder.
Ele sorri, não é algo romântico. É assustadoramente obsessivo.
— É nesse momento que paramos de fingir que Fantasma não está atrás da estante empoeirada às minhas costas? – O Marionetista pergunta, fazendo todos encará-lo. – É patético alguém ter esse codinome e ser tão desleixado.
Ninguém fica surpreso por suas palavras, já que todos perceberam que a estante foi movida furtivamente, deixando apenas um pequeno rastro de pó no chão. Se por descuido ou intencionalmente, este assassino em específico não parecia muito bom em se camuflar.
Ou assim queria que pensassem.
O relógio badala onze vezes, fazendo-os lembrar dos envelopes lacrados à sua frente.
— Você é péssimo se escondendo, Fantasma. Não sei como te deram esse apelido. – Provoca o Artista, rindo em seguida. – Sabemos que você está aqui desde que chegou, dois minutos antes da Duquesa Origami entrar. E ela foi a terceira a chegar. Seja cortês e venha nos dar um olá.
Com as bochechas vermelhas, vestido de preto dos pés à cabeça, o Fantasma sai das sombras, coçando a nuca e sorrindo sem graça. Um lado do seu rosto apresenta cicatrizes severas de uma das muitas tentativas de assassinato que sofreu, mas não tira a sua beleza travessa.
Seus olhos são negros como a noite, enigmáticos.
— Vocês realmente são muito bons. – Diz, sua voz levemente infantilizada.
Ele se senta na única cadeira vazia, completando o número exato de assassinos mais procurados pela Interpol. Os 9 Demônios da Terra, como eram chamados.
— Ou você é muito ruim. – Grunhe o Tubarão. – Mas vou aceitar suas palavras como um elogio.
O Fantasma fala pouco, e quando fala, ninguém ouve... e ainda assim insiste em existir.
As chamas das velas tremulam, lançando sombras alongadas nas paredes. Por um breve momento, o Ilusionista tem a impressão de ver seu reflexo refletido na madeira da mesa. Mas a ideia é tão absurda que ele a descarta de imediato.
É o Juiz quem rompe o pequeno silêncio que se instala.
— Se for mais uma charada estúpida... – Murmurou puxando a folha que caiu por último até si. Seus olhos percorreram os nomes com precisão cirúrgica. A expressão, antes inabalável, vacila por um segundo quase imperceptível. – Não é uma piada de bom gosto.
A Duquesa Origami inclinou-se para frente, o perfume amadeirado dela invadindo o ar velho.
— O que há aí? – Pergunta, já sabendo que a resposta só lhe traria dor de cabeça.
— Nove vítimas. Mortas exatamente como nós mataríamos. – O Juiz empurra o papel para o centro da mesa.
A tensão rompeu o ar como uma faca cortando um corpo.
O Sacerdote pega o papel antes do Artista, fazendo o loiro fuzilá-lo com o olhar. Ele nem percebe, seu olhar vidrado no que lia com uma mistura de fascínio e raiva.
— Jonathan Reese, 31 anos: crucificado e estrangulado com arame farpado. Em seu peito foi entalhado grosseiramente o símbolo satanista do culto de Jashin. – Um sorriso lento se abriu em seus lábios. – É o meu estilo, admito. Mas não fui eu. – Ele ergue o olhar, provocando o grupo com um sorriso indulgente. – Talvez um discípulo? Ou alguém com vontade de brincar de deus. Os ensinamentos de Jashin são poderosos e corrompem a mais pura das almas... Peraí, esse arrombado chamou minha religião de culto satanista?
O Artista inclinou a cabeça, curioso.
— Ele ainda foi gentil nas palavras... – Quem provoca é o Marionetista.
Sem pedir permissão e muito menos dar bola para a torrente de xingamentos que o Sacerdote profere, o loiro da argila começa a ler o segundo tópico.
— Luna Mathers, 31 anos: corpo transformado em escultura de argila congelada, desfigurada com um sorriso que vara de orelha a orelha e a frase: a arte é efêmera, pintada com seu próprio sangue ao lado do corpo. Em menos de 15 minutos após o encontro do cadáver, o corpo explodiu misteriosamente. – Ele riu, rouco, quase encantado. – Que ousadia. Plágio é a forma mais sincera de admiração, não?
Ninguém concordou.
— Robert Kane, 31 anos: corpo afogado em tanque químico, completamente despigmentado. Órgãos cirurgicamente retirados, o que pode configurar um possível traficante. – Leu o Mercenário, os olhos estreitos. – São meus métodos. Químico, limpo, sem rastros. Os órgãos também são algo que vez ou outra faço para aumentar meus lucros. – Ele bateu o punho fechado na mesa. Ninguém se assusta com sua explosão de raiva. – E também não fui eu. Porra, não acredito que perdi essa chance...
Que animais sem senso de justiça, o Juiz constata.
O Ilusionista manteve-se calado, apenas observando. Pegou o papel por fim e percorreu os olhos pela lista.
— Martha Quinn, 31 anos: morte induzida por hipnose, hemorragia cerebral por sugestão. – Um canto de sua boca ergue-se. – Isso é impossível de copiar... a menos que o imitador saiba exatamente como eu penso. – Ele pousou o papel, calmo. – Ou já tenha estado na minha mente antes. Mas, minha mente é um beco sem saída... Quem entra, nunca sai.
O Duquesa Origami puxou a folha para si, sem emoção alguma aparente.
— Anthony Vickers, 31 anos: mil cortes precisos, sem perfurar nenhum órgão vital. Origami de papel banhado em seu sangue encontrado na boca. – Ela deixou o papel dobrar entre os dedos, fria. – Admito que é um trabalho meticuloso. Quase digno de mim, mas não fui eu dessa vez.
O Juiz cruzou os braços.
— Daniel Harris, 31 anos: corpo ajoelhado diante de um espelho rachado, mãos unidas como em oração, boca costurada com um fio cirúrgico. Sobre o peito, um martelo de madeira e um bilhete escrito com tinta escura: “Culpado de existir.” – Sua voz era um murmúrio metálico. – Isso é um julgamento. O meu. Contudo, essa alma não partiu através do meu julgamento. Ou das minhas mãos.
Todos têm 31 anos. Idade demais para coincidência, de menos para destino. Mas o número soa familiar demais... Ele aparece rabiscado na parede, nas fichas, no pulso de alguém.
Ele dá de ombros, poupando sua mente de uma dor de cabeça futura.
— Toda vida é uma sentença. – Murmurou, ponderando para si mesmo. – Eu apenas a torno definitiva. – Ele já havia ouvido essas palavras em algum lugar, não? Palavras que ele mesmo já escrevera em algum lugar.
Num prontuário? Num espelho? Escrita num diário? O Juiz não consegue se lembrar. Às vezes, sua mente lhe pregava peças quando se tratava de relembrar crimes passados.
— Você é meio bizarro, cara. – O Sacerdote solta, depois assobia baixinho.
— Seu deus carniceiro é diferente de mim em quê? Pelo menos, dou as minhas vítimas a chance de se defender. – Retruca sem se alterar.
Uma risada fria e cruel vinda de Pain ecoa, mas ninguém escuta. Eles não podem vê-lo, ainda não.
— Olha aqui, seu masoquista alienado, não fala da grandeza de Jashin quando nem ao menos entende o significado de um sacrifício.
O Sacerdote reza por perdão entre seus cadáveres. Ele chama isso de fé. Eu chamo de negação refinada.
Pigarreando, a Duquesa Origami faz com que ambos a encarem.
— Por favor, vamos nos ater ao que é importante.
— É tipo um sujo falando de um mal lavado... – Solta despretensiosamente o Ilusionista, recebendo um olhar nada amigável da mulher. – O que, Duquesa? São dois insanos. Um com complexo de deus e o outro que segue a doutrina de um deus carniceiro. Colocando em uma balança, o Rivotril teria que ser dado em uma garrafa de 2L para cada.
É a vez do Tubarão ler sobre sua imitação.
— Marcus Dellon, 31 anos: corpo pendurado de cabeça para baixo em uma banheira sem água, a pele azulada, a garganta aberta como uma fenda marinha. Sem sinal de sangue na cena do crime, nem dele nem do suspeito. – O Tubarão sorri, revelando os dentes irregulares. – O mar leva tudo. Até os que pensam poder respirar fora dele... Essa é minha filosofia de vida, e apesar de achar a morte do tal Dellon parecida com meus métodos, eu não deixaria seu corpo tão intacto dessa forma. Não fui eu.
Ele repassa a folha para o ruivo ao seu lado, o Marionetista.
— Helena Moore, 31 anos: sentada em uma cadeira de madeira, juntas rígidas pela ação de algum produto químico desconhecido. Olhos substituídos por botões vermelhos. – O Marionetista estreita os olhos. – Agora sim... perfeita. Não se move. Não sente. Não erra. Mas essa perfeição não é de minha autoria. Eu teria escolhido outra cor para os botões nos olhos dela.
Sua última afirmação é macabra, mas perante as circunstâncias não é de se estranhar. Nenhum ali ganhou sua fama por ser equilibrado psicologicamente.
Quando o Juiz desvia a atenção para encarar o teto, seus olhos se arregalam.
— Cadê a claraboia?
— Do que você está falando? – Tubarão questiona, confuso.
— No teto tinha uma claraboia.
— Tinha? – A Duquesa franze a testa, encarando o teto de madeira.
— Não sei o que você fumou, Juiz, mas quero um trago. – A brincadeira do Fantasma lhe rende um xingamento.
A folha é abandonada na mesa pelo Marionetista e, quando alguns segundos se passam e ninguém faz menção de pegá-la, algo interessante acontece.
— Leia as informações da sua vítima supostamente plagiadas para nós. – Não é um pedido que deixa os lábios do Ilusionista quando ele fala com o Fantasma.
A animosidade entre ambos é rapidamente perceptível.
Hum... De fato, a ausência sempre será uma mentira velada, conclui Pain.
Pegando a folha que todos leram, o assassino conhecido como Fantasma recita sua vítima.
— Evan Price, 31 anos: corpo inclinado sobre o teclado de um computador. Mensagem inacabada e uma câmera com todos os seus arquivos deletados.Assim como todas as suas fotos e redes sociais... – O Fantasma sorri de leve, um gesto tão vazio quanto o olhar em seu rosto. – Ele quis ser visto. Ironia cruel, não acham? Morrer sendo esquecido. Esse é o meu estilo, mas não é uma vítima minha.
Um estalo ecoou, a cadeira do Artista girando.
— Isso é genial. – Murmurou para si mesmo, divertido. – Estamos diante de alguém que não quer ouro... quer glória. Quer provar que é melhor do que nós.
O Sacerdote ri.
— Ou quer nos colocar uns contra os outros.
— Sucesso. – Comentou o Mercenário, seco.
O Ilusionista olhou para cada um, como se os medisse.
— Não se esqueçam. Todos nós já matamos por menos.
Um trovão distante sacudiu a velha mansão. As velas dançaram, e algo rangeu no teto.
Foi quando o Juiz notou. Uma nova folha havia sido colocada sobre o aparador, próxima à parede por onde entraram.
Ninguém vira quem a deixará lá.
Com passos lentos, ele se levantou, pegou o papel e o leu. O rosto, antes imperturbável, empalideceu.
— Há uma décima vítima. – Sussurrou, a voz grave. – E o nome dela... É um de... É um... Eu não... Quem é... Paciente 31?
O papel escapa de suas mãos e cai no chão imundo.
A décima segunda badalada ressoa de forma estridente pelo cômodo. Todos tentam proteger seus ouvidos, fazem menção para pegar o envelope preto que... não existe.
Eu os observo. Brinco com eles. Eles acreditam que o jogo tem regras. Eu sou o jogo.
Pain fecha os olhos, êxtase correndo por suas veias.
— Por favor, Nagato, me responda! – Alguém sussurra, Ou talvez seja apenas a voz de sua própria mente, quebrada, multiplicada, ecoando como um feitiço antigo dentro da casa.
Quando o Juiz se abaixa para o papel caído, o som dele rasgando ecoa alto demais, como um alarme distante. As velas apagam, uma a uma, com o sopro invisível da meia-noite. Resta apenas o brilho trêmulo de uma luz fria, branca. Na verdade, tudo é branco ao redor. Insanamente branco.
Ele ergue o olhar, e a mansão desapareceu.
As paredes de madeira deram lugar a paredes acolchoadas, úmidas, manchadas de amarelo em alguns pontos, de sangue em outros, assim como suas mãos ensanguentadas pelas vezes que socou o chão. A grande mesa de carvalho é agora uma mesa pequena metálica; as cadeiras eram duas, cadeiras com correntes de contenção.
E então ele sente: não está sozinho dentro de si.
O Juiz observa, e por trás de seus olhos há uma outra presença, sussurrando com sua voz grave e sedosa desde o início de tudo. Uma força erguendo-se dentro dele, modificando o ar de seus pulmões.
O relógio invisível volta a badalar, embora já seja madrugada.
- Pain...
Nagato, que por anos só permitiu o Juiz emergir, sente que seu terceiro eu cansou de ficar nas sombras, apenas recebendo migalhas da luz. Um terceiro poder se ergue dentro dele, uma força que não conhece limites e que define a dor como lei absoluta.
Os outros oito assassinos ainda estão ali, imóveis, encarando-o. Mas algo neles está errado. Os rostos se desmancham, como se fossem máscaras de cera derretendo sob uma vela esquecida. Os olhos, vazios. As peles, rachadas. Como bonecos de Halloween deixados ao sol por tempo demais.
Nagato entende, por fim: não eram companheiros, eram ecos. Ecos de si mesmo. É quando Nagato percebe que não são apenas alucinações externas, cada um deles é um espelho de suas próprias personas, ecos distorcidos de seus traumas, de suas vinganças, de sua moralidade deturpada.
— Sr. Holloway... – Uma voz feminina distante, abafada por um interfone atravessa a cortina de insanidade do quarto. – É hora da sua medicação.
O som vem de uma fenda na parede. O Juiz, nascido como Nagato Holloway, gira o rosto em direção à voz. Seus olhos tremem, refletem um brilho que não pertence à luz fria da cela, denunciando seu estado maníaco, completamente fora da realidade.
— Eles... eles estão aqui comigo. – Murmura com o olhar vago, sem conseguir distinguir o que é real. – A festa… o imitador… não acabou.
Um suspiro audível é ouvido.
— Sakura, aumente a dosagem do Paciente 31 e coloque em seu prontuário. – Diz a médica psiquiatra da ala de segurança máxima da prisão Akatsuki. – Ele entrou novamente em seu estado de tribunal interno. Três vozes, uma mente fragmentada.
— Três, senhora? – Seus olhos verdes se arregalam.
— Sim.
— Mas eu pensei que só existisse o Juiz. – A voz da jovem demonstra curiosidade e assombro.
— Raras são as vezes em que o terceiro vem à tona. – Responde Tsunade. – Mas hoje é um dia complicado… e ele sempre volta nessa noite. É um gatilho para ele.
Por dentro ela sabe que as coisas ficarão extremamente perigosas. Discretamente, manda uma mensagem para o grupo de seguranças da prisão com apenas três palavras...
Código Shinra Tensei.
— Acho que perderemos o Halloween deste ano novamente. – Murmura baixinho à médica-psiquiatra para ninguém em especial. – Sakura, não baixe a guarda.
— Como a senhora sabe que é ele? Pain. – Não é um questionamento, apenas uma curiosidade real.
A futura psiquiatra de cabelos rosas já lidou com Nagato e o Juiz. Mas nunca soube da existência de uma terceira persona em seus oito meses como aprendiz da melhor médica psiquiatra do Japão, Tsunade Senju.
— Por que ele só vem no Halloween, que foi quando sua esposa Konan foi assassinada e desencadeou o colapso mental de Nagato. – Responde, escutando o mesmo se chocar contra a porta ao ouvir o nome da amada morta. – Perdão, Pain, não falarei sobre ela. Prometo.
De dentro de sua cela, com o rosto ensanguentado contra a porta, ele sorri.
— Death or Treat, doutora Tsunade? – Pergunta, usando sua própria versão de Gostosura ou Travessura.
Sendo Morte ou Travessura a última coisa que perguntou aos assassinos do massacre que cometeu cinco anos atrás, vestido com uma capa azul com nuvens vermelhas. Ele caçou todos os que estiveram envolvidos no assassinato de sua esposa, Konan Uzumaki. Foi a primeira vez que o criminoso Nagato Uzumaki, mais conhecido no submundo do crime pelo nome de seu alter ego, Juiz, deixou sua terceira versão sair, o ensandecido e incontrolável Pain.
— Treat, Juiz. – Diz, usando o infame apelido que os jornais lhe deram após entenderem que seu modus operandi era julgar e condenar baseando-se unicamente em seus princípios deturpados.
O uso do nome também foi uma tática de tentar fazer o Juiz voltar ao controle. Com esse assassino em específico, Tsunade consegue conversar e barganhar. Mas Pain é uma incógnita para ela, pois o mesmo só vem à luz uma vez ao ano e nunca lhe dá informações suficientes para que consiga ter um diagnóstico preciso. Mas uma vez Nagato lhe disse que Konan afastava o pior de si do mundo. Então, a médica deduziu que Pain nunca veio à tona quando Konan estava viva e conseguia suprimir a pior das personalidades dele. Ninguém nunca soube da terceira personalidade. A pior de todas e a única que assustava o próprio hospedeiro.
Pain.
Quando o clique da porta ecoa, Kakashi e Jiraiya entram para imobilizá-lo, como tantas outras vezes. Mas a noite está errada. As velas do corredor, acesas apenas no Halloween, queimam azuis.
Mas este Halloween não foi como os outros... a dosagem foi mais alta do que o coração do Paciente 31 suportava, o aperto do antebraço de Jiraiya para imobilizá-lo durou tempo demais em seu pescoço. Os cinco anos convivendo com seus três monstros lhe tiraram mais que a sanidade.
A Duquesa... a culpa.
O Sacerdote... o fanatismo.
O Artista... o delírio.
O Juiz... o ódio.
O Marionetista... o controle.
O Fantasma... a ausência.
O Tubarão... o instinto.
O Ilusionista... a mentira.
O Mercenário... a indiferença.
Cada um deles apaga-se dentro dele, como velas sopradas pela brisa do além. Mas há uma chama que não morre. E ela atende pelo nome de Pain.
Nos segundos finais, o som do relógio ecoa pela cela, treze badaladas, embora só existam doze horas.
A claraboia se enche de luz vermelha.
Nagato morreu naquele dia levando consigo seus companheiros de estrada. Assassinos procurados criados por sua mente fragmentada, unidos em busca de um imitador que nunca existiu e que buscavam uma recompensa que, em sua mente quebrada, era em barras de ouro. Mas que seu coração sabia que era a absolvição de todos os seus pecados.
E o Juiz, sem julgar ninguém e sem ter um julgamento para si, morreu através de uma fatalidade.
Em seus últimos momentos de vida, entre uma batida e outra do seu coração, Nagato chegou a uma dolorosa conclusão. No meio do colapso da própria mente, ele compreendeu que o Juiz julga, Pain executa e apenas Nagato observa.
Três consciências, uma mente fragmentada, uma sanidade destruída.
E agora que o Halloween acabou e você viu parte de quem sou… posso voltar a dormir.
Porque nada disso foi real.
Nem eles.
Nem você.
E, no fim, o imitador era eu.
Pain.
***
Sirenes soam, passos ecoam no piso de vinílico cinza e vozes alteradas gritam ordens sem parar. Mas nada disso será o suficiente para trazer o Paciente 31 de volta à vida.
É uma pena... você não acha? Coisas ruins sempre acontecem com boas pessoas.
É em uma página de prontuário caída no chão frio, onde antes não havia nada escrito, que surgem palavras sentenciosas e divertidas.
O jogo precisa de um observador.
Então, olhos curiosos se movem, lentos, encarando a frase macabra. Entre uma respiração e outra, a câmera se aproxima. E então vemos um rosto.
Não é Nagato. Ou o Juiz. E muito menos Pain.
O rosto pertence a VOCÊ.
E, antes do meu adeus, gostaria que me respondesse...
Você leu cada crime. Julgou. Riu. Chamou de entretenimento. Acreditou em um jogo bobo entre assassinos no Halloween... Nunca desviando o olhar. E, no reflexo da tela à sua frente, por um segundo, você jura ver uma vela acesa atrás de si.
Então diga-me, leitorobservador...
Quem é o verdadeiro Imitador agora?
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