Death Note: Unknown Note

4 Capítulo 3. Impressões


Notas iniciais
Hey, minna-san!
Assim que eu chegar a terceira parte da fic vou distribuir pdf's com o arquivo.
Seguintão, desculpa pela demora. É que eu tava betando =)

31 DE JULHO DE 2002

A garota permaneceu de pé, roendo a unha do dedão direito, próxima à entrada do edifício de Believe Bridesmaid. Pesquisou o nome de todos os residentes e inquilinos do prédio, e achou que não fosse apenas coincidência ter um BB na lista. Acreditava com convicção que todos os dados estavam corretos, devido às iniciais do homem. Repassou todos os detalhes das suas descobertas mentalmente, como se em um filme. Seu pensamento se encheu de slides, letras e números, e todos pairavam em torno da mesma coisa – ou melhor, letra.

B.

O Sant’Ana(8) engolfava seus ouvidos de vez em quando, e isto foi o que a impediu de ouvir o assassino se aproximando. Tudo o que sentiu foi o forte cheiro de clorofórmio sendo pressionado contra seu rosto, enquanto um braço magro porém forte a segurava e puxava para trás.

Finalmente, Felix perdeu suas forças e sua cabeça pendeu, suspensa, enquanto sua consciência se esvaía.Pôde jurar que vislumbrou duas íris vermelhas.

•••

Eu acredito que, para ele, a crueldade de matar pode ser simplificada quando você sabe exatamente quando aquela pessoa vai morrer, e, principalmente, sabe que se não fosse por suas mãos seria pelas mãos de Deus.

O verdadeiro.

E o interessante é que, infelizmente, sinto que nunca fui uma de suas favoritas. Eu teria que combater até finais trágicos a única conexão que eu tinha com a minha herança, minha genética, meu verdadeiro passado, como eu acreditava cegamente. Ele nunca havia me dito uma única palavra sobre quem éramos, de onde vínhamos, quem fora nossa mãe ou pai. Eu sentia que não sabia quem eu era, então meu único vínculo com essa lacuna da minha vida era meu irmão. E essa lacuna sempre era preenchida por aspectos visíveis. Por mais que nossos olhos fossem diferentes, eles eram iguais. Por mais que nossos rostos fossem diferentes, eles possuíam semelhanças.

Por mais diferentes que fôssemos, éramos parecidos. E isso era o que mais me assustava, pois eu não sabia até onde nossas semelhanças iam, e, tanto Wammy quanto L estavam convictos que eu e B não possuíamos nada em comum.

Eu ainda duvido disso.

Cuidado. Isso é algo que lhe digo com convicção – sempre saiba quem você é.

•••

A garota abriu os olhos, e, débil, sua cabeça se balançava em uma tentativa fútil de levantar. À medida que a lucidez retornava, ela começou a sentir um incômodo nos braços imóveis; um incômodo que, pouco depois, se tornou uma dor lacinante do lado direito de seu corpo. Engoliu seu grito, e sentiu como se estivessem enfiando uma faca e girando entre suas costelas. Porém, ao olhar, não viu sangue ou nada que pudesse indicar qualquer ferimento feito pelo agressor.

“Provavelmente deve ser do acidente...”

Teve uma sensação de que algo estava profundamente errado.

Felix depois de alguns minutos finalmente se recompôs – o máximo possível – e olhou em volta.

Estava em em cima de uma grande folha de plástico, dentro de um cubículo de paredes brancas, que possuía um fedor – não cheiro, mas fedor – de desinfetante, e algo mais que não conseguiu identificar. Haviam alguns móveis, e o chão era de tábua corrida. O ambiente se encontrava iluminado por uma lâmpada amarela.

“Onde... Onde estou? Mas que merda...”

Ela havia sido deixada no chão de bruços, com os braços amarrados em suas costas. Suas pernas, porém, estavam livres. Ainda se sentia desorientada, e, com esforço, conseguiu passar suas mãos para a frente do corpo, sentindo uma pontada percorrer desde seu ombro direito até seu joelho.

“Caralho! Que porra de lugar é esse?!” Girar seu corpo e levantá-lo era seu próximo passo, porém acreditou que seria melhor descansar por, pelo menos, um minuto.

Será que tenho um minuto?

“Você está em um lugar onde não poderá me atrapalhar.” Lhe respondeu uma voz eletrônica. A voz soou sombriamente familiar. Felix olhou em volta e constatou que, logo à sua frente, havia uma espécie de walkie talkie. O pequeno aparato funcionava como uma babá eletrônica – sem necessidade de botões.

“Onde você está?” Não poderia estar longe, senão o sinal não seria captado. Provavelmente, ele estaria dentro de um raio de 20m.

“Cumprindo minha promessa. Diga-me, Faye, conseguiu decifrar nossa pequena brincadeira?”

“Claro que sim... B.”

“E, diga-me, repassou esse resultado para alguém?”

“... Não.” Uma decisão da qual que Faye se arrependera, pouco depois de acordar. Se sentiu impotente, incapaz e egocêntrica. E, realmente, era egocêntrica e arrogante ao pensar que poderia impedí-lo sozinha.

“Argh.” Ele soou como se estivesse chateado com a resposta, apesar de ser apenas um gesto falso e irônico. Porém, talvez quisesse que L se sentisse como ela. “Não chamou nenhum amigo para brincar. Mas que pena. Bom, lhe direi o seguinte. Para você sair daí, basta achar a chave escondida dentro desse cômodo. Com tantos móveis, será demorado mas não difícil, lhe garanto. Deixei um presentinho, caso você queira se soltar... Ou se divertir.”

Felix, com toda sua força de vontade conseguiu se reerguer e permanecer sentada. Seu pulso havia sido amarrado com barbante. Muito, muito barbante. Tentar cortar aquilo com os dentes seria loucura.

Tudo bem, o presentinho ao qual ele se referiu deve ser um canivete ou uma faca. Tem que ser.

Curiosamente, observou que ele havia colocado luvas cirúrgicas estéreis em suas mãos, por dentro do barbante. Sentiu-se confusa, até lentamente se dar conta de onde provavelmente estava.

Não pode ser. Pensou consigo mesma.

Ela engatinhou por cada canto do cubículo, procurando por qualquer objeto cortante. Esquadrinhou meticulosamente cada minúsculo pedacinho daquela saleta. Ao invés disso, achou a chave da porta do quarto dentro da gaveta de uma cômoda. Você acha que sou idiota, B?

B não se limitava à fazer as coisas; precisava fazê-las bem feitas, e desdenhar de suas vítimas ou perseguidores. B brincava de Deus, criando ordem à partir do caos. Felix deduziu, à partir daquilo, que a dita cuja “ferramenta” para se soltar simplesmente não existia, e o plano de B era fazê-la perder tempo procurando algo que não estava lá. Por que B era sempre tão arrogante perante os outros? Talvez essa característica tenha sido sua ruína, afinal de contas.

Não, havia algo mais.

Abriu a porta do cômodo onde se encontrava, e não pôde acreditar no que viu.

Ele me prendeu aqui para me incriminar...? Não... Não pode ser...

“Não esqueça de levar o aparelho, recolher a folha plástica e trancar a porta quando sair. Queime tudo, inclusive seus sapatos.” E, finalmente, ouviu o barulho de algo sendo estraçalhado, juntamente com um ruído de interferência enquanto uma risada ao fundo lhe deu arrepios.

Ele quer me torturar.

23H 39MIN 10SEG

Felix cambaleava até seu carro. Acabara de sair de uma cena de crime macabra. Estava roendo suas unhas, como fazia desde sua adolescência.

Old habits die hard.

Ao chegar no veículo, verificou que ele estava apertado na vaga. Estava letárgica, prestando atenção em detalhes sem importância alguma. Tentava retirar da sua mente as impressões. O cadáver. Tudo friamente limpo. Os bonecos de palha.

“Preciso de uma moto... Carros são problemáticos...”

Ela murmurava para si mesma, em um estado de consciência quase inerte. Sentiu a vaga lembrança do acidente que sofrera tantos anos atrás.

“Tenho que verificar... Talvez tirar um raio-x, ou algo assim.”

Passou a mão nos cabelos, e pôde perceber pela primeira vez que haviam sido desembaraçados e presos em um coque. O cheiro que sentira tão forte não era apenas de desinfetante, era laquê. Ele removera cada pequena coisa que poderia incriminá-la, caso qualquer indício de DNA ou impressões digitais fosse deixado por acidente.Isso só corroborou sua hipótese. Ele não queria incriminá-la, queria que ela visse seu trabalho, da mesma forma que um animal de estimação caça uma pequena criatura e dá de presente para seu dono.Não. Ele parecia mais um filho que, com ódio de sua mãe, cometia algum ato terrível só para mostrar que aquilo era fruto dela. Era culpa dela. Felix culpa. O dom de B era perverter as coisas. Jogou na minha cara, em uma afirmação sintética e concisa, uma sequência de acontecimentos miseráveis é apenas uma sequência de acontecimentos miseráveis. Nada mais. A primeira parte de sua vingança – fazer eu perder minha fé, a pouca que ainda tinha.

A garota havia entrado finalmente no modo de piloto automático. Não que a cena a pertubasse, ela tinha um estômago relativamente forte. O que realmente havia lhe afetado era o fato de que ela sabia quem havia feito isso, ela conhecia o rosto, a história e a origem de quem havia feito isso. Seu próprio irmão fizera isso.

São interessantes as reações que as pessoas têm ao confrontar situações de extremo desespero. Tanto eu quanto L mantinhamos a calma, porém, por aspectos diferentes. A minha calma se mantinha por pura letargia, meu desligamento da realidade. Eu desativava minha consciência, e acredito que isso era meu mecanismo de defesa mais eficaz. Só depois de muito tempo consegui superar essa característica, mas sempre pendendo perigosamente para o lado errado do desfiladeiro.

Problemas foram feitos para serem enfrentados, e L me ensinou isto muito bem. Porém, só B realmente me obrigou à colocar esse conhecimento em prática.

Felix entrou no carro, o ligou e dirigiu até a farmácia mais próxima. Com seu cartão de débito, comprou o remédio mais forte para insônia que encontrou, e fez questão de adquirir duas caixas. Abriu lá dentro mesmo e tomou duas drágeas de uma vez.Mal saíra da farmácia, seu celular tocou.

“Alô?” Sua voz parecia morta demais, até para ela.

“Faye, o que houve? O que aconteceu?” Watari parecia preocupado. Preocupado o bastante para não perder tempo utilizando alguma ferramenta para mascarar sua voz ou para evitar rastreamento, como depois ela verificou.

Ele era seu pai, independente de laços sanguíneos. Agora ela tinha certeza disso.

“Eu não sei. Estou indo para meu apartamento.”

Entrou no carro e atirou o celular no banco do carona, junto com a pequena sacola de compras. Dirigiu pelo que lhe pareceu uma eternidade, e deixou seus reflexos a guiarem. Não queria pensar, não queria imaginar, não queria estar consciente. Tudo que Felix queria era se isolar, antes de entrar em colapso. Sua letargia logo daria lugar a algum sentimento, alguma hora, e ela não queria estar na direção quando isso acontecesse.

Chegou na garagem de seu prédio, porém seus músculos travaram. Ela não saiu do carro.

“Agora... agora não. Eu não acredito... Sangue. O corpo... Eu... Eu...”

Sua visão estava embaçada. Felix – ou mais certamente Faith – encostou sua testa no volante do carro, mordiscando a ponta de seu dedão. Em sua confusão, achou melhor manter ambas as mãos no volante. Seu corpo inteiro tremia, ela finalmente se deixara quebrar.

Nunca havia chorado tanto na vida.

“Você se esconde por trás de uma máscara durante tanto tempo que esquece quem você realmente era por trás dela.”

A garota perdeu a noção de quanto tempo havia ficado dentro do carro naquele estado deplorável, porém, foi tempo o bastante para uma pessoa chegar e bater na janela de sua porta. Ela virou seu rosto e não conseguiu acreditar no quê que via – em quem via.

Era L.

“Saia do banco do motorista. Você não deve subir nesse estado.”

Felix abriu a porta do carro e pulou para o banco do carona. Ele entrou prontamente, e colocou o cinto nela, antes de colocar o próprio. Felix se sentiu uma inválida, o que fez o desespero coçar a porta insistentemente de novo. L girou a chave na ignição e a encarou.

“O que houve? Me diga o que aconteceu.” Ele disse, não tirando seus olhos dos ponteiros do painel. Não parou um segundo sequer para a encarar nos olhos.

Ele sabia.

Finalmente, B dera sinal de vida, e não foi de uma forma agradável.

“L, por favor, só dirija. Só...” Antes que percebesse, ela estava caindo no sono. Sua garganta ardia, juntamente com seus olhos. Estava esgotada.Tivera a impressão de que tudo aquilo era um sonho ruim.

Tudo que queria era voltar à ser aquela criança que estava montando um rádio.

Notas finais
(8) SantAna: Vento periódico típico da região de Los Angeles. NA
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.