Death Note: Ω

11 Capítulo VI: Eneida (Near)


Data e horário indisponíveis

Sede da SPK — Local não divulgado

Near

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A transmissão que havia sido exibida nos telões estava aberta em cinco telas.

Near assistia em silêncio. Rester estava à esquerda dele, com o tablet em mãos. Lidner, à direita, mantinha os braços estendidos ao lado do corpo.

Nas cinco gravações, as telas mudaram de propagandas para um escurecimento completo ao mesmo tempo. Depois, surgiu o símbolo branco, oscilante em glitch.

Ω.

Rester estreitou os olhos.

— Ômega — disse ele.

— Fim, encerramento, Filho do Homem... Combina com o que foi dito sobre abolir a lei — disse Lidner.

Near pegou uma peça de xadrez que estava sobre a mesa: um bispo branco.

— Nesse caso, Kira era o Alfa — disse ele.

A mensagem começou. As legendas apareceram nas telas, uma em cada idioma.

Rester observou a sequência.

— Talvez as legendas tenham pistas. Uma se comunicando com a outra — disse ele.

— Não — respondeu Near. — Eu já comparei.

Lidner acompanhou o texto.

— Ômega afirma que o poder de Kira voltou à Terra e diz estar em posse dele. Também acusa o presidente americano de ter mentido sobre o caderno — disse ela.

Rester acrescentou:

— Essa parte já está causando reação. A Casa Branca negou. Canais japoneses estão recuperando o caso a-Kira. E fóruns ligados a Kira voltaram a subir.

Near colocou o bispo sobre a mesa e manteve o dedo indicador sobre ele.

— É natural — disse ele.

A transmissão continuou.

— Ele está terceirizando a primeira seleção — disse Rester.

— E chama isso de voz da internet — disse Near.

Na tela, surgiu a frase religiosa e a menção ao poema de Virgílio.

— Aí está — disse Lidner, quando “Eu não vim abolir a lei, mas cumpri-la” apareceu.

— Messiânico. Kira também se achava um Deus — disse Near. — Mas deuses não morrem...

Ele pegou um rei branco e o colocou diante do bispo branco. Moveu a peça adiante, pela diagonal, e derrubou o rei branco.

Rester focou os olhos na pequena brincadeira de Near.

Na tela, a mensagem terminou. Tudo ficou preto outra vez.

Por menos de um segundo, a marca apareceu no canto da tela.

~π

Near pausou. O símbolo ficou parado na tela.

— Pi — disse Rester.

— Pi — sugeriu Near. — Os telões se apagaram por exatos três segundos e cento e quarenta e um milésimos.

Lidner inclinou a cabeça.

— Exatos?

— Sim — respondeu ele. — E também pode ser um olho.

Rester olhou para ele.

— Um olho?

— É — disse Near. — O Olho de Hórus: símbolo de vigilância, proteção e restauração. Talvez seja uma sugestão de que o novo Kira tenha os Olhos de Shinigami.

Rester olhou para a tela. Lidner analisou o símbolo.

— E o que aquele til faz ali? — perguntou Rester, apontando.

— Na matemática, o til é um sinal de aproximação. Se estamos trabalhando com simbolismo, o Pi deve simbolizar... algo infinito? Inefável, talvez — Near pensou. — E o til, possivelmente, seja um quase.

— O público comum não notaria nada disso — disse Lidner.

— Talvez não tenha sido deixado para o público comum — respondeu Near.

Silêncio.

Rester tocou a tela do tablet.

— Sobre as duas primeiras mortes — disse ele. — Reinhardt e Rusk. Nós avançamos o máximo possível sem abrir uma solicitação internacional formal demais.

Near não olhou para ele; apenas afastou o bispo e o rei de onde brincava. Pegou dois peões pretos e os deitou.

— Continue.

Rester consultou o tablet.

— Ambos tiveram nomes completos e rostos facilmente confirmáveis antes da morte. Reinhardt constava em reportagens antigas, registros judiciais e arquivos penitenciários suíços. Rusk estava em matérias, páginas da própria rede de clínicas e também na cobertura ao vivo em D.C. Jail.

— Alvos de teste — disse Near.

— Parece — continuou Rester. — Reinhardt foi um teste mais lento. A confirmação pública demorou. Rusk foi mais rápido por causa da transmissão ao vivo.

Near olhou para os dois peões tombados.

— O primeiro provou a função do caderno. O segundo garantiu repetição.

Lidner olhou para as cinco telas.

— O que demonstra intenção.

Near pegou uma rainha branca e a posicionou atrás dos dois peões pretos.

— Necessariamente.

Near deu play no vídeo novamente, que voltou a reproduzir em loop. Pausou quando o Ω surgiu. Apontou para a tela.

— Voz.

Ele avançou o vídeo rapidamente até chegar ao ~π.

— Mecanismo. Ou cordas vocais. Não... sílabas.

Lidner cruzou os braços.

— Duas pessoas? — perguntou ela.

— No mínimo, duas funções diferentes — respondeu Near.

Rester observou a rainha branca. Near manteve os olhos em uma rainha preta, mas não a pegou.

— Um é promotor. E o outro, se existirem dessa forma, o juiz — disse Rester.

— Exatamente — afirmou Near. — Mas isso é um talvez.

Rester voltou ao tablet.

— Procuramos também acessos prévios às informações de Reinhardt e Rusk — disse ele. — O volume de pesquisas é inútil depois das mortes. Antes delas, é menor, mas ainda amplo. Jornalistas, curiosos, advogados, familiares, bots e agregadores de notícia.

— Alguém que não deveria estar ali? — perguntou Near.

— Nada direto — respondeu Rester. — Nenhuma origem limpa. Alguns acessos anteriores às mortes parecem sair de regiões incompatíveis, mas isso não basta. Pode ser apenas infraestrutura comum, datacenters, redes comerciais ou, quem sabe, mascaramento.

Lidner completou:

— Se há alguém por trás disso, está tentando criar ruído.

Near olhou para ela pela primeira vez.

— Boa formulação.

Lidner não mudou de expressão.

Near voltou os olhos à assinatura pausada.

— Ruído ainda indica som...

Rester aguardou.

— O que fazemos com Ômega? — perguntou Lidner.

— Nada em público.

— Nada? — perguntou Rester.

— Se L responder agora, Ômega confirma que conseguiu a atenção de L. Se L se mantiver quieto, Ômega vai precisar falar de novo... pelo menos, esse é o pressuposto.

Lidner olhou para a assinatura congelada.

— E Pi?

Near movimentou a rainha branca para que ela ficasse após os peões, não atrás.

— Pi também quer a nossa atenção. Talvez de forma mais desesperada do que Ômega. Mas, ainda assim, de forma estratégica.

Near voltou a reproduzir a gravação. Ela saiu da assinatura para um reinício de loop, alterando-se para as propagandas e, depois, a escuridão.

— Coletem todas as versões originais — ordenou ele. — Quero gravações de rua, arquivos das emissoras de painéis, vídeos de celulares e cópias antes da compressão.

Rester assentiu.

— E os nomes enviados a Ômega?

— Monitorem todos... — disse Near.

Lidner antecipou a resposta de Near:

— Sem bloquear os fóruns...

Near ia abrir a boca, mas alterou a própria fala.

— Isso. Quero ver o que aceitam e o que ignoram.

Rester digitou no tablet.

— Arquivo Ômega? — perguntou.

Near olhou para os dois peões pretos caídos atrás da rainha.

— Arquivo Ômega.

A pausa foi curta.

— E Arquivo Pi — concluiu Near.

Rester girou no próprio eixo e foi ao trabalho. Lidner manteve a postura, ainda de braços cruzados.

— Eu procurava uma terceira vítima...

Near avaliou o bispo branco e a rainha branca.

— ...encontrei um show de estreia.