Death Note: Ω

3 Capítulo II: Tentativa (Mio)


17h31 — 21 de junho de 2026

Escritório de Mio, Residência Kujō, Okazaki — Kyoto

Mio

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Mio, após fechar a porta, olhou para a manta em seu colo. Puxou-a para o lado, entre a perna esquerda e a lateral da cadeira. Fitou o livro. Impulsionou a cadeira até o laptop e ajeitou-se perante o teclado. Ligou calmamente a máquina.

Voltou a fitar o livro. Pegou-o na mão e o abriu, direcionando os olhos novamente às regras.

O humano cujo nome for escrito neste livro morrerá.

Este livro não surtirá efeito a menos que o escritor tenha em mente a face da vítima ao escrever seu nome. Assim, pessoas que partilham o mesmo nome não serão afetadas.

Ela semicerrou os olhos. O sistema operacional do laptop emitiu um som, requisitando a senha de acesso ao perfil de usuário.

Ela ignorou.

Se a causa da morte for determinada em 40 segundos após o nome ser escrito, assim acontecerá.

Se a causa não for especificada, a pessoa morrerá de ataque cardíaco.

Após escrever a causa, os detalhes da morte devem ser fornecidos nos próximos 6 minutos e 40 segundos.

Ela finalmente ergueu os olhos até a tela do laptop. Com uma das mãos livres, inseriu agilmente a senha numérica e pressionou a tecla Enter. Pouquíssimos segundos depois, a área de trabalho de Mio se tornou disponível.

Mio voltou a observar as regras que já havia lido. Depois, passou às da próxima página.

Este livro se tornará propriedade do mundo humano uma vez que toque seu solo ou chegue a ele de alguma forma.

O proprietário do caderno poderá reconhecer a imagem e a voz do seu proprietário original, ou seja, o Shinigami.

Mio fixou os olhos na palavra Shinigami. Piscou algumas vezes, questionando-se. Inspirou fundo e soltou o ar de forma serena.

Olhou para o lado, nada viu e continuou a leitura.

O humano que usar este livro não poderá mais ir ao paraíso ou ao inferno.

Ela parou novamente, pensativa. Levou o dedo ao touchpad e clicou duas vezes no navegador da internet. Inseriu na busca: "Nodvs latim significado".

A inteligência artificial do navegador respondeu de imediato: "A palavra correta em latim é nodus, que significa nó". Em seguida, ofereceu mais contextos para a palavra.

Mio fechou o livro em seu colo. Embora já soubesse a resposta, pesquisou: "Shinigami".

Em resposta, a I.A. devolveu o seguinte: "Shinigamis são psicopompos da mitologia japonesa, atribuídos à personificação da morte”. Além disso, apresentou mais contexto.

Ela abriu um site popular de vídeos e buscou: "Poder de Kira TV Sakura 2019".

Como resultado, o site recomendou um vídeo de uma transmissão outrora ao vivo da TV Sakura, com a thumbnail de um papel flutuante anunciando um leilão para o suposto Poder de Kira.

Ela clicou nele e aumentou o volume. Ouviu os jornalistas confusos e leu o papel na tela. Pausou o vídeo ao apertar a barra de espaço. Repousou a palma aberta sobre o livro.

Seria... isso?

Encarou o livro. Passou a mão pela capa, sentindo o relevo das letras que compunham o nome: LIBER MORTIS.

Uma batida leve veio da porta. Mio não tirou os olhos do livro.

— Mio? — a voz de Sion saiu abafada pela madeira. — Quer chá ou café?

— Nenhum, obrigada.

Houve uma pausa.

— Você não vai comer nada?

— Depois eu pego — disse ela.

Outra pausa, mais curta.

— Tá... — disse Sion, do outro lado.

Os passos dele se afastaram pelo corredor.

Mio abriu novamente o livro. Focou nas regras. Leu sobre posse, memória, renúncia, tempo de morte, causas possíveis e impossíveis, e até compra e venda. Leu todas mais de uma vez.

Ao dar-se por satisfeita, colocou o livro aberto ao lado do laptop.

Se esse é mesmo o poder de Kira...

Ela abriu uma nova aba no navegador. Fechou as anteriores.

Só vou saber testando.

Posicionou o cursor no campo de busca e apertou o touchpad. Digitou sem pressa. Abriu uma matéria antiga. Depois outra. Depois um relatório jurídico. Nomes passavam pela tela: diretores, médicos, intermediários, fundações, clínicas e testemunhas.

Parou em um deles.

Lukas Reinhardt. Sessenta e três anos. Suíço. Ex-diretor da Fundação Aster.

Mio leu a primeira reportagem. Depois a segunda. Depois um resumo do julgamento.

Testes médicos ilegais. Crianças. Idosos. Refugiados. Consentimentos falsificados. Arquivos destruídos. Médicos subordinados assumindo culpa. Advogados caros reduzindo a sentença ao que ainda podia ser provado.

Ela manteve uma expressão vaga no rosto. Abriu uma foto do tribunal.

Rosto.

Abriu o registro da condenação.

Nome completo.

Abriu uma notícia recente sobre o recurso negado.

Vivo. Cumpre pena em uma prisão de alta segurança perto de Genebra.

Mio olhou para o canto da tela: 17h46 em Kyoto.

E em Genebra?

Após pesquisar a conversão, o navegador respondeu: 10h46. Ela ficou imóvel por alguns segundos.

Longe daqui.

Confirmável, ao que parece... Basta esperar as notícias.

Ela levou a mão direita até a gaveta ao lado da mesa e a abriu. Tateou dentro sem olhar, procurando algo. Sacou uma caneta vermelha. Encarou o rosto dele, estampado na tela.

Lukas Reinhardt...

Ela brincou com a caneta, batendo-a no polegar enquanto a segurava entre o indicador e o médio.

— Prove — disse em voz baixa.

Pegou o livro, folheou das regras até a primeira página em branco e escreveu, no começo da folha, em letra cursiva: Lukas Reinhardt.

Ela relaxou a mão. Esperou. Seus olhos voltaram ao relógio do laptop. Encarou o segundeiro.

Passaram-se os quarenta segundos.

Ela soltou a caneta, que rolou livremente pela mesa. Olhou fixamente para o rosto dele na imagem. Mordeu o lábio inferior.

Veremos.

{3 HORAS E 32 MINUTOS DEPOIS}

Mio e Sion degustavam o jantar. Na mesa havia arroz, sopa de missô, salmão grelhado, legumes em conserva e duas xícaras de chá. Sion bebia sencha; Mio, mugicha frio.

— Achou o que procurava? — questionou Sion.

— Hm?

— Sobre o seu livro.

Ela pensou antes de responder.

— Ainda não... É muito cedo para obter uma resposta.

— E qual é a pergunta?

Ela mediu as palavras mais uma vez.

— Se é só uma piada... ou uma ferramenta.

— O que há nele que faz você questionar isso?

— Tem um... manual — disse Mio.

— E?

Ela não respondeu. Olhou para o relógio de pulso no antebraço esquerdo. Ele percebeu.

— Desde o cemitério, você tem agido estranho.

Ela arqueou as sobrancelhas, respondendo com uma expressão de curiosidade.

— Tá tudo bem — disse ela, tranquilizando-o.

Ela terminou o prato e deu os últimos goles no chá. Empilhou a louça, colocou a xícara dentro da tigela e levou tudo ao colo. Impulsionou a cadeira até a cozinha.

— Mio?

— Hm? — respondeu, sem parar.

— Pode deixar que eu lavo.

— Você cozinhou, Si.

— Tudo bem. Não me importo. Pode voltar à sua pesquisa.

Ela pensou por um instante. Levou a louça até a pia e a assentou com calma.

Sion levou a tigela de missoshiru aos lábios e bebeu o caldo.

— Obrigada — disse ela, virando a cadeira.

Ele repousou a tigela sobre a mesa e pegou um pedaço de tofu com os hashis.

— De nada.

Levou o tofu à boca e mastigou em silêncio.

Ela passou com a cadeira por trás dele, contornando a mesa. Seguiu pelo corredor, parou diante do escritório e abriu a porta de correr. Entrou. Não a fechou; apenas foi até o laptop.

Apertou a barra de espaço para tirar a tela do modo de hibernação. Inseriu a senha. Abriu o navegador. Digitou: "Lukas Reinhardt".

Nenhuma atualização recente.

Ela suspirou.

Melhor eu verificar amanhã.

Não é saudável dormir de estômago cheio, mas...

Foda-se.

Ela desligou o laptop, pressionando o mesmo botão que o ligava. Olhou uma última vez para o livro.

Virou a cadeira e deixou o escritório. Ao sair, fechou a porta.