Death In The Rain
1 Death in the Rain
Notas iniciais
Dedicado a Lynn7, a garota mais chata do mundo e que me viciou em escrever originais.
PS.: E eu que jurava que nunca ia escrever nada assim...
Ela corria.
Corria como se sua vida dependesse disso. Os passos no chão misturavam a água da chuva com terra, e a lama sujava os sapatos e as pernas, mas ela não ligava.
A visão embaçada e a respiração ofegante não ajudavam a ser mais rápida, o que a frustrava. Tinha que chegar antes que fosse tarde!
Tropeçou em uma pedra, indo de encontro ao chão sujo. Os óculos caem do rosto, fazendo-a perder preciosos segundos para encontrá-lo. Volta a correr.
Em sua mente, não existia a chuva, o caminho acidentado ou os ferimentos no corpo, dentre os quais se destacava um profundo corte no antebraço. Só existia uma única palavra, um único nome, se repetindo como um disco arranhado.
Sarah. Sarah. Sarah.
A pequena estrada de terra pela qual seguia terminava na entrada de uma floresta. Continuou seguindo por entre as árvores.
Finalmente, chegou a uma espécie de clareira. E paralisou.
O cenário era mórbido. Corpos humanos mutilados se estendiam por quase todo o território. Sangue e lama se misturavam e, junto à carne exposta dos corpos, deixavam um odor desagradável no ar. Olhos vidrados e sem vida pareciam encará-la. E um pouco afastado de tudo isso, lá estava.
O corpo em questão se destacava por ser pequeno. Pertencia a uma garota de não mais que dez anos de idade. Os cabelos negros, na altura dos ombros, estavam cheios de folhas. A pele, que normalmente exibiam um tom adoravelmente rosado, agora estava em um branco cadavérico. O vestido azul claro estava sujo e continha manchas doentiamente vermelhas. Sangue.
- SARAH!!! — Ela corre em direção à menina, torcendo, rezando, pra que ainda estivesse viva.
De perto, a cena é ainda pior. No rosto há um corte que vai da têmpora esquerda até o queixo. Existem arranhões nos joelhos e marcas arroxeadas nas pernas, como se a criança tivesse apanhado. O braço direito está torcido em um ângulo anormal e, o mais preocupante, um buraco na barriga que não para de derramar sangue. Mas, apesar disso, ela ainda respirava. Superficialmente, admito, mas ao menos respirava.
Ajoelhou-se ao lado dela, olhando para a garota com uma mistura de preocupação, medo e carinho nos olhos.
— Sarah? — sussurrou. Nenhuma resposta — Sarah? – Chamou um pouco mais alto. A voz estava rouca. Não sabia se pela chuva ou pelo tanto que havia gritado antes. Provavelmente os dois.
Sarah abriu os olhos com um pouco de dificuldade. A chuva caía em menor quantidade agora, mas a visão dela estava embaçada por causa da perda de sangue. Com algum esforço, reconheceu o rosto pairando á sua frente.
- Eli? É você? – a voz estava fraca e falhou na última sílaba.
- Graças a Deus. Eu estava tão preocupada.
- Eli, está doendo.
- Eu sei querida, mas vai passar. Eu juro. – A voz se tornou acolhedora para tentar acalmar a criança.
-Cadê a mãe e o pai, Eli? Eu não os vi aqui. – Se esforçava mais a cada sílaba para ser entendida.
Elizabeth engoliu o nó na garganta ao se lembrar dos corpos ensaguentados dos pais a quilômetros dali.
- Eles... Eles estão em outro lugar.
- Eu estou com sono, Eli. – Suspirou.
- Não! Sarah, não dorme, por favor! – Os olhos dela começaram a queimar e as lágrimas a se confundirem com a água da chuva.
- Mas é difícil. Eu sinto meu corpo pesado.
- Eu sei que é difícil, meu amor, mas faz um esforcinho, sim? – Fungou. – A ajuda já vai chegar e você vai ficar bem.
- Eli, eu vou morrer. – Aquilo era um fato. E ela não estava com medo. Na verdade, era um alívio.
- Não! Você vai ficar bem. Vai sobreviver. E nós vamos ao parque de diversões. E tomar sorvete. E eu até vou brincar de bonecas com você.
- Mentirosa. Eu sei que vou morrer. Mas tudo bem. Eu vou ver a vovó de novo.
- Não fala besteira, Sarah.
- Desculpe por ter quebrado o seu anjo. Não foi de propósito.
- Eu sei. Tudo bem. Só... – Soluço. — Mantenha os olhos abertos e tudo vai se resolver.
- Eu te amo, Eli.
- Eu também te amo, Sarah. – Ela viu a garota fechar os olhos, e a respiração fraca deixou de existir. – Sarah!? Sarah, por favor, não faz isso comigo. Não me deixe sozinha. – Gritou enquanto sacudia o corpo da irmã. – Sarah! Eu só tenho você agora, eu imploro!
Mas apesar do choro e das súplicas, Sarah não voltou a abrir os olhos. Elizabeth segurou a mão diminuta de Sarah e encostou a testa nela, soluçando.
- Sarah? Sarah. Sarah...
Ela acabou desmaiando de exaustão, ao lado do cadáver da irmã.
A partir daquele momento, ela estaria sozinha.
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