Dearg Due

3 Capítulo 3 - Caisleán Dearg


— Tem certeza de que é seguro seguir por aqui? — gritei, tentando me fazer ouvir acima da rajada de vento e do barulho alto da chuva que castigava o veículo, batendo contra o vidro com tanta força que dava a impressão de que conseguiria trincar o parabrisa.

— Sim, senhorita Dan. Não se preocupe, é só uma chuvinha passageira. — Mal o motorista terminou de falar, rasgou o céu um raio azulado, vitimando uma pobre árvore não muito longe da estrada.

— Meu Deus!

— Ainda falta muito? — perguntou meu pai, tão ou mais preocupado que eu. Ele segurou minha mão e desviou o olhar do local onde o raio atingira a árvore, espiando a janela ao seu lado, para onde vinha evitando olhar, já que o desfiladeiro parecia não ter fim.

— Logo vamos descer a encosta e chegaremos — respondeu o motorista, dando uma rápida olhada pelo retrovisor. — O Sr. Sank está muito ansioso para o início dos trabalhos, a família Dan foi muito recomendada, se me permitem a ousadia.

Muito recomendada? Ainda não conseguia ver tais palavras saindo da boca ardilosa do Sr. Fisher.

Pouco depois fizemos uma curva acentuada e pude observar ao longe, parcialmente encoberta pelo temporal cinzento, a construção antiga. Antes que eu abrisse a boca para comentar, papai foi mais rápido, observando:

— É a silhueta de um palacete gótico da era vitoriana? — Sorriu, abobalhado.

— Não faço ideia sobre essas coisas, senhor — respondeu o motorista. — Mas sei que este é o lar ancestral da família Sank. Ouvi dizer que há dez anos, o senhor Sank gastou uma verdadeira fortuna para reconstruir parte da casa, danificada por culpa do incêndio.

— Incêndio? — perguntei.

— Kilkenny ainda é um condado rural, Srta. Dan, e infelizmente, vez ou outra, o que aparenta ser... diferente, não é visto com bons olhos. — A entonação do motorista pareceu sombria demais e quando nossos olhares se cruzaram através do retrovisor, senti um calafrio.

— Um incêndio... criminoso? — inquiriu papai.

Como que para pontuar a resposta, o estrondo de um trovão reverberou tão forte e intensamente que foi possível sentir o tremor nas janelas do carro.

Assim que atravessamos o pórtico de pedra, o motorista desacelerou.

— Conforme o previsto, chegamos bem antes do jantar. Bem-vindos ao Caisleán Dearg.

— Castelo Vermelho — sussurrei.

— E... qual a origem deste nome? O senhor sabe? — perguntou meu pai ao motorista. As terras da Irlanda não eram conhecidas por fornecer qualquer material de coloração avermelhada, e sim bastante calcário, e formações rochosas com muito granito e ardósia.

— Parece que tem a ver com uma antiga lenda irlandesa, mas não os privarei de uma agradável conversa com o Sr. Sank, estou certo de que ele contará a história com prazer.

O motorista era um sujeito educado e evasivo, durante o trajeto, desde o aeroporto, ele se mostrou solícito, porém distante. Talvez ele não quisesse atravessar algum limite com o nosso contratante, deixando as honras para o anfitrião.

O carro parou rente a um toldo que não fazia parte da arquitetura, tampouco da decoração, era apenas funcional. A chuva havia abrandado, mas não parado por completo, e a sensação térmica era de menos todos os graus, já que o vento gelado soprava, impiedoso.

— Aqui me despeço, por hora — disse o motorista, cumprimentando-nos com um movimento curto de cabeça.

— Obrigado... desculpe, como é mesmo o seu nome?

— É Flynn, senhor.

— Flynn — repetiu papai. — Obrigado por nos trazer em segurança.

O motorista novamente acenou com a cabeça. A porta do lado carona foi aberta por um sujeito alto e magro, diferente do motorista, não sorriu ou tentou demonstrar simpatia ao nos cumprimentar e pedir que o seguíssemos. Avisou-nos que a nossa bagagem seria levada pelas criadas para os quartos a que seríamos atribuídos. Conduzindo-nos através de um enorme salão, Ronan, que me pareceu ser um tipo empoado, parou de caminhar quando alcançamos o espaço com as cadeiras, sofás e a convidativa lareira.

— O Sr. Sank estará aqui em breve. Pedirei para que sirvam o chá aos senhores, com licença.

Papai deu de ombros e eu franzi o cenho.

Não muito tempo depois, fomos agraciados por uma reconfortante xícara de chá preto; a fumaça do líquido quente acariciava meu nariz toda vez que eu virava a xícara, com cuidado, nos lábios. Serviram também bolinhos com glacê e geleia, eu estava faminta e não me fiz de rogada, abocanhando várias das iguarias.

Estávamos terminando o chá quando uma voz potente ecoou na sala, ricocheteando nas paredes até chegar em meus ouvidos e me arrepiar a alma.

— Senhor Patrick Dan! — Foi mais um comando do que um cumprimento e nos pusemos de pé. Ao mesmo tempo em que me virava para fitar o dono daquela voz. — E sua adorável filha, senhorita Mikaela Dan, correto? — inquiriu retoricamente.

Encurtou a distância a passos largos e decididos. Eu gostaria de ter dado uma boa olhada nele, mas no ponto em que nos encaramos, desviar o olhar do seu rosto foi impossível. Não se tratava de qualquer efeito romântico, típico de livros e filmes. Foi diferente, era algum tipo de magnetismo. Obviamente que foi agradável encarar o nosso contratante e descobrir que não era algum entojado da velha escola, mas um homem jovem, atraente, tipicamente irlandês com sua barba vermelha, assim como os cabelos de fios longos que ele mantinha atados em um rabo de cavalo rente à nuca.

Dearg. A palavra irlandesa para “vermelho”, veio em minha mente num lampejo.

— É um prazer tê-los em minha casa — ele disse enquanto apertava a mão do meu pai.

— O prazer é nosso, Sr. Sank.

— Boa tarde, como vai? — perguntou, dessa vez segurando minha mão e a levando próxima ao seu lábio, mas sem tocar a minha pele, de fato. O som de couro rangendo pareceu fora de lugar, foi quando me libertei da impressão que ele me causou e desviei o olhar do seu rosto para a mão que me segurava, mão esta dentro de luvas de couro marrom. Ele inteiro estava vestido com roupas de montaria, o que não me pareceu nem um pouco lógico, já que chovia torrencialmente lá fora.

Embora sua vestimenta parecesse fora de contexto, os cabelos ainda estavam secos, o que me fez pensar que talvez ele estivesse preparado para uma cavalgada, mas desistira devido ao mau tempo.

— Senhor Cold Sank, correto? — brinquei, falando do mesmo modo que ele, mas me arrependendo em seguida, culpa exclusivamente do sorriso de lábios achatados que ele me deu.

— Correto, Srta. Dan — respondeu-me em seguida. A sensação de ter ultrapassado os limites me acompanhou durante boa parte da noite.

Papai e eu fomos conduzidos a quartos adjacentes, mas a distância entre as portas, dava a impressão de que estávamos a quilômetros um do outro. Conforme havia nos dito o mordomo, ou fosse lá o cargo que ocupava, minhas bagagens foram levadas para o quarto, encontrei-as perfeitamente alinhadas ao lado da porta do armário, no entanto, eu desconfiava — tinha certeza — de que nada do que eu trouxera do Egito serviria para o clima da Irlanda, o oposto de Luxor.

O banheiro privativo, grande e moderno, estava abastecido com toalhas macias, sabonetes de grife e outros produtos para higiene pessoal, além de aparelhos como secador de cabelo e barbeador elétrico, tudo de primeira linha. Pelo que pude notar, nosso empregador não se preocupava com gastos supérfluos.

Seguindo o roteiro, tomaria um banho e descansaria um pouco antes de o jantar ser servido, ocasião em que o Sr. Sank julgou ser a mais apropriada para conversarmos sobre os detalhes do trabalho.

Ser um arqueólogo de contrato era contar muito mais com a sorte do que com qualquer outra coisa. Em áureos tempos, as expedições em que minha família excursionou estavam repletas de grandes tesouros de valor incalculável para a humanidade: no ano de 1924, meu bisavô esteve na África do Sul quando sua equipe descobriu um crânio que mudou parte do curso da história, uma nova espécie surgia, o "Australopithecus", o macaco do sul. Isso rendeu aos Dan grande notoriedade no período. Duzentos anos antes disso, em 1798, um Dan esteve presente e chefiou a equipe que viria a descobrir o sítio arqueológico de Pompeia, a cidade romana que foi destruída durante uma grande erupção do vulcão Vesúvio, em 79 d.C.

Infelizmente, o último ano estava sendo difícil, e com a debilitada saúde do meu avô, nossos gastos eram ainda maiores e a fama não era uma moeda de troca.

Saí do banho, penteei-me e vesti o que me pareceu mais apropriado para um jantar de negócios e que me aquecesse ao mesmo tempo. Depois de tanto tempo como uma nômade, em escaldantes desertos no Egito, a blusa diáfana zombou de mim quando a pus no corpo; em pleno mês de agosto, a temperatura lá fora não deveria passar dos dez graus.

Bateram à porta e eu conferi meu relógio de pulso, pensando que talvez o fuso horário tivesse bagunçado minha precisa noção de tempo, mas não, eu não estava atrasada para o jantar.

— Entre.

— Com licença, Srta. Dan. Sou eu, Bridget.

A jovem de semblante sereno entrou no quarto, ela trazia consigo alguns cabides fechados com plástico. Ela havia me conduzido até ali e se mostrou muito solícita. Eu não fazia ideia se todas as empregadas daquele casarão se empenhavam tanto em servir como se estivéssemos em um hotel por exigência do patrão ou apenas esmeravam-se em demonstrar gentileza.

— Olá.

— Desculpe incomodá-la, mas o Sr. Sank acredita que a senhorita poderia precisar de alguns casacos, até que se acostume com a temperatura de Kilkenny.

— Ah, nossa, isso foi muito atencioso... — respondi, encantada.

Sem deixar de sorrir com simpatia, Bridget colocou os cabides sobre a cama. Ela estava uniformizada com calça e camisa de alfaiataria azul-marinho e seu cabelo louro, preso em um coque frouxo.

— O jantar será serviço por volta das oito, se preferir, posso vir chamá-la.

— Chamar? Bem, não, não, isso... Não precisa se incomodar, Bridget.

— Não será qualquer incômodo, o Sr. Sank deseja que eu fique disponível para suprir qualquer de suas necessidades, senhorita.

— Ah, sim? Hmm... tu-tudo bem, então. Eu agradeço a cortesia.

— Não por isso. Com licença.

Bridget deixou o quarto e minha boca escancarou. Era este o emprego que o idiota do Randolph deixou escapar? Não era de se admirar que estivesse enrolando tanto, a fim de desfrutar da estadia. O arqueólogo tinha que ser ágil, rápido, seguir o ritmo da obra, da conclusão do gasoduto, da rodovia, do que fosse. Se o contratante estivesse exigindo celeridade, era o que teria, mesmo que aquela cama estivesse muito mais convidativa do que acampamentos em florestas tropicais, na América do Sul, ou no interior da África.

A cama era grande o bastante para que eu pudesse me acomodar sem tocar os cabides deixados por Bridget. Eu só precisava de um pequeno descanso, nada além de uma horinha... Minhas pálpebras, pesadas de sono, se fecharam apenas para um cochilo.