Dear Sophia
19 XVIII
– Achei que iríamos passar o dia juntos. – Ele fez bico, me pegando pela cintura.
– Tenho que trabalhar. – Respondi, tentando sair de seus braços.
– D... – Ele fez manha, sem me soltar. – Não tem aula hoje, não tem milhares de pessoas olhando para nós como se tivéssemos uma doença extremamente contagiosa. Não temos que aturar meus pais, porque eles tão viajando... É domingo. Dia de descanso. Fica mais...
– Não posso. – Teimei, olhando seus olhos castanhos.
Ah meu Deus, como eu me perdia facilmente olhando para aqueles olhos...
– Vai trabalhar? – Ele perguntou, levantando uma sobrancelha, enquanto me puxava de volta para a cama.
– Vou. – Respondi, dando-lhe um beijo. – A lanchonete não fecha hoje. Precisamos do dinheiro.
– Mas já vamos comprar a casa! – Ele teimou.
– Não interessa. – Fechei a cara, saindo da cama novamente. – O dinheiro só vai dar para comprar a casa e mais algumas coisas. O resto não vai cair do céu na nossa mão.
Brendon não respondeu, voltou a deitar na cama e eu fui trocar a camisola por uma roupa mais casual.
– Quer que eu te busque? – Ele gritou, enquanto eu me trocava no banheiro.
– Não precisa! – Respondi, colocando a calça jeans. – Nate disse que vai me dar uma carona. Vai comprar alguma coisa aqui perto.
– Não gosto dele. – Ele disse mais para si mesmo, mas ouvi do mesmo jeito. – Está dando muita bola para você.
– É que ninguém consegue fugir do meu incrível charme. – Sorri, saindo do banheiro e ajeitando a camiseta dos Beatles.
– Eu que o diga. – Ele sorriu, levantando também.
A visão daquele garoto lindo de cueca Box branca me deixou desnorteada por alguns instantes.
– Quando vamos nos mudar? – O moreno perguntou, indo para o armário para pegar uma calça.
– Depois de amanhã. – Respondi. – Ou quarta. Porque não sabemos quanto tempo demora pra tinta secar.
– Espera um minuto. – Ele franziu o cenho. – Você pretende pintar aquela casa quando?
– Amanhã. – Murmurei. – Alicia e as meninas precisam da minha cama logo. E a Mirella tá contando as horas pra se ver livre de mim. Além do mais, quero ter logo minha própria casinha.
– Amanhã... – Ele sussurrou. — Desculpa, mas não vai dar... Ou você espera mais um pouco para eu te ajudar, ou pinta sozinha.
– Por quê? – Juntei as sobrancelhas. – Vai sair?
– Dallon conseguiu um show para nós. – Ele sorriu. – Vamos ganhar um bom cachê, você mesma não disse que as coisas não vão cair o céu na nossa mão? Pois é...
Sorri.
– Ok então. Preciso mesmo ir. – Fiz bico, como se mandasse um beijo, e saí da casa dos pais dele.
~♥~
– Você demorou. – Nathaniel disse, juntando as sobrancelhas, ao me ver entrar e correr para o depósito.
– Eu sei. – Respondi, largando a bolsa em cima de uma caixa e pegando o avental engordurado. – É que eu não acordei a tempo, e o Brendon ainda ficou me prendendo lá... Bom, agora estou aqui. – Abri os braços, como se tivesse falando algo como “tchanãããm”.
Ele riu.
– Já tive clientes perguntando por você hoje. — Ele disse, enquanto voltávamos para frente da lanchonete.
– Ah, é mesmo? – Sorri, levantando uma sobrancelha. – Quando eu falo que tenho carisma, ninguém acredita. – Fingi manha, fazendo-o rir ainda mais.
– E quando eu falo que você podia ser prefeita, você acha ruim. – Ele retrucou, estirando a língua.
Mostrei-lhe a língua também, fazendo uma careta.
Ficar com o Nathaniel era... Divertido. Ele era um daqueles caras que não se esforçavam para serem legais. Ele simplesmente era.
A campainha da lanchonete soou e eu acenei para Nate, dizendo que eu quem atenderia os clientes.
Comecei a preparar o bloco de notas e ir para frente do balcão, mas quando vi quem era, parei.
“Merda” Pensei. Girei nos calcanhares e voltei correndo para a cozinha.
– Que foi isso? – Nathaniel perguntou, indo atrás de mim. – Nunca achei que Delilah Phelps fugiria de... Duas garotas.
– Eu as conheço. – Disse, andando de um lado para o outro.
– Uhun... – Ele cruzou os braços, esperando maiores informações.
– Costumavam serem minhas melhores amigas. Antes de... – Parei, sem querer comentar o ocorrido. – Enfim... Desde então elas me olham como se eu... Fosse um rato de laboratório que caiu no lixo tóxico e agora tem dois metros de altura, olhos vermelhos e grandes garras e dentes pontiagudos... – Suspirei, enquanto ele ria.
– Que imaginação fértil, hen?
Não respondi. Ele secou as lágrimas e me olhou com intensidade.
– E agora você, Delilah, vai fugir de duas garotas? – Ele sacaneou, fazendo-me parar de andar. – Hey, me escuta. – Ele disse, chegando mais perto. – Você é forte. Vai lá e acaba com isso de uma vez.
Gemi, querendo muito não ter que ir. Peguei o bloquinho de notas e fui até as garotas.
– Posso ajudar? – Perguntei, tentando tampar o rosto com a franja.
– Sim, queremos duas panquecas e... Espera... Delilah? – Mirna perguntou, afastando o cabelo do meu rosto. – Que você está fazendo aqui? Cadê o Brendon? Ele tá aqui?
– Hãn? – Juntei as sobrancelhas. – Ele não tá aqui. E eu to... Trabalhando, oxe. — Tentei sorrir, mas as duas (Elizabeth e Mirna) estavam com os olhos brilhando.
Acredite em mim. Isso não é coisa boa.
– Então... Panquecas, e...? – Tentei, em vão, voltar para o... Importante.
– Menina! Você nunca mais foi falar com a gente! – Elizabeth me cortou, ainda com aquele estranho brilho no olhar. – Como vai o bebê?
– Vocês que nunca mais vieram conversar comigo! – Retruquei, e corei logo em seguida. Havia registrado, finalmente, o que ela havia perguntado. – É... Ele... Tá bem... – Respondi, lembrando que o resultado do exame sairia hoje.
– Já sabe o sexo? – Mirna perguntou.
– Não.
– Quem vai ser a madrinha? – Elizabeth perguntou, fazendo coro à morena.
– Não sei... – Comecei a responder, mas Mirna me cortou:
– Podia ser eu.
– Ou eu. – A ruiva disse, piscando os olhos.
– Apesar que, se você se vestisse de homem, poderíamos fazer um casal. – Mirna disse, olhando para a amiga.
– E porque eu quem tenho que me vestir de homem? – Elizabeth perguntou, fechando a cara.
– Porque eu tenho volume demais, se é que você me entende. – A morena respondeu, empinando o nariz.
– Vai ser minha irmã. – Disse, cortando o assunto das duas. – E meu irmão. Os padrinhos.
Ambas me olharam com aquela cara... Como a da história do rato de laboratório...
– Está de brincadeira, né? – Mirna perguntou, estreitando os olhos negros.
– Hn... Não. – Murmurei. – Então... Panquecas?
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