Dear Revenge
3 Alucinação
Notas iniciais
O frio daquele fim de noite entrava nos pulmões de Taissa que estava atrás da porta de seu quarto escutando seus pais brigarem de novo. Não era novidade, eles brigavam toda hora, por tudo. A única saída era ficar no quarto lendo um livro ou assistindo um filme.
Na escola, Taissa já não era uma das melhores. Era tímida e sem autoconfiança. O próximo dia seria uma luta, o primeiro dia de aula. Não aguentava mais tanta humilhação. Era chamada por todos de “A Garota Muda” só porque não falava frequentemente e era mais conservadora. Nunca teve uma amiga que compartilhasse segredos ou coisa assim. Passava o intervalo com Emma, outra garota humilhada. As duas era muito diferentes, uma rebelde e outra certinha, mas até que se davam bem.
Por que não contar para os pais sobre o bullying no colégio? A resposta era simples: eles não ligariam. Eles são mais ocupados em brigar entre si e tentar competirem em alguma espécie de competição de “Quem é o melhor?”, mas esquecem que eles também tem filhos. Ou melhor, filha. Taissa era filha única e se odiava por isso. Não tinha amigos, não tinha ninguém. Um dia tentou chamar Emma para ir a sua casa, mas seria estranho uma garota totalmente trabalhada no preto e vermelho em um quarto rosa, roxo e branco.
Nessas férias, Taissa passou em um acampamento, onde conheceu Mila, uma garota legal e divertida que a fez sentir feliz pelo menos alguma vez na vida. Pena que ela vivia tão longe e não havia maneira das duas se comunicarem.
Encostada na porta, escutou a conversa de seus pais, eles falavam de divórcio. No dia anterior a esse, Taissa havia soltado uma bomba bem na mesa do jantar. Enquanto comia, seus pais discutiam sobre milhões de coisas inúteis. Assim que terminou o prato, se levantou e anunciou:
– Eu estou cansada – suspirou. – Vocês não se aguentam, parecem que dão choque com o olhar. Deveriam se separar logo e acabar com o sofrimento. Eu entenderei, não tenho nove anos.
Assim que disse, saiu correndo para as escadas. Nunca tinha falado tanto na vida, sempre ficava quieta no seu canto. Quem conhece ela, sabe que esse não era o seu jeito de ser. O que ela disse fez seus pais tentarem tomar uma decisão, mas não adiantou muito, eles continuaram a brigar. Naquela noite, seu pai gritava que deviam sim se separar, e tudo o que Taissa havia dito era verdade. Já a sua mãe gritava dizendo que não e que Taissa apenas tinha explodido, e que isso era normal. Depois de tantas brigas, depois de tantos sins e nãos, sua mãe finalmente anunciou:
– Eu estou grávida! – atrás da porta de seu quarto, Taissa abriu a boca de espanto. Primeiro pensou em como seria de mais ter um irmão, depois pensou que não seria tão bom já que seus pais estavam quase no fim do casamento. Ela se levantou, arrumou seu cabelo loiro-branco e abriu a porta. Desceu correndo as escadas e deu de cara com seus pais. Seus pais. Seus pais se beijando. Aquela cena que ela nunca imaginaria nem morta estava em frente aos seus olhos. Não podia acreditar.
– Mãe? – perguntou, fazendo os dois pararem de se beijar instantaneamente e se virarem com as bochechas vermelhas de vergonha. Sua mãe sorriu. – É verdade? – ela assentiu com a cabeça e Taissa correu abraçar os dois. Aquela era a melhor noite de sua vida. Melhor até quando ela e Mila ficaram contando piadas idiotas na cabana no acampamento.
* * *
– Hei, hei, hei, dorminhoca. – seu pai cantarolou em pé, ao lado da porta de seu quarto. Ah, não!, pensou. Ótimo. O dia chegara. O dia do matadouro. O primeiro dia de aula. Seu pai sempre a levava para o colégio, pois acordava cedo para ir ao trabalho também. Se levantou tonta e foi para o banheiro se arrumar. Escovou os dentes e penteou o cabelo. Colocou um short jeans azul, uma blusa preta e tênis all-star. Foi para a cozinha e tomou o café da manhã, waffles com geleia de morango. Assim que terminou de comer, foi para o carro com seu pai, que pisou no acelerador e foi para seu colégio.
Ah, o doce e querido colégio Orchid High. Onde o que reinava era o bullying e a maldade. Taissa sabia muito bem disso. Seu pai estacionou o carro ao lado da calçada, ela abriu a porta e se despediu. Estava indo direto para o inferno e não tinha medo de se queimar. Já estava acostumada. Ao lado do chafariz principal, uma estátua enorme que jorrava água pela boca, estava Emma. A linda e doce Emma. Com suas roupas escuras e cheias de correntes. Assim que viu Taissa, se aproximou.
– E aí? – Emma sorriu. Era raridade vê-la sorrir. Taissa sorriu pelo modo de linguagem que ela usou. Não, ela não falava assim. Graças a Deus.
– Como foram as férias? – Taissa perguntou. Emma era órfã. Vivia em um orfanato até o ano retrasado, quando o governo a deixou morar sozinha. Seus pais morreram em um acidente de carro e ninguém da sua família a quis. Por isso tem um temperamento assim, mas Taissa acredita que no fundo, bem no fundo, ela tem um coração solitário que precisa de ajuda.
– A mesma porcaria de sempre. – reclamou, mexendo em sua pulseira prateada. – Olha ali, uma aluna nova. – apontou. Taissa se virou para ver. Era uma garota de cabelos loiros meio escuros, ela provavelmente ficou preocupada a noite toda com o primeiro dia de aula, podia-se notar pelas olheiras.
– O que acha de nos apresentarmos? – Taissa perguntou, confiante. Emma entortou a cabeça, pensando. Depois de alguns segundos, assentiu. As duas andaram até a garota que já estava sendo alvo dos olhos de todos os outros alunos que a encaravam e cochichavam sobre ela. – Oi! – Taissa sorriu. Parece que ter soltado a bomba para os pais fez ela ter se soltado um pouco. A Taissa de antes nunca se enturmaria assim.
– Oi! – a garota cumprimentou as duas com a mão – Eu me chamo Melissa, mas pode me chamar de Liss.
– Eu sou Taissa e essa é Emma. – Taissa apontou para si mesma e depois para Emma enquanto falava.
– Meu Deus, garota – Emma soltou. – Que olheiras são essas? Parece que viu um fantasma! – essa frase fez Taissa pisar com força no pé direito de Emma, que soltou um murmuro.
– Se eu contasse que vi mesmo um fantasma você não acreditaria. – Liss sorriu.
* * *
No intervalo, Taissa e Emma sentaram-se na mesa que sempre se sentaram. Liss, carregando uma bandeja com a comida do refeitório, pensou em se sentar em uma mesa vazia, mas Taissa a chamou.
– Senta com a gente! – gritou.
Depois de um tempo conversando e comendo, conversando e comendo, Taissa resolveu ir ao banheiro, Liss também quis ir. Então as duas foram até lá. Assim que abriram a porta, deram de cara com Abigail Longwood, também conhecida como Abbey. Abbey e suas seguidoras examinaram da cabeça aos pés as duas garotas que estavam paradas em frente da porta.
– Quem diria? A muda arrumou uma amiga. – Abbey fez suas seguidoras rirem. Taissa fechou os olhos desejando que sua amiga secreta a ajudasse. O fantasma da garota morta no acampamento estava ali naquele banheiro tentando esganar Abbey. Taissa se comunicava com Amy desde um dia em que estava chorando em uma cabine daquele mesmo banheiro, pois teve o pior dia de sua vida, seus pais não paravam de brigar e Abbey não parava de a humilhar. Primeiro, achou que fosse alucinação de sua cabeça. Depois ficou com medo, mas Amy disse que não queria fazer mal a ela e sim à Abbey, porque segundo ela, Abbey praticava bullying com ela quando estava viva também. Amy queria vingança. Amy terá vingança.
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