"Se eu optasse pela coisa mais doce novamente, talvez nunca me atreveria a experimentar o amargo... Talvez nunca me atreveria a te amar."

Cerro minhas pálpebras fortemente, na esperança de que o canto melódico dos pássaro e a sombria escuridão pudesse me causar, nem que mínima, certa sonolência.

O som da porcelana pálida direcionada ao balcão foi quase inaudível, e Watari permaneceu de pé, direcionando sua atenção à meus olhos apáticos.
–Mochaccino e bolinhos, como o senhor pediu. – Disse ele, carregando na mão direita a bandeja prateada, onde anteriormente jazia meu café da manhã.
Retirou um fio cromatizado num negrume delgado sobre meus cílios, e logo pôs-se a descerrar um sorriso afável.
–Há uma diferença entre o capuccino e o mochaccino, Watari. – Falei, pondo a pequenina colher, também prateada, dentro da caneca, e em seguida direcionando tal à meus lábios róseos. –O capuccino de verdade é feito com meia xícara de café expresso coberto com meia xícara de café espumante. O mochaccino é um derivado do Mocha, que é um café Latte, com adição de chocolate. Eu, particularmente, prefiro o capuccino, mas é sempre bom variar.
O gosto era definitivamente doce, e os bolinhos eram feitos de uma massa levemente salgada, o que deixava aquela pequenina refeição mais sofisticada e saborosa... E leve... Leve como um algodão doce de sabor indefinido, que tem apenas a função de se liquefazer em nossos paladares.
Direcionei minhas íris castanhas aos cabelos grisalhos de Watari. A barba mal-feita me causou certa melancolia, e ver suas costas cada vez mais esqueléticas só me fazia lembrar do quão velho ele estava, e que sua aparência fúnebre era sinal de que algo trágico viria a seguir, e com certeza não demoraria para isso acontecer.
Não consegui comer muito àquela manhã devido a pensamentos que envolviam a morte de Watari, entre outros. Isso deveria ser algo preocupante à ele, já que largar quase que completamente um café da manhã composto somente de açúcar, não era de meu feitio.

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Me dispus a lançar o braço ao armário de madeira parda, e então puxei meu cachecol arroxeado, e logo pousei tal em minha cerviz, em seguida o envolvi por completo em meu pescoço.
Um espelho levemente encardido jazia à minha frente, e através dele pude ver o quão fiquei afável sob aquele cachecol aquentado.
O vértice de meu nariz estava ligeiramente ruborizado, o que me proporcionou, pela primeira vez, uma aparência pueril.
Hesitei em direcionar minha escova de coloração celeste à meu cabelo, mas algo me diz que devo deixá-lo desgrenhado, pois ele fica realmente mais 'atrativo' de tal forma. Realmente não sei. Existem tantos fetiches por aí, e acho que esse deve ser um dos meus peculiares.
Descerro um sorriso amigável, e sinceramente, não gosto do que vejo. Estou parecendo uma garotinha de treze anos, se arrumando interminavelmente, para em seguida correr freneticamente em direção ao seu respectivo colégio, com uma torrada recheada de geleia de morango, como naqueles animes. Argh. Só de pensar nisso sinto uma enorme vontade de vomitar, e talvez até o faça mais tarde, mas agora não.
Eu não sou uma garotinha, e sim um homem de dezessete anos, que é demasia responsável para se preocupar ou até mesmo dar mínima importância à algo tão boçal quanto a aparência externa.
Lanço o cachecol à minha cama violentamente, em seguida ponho meu moletom níveo. Talvez eu deva recolhê-lo e colocá-lo novamente, mas eu realmente não sei... Ou simplesmente não queira fazê-lo.
Estapeei meu rosto subitamente, em seguida lancei uma das alças de minha mochila verdejante à meu ombro.
Não foi um problema chegar a tempo na escola, já que Watari sempre me oferecia uma carona. E realmente não houve problemas... Nenhum.
Quando finquei meus pés no asfalto revestido por algumas folhas secas, apenas fui recebido como qualquer outro aluno, embora alguns tenham me olhado de maneira suspeita, e isso fez com que eu me sentisse um pouco desconfortável.
De qualquer forma, nada muda o fato de que estou aqui para conseguir uma bolsa de estudos, já que Watari vem encontrado dificuldades na busca de um novo emprego, e com isso, fica definitivamente impossível pagar qualquer faculdade.
Contemplo os arredores daquele lugar, e logo avisto, de maneira um tanto desfocada, uma menina de aparentemente quinze anos, correndo freneticamente em minha direção.
Seus longos cabelos pardos caíam gentilmente sobre suas clavículas mármores, cada vez que suas juntas se fraccionavam e seus pequeninos pés se fixavam no chão.
–V-Você é o novo... –Aluno. – Completei, franzindo o cenho e deixando uma expressão de incredulidade de formar em meu rosto. –Sim, sou eu. Ryuu... Ryuuzaki. – Falei, retirando uma de minhas mãos do bolso da minha calça azul-cobalto, porém tal possuía um contraste mais escuro, e estendendo-a amigavelmente.
–Hirawasa Kazama... Prazer. – Disse a menina, me cumprimentando. Já havia se recomposto de sua insuficiência respiratória temporária, de maneira ligeira aliás, o que me deixou levemente interessado nela. Não por ter sido tão ágil em tal coisa, mas por transparecer uma imagem sistemática, e tal virtude, por mais que não fosse benéfica em todos os aspectos, era sim considerável.
–Ah! Sua sala é a B-2, e sua primeira aula é de Inglês. Se estiver tendo qualquer dificuldade, é só me comunicar. De qualquer forma, aqui estão seus horários. – Disse, entregando-me um papel um pouco amassado. –Boa aula!
–Obrigado. – Respondi, curvando minhas costas em sua direção, e em seguida me dirigindo ao local anteriormente citado.

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O piso linóleo era acinzentado e ligeiramente escorregadio; As carteiras eram de feitas de madeiras pardas, e isso me fez lembrar Kazama, e o modo como ela me recebeu... Tão amigável e dócil.
O quadro verdejante poderia ser confundido com negro, se não fosse por uma diferença quase que imperceptível. Os riscos em forma de uma caligrafia delicada tomavam vida, e eram demasia nítidos. Algumas frases em Inglês centralizadas, e informações básicas sobre o colégio nas extremidades, próximas à madeira pálida que contornava o quadro.
Alguns alunos conversavam, em quanto outros apenas dormitavam com seus crânios pousados sobre suas carteiras.
Volta e meia alguma garota acenava para mim, e eu procurava deixar claro que nenhuma delas teriam chances comigo. Isso tudo da maneira mais discreta e menos rígida possível, claro.
Eu também estava prestes a cochilar ali mesmo, até que vi um homem esguio atravessar a porta metálica, fechando-a discretamente. Deslizou o palmo pálido sobre o cabelo, que parecia ter sido cromatizado com anilina para madeira, mas na verdade era natural, e de acordo com algumas garotas, ele apenas havia descolorido o cabelo á algumas semanas atrás. Mas de qualquer forma, aquela cor colocava em destaque seus olhos puxados, com as íris coloridas num castanho-mel.
Pôs sua maleta sobre a escrivaninha, que ficava à poucos centímetros do quadro, e deu uma última tragada em seu cigarro.
–Bom dia, turma. Eu sou o novo professor de Inglês de vocês. Yagami... Yagami Raito.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.