Dear Madness
5 Bem-vinda ao País das Maravilhas
Notas iniciais
Nathalie subiu as escadas correndo, assustando Chester e seu tio. Mas ela nem ligou, só precisava de um descanso.
– Acho que preciso de um banho. — declarou finalmente, após chorar todo o estoque de lágrimas daquele dia. Entrou no banheiro, se despiu e entrou no chuveiro. A água caindo pelo seu corpo nu fez Nathalie sentir seus músculos relaxarem. — Vidente idiota.
Neste exato minuto, lembrou-se da voz aguda da mulher, vestida de vermelho com inúmeras jóias, e de suas palavras amedrontadoras.
Mudará muito sua vida. O relógio de bolso dourado fazendo tics e tacs repetidas vezes.
Você poderá sofrer uma perda muito abruptamente. Ou poderá causar a perda. A faca ensanguentada, com a lâmina brilhante.
Vejo intenções malignas por trás de seus planos. O batom vermelho, lembrando á Nathalie a cor do sangue.
Quando ela se deu conta que estava gastando água, — e isso irritaria muito seu tio — soltou um longo suspiro e desligou o chuveiro.
[...]
Nathalie pisou no chão frio azul-marinho, esperando o sinal da próxima aula tocar. Se assustou ao perceber que havia um grupo de patricinhas — todas vestidas de rosa — e um grupo de jogadores de futebol americano, vestindo casacos vermelhos e brancos.
– Ih, olha lá. — um menino de cabelos cor de fogo apontou para Nathalie. — A novata.
O medo percorreu a espinha de Nathalie. Um menino com cabelos dourados foi até ela e sorriu. Mas, antes que ele pudesse fazer alguma coisa, o sinal salvou-a. Ela deu um suspiro de alívio e correu para perto da sala, se sentando no fundo da mesma.
A carteira tinha desenhos e palavras horríveis. Mas ela nem ligou, pegou seu livro de história e começou a ler o capítulo que falava sobre o Antigo Egito. Ela havia passado um capítulo porque não gostava nem um pouco de estudar sobre Pré-História.
Ouvia o professor falando, de um jeito parecido com o de um zumbi.
Olhava para o relógio, lento. Causando tédio em Nathalie.
Uma hora se passou. Ela olhou mais uma vez para o relógio e para seu livro.
Tic. As patricinhas conversando animadamente.
Tac. Os bagunceiros jogando bolas de papel.
Tic. O professor falando sobre um assunto patético.
Tac. A aluna japonesa que respondia todas as questões.
Tic. Um minuto apenas.
Tac.
O sinal tocou. Nathalie se levantou, mas um braço a puxou para o fundo. Era um braço atlético, típico de um jogador que tomava bombas para marombar.
– Ei, o que vocês pensam que vão fazer comigo? — Nathalie tentou murmurar, mas um brutamontes tapou sua boca.
– Hey, hey, calma, gatinha. — o garoto ruivo de mais cedo. — Só fique bem quieta. — Ele fez uma grande pausa. — O que vamos fazer com ela?
– Podemos aproveitar desse corpo. — um garoto moreno, de cabelos negros. — Ou podemos bater nela até sangrar.
– Deixe que as patricinhas se aproveitem dela. — o garoto loiro de novo. — Nós vamos bater nela até sangrar.
Nathalie tentou se esquivar, mas eles eram muito fortes. Deram socos, chutes, pontapés...todo tipo de agressão física.
Ao terminarem, largaram-na ali, machucada. Sangrando até a morte. Ela se levantou, com dificuldade.
[...]
– Não interessa o que fizeram com você, Nathalie. — Seu tio esbravejou. — Eu só queria que você nem nascesse. Mas sua mãe era certa de que uma vaca feito você nascesse.
Ela subiu para o seu quarto e entrou no banheiro. Despiu-se, ligou o chuveiro e tratou de ver seus machucados. Sangue escorria diretamente para o ralo, junto com a água quente. Era uma noite fria, não passavam das seis horas da tarde. Nathalie chutou e socou as paredes, então, em um desses golpes, caiu e bateu a cabeça. A última figura que pôde ver, além de seu sangue escorrendo da sua cabeça, foi Alice. Nathalie mordeu o lábio e fechou os olhos.
– Vou me vingar. Por nós, Alice. — Declarou.
[...]
– Sim, sim. Ela está incrivelmente insana. — Era seu tio, falando com um brutamontes vestido de branco. Um jaleco, com o símbolo St. Joanna Institut — um símbolo de rosa vermelha, e sangue caía das pétalas. Então, a abreviação St. JT. — e uma calça branca abotoada.
– Não há problema. — Era a voz do homem do St. Joanna Institut. Era grossa, intimidadora.
O homem subiu as escadas e encontrou Nathalie. Antes que ele pudesse levá-la, ela pegou uma vela — que estava ali graças á falta de luz — e tacou no corpo do seu tio. O mesmo urrou de dor, enquanto sentia as chamas lhe consumindo. Nathalie não tirava um sorriso do seu rosto. Ela não estava louca, certo?
Não. Claro que não. Estava pior.
[...]
Nathalie acordou. Sua visão estava embaçada. Apenas pôde ver paredes brancas, uma cama branca. Estava sem camisa de força. O quarto era pequeno, iluminado pela luz fraca do corredor. Havia uma janela minúscula com grades, e ela viu a figura de Cheshire, de Alice e de Caterpillar.
– Bem-vinda ao País das Maravilhas, Nathalie. — os três falaram em uníssono. Nathalie sentiu um arrepio percorrer seu corpo e viu, pela pequena janela que vira o corredor, uma sombra de um homem jovem, segurando uma prancheta.
Nathalie piscou mais uma vez. As três figuras não sumiram. Mas quando abriu os olhos, o quarto estava tingido.
De sangue.
Fale com o autor