Dear Hades
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Link para o Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=aLMeK1hNh38
The Four Seasons Myth
As portas do grande salão olimpiano se abriram bruscamente mediante o vento frio que veio de fora. Uma sombra escura resvalou pelas paredes de mármore branco com arabescos em ouro e prata, enfraquecendo as chamas dos archotes que pendiam sobre as imensas colunas em pedra fria, atraindo a atenção dos deuses e minando a alegria das divindades que estavam presentes. Kim Taehyung, que recebia o título de Zeus, o Imperador dos Céus, soube de imediato que seu detestável irmão tinha chegado.
Os passos que ecoaram pelo salão silencioso eram firmes e decididos, como se o invasor não estivesse preocupado em adentrar uma sala repleta de deidades e obsediar sua energia alegre e festiva. O frio adentrou com intensidade e circundou todas as divindades que estavam presentes, acompanhado pelas vestes longas e pretas de Kim Namjoon, o Senhor do Mundos dos Mortos, que logo puderam ser avistadas. A tensão se recaiu sobre os ombros dos olimpianos e dos deuses menores que tinham sido convidados e não se ouviu nada além dos passos determinados e dos murmúrios incessantes.
NamJoon recebeu o título de Hades, o Imperador do Submundo, quando ele e seus irmãos dividiram o mundo em três partes. Injustamente, Zeus tinha ficado com os céus e o Olimpo; Yoongi ou Poseidon, o mais rabugento e irritável, ficou conhecido como Senhor dos Mares e para ele, o mais velho dos três irmãos, sobrou apenas o comando dos reinos inferiores para onde eram destinadas as almas dos mortos. Não é de se admirar que houvesse desavenças entre os irmãos e, enquanto Zeus e Poseidon viviam com suas brigas de tapas, Hades preferia permanecer quieto em seu reino silencioso e sombrio, repleto de sofrimento.
— Meu caro irmão, Namjoon. — A voz de Zeus retumbou forte pelos salões como se fosse um trovão. Ele se levantou de seu trono dourado e abriu os braços com um sorriso carismático cruzando o rosto. — Veio celebrar conosco nossa vitória sobre o monstro Tifão?
O Imperador do Submundo olhou para cada um dos deuses ali, analisando seus semblantes tensionados e receosos. Para Namjoon, não era surpresa alguma que, tanto imortais como mortais, não gostassem dele e isso não o incomodava nenhum pouco. Seus passos decididos pararam por alguns instantes quando seus olhos recaíram sobre um deus peculiar que nunca tinha visto. Seus cabelos loiros mesclavam-se com sua tez alva e os olhares inocentes para a comida a sua frente traziam vida a seu coração frio e, pela primeira vez desde que Réia tinha lhe dado à luz, bateu acalorado. Contudo, ele escondeu a curiosidade e os sentimentos que surgiram, suas feições indiferentes recaíram sobre seu irmão mais novo.
— Me poupe de seu carisma débil, Zeus — disse Namjoon chamando o irmão pelo título adequado, preferindo manter a conversa numa tonalidade mais formal. — Todos sabemos que não fui convidado para o banquete e, nem eu nem seus convidados, sentimos prazer por minha presença aqui. Mas me admira ver que vocês quase deixam o mundo aos pedaços e a primeira coisa que fazem, ao invés de reconstruir suas fundações, é um banquete. Enquanto, meu trabalho no Submundo apenas aumenta com as baixas desse genocídio com almas chegando desenfreadas às margens do rio Aqueronte. Você sempre foi bom em irritar os outros, meu irmão, mas tirar Gaia do sério a ponto de ela esconder aquele monstro em meu reino?! Devo dizer que desta vez se superou.
Todos sabiam como Zeus ficava quando era questionado, por isso, ainda que nenhuma divindade ali presente concordasse com suas maneiras de reger o mundo, preferiam manter-se em seus devidos lugares, até porque ninguém queria atrair a fúria do Rei dos Deuses.
O ar pareceu ficar mais denso e frio. Olhares nervosos se alternavam entre ambos os irmãos; Namjoon permaneceu com seu semblante inalterado como se tudo ali estivesse um tédio e Taehyung continuava com um sorriso amigável no rosto, embora uma tempestade furiosa se formasse em seu âmago. Ele desceu calmamente os degraus que levavam ao seu trono dourado.
— Vamos nos conter, caro irmão. — A tonalidade comedida de sua voz fascinava todos ali presentes, exceto alguns que sabiam exatamente como Zeus poderia ser manipulador, conseguindo o que bem entendesse com um belo sorriso e poucos elogios. — É tempo para celebrações. O terrível Tifão fora derrotado, as pendências mortais podem ser deixadas de lado por mais alguns dias.
— Meu caro irmão — o tom ácido de Hades ao pronunciar as últimas palavras deixou todos os deuses incomodados, com exceção de Ares e Poseidon que estavam doidos para assistirem uma briga de família. — tem alguma noção do que se passa em seu reino ou devo deixar a situação clara quanto a sua total ineficiência para com os seus súditos?
Taehyung não gostava nenhum pouco de ser desafiado e, por alguns instantes, seu sorriso vacilou. Mas logo ele voltou a posição despreocupado que tinha anteriormente. Namjoon sabia que não adiantava envergonhar o irmão diante dos demais deuses e, caso tentasse, o máximo que conseguiria era uma imensa dor de cabeça. Zeus pediu para que seus convidados continuassem a festejar e se aproximou de Hades, um olhar ameaçador direcionado a deidade era iluminado por clarões prateados como se raios fossem jogados de um lado para o outro.
— Vamos conversar em outra sala, sim?
Hades não tinha argumentos contra, pois preferia resolver as coisas de maneira rápida e eficiente e ser assistido em uma discussão com um grupo de divindades que desprezava, só iria tornar a situação mais irritadiça possível, deixando-se guiar por seu irmão para uma sala mais reservada. No grande salão, onde as festividades ocorriam, o filho de Zeus e Deméter, Seokjin , observava curioso para Namjoon, sentindo algo em seu interior arder com a beleza incomum que o Imperador dos Mortos possuía.
Os mortais tinham crenças absurdas quanto ao Olimpo e os próprios deuses. Muitos ainda acreditavam que os deuses haviam montado residência no topo da montanha com mesmo nome; um palácio gigantesco construído no mais puro mármore branco e ouro. Mas, na realidade, as deidades moravam acima do monte, num ponto onde os mortais não conseguiam enxergar, geralmente, encoberto por nuvens. Foram poucos os humanos que tiveram o prazer de desfrutar da companhia dos Deuses em sua residência e raros aqueles que foram convidados a ficar.
Parte das histórias eram verdadeiras e, realmente, Hefesto tinha construído tudo aquilo durante a batalha dos deuses contra os Titãs — permanecendo ali depois da vitória. O lugar fora construído para ser o mais belo castelo dentro todos os existentes com uma gama imensa de fontes de água fresca e cristalina, jardins suspensos nas mais variadas flores e gigantescos pavilhões e salões destinados às principais deidades que ali residiam — um enorme complexo de magníficos palácios de colunas brancas e douradas, além de palacetes de bronze, pequenas construções de pedra e estábulos. Seus enormes portões, feitos de puro ouro, ficavam sobre as nuvens, sendo vigiado pelas Horas.
Era uma visão magnífica para qualquer um que estivesse caminhando por entre os corredores das mansões superiores, observando toda a complexidade do Monte Olimpo abaixo. Mas para Namjoon, era uma visão nauseante. Zeus o guiava por um caminho de pedras brancas que flutuava na imensidão azulada do céu sustentado por nuvens. Não havia qualquer proteção acima da trilha, então o brilho do sol emanava diretamente sob suas peles e Hades amaldiçoou Hélio e a si mesmo por ainda ser dia. Eles entraram em uma sala espaçosa, mas que não chegava aos pés da magnificência do salão de festas, e um tanto afastada para que os gritos — caso houvesse — não pudessem ser ouvidos.
Taehyung se sentou em uma amurada e seus olhos fixaram-se ao longe, contemplando a imensidão do continente que governava com um orgulho resplandecente em seus tempestuosos olhos azuis.
— Não consegue se segurar, não é? — Um sorriso mínimo crescia em seus lábios, fazendo o Senhor do Submundo revirar os olhos. Diferente do que seus irmãos achavam, Hades conseguia se virar muito bem em uma batalha, contudo não via necessidade para tal e nem nutria a avassaladora paixão por guerra e sangue de seus familiares. Para ele, viver em entre os seres ceifados por esses acontecimentos era suficiente. — Teve de vir aqui em cima para tratar de assuntos tão triviais como se ainda fôssemos crianças.
— Algo me faz acreditar que alguns ainda são.
Zeus apontou o indicador para Namjoon, a voz baixa e rouca num tom de aviso:
— Não me destrate, Namjoon. Você se esquece que foi por minha causa que saiu das entranhas de nosso pai.
— Nenhum de nossos irmãos se esquece disso, pois faz questão de nos lembrar a todo momento — Hades comentou de maneira ríspida tentando manter as feições inalteradas. Os eventos do passado o perseguiam, principalmente a maneira como foi injustiçado. Ele seguiu sua vida como se nada tivesse acontecido, mas quando seus irmãos trapacearam a partilha do mundo e o deixaram com o Mundo Inferior, tinha sido a gota d’água. — Poderia ter seguido sua vida e nos deixado trancafiados, porém o desejo de governar e ser mais que todos sempre falou mais alto, forçando-o a procurar aliados. Nunca se importou no mal que isso poderia fazer aos seus familiares. É uma divindade mesquinha com fome insaciável por poder.
O Rei dos Deuses riu com deleite como se degustasse de uma piada antiga que ainda achava hilária. Seus olhos azuis, agora mais calmos, travaram-se sobre a figura sombria do irmão em pé no salão como uma estátua de mármore.
— Por favor, Nam, ainda chateado pela pequena brincadeira que Yoongi e eu fizemos? Você é intratável.
As sombras que se permitiam existir naquele recinto em meio a claridade do palácio dos Deuses, se remexeram caminhando levemente em direção ao Imperador dos Mortos, agindo como um manto de trevas para protegê-lo. Era comum que coisas assim ocorressem quando estava profundamente irritado ou uma mágoa antiga era trazida à tona — nada se refletia em seu corpo ou seu rosto, apenas nas sombras. Taehyung o encarou profundamente com seu típico sorriso inalterado e seus orbes azulados como safiras, desafiando-o a atacá-lo. Namjoon teve de se esforçar muito para fazer com que as sombras recuassem e não iniciasse uma batalha com seu irmão, destruindo o Olimpo no processo.
— Precisa aprender a desapegar do passado, irmão — disse Hades fingindo não ouvir a provocação. — Não vim até aqui para iniciar uma vendeta após outra ter se apagado.
— Então porque está aqui?
— Seu charme irresistível quase destruiu o Mundo Inferior. — Namjoon continuou como se não tivesse nada que pudesse interromper seu discurso. Seus passos eram calmos andando de um lado para o outro da sala e, ainda que o Rei dos Deuses não gostasse muito de seu irmão mais velho, prestava atenção em suas palavras. — Me custa imaginar de onde tirou a capacidade para irritar Gaia e fazê-la se unir a Tártaro para criar aquela monstruosidade.
— Foi por meu lindo sorriso — Taehyung brincou.
— Tifão quase destruiu todo o Submundo quando subiu atrás de você. Faz ideia do imenso buraco que ele deixou? Sabe o que a luz do sol faz com meu reino e com as almas e criaturas que nele habitam? — Namjoon jogava as perguntas com uma calma fria e cortante como gelo. — Não deve saber. Duvido que se importe com algo além de si mesmo. O Mundo Inferior necessita da escuridão para que possa continuar funcionando, irmão. As piores almas e os mais perversos monstros que residiam nas profundezas do Tártaro, filhos daquela abominação com Equidna, filha de Forcis e Ceto; escaparam para a superfície.
Taehyung descansou uma das pernas sobre a amurada de pedra fria e deixou com que a outra pendesse para o abismo que se encontrava abaixo do castelo flutuante. O quíton cobrindo seu corpo era tão branco quanto as nuvens que o cercavam e o drapeado movia-se junto ao vento, um broche de ouro no formato de uma águia em seu ombro, prendia o tecido da vestimenta para que não caísse de seu corpo. Qualquer um que o visse em seu caráter austero e pensativo, imaginaria que fosse um rei sábio — e de fato o era, não fosse por seu orgulho.
— Muito bem — disse Zeus. — Me desculpe por ser o pivô da quase destruição de seu reino. Há algo que deseja para firmar a paz entre nós?
O Senhor dos Mortos olhou para seu irmão com atenção. Taehyung era uma figura complicada, mas apesar de seu orgulho e a incapacidade de se manter fiel a uma única mulher, era sábio; por isso, muitos deuses o respeitavam ainda que não concordassem com grande parte de suas decisões — seu aspecto vingativo também não era algo que queriam atrair para si mesmos. Namjoon se permitiu um leve sorriso, sabendo que seu ele não fazia isso por se sentir culpado, mas por querer evitar desavenças logo após uma terrível batalha.
Hades não conseguiu pensar em qualquer coisa que pudesse querer — não saia por aí rastejando pelo respeito dos mortais nem dos imortais. Um trono no Olimpo era inviável, visto que preferia permanecer em seu próprio palácio encoberto pelo breu. Mas como tinha uma memória perfeita, ele se lembrou da deidade que havia visto no banquete anteriormente; aquela que fez com que seu coração morto voltasse a bater.
— Havia uma divindade no banquete agora pouco. — Namjoon despojou-se da máscara da indiferença e permitiu que um sorriso apaixonado, apesar de ser mínimo, surgisse em seus lábios. — Os cabelos dourados como os raios de sol, a pele alva como a areia branca das praias e um olhar inocente no rosto. Se me recordo é seu filho, você o batizou como Seokjin e o abençoou como Koré, por Deméter é chamado de Perséfone. Meu coração voltou a bater quando meus olhos recaíram sobre ele. É ele que eu quero, meu irmão. Preciso tentar conquistá-lo, ainda que ele me rejeite.
O soberano do Olimpo não era alheio a beleza do filho, mas sabia que o pedido de seu irmão em si era complicado de ser realizado, porém não porque não quisesse. Zeus olhou para o mundo que governava com satisfação antes de virar-se para encarar Hades.
— Se fosse apenas por mim, você poderia cortejá-lo. Mas receio que teria de passar por Démeter e ela é demasiadamente superprotetora.
Namjoon abriu um sorriso malicioso.
— Não precisarei lidar com nossa irmã se ela não souber onde ele está.
— Pretende sequestrar meu filho? — perguntou Taehyung, intrigado.
— Se Seokjin escolher vir comigo, não será um sequestro.
Taehyung olhou para Namjoon tentando decifrar o que se passava em sua mente. Desde sempre, antes mesmo de dividirem o mundo entre si, considerava-o uma ameaça devido a sua imprevisibilidade; desconfiava que ele poderia tramar por suas costas para ocupar o cargo de Deus dos Deuses e ninguém ficaria sabendo — Hades era uma ameaça em potencial, contudo era mais silencioso diferente de Poseidon.
— Faça como bem entender.
Zeus o dispensou com uma mão como se não fosse algo importante, aliás coisas do gênero aconteciam com uma frequência alarmante e seria melhor que Seokjin se unisse a Namjoon, deste modo, poderia apaziguar a ira do irmão e permanecer vigilante ao que acontecia no Mundo Inferior.
Namjoon fez uma leve mesura para seu irmão e saiu, mal conseguindo esconder sua empolgação — suas bochechas doíam pelos incontroláveis sorrisos. De repente, a claridade do Olimpo não parecia mais tão incômoda.
O sol iluminava com suavidade as pétalas amarelas de uma grande variedade de flores desde hortênsias, rosas, crisântemos, frésias, girassóis e algumas que não existiam no mundo dos homens, enviando um doce aroma que perfumava todo o Olimpo junto ao riso das ninfas que era carregado pelo vento quando brincavam nos jardins da morada dos deuses. Era comum ver Deméter caminhando por aquelas áreas, muitas das vezes observando seu filho perseguindo as abelhas; ela sempre sorria ao ver a alegria do seu bem mais precioso.
Seokjin brincava com as flores sentado em meio a profusão de pétalas amarelas e sorria para elas, movendo os lábios em uma conversa animada como se pudessem ouvi-lo, os cabelos amarelos como a palha de milho brilhavam num tom dourado quando iluminados pelo sol. E o mais estranho — para quem visse de fora — era como as flores pareciam responder a voz de Perséfone, exalando mais perfume ou movendo as pétalas em conformidade com as perguntas.
Envolvido pelas sombras das árvores, Namjoon observava em silêncio aquele que havia escolhido para entregar seu velho coração ressecado. O Deus dos Infernos levou uma das mãos sobre o peito, a cabeça recostada no tronco de uma árvore, sentindo o órgão pulsante bater de uma maneira desenfreada e estranha. Ele tomou cuidado para que não fosse visto e olhou ao redor para averiguar se tinha alguma ninfa ou deidade por perto antes de abandonar seu esconderijo — pela primeira vez em toda sua existência, enquanto caminhava em direção ao ser brilhante e bonito que poderia dar razão a sua vida, sentiu medo.
— Essas flores parecem gostar muito de você.
O de cabelos loiros arregalou os olhos e olhou por sobre os ombros, encarando a figura sombria que se erguia sobre si e projetava sua escuridão sobre ele. Num momento de pavor, ele se levantou depressa, mas acabou tropeçando e caindo de joelhos sobre as plantas. Hades se prontificou a ajudá-lo, carinhosamente segurando seu cotovelo e apoiando uma das mãos na base de suas costas.
— Sinto muito por tê-lo assustado — Namjoon se desculpou.
— Fui pego de surpresa, coisas assim sempre acontecem.
Perséfone deu riso sem graça que ecoou pelo jardim vazio. As flores que deveriam reagir a sonoridade peculiar de sua risada não fizeram nada como se uma imensa tristeza tivesse se abatido sobre elas. Seokjin estranhou tal comportamento.
— Geralmente as flo-
— Deve ser culpa minha — interrompeu Namjoon olhando para as pétalas amareladas que formavam um tapete dourado sob seus pés. — Minha presença costuma deixar os seres vivos infelizes.
Ele olhou para as flores e pode sentir uma certa infelicidade pairando sobre elas, como se seu brilho tivesse se apagado e perdessem a capacidade de trazer alegria. Seokjin se ajoelhou e deixou que seus dedos roçassem suavemente uma das flores, que se abriu com certa timidez. O jovem loiro curvou-se sobre ela e sussurrou alguma coisa que Namjoon não conseguiu identificar, mas fosse o que tivesse dito, toda a felicidade voltou para o jardim como se Hades fosse apenas mais um visitante.
Perséfone virou-se para ele sorrindo com os olhos.
— Flores são muito fáceis de conquistar, basta elogiá-las um pouco e se tornam grandes amigas. Além disso, são grandes fofoqueiras, sabem de tudo o que acontece em todo lugar.
O Imperador do Mundo dos Mortos fitou-o impressionado. Namjoon se acostumou a viver sozinho por milênios e nunca se importou com seres vivos, afinal a biologia do Mundo Inferior era diferente e os mortos não precisavam de sol ou de flores para o lugar onde iam.
— Você é tão fascinante... — disse o senhor do submundo. — Meu nome é Kim Namjoon, mas sou conhecido por todos como Hades.
Seokjin encarou o semblante de seu acompanhante e olhar que direcionava sobre ele. Já havia visto diversos Deuses e Deusas que queriam apenas uma diversão passageira, a vontade de possuí-lo gravados em letras enormes sobre suas cabeças. Deméter alertou o filho sobre como os sentimentos poderiam ser prejudiciais e como a paixão poderia nos fazer perder o juízo; aconselhou-o a deixar esses desejos para trás e nunca ceder às investidas que recebia. Contudo, a sinceridade transparecia como um raio de luar na profunda escuridão dos olhos de Namjoon.
— Eu sou Kim Seokjin, mas gosto de me chamem de Jin. — Ele se apresentou incapaz de cortar a conexão de seus olhares. — Você é irmão de meu pai e de minha mãe, não é?
— Sim.
— Nunca o vi no Olimpo antes de hoje.
O solitário governante dos reinos baixos desviou sua atenção do semblante curioso do menor e encarou o distante horizonte. Hades não esperava que um deus jovem como ele compreendesse a rixa ridícula com seus irmãos, todavia algo semelhante a uma serpente faminta se remexia em seu interior, atravessando o estômago e subindo pela garganta, compelindo-o a falar.
— Minha presença não é querida entre os deuses e até os mortais me temem, fui condenado por meus irmãos a viver em eterna solidão na eterna escuridão do Mundo Inferior. — Namjoon voltou-se para Jin, um sorriso vacilante no rosto. — Você também tem medo de mim?
O filho de Zeus encarou os orbes escuros de Hades e se sentia sendo tragado cada vez mais para as trevas, era como estar no centro de um rodamoinho. Ele só havia conhecido beleza e bondade desde que nasceu, nunca conheceu nada para que tivesse medo e Namjoon com seu estranho encanto não lhe causava qualquer aversão. Ambos, ainda que nada pronunciassem, sentiam um intima ligação crescente entre eles — um elo entre vida e morte.
Jin se aproximou dele com um sorriso.
— Não há nada de assustador em você — falou. — Só vejo beleza e solidão, ninguém deveria ser tão solitário.
Hades aproximou-se mais de Perséfone com um sorriso e segurou uma de suas mãos, levando-a junto de seu peito. O deus de cabelos loiros se surpreendeu com toque abrupto e contato com a pele fria do outro, porém não se afastou e permitiu-se ser puxado para dentro daquelas trevas. Seus rostos estavam terrivelmente próximos, Jin podia sentir a respiração ardente de Namjoon batendo contra seus lábios.
— Você confia em mim? — Hades perguntou.
Engolindo em seco, Jin respondeu:
— Sim, confio.
Sem conseguir mais se conter, Namjoon uniu seus lábios ao deles. O desejo reprimido que Jin sentia crescendo em seu cerne, rompeu a casca que o prendia e fluiu por todo o corpo. Ele nunca fora beijado e nem se permitirá ser, mas tinha alguma coisa no companheiro com olhos de ébano que o fazia querer tentar. Talvez fosse o modo doce com que Hades segurava sua cintura e o aproximava de seu peito ou a leve pressão confortável que sua boca lhe proporcionava, pressionando com suavidade a carne macia contra a dele. Ninguém poderia saber quais eram os planos de Eros ao flechar aqueles dois, nem mesmo se aquela união fora escrita pelas Parcas, mas sabiam que Perséfone estava tão viciado que não notou o chão se abrindo sob seus pés, fazendo com que os deuses caíssem até o Mundo Inferior.
...
Os dias se escorriam pelo vau do tempo como a água de um rio seguindo para o mar. Perséfone ficou assustado quando chegou aos reinos inferiores, exatamente nas margens do Aqueronte, contudo o toque protetor que Hades lhe fornecia fora suficiente para que vencesse o medo e seguisse o Senhor dos Mortos para conhecer o misterioso reino abaixo da terra.
O Mundo Inferior, como Namjoon explicara, era uma terra sombria onde a morte e o sofrimento reinavam. Os espíritos dos mortos se acumulavam esperando para pagar a passagem até o Tártaro. Hades descreveu seu reino com detalhes começando pelos cinco principais rios que o cruzavam as Terras do Senhor dos Mortos, sendo o primeiro rio, o Aqueronte, onde encontrasse o barqueiro encarregado de atravessar as almas até seu destino final, conhecido também como o Rio da Tristeza.
Nas margens do rio, enquanto atravessavam o Pântano do Estige com Caronte, Jin notou as milhares de almas que tentavam desesperadamente adentrar o barco para que chegassem ao outro lado dos infernos, porém eram poucos os espíritos que conseguiam pagar sua passagem.
— Por que aquelas almas não podem atravessar?
— Um pagamento é necessário para que consigam descansar — respondeu Hades fingindo não ver as almas, os olhos sempre em frente. — Existem ritos funerários que devem ser seguidos antes deles chegarem aqui, geralmente um óbolo ou dânaca é colocado sobre os olhos ou dentro da boca do cadáver para que paguem Caronte e atravessem. Infelizmente, não posso fazer nada quanto aqueles que morrem e não têm uma família para enterrá-los corretamente. Essas almas vagarão até o Cócito e se lamentarão em suas águas durante cem anos até poderem realizar a travessia.
O Imperador dos Mortos temia que Perséfone desejasse retornar aos mundo superiores e jamais fosse vê-lo novamente. Em sua mente, um misto de arrependimentos gritava que não deveria tê-lo levado até ali. Por mais que gostasse de sua morada, não era algo que os demais deuses apreciavam. Sua expressão endurecia cada vez que adentravam mais em seu reino, mas nada que lhe impedia que reservar afeição e carinho para o companheiro. Mesmo sem olhar para ele, podia senti-lo mais próximo de seu corpo frio, os braços presos ao seu e a cabeça recostada em seu ombro.
O Rio Estige nasce em uma caverna nas proximidades da entrada do Hades e deságua no Tártaro. É o principal e o maior dos rios que corriam desenfreados por aquele mundo, possuindo dois afluentes, Cócito e Flegetonte. Por ser um dos rios mais famosos, também era conhecido como Rio da Invulnerabilidade, onde muitos deuses e mortais desejavam se banhar, porém totalmente desaconselhado.
O Cócito era o menor rio do Mundo Inferior, nascendo do Estige e na outra extremidade, se unia ao Flegentonte. Sendo o Rio das Lamentações, as almas dos indigentes e dos mortos que não eram sepultados se acumulariam em sua margem durante cem anos antes de receberem permissão para adentrar o reino dos mortos. Do outro lado do Submundo, descia o Rio do Esquecimento, o Lete. Ele nascia na caverna de Hipnos, o Sono e seguia rumo aos mundos baixos. Um rio que fazia com que qualquer um que bebesse dele ou se banhasse em suas águas, se esquecem de eventos anteriores parciais ou totais.
Jin não sabia definir o que estava sentindo à medida que o barco avançava pelo Pântano do Estige. Devido à superproteção de sua mãe, crescera um homem curioso e muito inocente quanto as maldades do mundo, além de uma vontade crescente de sair debaixo das asas de Deméter e viver a vida a sua maneira. O Mundo Inferior aos seus olhos era maravilhoso de uma forma diferente — um local repleto de mistérios e uma natureza cativante e sombria, capaz de guardar em cada ponto escuro, um segredo perigoso.
Eles atravessaram o Pântano sem quaisquer problemas, exceto pelas almas desesperadas que tentavam atravessar a nado o local e suas tentativas inúteis de subir na balsa. Caronte e Hades não eram nada gentis com infratores e, sempre quando os espíritos dos mortos se aproximavam, eram recebidos com pancadas do remo do barqueiro ou jatos de fogo despejados pelo próprio governante do reino. Jin via nele um homem capaz de ser gentil, porém também era impiedoso, principalmente com transgressores. Se me trata com gentileza e carinho, porque não consegue estender isso com os demais?, se perguntava toda a vez que olhava para Namjoon.
Caronte os deixou na outra margem do enorme lago pantanoso e desapareceu na bruma. Ao longe, a silhueta de uma grande construção em pedra podia ser vista com torres tão grandes que tocavam as nuvens de poeira. Namjoon não saiu do lado de Perséfone para mantê-lo seguro, mas não o impedia sempre que se aproximava de algo — preferia encorajar sua liberdade do que prendê-lo e sempre que descobria algo novo, abria o mais lindo sorriso que já tinha visto, algo que Hades sempre iria querer apreciar.
Uma carruagem guiada por esqueletos se aproximou de onde estavam e cavalos espectrais na frente com olhos vermelhos como brasa. Todos temeriam se alguma coisa assim se aproximasse, todavia, serviu apenas para deixar Jin maravilhado — àquela altura ele já percebia que o Mundo Inferior era dotado de suas próprias belezas, totalmente diferentes dos jardins do Olimpo.
Namjoon ajudou que Seokjin se acomodasse no transporte e partiram para seu palácio. O jovem deus de cabelos amarelos curvava o corpo e arregalava os olhos para cada aspecto do ecossistema do Submundo. Num primeiro momento, surpreendeu-se por não ter as mesmas árvores que os mundos superiores, ali embaixo elas eram mais raras e maiores, seus troncos mais grossos vinham em três cores: preto, vermelho e prata; suas folhas podiam ser brancas, pretas ou laranjas; arbustos secos se embrenhavam no chão, muitos deles com espinhos que pingavam uma secreção rubra e pastosa que emitia um cheiro ácido quando tocava o chão. Contudo, sua atenção foi movida para uma região mais afastada, os gritos estridentes que se elevavam daquele lugar escuro.
— O que tem lá?
— É o Tártaro. — Namjoon debruçou-se sobre Jin, sentindo seu cheiro adentrar as narinas, enquanto observava o local para o qual apontava. — É para onde os mortos são enviados.
— Todos eles?
— Sim, todas as almas.
Perséfone encarou Hades com seus olhos sombrios voltados para ele, tão próximo que a ponta de seu nariz chegava a tocar o seu. Mas não podia se deixar distrair pela beleza e a atração que sentia pelo rei do mundo inferior. Devido a sua criação, não estava acostumado com toda a burocracia do Submundo, nem mesmo sabia porque Namjoon deixava as coisas daquela forma, no entanto, considerava injusto que espíritos bons e ruins fossem mandados para um mesmo lugar.
— É muito injusto. — diz ele inconformado.
— Por que diz isso?
— Os seres humanos vivem suas vidas da melhor forma que podem. — Jin tomou as mãos de Namjoon entre as suas e mirou seu semblante indecifrável. — Entendo que muitos deles precisam ser punidos por seus pecados, porém não acha que aqueles que viveram suas vidas sem causar nenhum mal ao outro ou a si mesmo, mereçam um lugar para descansar em paz? Não entendo porque os bondosos precisam ser punidos junto dos criminosos.
Namjoon encarou com os orbes marrons de Jin com intensidade. Desde que tomou aquela posição e passou a cuidar das almas dos mortos, se tornou uma divindade odiada e temida por todos. Os mortais atribuíam a ele diversos malefícios e desgraças que ocorriam em suas vidas medíocres, mesmo não tendo culpa de nada e seguisse apenas cumprindo sua função; com o tempo passou a detestá-los também e queria que sofressem. Ele aceitava que o chamassem de perverso e insensível, apesar disso nunca se considerou como injusto, pois todos em seu reino recebiam as mesmas punições e estavam destinados ao mesmo lugar. Olhando para Perséfone, Hades engoliu em seco e então decretou:
— Que no Hades sejam erguidas mais duas regiões para receberem os heróis e os indolentes, que os puros sejam separados dos impuros e as almas sejam julgadas com base em suas conquistas em vida. Se assim desejar, meu amado, assim será.
O tempo no Mundo Inferior passava de forma diferente dos demais reinos e ele sequer percebeu que já haviam se passado meses de suposto rapto, enquanto no Submundo pareciam apenas alguns dias. Seokjin passava a maior parte do tempo ao lado de Namjoon desbravando o Submundo, conversando e se amando. Ele descobriu como era ser desejado e a forma como seu amado conseguia ser carinhoso e bruto ao mesmo tempo o cativava.
Em alguns desses dias, Namjoon se ausentava para dar continuidade na construção das demais regiões que havia prometido e as batizou de Campos de Asfódelos que ficariam próximos do palácios e os Campos Elísios, localizado na margem mais distante do Lete. Foi em sua ausência que Jin percebeu como sentia saudades do Olimpo, da luz do sol e das flores, mas principalmente de sua mãe. E foi num desses dias que ele chorou no jardim do palácio de seu amor. Mesmo amando a companhia do deus do Submundo, ele rezou a seu pai Zeus para que o levasse para cima novamente.
Os dias se arrastavam de uma forma torturante e Namjoon notou que Jin não estava bem. Sua felicidade era minada pelo Mundo Inferior cada vez mais em que permanecia nas sombras e ele temeu que pudesse perder o amor de sua vida — chegou a oferecer algumas sementes de romã para que ele se animasse e se sentisse parte daquele lugar, porém o confinamento não combinava com ele e não percebeu que o tratava da mesma forma que Deméter.
Num desses dias, Namjoon estava sentado em uma pedra às margens do Pântano do Estige quando o Mundo Inferior foi tomado pelo som de trovões. O Imperador do Mundo dos Mortos se levantou no exato momento em que um raio caia a sua frente, revelando a imagem imponente de seu irmão, Taehyung, os olhos faiscando com luzes brancas como relâmpagos.
— O que faz em meus domínios, Zeus? — perguntou, pouco se importando com o veneno em suas palavras.
Taehyung observou o Submundo com desgosto — detestava aquele lugar assim como os demais deuses e, internamente, temia que o filho pudesse estar em apuros, sendo impedido de retornar para sua casa. O Senhor dos Céus avançou calmamente para o irmão com um sorriso mostrando seus dentes perfeitos.
— As coisas não andam bem lá em cima, meu irmão — enunciou Zeus como se fosse uma mera formalidade. — Deméter se afastou de suas funções e a terra secou, o mundo presencia uma onda de fome alarmante e tudo isso causado pela dor de não saber o paradeiro de seu filho querido. Ela o deseja ao seu lado e os demais deuses me cobram para que o leve de volta ao Olimpo, onde é o seu lugar.
O Imperador do Submundo fitou o irmão calmamente como sempre fazia e não era de se admirar o cuidado que tinha com as palavras mesmo que lhe soasse ofensivo, no entanto, não poderia se fazer de hipócrita quanto ao pedido dos demais deuses e a invasão de seu irmão quando ele mesmo havia feito o mesmo graças aos estragos de Tifão. Namjoon permaneceu com sua postura altiva e orgulhosa.
— O lugar dele é onde ele quiser ficar — disse Hades. — Além disso, ele comeu da comida dos mortos e você sabe como funciona, Jin não pode deixar esse reino sem minha permissão. Quanto isso, nem você nem qualquer outro deus pode fazer algo.
— Você pode.
Taehyung se aproximou do irmão, ficando tão próximos quanto era possível — uma luta entre luz e trevas sendo travado as margens do Mundo Inferior. Zeus apertou um dos ombros de Hades e sorriu.
— Entende a necessidade de equilíbrio mais do qualquer um, Hades. O mundo depende de Deméter para continuar vivendo e, se isso significa ter o filho perto dela sempre, é isso o que precisa acontecer. Consegue me entender?
Namjoon notou a ameaça implícita em sua falsa súplica como se dissesse “você deverá se abster de seu amor por meu filho ou encontrarei um lugar para você com os Titãs no Tártaro”. Ele estava sendo encurralado em seu próprio reino, mas seu orgulho não permitiria que algo assim acontecesse e permitiu que todo o rancor contra seus irmãos e os outros deuses por terem-no desprezado emergissem para a superfície.
Uma onda de sombras cresceu atrás de Namjoon e avançaram sobre Taehyung, contornando seu corpo como serpentes e o retirando do chão, arremessando-o para o fundo do pântano. Um brilho azulado clareou as profundezas das águas escuras e irromperam para cima, Taehyung estava circundado por uma tremulante teia de luzes azuis que se moviam mais rápido do que olhos comuns poderiam ver. Ele sorria como se fosse sua chance de colocar Hades em seu devido lugar e Namjoon sentia o mesmo.
Tremores tomaram conta do Mundo Inferior e estrondos intensos abalavam o firmamento sobrepondo os gritos que emergiam do Tártaro. O brilho dos trovões sendo engolidos pela escuridão de Namjoon podia ser visto a quilômetros — foi o que chamou a atenção de Jin para o que acontecia.
Os raios arremessados por Zeus, quando não eram absorvidos pelas colunas sombrias, atingiam o chão próximo de onde Hades estava e transformou a paisagem dando origem a colina íngremes e desfiladeiros que foram pouco a pouco invadidos pela água do pântano. O Senhor dos Mortos enviou uma chamado para que todas as criaturas que habitavam o Submundo e respondiam a ele, se reunissem para auxiliá-lo. Taehyung não imaginava que o irmão fosse tão feroz em combate, contudo sabia que não seria o suficiente para derrotá-lo.
Tanto Namjoon quanto Taehyung estavam se preparando para uma nova leva de ataques — escuridão tão fluídas quanto as águas de um rio e uma grande nuvem de relâmpagos que iluminavam grande parte do Submundo — se reuniam ao redor dos deuses e quando estavam prestes a liberar seus poderes, Jin se interpõe entre eles.
Seus olhos encontram-se com os de Namjoon e, apesar do ódio absurdo que remoía em seu coração, ele se permitiu acalmar, pois acima de qualquer coisa, não queria ferir o homem que amava. As sombras ao seu redor voltaram aos seus devidos lugares tão imóveis quanto as pedras e Hades andou até ele. Taehyung foi mais relutante em abandonar a posição de ataque, porém os raios desapareceram tão rápido quanto apareceram, contudo, ele permaneceu flutuando no ar observando seu filho e seu irmão com atenção.
— Por quê?
— Ele é meu pai e você o homem que amo, não posso deixar que briguem.
— Querem tirar você de mim. — Namjoon sentia os olhos arderem em sua tentativa de conter as lágrimas. — Nenhum deles é merecedor de piedade.
Jin tomou os lábios de Namjoon com calma. Ele já havia decidido o que faria e mesmo que o amasse, era forte o suficiente para passar pela dor da separação até o que pudessem se reencontrar novamente. Percebendo que era um beijo de despedida, passou os braços ao redor da cintura de Seokjin como se a proximidade de seus corpos não fosse suficiente para aquele momento e aprofundou o ósculo tentando prolongar aquele momento. Algumas lágrimas escaparam de seus olhos quando se separaram e as testas unidas enquanto sentiam a respiração alheia.
— Quer mesmo ir embora?
— Eu preciso ir — respondeu.
— Vai voltar para mim?
— Em alguns meses, irei voltar para ficar ao seu lado.
Jin pegou as mãos de Namjoon e beijou cada um de seus dedos, por fim, acariciando as juntas de suas mãos. Eles se encararam por longos minutos — Namjoon inconsolável pela solidão que se aproximava novamente e Seokjin com um sorriso tentando convencê-lo de que iria retornar. Com Namjoon havia descoberto um novo mundo e outras formas de viver a vida, além de ter descoberto o que era amar alguém; não iria abrir mão daquilo que tinha conquistado naqueles últimos dias, mas também não podia abandonar sua família.
— São apenas alguns meses, meu amor, e serei seu novamente.
— Vou aguardar ansioso pelo seu retorno — confessou Hades sem qualquer vestígio de luz em seus olhos escuros. — Mesmo que para isso signifique que tenha de ser acompanhado pela solidão novamente.
Com um último beijo e dor no coração, Jin acompanhou seu pai até o Olimpo novamente. O jovem deus não desviou os olhos em nenhum momento até que Namjoon se tornasse irreconhecível em meio aos traços sombrios do Submundo. O Senhor dos Mortos deixou que a angústia e o pesar percorressem seus ossos quando o amado desapareceu numa explosão luminosa, mas manteve-se firme com a promessa de que ele retornaria — e mesmo que não lhe fosse permitido, iria buscá-lo nem que significasse uma guerra contra o Olimpo.
Notas finais
Observação¹: Gostaria de agradecer a @suxxy (Social Spirit) pelo maravilhoso fictrailer que fez para Dear Hades, o que me inspirou a transformar essa história em uma long fic mais para frente.
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