Dear Charlie,
2 Capítulo 2
Notas iniciais
21 de Outubro de 1993
Querido Charlie,
Espero que tenha recebido minha última carta, e também espero que tenha compreendido minha vida, o quão dura é. Suponho que a sua também seja assim. Não me pergunte como sei disso, mas lamento muito por seu amigo Michael e por sua tia Helen. Sei que eles eram pessoas muito importantes para você. Novamente, evite perguntar como sei disso, mas, por favor, não fique com medo.
Hoje na escola o dia foi duro. Eu estava saindo da minha aula de literatura carregando sete livros empilhados uns em cima dos outros quando uma garota arrogante da minha classe chamada Theodora Mihller passou e me derrubou, de propósito. Ela se acha o máximo só porque é a líder de classe e namora um dos caras mais cobiçados da escola, seu nome é Brandon Getzz. Ele é o capitão de futebol americano da minha escola, e todas as garotas são completamente apaixonadas por ele, mas somente uma delas o tem. Enfim, eu caí no chão com tudo e meus livros também foram para o chão, voando para todos os lados. Havia algumas pessoas no corredor, mas elas não vieram me ajudar. Ou porque não viram o que acontecera, ou porque não se importavam. Ah, mais um fato sobre Theodora: ela gosta de humilhar as pessoas, e principalmente as pessoas que tiram notas melhores do que as dela, o que não é muito difícil, já que ela está sempre presa naquele mundinho cor-de-rosa dela, cheio de perfumes, esmaltes e roupas de marca. Sinceramente, eu não sei porque ela continua naquela escola, afinal, seus pais são donos de uma empresa milionária e poderiam certamente pagar uma escola particular para a única filha deles.
Bem, logo depois que caí me apressei á pegar todos os livros e enfiá-los dentro da minha mochila, mesmo que nem todos coubessem. Tive que deixar dois deles em meu armário: As Viagens de Gulliver e A Mensageira das Violetas. Este segundo é meu livro favorito, e estou sempre lendo-o e relendo-o. Levei-o naquele dia pois na última aula nosso professor, o Sr. Treat, pediu que todos levássemos os livros que estávamos lendo atualmente. Ele ficou impressionado por eu estar lendo um clássico como aquele, e conversamos um pouco sobre a história e alguns outros livros da escritora.
Depois de guardar meus livros fui para o refeitório, pois já era hora do almoço, e adivinhe: estava acontecendo uma briga lá. Dois garotos de dezessete anos estavam brigando por uma razão assustadora. Um deles, o chamado Greg, tinha um segredo... Ele era homossexual. O outro garoto, o que pelo jeito se chamava Zayne, havia descoberto o segredo e vinha provocando Greg desde o começo das aulas, ás 7h30 da manhã, e depois de várias horas aguentando aquilo, Greg, irritado, foi para cima dele, mas com razão. Zayne era um pouco menor que seu adversário e por isso levou alguns socos no rosto e no estômago, mas revidou acertando Greg bem naquela parte da anatomia masculina, e o mesmo caiu no chão, se contorcendo de dor, com o rosto vermelho e a testa sangrando. Zayne chutou Greg depois de se levantar e gritou para todo o refeitório para que visse aquilo, para que visse o "tipo de perdedor" que Greg era. Tudo aquilo me deixou enojada, e refleti sobre em que tipo de sociedade estávamos vivendo. Uma bem injusta, pelo jeito. Depois de alguns minutos, duas garotas e um garoto foram ajudar Greg á se levantar, quando todos haviam saído do refeitório para ir atrás de Zayne e o vangloriar ou para se safar de ser culpado por algo. Reparei nos amigos do garoto, e percebi que eles deviam ser mais velhos que eu, talvez dezessete ou dezoito anos, mas eram amigos de verdade, á julgar por seus atos, afinal, quem iria ajudar um perdedor, repetindo as palavras de Zayne (não que eu concordasse com ele). Me senti muito mal de ter ficado lá, somente olhando, e por isso saí do refeitório logo, evitando que meu coração começasse á doer como quando meus pais morreram ou quando meu irmão foi diagnosticado com câncer.
Aquele dia talvez tenha sido o pior da minha vida. Ou pelo menos um dia bem ruim e deprimente.
Espero que entenda, e que concorde comigo, Charlie.
Com amor,
Nell.
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