Dear Charlie,
9 Capítulo 9
Notas iniciais
10 de Novembro de 1993.
Desculpe a demora para lhe escrever, Charlie. Já escrevi e reescrevi essa carta milhares e milhares de vezes, e infelizmente não pude enviar nenhuma versão delas, mas me prometi que enviaria esta daqui. Bem, vamos lá:
Há alguns dias atrás, recebi a pior notícia de minha vida: meu irmão morreu. Chris morreu, Charlie, ele está morto. Seu médico disse que a doença se apoderou dele, e que não havia nada que eles pudessem fazer. Chris disse á seu médico minutos antes de morrer que queria me ver. O médico mandou uma das enfermeiras até minha escola, onde eu estava tendo uma entendiante aula de Geografia, para me levar ao hospital e realizar talvez o último desejo de Chris. Ninguém, em nenhum momento da viagem de carro até o hospital mencionou que meu irmão não tinha mais chances de sobreviver. Ninguém me disse que aquela poderia ser a última vez que eu pudesse vê-lo vivo. E adivinhe? Isso não aconteceu. Chris não resistiu. Ele já estava morto quando cheguei ao hospital. Não lembro muito do que aconteceu depois que vi o corpo sem vida de meu irmão ser retirado da cama do hospital na minha frente por dois enfermeiros, só lembro de ter gritado e esbravejado com todos ali por não terem o mantido vivo, e depois tudo ficou preto. Acordei em uma cama de hospital (no mesmo hospital em que apaguei) com meu tio Leonard sentado ao lado de minha cama, segurando minha mão e respirando pesadamente. Perguntei onde estava e o que havia acontecido, e ele me disse que eu estava no hospital, e que havia dormido por um dia e meio. Ninguém, nem as enfermeiras e nem o médico que me atendeu, e muito menos meu tio, mencionou algo sobre Chris. Horas mais tarde, quando uma enfermeira me levou para caminhar pelo hospital, foi que lembrei-me do que havia acontecido. Meus membros ficaram moles e minha cabeça doeu ao lembrar-me da cena dos enfermeiros retirando o corpo de Chris do quarto do hospital, do rosto pálido de meu irmão á luz do dia e de seu sorriso que eu nunca mais veria. Seus olhos antes tão lindos e cheios de vida, agora fechados e mortos. Aquilo era como veneno percorrendo minhas veias, fazendo-me cair e cair ainda mais até o chão e murmurar o nome de Chris repetidas vezes, meus olhos se fechando lentamente e a enfermeira que me acompanhava gritando por ajuda.
Depois daquilo, dormi mais sete horas antes de ser examinada por um médico e ter recebido alta. Eu e tio Leonard fomos para casa em seu carro. Ninguém disse nada. Nenhuma palavra. Somente o silêncio. Lembrei como Chris odiava o silêncio. Ele sempre adorou música e vozes entorno dele, isso o fazia se sentir querido e amado. Eu sempre fui mais reservada, mas aquele momento, no carro, com minha cabeça apoiada na janela embaçadada pela chuva fria de Novembro que caía em Pittsburgh, o que mais desejei foi ouvir a voz de meu irmão, e escutar sua música preferida: November Rain, dos Guns N Roses. Pensar aquilo me deixou ainda mais triste.
Meu tio me deixou faltar ás aulas pelos próximos dias, e quando cheguei em casa ele me disse que Marcos havia ligado, querendo saber de mim. Tio Leonard contou á ele sobre a situação recente e disse que Marcos demorou á responder, como se não estivesse acreditando, e em seguida deu-lhe seus pêsames e disse para me transmitir o recado de que ele e os outros trabalhariam no curta metragem enquanto eu estivesse de luto em casa, e que Hillary se encarregaria de avisar á meu chefe no Big Boy que eu não poderia trabalhar nos próximos dias, pelo menos até o enterro de Chris ter sido realizado. Tio Leonard ligou para minha escola e a vice-diretora disse que estava tudo bem, que aquelas faltas não seriam contadas e que eu não perderia nota nas matérias das quais as aulas eu deixaria de assistir. Ele também contratou um psiquiatra que virá em nossa casa duas vezes por semana para falar comigo sobre a morte de Chris e como estou lidando com isso. Não quero ser rude com meu tio, mas esta é a última coisa da qual quero falar até comigo mesma.
É estranho eu saber que a única pessoa com a qual eu gostaria de falar num momento desses é você, Charlie, sendo que nem nos conhecemos cara a cara. Mas eu sinto como se você pudesse me entender. Sinto como se você sentisse minha dor, e minha solidão. Sinto como se você soubesse exatamente o que aconteceu na cena do hospital. Sinto como se você soubesse as palavras que gritei naquela hora, os xingamentos rudes que dirigi ao médico de Chris e sinto como se você sentisse minhas lágrimas escorrendo por suas bochechas.
Já são mais de meia noite, e eu realmente estou cansada, mas não conseguiria dormir sem lhe escrever esta carta que estarei lhe enviando pela manhã.
Espero que tenha uma boa noite, Charlie.
Reze por meu irmão, se você puder. Estou te pedindo isso como mais que uma amiga. Uma semelhante.
Tia Helen e Chris com certeza já se encontraram, Charlie.
Com amor,
Nell.
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