Notas iniciais
Esse capítulo será um pouco triste, mas bastante revelador. Espero que gostem, e continuem postando reviews, por favor. Boa leitura :-)

27 de Novembro de 1993

Querido Charlie,

Hoje foi o prazo para a entrega de nosso curta metragem. Exatamente ás 10h00 da manhã, eu, Marcos, Hillary, Jena, Harriet e Taylor estávamos em pé no meio da sala da Dreamchased, com uma pequena TV posicionada ao lado de uma máquina de reprodução atrás de nós. Marcos preparou um discurso para fazer antes do filme, e pediu que a roteirista, eu, no caso, dissesse algumas palavras antes da reprodução. Adivinhe? Eu guaguejei. Muito. Eu não havia dormido praticamente nada noite passada, depois que voltara da casa de Elijah. Em um momento do jantar, perguntei sobre Emily para ele, e ele sussurrou as seguintes palavras:

"Eu não teria como esconder de você por muito tempo."

Senti meu coração pesar naquela hora, e minha cabeça começou á girar. O que ele iria me contar? Será que Emily estava bem? Será que ela se lembrava de mim? Mas suas palavras diziam o contrário do que eu pensava ser uma boa notícia.

Bem, aqui vai:

Após anos morando em Dallas, no Texas, Emily, com quinze anos, conheceu um rapaz aparentemente legal e gentil chamado Kristoff Scheniberrg. Os dois se conheceram na festa da amiga de Emily e prima de Kristoff, Anney. Ambos tiveram o que chamamos de "flecha do cupido" espetadas em seus corações, ou seja, se apaixonaram á primeira vista.

Após quatro meses namorando, Emily engravidou de Kristoff, o que a deixou muito feliz, pois imaginava que, com um namorado estável e um filho do mesmo, sua vida se tornaria um conto de fadas, o que você pode imaginar que não aconteceu. Quando ela contou á notícia á Kristoff, ele entrou em pânico, e disse que ela teria de abortar o bebê. Emily não o fez. Ela disse do modo mais doce possível, de seu jeitinho carinhoso, que não faria aquilo, e que os três seriam uma família muito feliz no futuro. Como todo rapaz inexperiente de quinze anos, Kristoff fugiu de casa rumo á sabe-Deus-onde, deixando Emily sozinha esperando havia somente dois meses um filho dele. Elijah me contou que os sete meses seguintes foram muito duros para toda a família, e principalmente para Emily, que tinha de ir á todas as consultas médicas sozinha e não teve nenhum apoio além o do irmão durante toda a gravidez. Ele disse que ela contou somente á sua mãe nos primeiros meses, e essa ficou completamente conturbada, mas nada se comparou á situação do pai de Emily quando descobriu sobre a gravidez da filha: ele encontrou em choque, e teve de ser levado para o hospital por Elijah, que naquela época já tinha carteira de motorista. O pai deles ficou enternado no hospital local durante três meses, até que voltou para casa em um dia e se trancou em seu quarto, saindo somente para as refeições. Elijah contou que ele parecia ter vergonha de sua filha, e que não a deixava sair para a rua, a não ser que estivesse entrando em trabalho de parto ou algo assim.

No dia marcado para o bebê nascer, uma linda garotinha á quem Emily chamava de Lavander, minha amiga entrou em trabalho de parto ás 3h00 da manhã e só foram receber notícia dela dois dias depois, ás 5h30 da tarde. Ela não havia resistido. Emily era somente uma garota de dezesseis anos, magricela, fraca e pequena, e seu médico dissera que ela não havia sido quase capaz de segurar o bebê durante toda a gravidez. Ela e Leah morreram, nenhuma das duas havia resistido. Elijah e sua família ficaram devastados, principalmente sua mãe, que tinha tanto orgulho de Emily. O velório foi uma semana depois, mas quase ninguém compareceu, pois Emily havia se afastado de todos seus amigos durante a gravidez, até porque não podia ir para a escola e seu pai não a deixava sair de casa. Bons meses se passaram até que tudo voltasse ao normal, mas Elijah me contou que até hoje seus pais são traumatizados com isso, e ficaram relutantes em deixa-lo fazer faculdade em Pittsburgh, pois não queriam perder mais um filho inesperadamente.

Meus olhos se encheram de lágrimas ao ouvir a palavra "morta", e em seguida o nome de Emily, e quase nem aguentei ouvir o final do relato de Elijah, mas sabia que não seria educado deixá-lo falando sozinho e ir para minha casa, me trancar em meu quarto e chorar pelo resto da noite. Após o jantar, ele insistiu em me levar em casa, e deixei, pois imaginei que desabaria soluçando no meio da rua se tentasse ir andando.

Quando cheguei em casa, não encontrei ninguém na sala, então imaginei que Cherie estivesse atuando em Rocky Horror, e que meu tio estivesse fazendo mais um de seus turnos, por isso corri escadas acima e me tranquei no quarto, me jogando na cama e chorando até ver o sol nascer. Eu não dormi um minuto seque áquela noite, Charlie. Acho que foi a pior noite da minha vida. As lágrimas escorriam por minhas bochechas e meus soluços eram tão altos tanto quanto na ocasião em que soube que Chris estava morto. Chris. Emily. Meus pais. Todos eles estavam mortos. Todos eles haviam me deixado. Fiquei vários minutos amaldiçoando o tal Kristoff por ter sido tão medroso e cruel e ter deixado Emily sozinha com um filho dele que mais tarde iria ser sua ruína. Amaldiçoei também o pai de Emily, por não ter apoiado sua filha quando ela mais precisava. Eu nunca deixei de apoiar meu pai enquanto ele era vivo, mesmo ele sendo um alcoólatra louco e agressivo, mas eu sei que ele nos amava.

Naquele momento, olhei em volta e contei quantas pessoas eu ainda tinha: meu tio, Cherie, Marcos, Jena, Greg, Hillary e Elijah. Eu não poderia perdê-los, nunca. Eles não poderiam ter um destino tão cruel quanto o de Emily, ou de Chris, ou até mesmo o de meu pai. Não. Eles eram minha família. Eu precisava protegê-los. E eu iria.

Voltando á aula da Dreamchased, eu comecei á gaguejar quando Marcos me pediu para dizer algumas palavras, e todos estranharam, pois eu geralmente era confiante nessas horas, mas nenhum deles sabia o que eu soubera na noite anterior, e o quanto aquela notícia me afetara. Enfim, mostramos nosso filme e recebemos nossa nota no final da aula: A+ para todos nós, o que nos garantia passar naquela matéria. Para comemorar, Marcos insistiu que fôssemos ao Big Boy e chamassemos Greg, mas falei que não podia, pois precisava estudar, o que era verdade, mas o que eu mais queria evitar era comemorar algo naquele dia, um dia após saber sobre a morte de Emily. Se havia alguma pessoa que saberia me reconfortar naquele momento, seria Cherie, mas ela provavelmente estava ensaiando no teatro, e eu prcisava me concentrar nos meus livros de Matemática e Geometria, pois minha prova era dali dois dias.

E aqui estou eu, Charlie, escrevendo essa carta sobre meus livros de Exercícios de Matemática o mais rápido e menos dolorosamente que posso, pois preciso voltar á estudar e parar de pensar em Emily, em nossas brincadeiras juntas e nossos momentos felizes que dali á alguns anos se perderiam em um buraco negro que seria a única lembrança de minha amiga que eu nunca conseguiria esquecer: sua morte.

Com amor,

Nell.

Notas finais
Espero que tenham gostado, e, mais uma vez, postem reviews, pois isso me incentiva á escrever, como eu já disse tantas vezes anteriormente ;-)))