Deadly Skills
1 Capítulo I - Reino em festa
Notas iniciais
Não pensei duas vezes antes de pegar minha capa. Se havia um dia perfeito para sair sem ser notada, esse dia era hoje.
O reino estava em festa. Amanhã, todos os jovens de dezesseis e dezessete anos seriam enviados para a Guarda, onde suas habilidades são descobertas e testadas para determinar qual será o seu papel no reino. Se permanecerá na Guarda, vivendo em função da proteção da realeza; se fará parte do grupo dos Camponeses comuns, recebendo os mesmíssimos trabalhos de mercadores, carregadores e afins; se seria apenas um minerador responsável pelas cavernas e minas, fazendo o trabalho realmente pesado e indo em busca de ouro para o rei; ou se seria um mensageiro ou viajante, indo em missões em outros reinos em nome do rei. Havia também aqueles que eram enviados diretamente para o castelo. A função deles desde então, ninguém jamais conseguira descobrir, nem mesmo eles revelavam. Mas sabe-se que vivem por lá fazendo um trabalho mais interno e tendo acesso direto ao rei. Isso era o que as pessoas mais cobiçavam. E a única função que me repudia.
O motivo da festa estar mais calorosa esse ano é porque além dos jovens, o príncipe também seria enviado para a Guarda amanhã. Segundo ouvi dizer, era para que seu treinamento se intensificasse já que talvez muito em breve tome o lugar de seu pai. E isso era o que o reino mais desejava. Cadmus é o rei mais corrupto que esse reino já conheceu. O povo vive na miséria exceto nas épocas de festa. Pelo menos uma grande maioria vive, mas não costuma ser notada.
Lá fora o vento estava frio. Era fim de tarde e a longa capa esverdeada já estava velha. Prendi todos os fios de cabelo negro que consegui controlar. Meu cabelo ia pouco abaixo do ombro, mas suas ondas eram difíceis de manter quietas. Minha mãe costuma dizer que sou a cara de meu pai, apenas os olhos azuis são dela, mas não vejo orgulho nisso já que ele nos abandonara anos atrás quando eu era um bebê e Zara tinha apenas quatro anos.
Com a cabeça baixa, passei por Citera sem ser percebida. A velha gorda, de cabelos crespos enrolada em uma capa azul, estava com a guarda baixa. Se embebedava com algumas mulheres do reino enquanto devia estar prestando atenção nas crianças. Nós não tínhamos permissão para sair, o que não significava um porão cheio lá embaixo. Havia menos da metade das crianças lá, apenas os menorzinhos seguiam as regras, não estavam acostumados com o reino, em como eram tratados ao sair. Nós, mais velhos, nos sentíamos responsáveis pela refeição, a refeição de verdade. Prometi que voltaria com frutas frescas, enquanto Zyan e Kairos iam atrás de peixes e carne. Luneta pegaria alguns doces. O resto, provavelmente ficaria lá fora para se divertir enquanto não anoitecia.
Várias pessoas dançavam ao redor, até os guardas eram ouvidos rindo como se estivessem em seu dia de folga. Hoje todos estavam felizes, pareciam nem se lembrar de que amanhã voltariam a velha rotina que todos odiavam.
Foram apenas três voltas até encontrar a tenda certa. Havia todo tipo de fruta ali, frescas, vindas direto do castelo para comemorar. Mas ainda assim eram vendidas e eu não tinha dinheiro para comprá-las.
Me apoiei no pilar da tenda ao lado, ainda de cabeça baixa esperando o momento em que a minha chance chegaria. Era preciso ser bastante cautelosa, ser pega me renderia uma anotação, e mesmo sendo a pessoa com menos delas não podia me dar ao luxo de arriscar.
A voz de uma garota retumbou por todo o reino. Levantei os olhos para enxergar mais à frente onde o castelo estava. Alana, sobrinha do rei, começara o velho discurso de cada dois anos sobre a importância de cada profissão para o reino. O que era só mais uma das piadas daquele reino. Algum sábio deve ter escrito aquilo a mando do rei Cadmus que mandara que a sobrinha repetisse sem ter mesmo lido aquilo. Como se para alguém daquele castelo o povo importasse mais do que a realeza. Esquecem-se que um rei precisa de um povo, como o povo esquece-se que não precisa de um rei.
Kairos via o príncipe e Alana exatamente como eu não os via. Vivia tentando me convencer de que estava errada, iludido como todos os outros de que Alexander traria um reinado melhor. Mas se traria mesmo, então por que até hoje não fizera nada? Dezessete anos após seu nascimento nada mudara, não deveria um pai levar em conta os desejos de seu filho? O desejo do príncipe era um reino como aquele?
Após o discurso, um barulho ensurdecedor feito pelos gritos dos camponeses preencheu o lugar. Era Alexander. Sua entrada era a minha deixa.
Todos estavam ocupados prestando atenção em suas vagas palavras enquanto gritavam em louvor a ele. A “Esperança” do povo. A mulher da tenda estava parcialmente distraída. Peguei uma sacola como quem faria uma compra qualquer, e comecei a despejar as frutas. A mulher tinha os cabelos ruivos que iam até o queixo e olhos castanho escuro, tinha sardas além da conta e uma aparência velha. Deu um leve sorriso para mim enquanto intercalava sua atenção dos clientes para o príncipe.
Com a sacola cheia, dei meia volta em um momento de distração em direção ao caixa, mas ao invés de parar, passei reto como quem acabara de pagar. Deixei alguns papéis cortados em cima do balcão para dar a impressão de que deixara o dinheiro lá, isso tiraria suas preocupações imediatas e daria tempo suficiente para que eu me afastasse sem ser percebida.
Amanhã, a caminho da Guarda, eu deixaria dinheiro para ela, ali. Veja bem, trabalhamos a semana inteira, mas apenas na segunda-feira temos permissão para pegar nossa “recompensa”. Era uma miséria, mas dava para nos manter.
Enquanto terminava a terceira volta, ouvi um leve ranger de passos pesados feitos pelas botas inconfundíveis dos guardas. Mas eu já estava dentro e a capa já estava pendurada muito antes deles terem uma pequena noção da minha localização. Citera estava tão embriagada que fora incapaz de notar minha presença.
Fui acolhida por nove criancinhas ansiosas. Começava a escurecer e tínhamos que acabar logo com nossa pequena “ceia” particular antes que os adultos voltassem. Eram seis meninas e três meninos de quatro a sete anos que me tomaram a sacola das mãos. Sem preciso ordens ou qualquer insinuação já estavam todos em uma organizada rodinha no chão despejando o conteúdo no chão quando Luneta chegou jogando um número considerável de doces e porcarias a quais nunca teríamos direito em um dia normal. Sorrindo ela se encaixou em meio as crianças e eu fiz o mesmo, intercalando minha atenção para a porta a espera de Zyan e Kairos.
– Vidia, eles estão bem. – Luneta disse enquanto pegava algumas cerejas e enfiava na boca – Vão chegar em alguns minutos, quando passei por eles já tinham três sacolas cheias.
– Hm... – aquilo não fora o suficiente para me tranquilizar. Zyan parecia um imã para problemas mesmo sendo um ano mais velho que Kairos.
Os cabelos loiros e lisos de Luneta foram o que a fizera perceber que ainda não pendurara sua capa. A garota levantara depressa para pendurá-la junto as outras e seus olhos castanhos se voltaram logo para a comida.
Kairos apareceu primeiro deixando todos aliviados. Zyan veio logo em seguida com um rosto animado e um sorriso travesso. Eles poderiam passar por irmãos por ter os mesmos olhos amendoados e os cabelos castanho escuro curto e espetado. Mas ainda assim não tinham o mínimo grau de parentesco e mesmo sendo grandes amigos tinham personalidades opostas. Zyan era um garoto explosivo, já Kairos emanava paciência.
Enquanto comíamos ouvíamos histórias de Luneta antes de ela vir para cá. Ela conhecia muitas e dissera que vivera algumas aventuras. Mas ela só tinha quinze anos então sabíamos que era tudo inventado.
Tudo estava bem. Ainda não anoitecera e aquilo era o máximo de felicidade que conhecíamos. Comida farta para uma semana escassa.
Ao olhar para Zyan, percebi que não era a única a levar aquilo como uma despedida. Eu tinha dezesseis, ele dezessete, Kairos tinha a mesma idade que eu o que significava que amanhã todos iríamos para a Guarda. E ninguém fazia ideia de como e se iria voltar.
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