– Então, da onde você conhece o Cass? — pergunto.
Ela cruzou os braços.
– Nós moramos no céu. Depois de toda aquela confusão que teve quando Castiel trouxe os Leviatãs para a Terra... De uma forma ou de outra nós iríamos nos conhecer. Mas nos conhecemos desde a metade da Idade Média.
– Uau — falei — então você já é velha...
– Comparado com Castiel e Hannah? Sou bem jovem até.
– Mas como assim desde a Idade Média? Pensei que Deus tinha criado todos os anjos há milênios antes mesmo do nascimento de Cristo.
– Houve uma época que os anjos começaram a cair. Doze deles caíram para serem os apóstolos de Jesus. Nós somos muitos, mas todas as vagas precisavam ser preenchidas. Além dos apóstolos, outros vários anjos caíram ou foram mortos por supersticiosos da época, que acreditavam que se matassem anjos os pecados humanos seriam perdoados por Deus, mesmo que Jesus tenha sido sacrificado para perdoar seus pecados. Esses supersticiosos — dizia ela — eram homens e mulheres, bruxos, ligados à Satã. Com tal poder, eles conseguiam feitiços para chamar os anjos, assim como vocês fazem para chamar Cass ou qualquer outro anjo. Mas, além de matar os anjos por causa dessa tal superstição, eles ganhavam moedas de ouro e poder vindo de Satã, sempre do lado negro. Deus nunca interferiu no livre-arbítrio dos humanos, mas aquilo realmente o deixava triste.
– Então esses humanos viraram demônios?
– Não, Sam. Os demônios sempre existiram. Sempre se alimentaram da desgraça humana. Crowley que o diga. Esses humanos, bruxos, a favor de Satã, mataram muita gente inocente em suas aldeias, por conta da ambição. Fazia parte do sacrifício. Um dos sacrifícios mais antigos é o das três mulheres, na qual eles tinham que matar três mulheres virgens e fazer do seu corpo todo, sem retirar nada, uma grande quantidade de líquido e encher um caldeirão. — comecei a rir. — Sim, Dean, um caldeirão. Isso é bem esquisito, realmente. Enfim, continuando: eles faziam isso e depois acrescentavam várias ervas e falavam em latim. O Satã aparecia para eles e dizia onde se encontrava os sacos com as moedas de ouro. Esse ritual acontecia uma vez por mês.
– E eles fizeram isso durante séculos? — perguntou Sam.
– Digamos que durou até o fim da Idade Média. Deus acabou interferindo do livre-arbítrio desses homens e ordenou que alguns anjos matassem eles. Deus se arrependeu e depois disso sacrificou seus anjos em nome desses humanos desalmados.
– Mas ele interferiu porque?
– Porque a "coisa" estava realmente ficando séria. Muitos anjos haviam sido mortos, o céu estava ficando vazio e a humanidade estava sendo comprometida.
– Mas não era só em uma aldeia?
– No início sim, mas depois foi se espalhando pelo mundo. Itália, Grécia, Inglaterra e sobretudo na França. Isso começou em uma pequena aldeia na China, era onde hoje é Qiemo. Passou por vários territórios, tribos... Mas lá haviam bruxos a serviço de Deus para ajudar a população carente e conseguiram banir esses bruxos satanistas.
Peguei outra cerveja na geladeira.
– Então, logo que fui "criada", "escolhida", Castiel foi escolhido para me ensinar "como ser anjo", aquelas coisas básicas: não falar com humanos, etc. Acabamos ficando bem amigos. Mas ele não deve ter comentado sobre mim porque fiquei alguns séculos, de certa forma, "presa". Não sei bem explicar, mas fui isolada.
– Porque? — perguntei.
– Por que as regras eram claras: não se relacionar com humanos. Eu desci na Terra, conheci um homem e me relacionei com ele. Obviamente Deus e outros anjos ficaram sabendo e fui punida.
Anjinha safada. Assim que eu gosto!
– Bom, rapazes... Irei para a minha casa. Caso vocês precisem de mim, só ligar para esse número — ela me deu um papel rosa com um número escrito — ou chamem do jeito tradicional de se chamar um anjo... Vocês que decidem.
Ela desapareceu. Bom, saiu como o Cass.
Sentei-me na cadeira, tomei um gole da cerveja e do nada me veio à memória o Ben. Ele era como um filho para mim. Eu o amava muito e, mesmo a Lisa dizendo que ele não era meu filho, eu tinha suspeitas... Às vezes eu só queria ter uma vida normal, assim como Sammy.
Mas eu não posso.
– Dean, olhe isso. — disse Sam, virando o computador para mim. Aproximei-me. — Três mulheres desapareceram em uma semana. Não tinham nada em comum. Joanna, vinte e cinco anos, professora do Jardim de Infância em Idaho Falls, Idaho. Pamella, cinquenta anos, freira de um convento em Tulsa, Oklahoma e Kethlyn, vinte anos, bancária em Tampa, Flórida.
– Hum, Kethlyn, nome de prostituta. Já transei com uma Kethlyn. São boas no que fazem.
Sam revirou os olhos e eu ri.
– Ok, o que mais temos?
– Por enquanto isso. Acho que devemos investigar. Quem sabe ir em cada cidade, perguntar para os policiais locais.
– Sammy, você viu a distância de cada cidade? Levaríamos dias!
– Por isso eu acho que devemos chamar a amiga do Cass... Quem sabe ela não nos ajuda?
– Boa Sam. — falei, fazendo que sim com a mão.
Peguei outra cerveja.
– Dean, essa já é a sua quarta cerveja. Não acha que tem que parar?
– Não. — falei, tomando tudo de uma vez só. Sam revirou os olhos.
– Acho melhor chamar ela amanhã — disse Sam, deitando na cama.
– Voo...c...c...cê que sabe... — disse. Acho que eu estou bêbado.

Acordei de manhã com um jato de água na cara. Aquele não era um jeito muito amigável de se dizer "bom dia".
– Acorda, Dean. Temos muito o que fazer. — disse Sam, me entregando um copo de café.
– Precisa me acordar desse jeito? — perguntei, tomando um gole de café.
Sam me olhou sério, mordendo um sanduíche natural. Comecei a rir.
– Está gostando desse sanduíche, ein, Sammy? — e continuei rindo.
– Dean, não temos tempo para piadas, ok? Vou ligar agora para a amiga do Cass e vamos resolver isso de uma vez.
Continuei tomando meu café e comendo um sanduíche natural horrível que Sammy trouxera para nós enquanto ele ligava para Nathália e explicava para ela nosso plano. Como ele consegue comer esse tipo de sanduíche?
Nathália chegou dois segundos depois que Sam desligara a chamada.
– Uau, como você é rápida! Será que é rápida fazendo outra coisa? — perguntei, piscando para ela e tomando o resto do café.
Ela revirou os olhos. — Dean, você quer transar comigo ou algo do tipo?
– É — respondi, mastigando o sanduíche — mais ou menos isso.
Ela abriu um sorriso.
– Você é tão idiota. Coitado. Veremos. — e piscou para mim de volta. Sam olhou surpreso.