Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
37 Capítulo XXXVI: Horas Mortas
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Em dois minutos, eles atravessam 1,5 quilômetro de terreno, com o baixo e a bateria ditando o ritmo da escabrosa destruição de mortos andarilhos, que são lentos demais para desviar do caminho e acabam sendo atingidos pelos enormes para-choques e jogados no ar como gigantescos pássaros doentes. Cada vez mais eles surgem das sombras, acordados pelo rugido estrondoso do utilitário”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 97).
Capítulo XXXVI:
Horas Mortas
Sasuke observou à distância o aglomerado de pessoas, do outro lado do acampamento. Frustrava-o saber que Sakura, a essa altura, embrenhara-se na floresta apenas para corresponder as expectativas de um bando de estranhos.
Suas mãos estavam geladas e sua respiração condensava no ar glacial. Rajadas enregelantes perpassavam o acampamento, o cheiro do inverno era quase perceptível. O céu macilento reslumbrava sobre os topos das árvores enquanto um sol macambúzio reluzia debilmente através das nuvens.
Calmamente, ele se aproximou da pequena van com um ar ressabiado e pouco afável. Alguém lhe serviu café instantâneo em um copo de plástico, mas Sasuke não se viu apto a lembrar do seu rosto. A bebida quente, ao menos, ajudou a aplacar o frio.
— Noite difícil, eu presumo? — alguém murmurou, aproximando-se pelo seu flanco.
— Ah, é você. Shikamaru, não é? — Depois de mais um gole de café, ele apertou o olhar contra o horizonte nuvioso. — Eu diria que tem sido mais uma semana difícil.
Equilibrando-se sobre as suas muletas, ele tomou a liberdade de se esparramar sobre um caixote de madeira ao lado de Sasuke.
— Às vezes eu quase me esqueço de como é viver na estrada; passar fome, dormir com os dois olhos abertos... Ter errantes no seu encalço o tempo todo. O fedor constante da morte te nauseando — ele divagou, o olhar distante parecia buscar o mesmo ponto obducto que Sasuke fitava.
— Você se acostuma — deu de ombros de forma apática.
Shikamaru soltou uma risada baixa em resposta.
— Você não me parece muito à vontade aqui...
— Às vezes, os mortos são companhias melhores do que os vivos, se é que me entende — pontuou com uma acidez que não passou despercebida pelo outro homem.
— É — ele concordou com um suspiro. — Ultimamente eu não posso discordar de você. Suponho que isso significa que não pretende ficar conosco por muito tempo, não é?
— Apenas o necessário.
— Mas ao menos já decidiu para onde vai?
Sasuke bebeu o último gole de café em seu copo e olhou Shikamaru de soslaio.
— Pretendo procurar o meu irmão.
Ao ver a descrença estampada na face do homem emendou soturno:
— Itachi está vivo, eu sei. Nenhum filho da puta fedorento conseguiria encostar no meu irmão. Sem chance.
— Mas você já conversou com a Sakura sobre isso? — Shikamaru abaixou o tom de voz ao pronunciar as próximas palavras, cônscio de ser um assunto delicado: — Ela me parece disposta a tentar a chance aqui. Temari até a levou em uma de suas caçadas.
Sasuke levantou-se do tronco apodrecido onde estivera sentado, amassou o copo de plástico entre as mãos num rompante impensado e olhou o homem perneta com um ar altivo.
— Sakura virá comigo, isso é indiscutível. — Contudo, não revelou a razão por trás disso.
Ainda não tinha certeza de que podia confiar naquelas pessoas e decidiu que lhes revelaria o mínimo possível acerca de sua vida pessoal. Quanto menos soubessem dele, menos chances teriam de encontrar uma forma de enfraquecer a sua decisão.
Shikamaru pareceu compreender isso porque o encarou incisivamente como numa velada atitude desafiadora. Seus sobrecenhos pesavam os seus olhos escuros e pequenos; Sasuke quase podia ver a mente brilhante daquele homem trabalhando por trás deles, suas engrenagens alinhando-se com perfeição enquanto tentavam decifrá-lo, como se tivesse diante dele uma charada, um enigma.
O clima tenso rompeu-se quando Kankuro achegou-se de ambos, suado devido à corrida que fizera para alcançá-los. O cabelo estava desgrenhado pelo vento e o rosto, corado pelo esforço físico.
— Ei, Shikamaru, não vai acreditar! — esbaforiu ele, descansando os punhos cerrados nas coxas e curvando-se levemente enquanto resfolegava alto.
— O que é? — grunhiu Shikamaru, quebrando contato visual com Sasuke para fuzilar o intruso.
Kankuro limpou o suor na testa com a manga da sua jaqueta de camurça e eventualmente abriu um sorriso otimista.
— Lembra-se do helicóptero que vimos sobrevoar o acampamento há alguns dias?
À menção da palavra “helicóptero” Sasuke focou toda a sua atenção à conversa; Kankuro não parecia perturbado ou mesmo incomodado por compartilhar a informação com um estranho.
— O que tem ele? — Shikamaru ladrou impaciente, manejando ambas as muletas para se preparar para ficar em pé.
— Acabamos de fazer contato com um dos tripulantes... Caralho, você nem vai acreditar!
* * *
A floresta estava calma, anormalmente silenciosa, quase adormecida. As árvores pareciam repousar num sono leve, desfolhando-se ante à iminência do inverno enquanto os animais — pequenos roedores e pássaros inquietos — fugiam da presença das duas caçadoras.
Sakura teve uma sensação súbita de desconexão, de desapego do mundo real e sombrio enquanto se embrenhava na mata na companhia de Temari; seguira a sua liderança experiente durante todo o percurso, cuidando para que seus pés produzissem o mínimo de ruído, para que sua respiração permanecesse imperturbável.
Precisava reconhecer a perícia daquela mulher antes de tudo. O modo como distribuía o peso do corpo em cada passo, o modo como ditava o ritmo de sua respiração, o modo como seus olhos predadores esquadrinhavam a mata atrás de presas ou qualquer indício de perigo.
As cores cítricas do outono paulatinamente desbotavam e o cheiro dos pinheiros fracamente encobria o odor dos mortos que já haviam passado por aquele trecho da floresta. O sol descorado era filtrado pelas ramagens entrelaçadas das criptomérias e dos bordos.
Ali, em meio às árvores e aos arbustos lenhosos, era quase fácil demais esquecer-se do mundo real.
— Então, pronta para falar sobre o passado? — Temari cochichou, mal escondendo um sorriso enquanto mantinha o arco preparado com uma flecha de fibra de carbono inteiramente negra.
Sakura a fitou em silêncio, sem saber ao certo como respondê-la.
— Sem ofensas — ela continuou assim que notou a sua relutância indiscreta —, mas eu estou começando a ficar profundamente entediada aqui. Algumas fofocas poderiam me manter concentrada.
— Eu sou de Tóquio — Sakura começou, ainda insegura, limitando a conversa aos cochichos e cônscia de cada estalido, de cada sussurro e farfalhar que repercutia nas imediações. — Cursava medicina e queria me especializar em neurologia. Fiz residência no hospital universitário, na verdade. Conheço bastante dessa doença porque acompanhei os primeiros casos registrados ainda nas primeiras semanas.
— Isso é sério? — Temari arqueou uma sobrancelha caramelo, fitando-a de canto; o sorriso perdurava em sua boca rosada. — Os noticiários sempre foram vagos quanto a isso. Sabe quem foi o paciente zero?
— Eu não tenho a menor ideia — admitiu com um riso suave. — Geralmente esses registros eram confidenciais, eu apenas monitorava os sintomas e os avanços da doença. Foram semanas pavorosas até eu decidir fugir de Tóquio. Acabei indo mais ao sul de Honshu nos primeiros meses, até me deparar com Sasuke.
— Ah, o seu namorado antissocial — Temari lançou uma piscadela e alargou o sorriso malicioso.
— Nós achávamos que o centro ainda pudesse estar operante e recebendo refugiados.
Temari aquiesceu, inopinadamente consternada.
— Acredite, aquele lugar nunca foi um refúgio de verdade. Tenho muita sorte por meus irmãos e Shikamaru terem escapado de lá com vida.
— Eu posso imaginar como deve ter sido — Sakura murmurou em solidariedade, mas, de repente, Temari enrijeceu e voltou o olhar para frente. — O que foi? — Sakura sussurrou a pergunta, mas a loura apenas afastou-se alguns passos, pisando com cuidado no leito de folhas enquanto preparava o arco e a flecha.
Alguns estalidos leves se fizeram audíveis, ecoando na floresta e despertando-a paulatinamente do seu aparente estado de latência. Sakura afiou os sentidos para detectar a presença de alguma ameaça, mas relaxou quando Temari puxou a flecha para trás, mirando em um alvo que estava a cerca de dez, onze metros de sua posição.
Sakura a observou em ação, fascinada; viu quando os dedos elegantemente libertaram a flecha de fibra de carbono que voou em direção ao tronco achavascado de uma criptoméria centenária, cravando-se exatamente na cabeça de um esquilo que o escalava.
— Uau — Sakura resfolegou, congratulando a mulher pelo tiro certeiro.
Temari fez-lhe uma pequena mesura e em seguida se afastou para buscar a sua presa abatida. Removeu a flecha do tronco e da cabeça do roedor e analisou-o com olhos críticos por um instante.
— É, mais algumas dezenas do nosso amiguinho e podemos alimentar o acampamento inteiro. — Não conteve a risada abafada e irônica. — O que eu não daria para cruzar com um cervo agora.
Elas retomaram a caminhada, embrenhando-se cada vez mais na floresta e conversando sobre todo o tipo de assunto nas horas conseguintes. Trocaram algumas confidências e em certo momento Sakura se surpreendeu falando sobre Ino com a loura que ouvia o relato atenta e comovida.
Sakura descobriu que Temari era uma boa pessoa; era honesta, durona e completamente independente, detestava ter de depender dos homens e por isso apreendera sozinha tudo o que precisaria para sobreviver ao novo mundo.
— Você e o Shikamaru estão juntos há muito tempo?
Temari mal disfarçou um sorriso, até mesmo o brilho em seus olhos não passou despercebido por Sakura.
— Nós nos conhecemos assim que o sistema do centro começou a desabar. Tudo estava um caos... — ela ecoou a risada abafada de mais cedo, mas desta vez havia algo a mais em seu rosto, um sentimento que Sakura demorou a reconhecer. — Então, quando enfim escapamos, o Shikamaru estava entre a vida e a morte. Foi durante a sua recuperação que nos aproximamos mais do que devíamos, eu quero dizer, olhe o mundo ao nosso redor! Como podemos ter esperança depois de tudo? Como ainda podemos nos dar ao luxo de amar? Somos assim tão egoístas?
— Somos humanos — Sakura a interrompeu com delicadeza, estendendo uma mão para afagá-la no ombro. — Apenas humanos.
Temari ainda parecia inconformada com sua fraqueza, contudo, pois meneou a cabeça e admitiu com um tom subjugado, resignado.
— Isso não explica o fato de que apesar de tudo, apesar de tantas mortes, horror e destruição, ainda sermos egoístas o suficiente para estendermos a mão e nos apossarmos de algo que não temos direito.
— É a nossa natureza; sempre sermos capazes de encontrar algo bom em meio às grandes tribulações. Isso se chama fé.
— Não, isso se chama tolice — a outra corrigiu com um sarcasmo encantador e Sakura riu. Temari suspirou pesadamente em seguida: — Mas eu percebi há um bom tempo que prefiro a tolice à desesperança.
— Aqueles que já não possuem fé acabam se perdendo de si mesmos, isso não é bom — Sakura concluiu peremptoriamente, lembrando-se dos rostos de Hidan e de seus homens e em todos os transtornos que eles lhe causaram.
Inconscientemente, o rosto de Sasuke também lhe veio à mente. Mas ela logo sufocou o pensamento e continuou a seguir Temari pela trilha. Minutos depois, elas ouviram ruídos suspeitos e acautelaram-se em suas passadas pelo leito de folhas secas e galhos.
Ouviram grunhidos baixos e sons de mastigação; Sakura empunhou a faca de caça de Sasuke, posicionando-a diante do corpo enquanto Temari puxou uma flecha de sua aljava, colocando-a entre os dedos e no arco. Curvaram-se levemente e aproximaram-se devagar, logo descobriram a origem dos sons.
— Filhos da... — Temari chiou baixinho enquanto Sakura absorvia a cena que se desenrolava a cerca de quinze metros e meio em uma pequena clareira.
Dois errantes banqueteavam um cervo abatido, partindo a sua carne ensanguentada com os dedos em forma de garras e levando-a às bocas podres e fedorentas, mastigando avidamente.
Elas se esconderam atrás de dois troncos e trocaram olhares. Assentiram ao mesmo tempo e logo Sakura se abaixou para apanhar uma pedra do tamanho de um punho. Mirando para a sua direita, lançou-a a uns bons metros, aguardando pelo baque abafado que chamou a atenção dos errantes e interrompeu-os em sua refeição.
O homem e a mulher apodrecidos grunhiram em uníssono ao ouvirem o impacto da pedra contra o solo e se levantaram de forma desajeitada, bamboleando sobre as suas passadas arrastadas.
— Agora! — sussurrou Temari enquanto deixava a sua posição, o arco preparado, a flecha apontada para a parte posterior da cabeça da mulher de cabelos oleosos e ralos.
Sem aviso soltou a flecha que com um zumbido atingiu seu alvo, cravando-se no crânio; a errante apagou e caiu no chão em um piscar de olhos. O homem, atraído pela comoção, virou-se para ambas as mulheres e gemeu roucamente em resposta, cambaleando em direção a elas.
Enquanto Temari puxava outra flecha da aljava, Sakura avançou na direção dele. Espalmou as mãos sobre o tronco e empurrou-o de encontro a uma árvore. Nem um segundo depois, cravou a lâmina serrilhada da faca entre os olhos do errante, apagando-o também.
Com um grunhido, preparou-se para removê-la, puxando a lâmina com força enquanto sangue arterial e fluídos cefálicos jorravam da abertura bem no centro de sua testa. Ela se afastou, instável, e Temari se aproximou por trás.
— É, você realmente dá conta — brincou, devolvendo a flecha à aljava, mas assim que Sakura se virou para fitá-la, soube que havia algo errado. Ela estava pálida e suava frio. — Ei, Sakura, você está bem?
Antes que pudesse respondê-la, Sakura correu até o arbusto mais próximo e curvou-se para vomitar violentamente seu café da manhã. Com as mãos apoiadas nos joelhos, ela tossiu e expeliu tudo para se livrar do gosto de bile em sua boca.
Alguém lhe estendeu uma garrafa d’água, solidariamente. Sakura ergueu o olhar para encontrar o rosto apreensivo de Temari.
— Toma, pelo menos vai tirar esse gosto horrível da sua boca — acrescentou, insistindo em lhe oferecer a garrafa.
Sakura a aceitou, grata, removeu a tampa e lavou a boca para aplacar o gosto amargo em sua língua. Secou os lábios com a manga da jaqueta e estendeu a garrafa de volta, mas a loura recusou.
— Fique com ela. Você ainda não me parece muito bem... — observou, esquadrinhando-a de cima a baixo. — Quer me contar alguma coisa?
Sakura inspirou profundamente; seu estômago ainda estava baqueado e o tremor em suas mãos não diminuíra. Um suor gelado porejava sua nuca e têmporas. Ela daria tudo agora por algo que erradicasse o seu mal-estar.
— E então? — Temari a pressionou, apoiando as mãos nos quadris, trazendo-a de volta para a realidade.
— Tudo bem — concordou com um suspiro resignado. Afastou o cabelo dos olhos, secando o suor pegajoso em seu rosto.
A verdade é que estivera há quase dois dias sem sentir os enjoos e havia se desacostumado aos seus efeitos. Ter se sentido nauseada novamente diante do fedor daquele errante a fez se sentir completamente vulnerável. Sakura aprendera a detestar essa sensação com todas as suas forças ao longo de todos aqueles meses.
Sakura encarou Temari sem receios, sem dúvidas. Apartou os lábios e buscou pelas palavras que estiveram escondidas dentro dela desde então, as palavras que tanto a assustavam:
— Eu estou grávida.
Temari pareceu-lhe estupefata por um segundo, depois incrédula, a julgar pela forma como seus olhos azuis arregalaram-se. Mas depois houve a eventual aceitação, uma compreensão silenciosa seguida por uma solidariedade camarada.
— De... — ela hesitou, baixando o tom de voz. — De quantos meses?
— Dois meses no máximo; eu descobri só há alguns dias.
— O Sasuke é o pai, eu tenho certeza — supôs e Sakura assentiu sem titubeações. — Ele sabe do bebê? — Mais uma vez ela anuiu. Temari riu em uma tentativa de descontrair a situação: — Bom, agora entendo porque ele leva tudo tão a sério.
Sakura sorriu desconcertada e Temari deu-lhe tapinhas nas costas como forma de incentivá-la.
— Não se preocupe, tenho certeza de que tudo dará certo para você e para o seu bebê. E... eu também posso ajudar no que for preciso. Vocês estão seguros conosco — afirmou com uma convicção frágil, porém consoladora.
Em resposta, Sakura firmou seu sorriso e, mesmo que não pretendesse, apegou-se àquelas palavras tão audaciosamente auspiciosas.
* * *
Uma parte de Sasuke ainda não acreditava completamente na história contada por Kankuro. Mesmo quando cruzou a entrada de uma pequena tenda construída com uma lona encardida e alguns alicerces toscos feitos de troncos, uma parcela dele estava irredutível.
Então, quando Shikamaru apontou com uma das muletas para o rádio comunicador militar sobre uma mesinha de café ele ainda não havia se decidido se dava ou não crédito ao relato que ouvira de ambos os homens.
— Foi há mais ou menos uns cinco dias; um helicóptero sobrevoou o nosso acampamento por um bom tempo, mas depois seguiu para o oeste. Captamos a frequência do rádio deles e temos tentado estabelecer contato desde então, mas não havíamos obtido uma resposta até agora — contou Kankuro, mal contendo a empolgação. — É o primeiro contato via rádio que fazemos em semanas.
Sasuke olhou o homem incrédulo e ele, desafiado por sua atitude inflexível, sentou-se em um banquinho bambo defronte para a mesinha de café e para o obsoleto rádio comunicador. Kankuro sintonizou a frequência e aproximou o bocal de seus lábios, pressionando o botão para poder ser ouvido.
— Alguém na escuta?
Houve um intenso chiado estático do outro lado até que uma voz indiscutivelmente masculina e rouca se pronunciasse:
— QAP, na escuta.
— Ainda disposto a negociar? — Kankuro perguntou com um tom zombeteiro para o qual Shikamaru levantou uma sobrancelha inquisitivamente.
— A questão... não é se eu estou disposto... — respondeu o homem do outro lado de má vontade, em seguida um chiado alto encobriu o restante de sua frase.
Kankuro regulou a frequência do aparelho para tornar o som mais limpo.
— A questão é... se vocês estão dispostos... a vir me buscar aqui — completou ironicamente para o que Kankuro revirou os olhos teatralmente.
— Ele é um pouco melodramático — sussurrou, afastando o bocal dos lábios para não ser ouvido.
— Por que nós iríamos buscá-lo? — Shikamaru indagou com visível consternação.
— Ah, essa é a parte interessante da história — Kankuro informou, aproximando o bocal do rosto mais uma vez. — Ei, você está disposto a repetir aquilo que disse para mim agora pouco?
O homem do outro lado riu secamente, mas concordou eventualmente.
— A unidade... que estava me transportando para uma base sofreu... um pequeno... contratempo. Nosso helicóptero sofreu uma pane e... tivemos que fazer um pouso de emergência... a cerca de trinta quilômetros... do principal acesso de Kyoto.
Mancando para chegar até o aparelho, Shikamaru tomou o bocal da mão de Kankuro.
— Não me faça perder tempo. Quem é você e o que quer?
O homem suspirou do outro lado o que provocou um chiado agudo e desconfortável; mais uma vez, ele riu de forma seca, irônica.
— Meu nome não importa... por enquanto... Vocês precisam saber apenas... que o que eu tenho comigo... é o que é verdadeiramente valioso.
— Desembucha de uma vez, seja lá quem você for — Shikamaru demandou sem mais paciência.
Sasuke dobrou os braços sobre o peito enquanto as próximas palavras do homem misterioso, sussurradas através do bocal de um obsoleto rádio comunicador, fazia os três homens sob a tenda congelarem em seus lugares e mal respirarem:
— Eu... tenho a cura para essa doença.
* * *
Alguém se aproximou furtivamente da sua alma
Pouco a pouco ele a roubou e a furtou
Até que outro alguém estivesse no controle.
U2 – Trecho de The Troubles.
Fale com o autor