Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

31 Capítulo XXX: O Domínio dos Mortos


Notas iniciais
Trigésimo capítulo, dedicado à cherry e à Jujú pelas lindas recomendações! Obrigada mesmo *-* ... Boa leitura!

Dead World Assembly

“O policial morto está completamente hipnotizado pela visão da Ruger apontada para ele. Brian se pergunta se naquele rudimentar sistema nervoso existe algum sinal sendo enviado para uma memória muscular distante, nas profundezas daquelas moribundas células cerebrais”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 86).

Capítulo XXX:

O Domínio dos Mortos

Sakura despertou de sobressalto no banco de trás do Impreza. Suor frio escorria pela sua nuca e seu corpo se agitava em espasmos sob o cobertor. Ela esfregou os olhos para habituá-los à escuridão opressora e inspirou longas lufadas de ar, uma de cada vez.

Só um sonho, disse a si mesma, foi só um sonho. Lágrimas silenciosas escorreram pelas suas bochechas e queixo. Mais uma vez, a náusea violenta revirava o seu estômago. Calmamente, ela enxugou o suor da nuca e livrou-se do cobertor. Ofegos descontrolados ainda lhe escapavam dos lábios apartados.

Ela olhou em derredor, desorientada, tentando forçar algum tipo de reconhecimento e falso senso de segurança a penetrar camada por camada de sua mente, suplantando os fragmentos do pesadelo que tivera no processo.

Queria nada mais que os seus olhos desajustados parassem de traçar contornos perturbadores na escuridão amorfa, queria arrebatar a sensação desoladora que o sonho deixara — quase uma dor física — e expurgá-la do seu corpo. Queria, a qualquer momento, abrir os olhos e se deparar com a claridade familiar do seu quarto, ouvir a voz da mãe cantarolar desafinadamente enquanto preparava o desjejum, sentir o cheiro da loção pós-barba do pai a cada vez que ele lhe beijava a face. Queria poder se lembrar do rosto de Ino como ele era antes do mundo acabar.

Saber que tudo isso estava fora do seu alcance a matava.

Sakura resolveu se sentar, as costas contra a porta, e deslizou a mão num gesto instintivo sobre o ventre. Seu olhar caiu sobre a silhueta atravessada sobre os dois bancos da frente, a cabeça encostada ao vidro da janela, as pálpebras apenas semicerradas.

— Também não consegue dormir? — ela sussurrou, rompendo o silêncio dentro do automóvel.

Uma fina faixa de luz do luar caía sobre o rosto inexpressivo de Sasuke, prateando sua pele, deixando seus cabelos negros da cor do índigo. Os olhos dele, entretanto, continuavam fixos no teto do carro, as mãos haviam se aninhado em torno da carabina no seu colo.

— Hn. Toda vez que tento fechar os olhos, os ruídos lá foram me colocam em alerta de novo — ele murmurou baixo, a boca mal se movendo enquanto formava sílaba atrás de sílaba.

Eles estavam próximos a uma clareira agora, protegidos por uma densa vegetação e por um dossel de folhagens. Sasuke havia dirigido até onde pudera, a exaustão vencendo-o por fim horas atrás, quando desviaram da Via-expressa Sanyo, no quilômetro 82, e adentraram à floresta que margeava a pista, procurando abrigo para passarem a noite.

Não se sentiram muito à vontade para deixar o carro e montar acampamento, então compartilharam uma parca refeição consistida de alguns dos biscoitos salgados que Sasuke encontrou na loja de conveniências do posto e uma garrafa d’água; comeram e beberam em silêncio, depois Sakura deslizou para o banco de trás, colocou as caixas de papelão no assoalho e resvalou para um sono agitado, irrequieto.

Sonhou com Karin e com Hidan primeiro, depois com Ino e o homem que tentou violentá-la, por último, sonhou o sonho que mais a perturbou. Mais uma vez, a mão dela deslizou sobre o ventre.

— Lembra-se daquele bebê que encontramos em um dos apartamentos do condomínio? — sua voz fraquejou, ruiu, ela se sentia tão fraca.

Sasuke a fitou surpreso, os olhos deliberadamente assustados, logo compreendendo.

— Eu sonhei com aquele bebê — ela prosseguiu, o rosto despencando em direção à sua barriga, o cabelo cobrindo a sua expressão. — Sonhei que... — hesitou, umedecendo os lábios. — Sonhei que ele estava nos meus braços, imóvel, adormecido.

Pausou, mordiscando a boca. Sem que percebesse, seu punho se cerrara sobre o ventre.

— Sonhei que havia sido eu quem o deixou lá.

As palavras repercutiram de uma forma estranha no silêncio denso da noite; pesadas, elas pairaram suspensas por um tempo inesgotável antes de afundar paulatinamente na escuridão. Eram tão afiadas em suas bordas quanto navalhas, e carregavam dentro delas uma animosidade esperada. Sakura as sentia reverberar bem fundo nos seus ossos, no seu cerne. Elas só não se igualavam às lembranças tão frescas ainda do pesadelo, estas, por sua vez, gotejavam ácido em sua memória.

Sasuke respirou fundo antes de apoiar as mãos no encosto do banco e inclinar o corpo em direção ao assento traseiro. Curvou-se devido ao teto baixo e esgueirou-se até Sakura, puxando o cobertor de cima das pernas dela e invitando-a com apenas um olhar a se aproximar.

Sentindo-se pouco propensa a recusar a gentileza, ela compeliu o corpo em direção ao dele, passando os braços em torno da cintura e encostando a face ao peito, onde podia claramente ouvir o coração dele batendo. O queixo dele encostou-se à sua testa.

— Alguma vez... — ela murmurou, a boca roçando o tecido da camiseta que ele usava. — Alguma vez você já se imaginou... Como um pai?

A voz rouca e sincera dele era um convite cortês a fechar os olhos e deixar a realidade penitente para trás.

— Não — ele murmurou, distraidamente correndo uma mão pelo cabelo dela, desprendendo fio a fio do rabo de cavalo frouxo. — Nunca pensei em formar a minha própria família.

Sakura sentiu-o respirar fundo, podia quase imaginá-lo agora: o olhar vago, o sobrecenho franzido, a boca crispada. Ainda, ele corria os dedos pelos cabelos dela.

— Talvez eu tivesse receio de me tornar um monstro como o meu pai — prosseguiu com uma relutância que não passou despercebida por ela. — Talvez ele já tivesse fodido o bastante de mim... — Outro suspiro, desta vez um de resignação. — Mas eu não estou arrependido, Sakura.

Ela aquiesceu brevemente, apertando o rosto contra o peito dele.

— Eu também não me arrependo de nada — sussurrou. — Cada momento que tivemos... Há tanto tempo eu havia esquecido como era me sentir assim, em paz, contente.

O silêncio caiu mais uma vez dentro do automóvel, apesar do canto das cigarras e da noite sussurrante de outono. Galhos e folhas secas estrepitavam lá fora, causando pequenos sobressaltos em Sakura, mas ela gostava de pensar que se tratassem de animais noturnos caçando suas presas. Talvez, se apenas fechasse os olhos...

Sasuke acomodou-se mais confortavelmente no banco, recostando-se à porta, ainda com Sakura aninhada em seus braços. Ele também envolveu a ambos no cobertor e travou uma batalha extenuante contra a insônia. Seu corpo, exausto, precisava descansar, mas sua mente continuava a colocá-lo em estado de alerta ao menor ruído lá fora.

— Sasuke? — Sakura o chamou na escuridão, suavemente, e ele aguardou que ela prosseguisse. — Desculpe por ter gritado com você mais cedo. Eu perdi a cabeça.

Ele emitiu um resmungo que vagamente soou como um “tudo bem”, mas Sakura compreendeu e sorriu em resposta. Os dedos dela agarravam-se à sua camiseta insistentemente.

— Eu só pensei que... — ela resfolegou, resistindo à palavra. — Alguém me disse que nós não temos que nos tornar monstros para combater outros. Alguém me disse para tentar preservar o que ainda possa restar de humana em mim.

— As regras mudaram, Sakura — ele a respondeu calmamente, fixando o olhar na mata escura, nas copas das árvores que filtravam a luz da lua. — Se nós quisermos sobreviver, temos de estar prontos para fazer qualquer coisa.

— Mas você não tem medo de se perder? — ela o questionou, erguendo o rosto do peito dele para fitá-lo e apoiando o peso do corpo nos cotovelos.

— Sakura, eu sempre estive perdido — ele declarou com uma honestidade que pareceu chocá-la. Ainda, ela inclinou-se até o rosto dele, o cobertor escorregando dos seus ombros.

Terna, ela o tocou nos lábios, um beijo casto, e em seguida se afastou, os olhos claros vívidos e reluzentes. Calmamente, endireitou-se para uma posição que julgou mais confortável, subindo no colo dele e posicionado uma perna de cada lado do quadril.

— Eu não acredito em você.

Sasuke a olhou em silêncio, como se a desafiasse. Mas, surpreendentemente, ela sorriu e tornou a se inclinar para outro beijo. Desta vez, no entanto, a boca suave permaneceu sobre a dele num toque terno e gentil. Sakura envolveu o rosto dele em suas mãos e suspirou demoradamente, fechou os olhos e moldou os lábios em torno dos de Sasuke.

Quando se afastou, encontrou o olhar excitado dele. Ela não queria, mas sucumbiu àquela indesejável sensação de que tudo ficaria bem, de que tudo se acertaria. A esperança aflorou dentro dela, sem permissão, especialmente porque Sakura tinha certeza de que Sasuke encontraria um jeito de guiá-los em segurança à Yokohama. Ele prometera, e ele cumpriria.

Uma pancada na janela sobressaltou a ambos e arrancou-os do pequeno momento de tranquilidade. Sasuke preparou a carabina, mas logo desistiu; pressionado contra o vidro da janela, um errante rosnava, os olhos vazios brilhando na escuridão amorfa como duas moedas sujas. Fios de cabelo ralos e oleosos cascateavam em torno do seu rosto macilento e descarnado e a boca se esgarçava continuamente, complementando uma careta macabra.

— Vadia desgraçada — Sasuke grunhiu, olhando com desprezo a mulher pressionar as mãos esqueléticas no vidro e gemer inconsolável por não conseguir alcançar o casal dentro do carro.

Sakura soltou uma risada nervosa e voltou à posição inicial, deitando-se no peito de Sasuke. Fechou os olhos e procurou ignorar os ruídos violentos da errante empoleirada sobre a janela. Ele, por sua vez, puxou o cobertor mais uma vez sobre ela e manteve o olhar sombrio fixo na mulher morta.

Olhou-a por minutos inteiros, até que o cansaço por fim o venceu, até que uma escuridão ainda mais inquietante e destruidora abarcou seus pensamentos.

* * *

Quando a manhã chegou, calma e acinzentada, Sasuke já se encontrava desperto e pronto para partir. O vento soprava nas árvores e trazia o cheiro úmido da vegetação de abetos e — como de praxe — o odor rançoso dos mortos.

A floresta persistia cômoda e silenciosa, a não ser pelos dois errantes que agora se agarravam ao Impreza, procurando um meio de alcançar com suas mãos descarnadas e mortas o casal sossegadamente esparramado no banco de trás. Seus gemidos roucos alternavam com os grunhidos raivosos enquanto os dentes apodrecidos se chocavam numa agonia sem fim.

Sasuke olhou para a garota adormecida em seu peito uma última vez antes de decidir que era hora de despertá-la. Delicadamente, ele chacoalhou seu ombro e com apenas um olhar informou que era hora de ir.

Rapidamente, ele passou ao banco do motorista, escutando os errantes se exaltarem e tentarem forçar as suas mãos mais determinada e desesperadamente contra as janelas. Sakura esfregou os olhos e se esgueirou para a frente também, sentindo um alívio incomensurável por finalmente estarem seguindo viagem.

O Impreza logo se encaminhava para a pista outra vez enquanto os dois errantes se arrastavam logo atrás, tentando alcançá-lo novamente. Uma vez que abriu caminho entre a trilha estreita e voltou à estrada, Sasuke abaixou o vidro da janela para sentir o vento no rosto.

Eles avançaram por cerca de um quilômetro e meio antes de Sasuke sentir a necessidade de consultar o mapa para decidirem que rota tomariam: A Via-Expressa Meishin atravessava duas grandes cidades japonesas, a primeira sendo Osaka, e a segunda Kyoto.

Agora acompanhando com o indicador o traçado no mapa, Sasuke acreditou que tentar atravessar Osaka seria suicídio, por isso estudava um percurso alternativo. No entanto, quanto mais ele analisava aquelas linhas no mapa, mais o seu humor azedava.

Eles estavam posicionados bem sobre o entroncamento da Chugoku com a Via-Expressa Sanyo e avançar pela Meishin era a única rota confiável; desviar para qualquer outro tramite os forçaria a retroceder e contornar outras cidades igualmente populosas.

Sakura, ao seu lado, também observava apreensiva o mapa. O vento úmido esparramava o seu cabelo e cobria os seus olhos. À leste, o sol finalmente despontava, quente e dourado, amenizando a sensação térmica.

— E agora? — ela perguntou, voltando o rosto para o norte e fitando a paisagem deslumbrantemente solitária.

Por trás das colinas verdejantes e dos topos cônicos dos pinheiros, Osaka se erguia com todo o esplendor e altivez de outrora. Sakura se questionava se a vislumbraria como Kōbe: os arranha-céus silenciosos e esvaziados, as avenidas espaçosas atulhadas de lixos e mortos, o sol outonal refulgindo acima dos espíritos inquietos.

Sasuke franziu os lábios por um instante, depois os apartou lentamente para suspirar.

— Não temos escolha — ele declarou de supetão. — Vamos ter que, pelo menos, atravessar uma parte de Osaka. Contorná-la não só nos faria dar uma volta imensa como desperdiçaria tempo e combustível que infelizmente não dispomos.

— Mas isso não seria muito arriscado? — Seu rosto empalidecia só de pensar.

Sasuke meneou a cabeça, na esperança de acalmá-la.

— O trecho que teríamos de atravessar está localizado na parte sudeste de Osaka, não passaríamos sequer perto do centro. Além disso, é uma pista segura que transpõe a cidade por cima.

Sakura suspirou antes de confirmar com um ar resignado:

— Certo, vamos em frente então.

Eles voltaram ao carro e seguiram viagem, rumo à Osaka desta vez — no passado uma das maiores e mais populosas metrópoles japonesas.

Com o sol à frente, enchendo a vista panorâmica das colinas de um vigor consistente, eles progrediram quilômetro a quilômetro, seguindo agora pelo princípio da Via-Expressa Meishin, que os levaria diretamente para Osaka.

O céu estava claro e límpido, uma manhã incomumente outonal. Sakura olhava a paisagem com desconfiança; quanto mais avançavam para o interior de Honshu, mais o silêncio imperava na estrada e menos os destroços abandonados de carros insurgiam nos acostamentos.

Eventualmente, a pista suspendeu acima de um aclive escarpado, rochas de calcário projetavam-se logo abaixo, cercadas por vegetação. O matagal denso inclinava-se em direção às pilastras que sustinham todo o trecho suspenso. Obeliscos de concreto erigiam-se das bordas da pista, agora encardidos e expostos às intempéries. Uma velha caminhonete estava abandonada, próxima à grade de contenção

Um rio de leito cheio e margeado de ambos os lados por uma incontrolável vegetação ribeira corria logo abaixo, plácido e limpo, a superfície das águas espelhava o fulgor do sol.

— Osaka está logo depois daquele túnel — Sasuke apontou para a frente, para uma abertura côncava escavada dentro da montanha.

Sakura segurou o fôlego enquanto Sasuke diminuía um pouco a velocidade. A pista seguia para dentro da abertura, para dentro da escuridão, e isso os inquietava. Ele acendeu os faróis e conduziu o Impreza até o túnel estreito.

— Feche as janelas e trave as portas — Sasuke recomendou sucintamente, o que Sakura acatou sem questionamentos, subindo o vidro e empurrando as travas para baixo.

Conforme penetravam a escuridão, a luz do dia foi ficando para trás, cada vez mais abatida, cada vez mais impossibilitada de alcançá-los. Logo no início, desviaram de um pedaço de metal retorcido no meio da pista, depois se surpreenderam pela quantidade de lixo que havia se depositado nas entranhas do túnel.

Havia um número sem fim de trapos esfarrapados, centenas de papeis espalhados no asfalto, objetos que variavam de brinquedos quebrados aos mais inusitados, que contavam histórias sobre seus antigos donos e sobre o fim tenebroso que haviam tido: um par de óculos quebrado, um rádio à pilha atirado em um canto, um sapato jogado em outro canto, um carrinho de supermercado tombado logo ao lado, garrafas de água esvaziadas, embalagens de comida.

Não demorou para que os mortos se unissem aos objetos abandonados também; a luz pálida dos faróis cobriu o primeiro deles, um homem calvo e alto, as roupas em farrapos, os olhos brilhando como bolas de gude na escuridão, a boca se abrindo e fechando para emitir o primeiro gemido rouco.

Outros se juntaram a ele nos metros seguintes, de todas as idades e em todos os estágios de decomposição, dos mais apodrecidos aos mais recentes, dos mais carcomidos aos menos castigados. Parecia impossível contá-los à medida que eles se fechavam em torno do Impreza, as mãos de dedos podres e descarnados se estendendo em direção ao carro em movimento, as pernas magras os impulsionando com passos vacilantes para a frente e para o lado.

— Sasuke! — Sakura exclamou enquanto afundava no assento, o rosto pálido de horror, os olhos assustados presos aos mortos famintos.

— Estamos quase lá — disse ele, forçando o pé no acelerador, o olhar obstinado fixo ao retângulo de luz que cintilava no fim do túnel.

Sasuke cerrou os dentes e continuou a avançar, tomando o máximo de cuidado para não derrubar nenhum dos mortos. Um deles obteve êxito em se prender no automóvel, o corpo balançando sobre o capô enquanto o rosto medonho assomava no para-brisa sujo. O rapaz cerrou os dentes e arriscou uma manobra para se livrar do errante, jogando o Impreza para o lado bruscamente e depois voltando ao centro da pista.

O errante tombou no asfalto com um baque úmido e gemeu em protesto, estendendo a mão em direção ao automóvel negro que seguia seu caminho. Sasuke sorriu torto em resposta e acelerou novamente enquanto a luz do dia, convidativa, os atraía para o fim do túnel.

Quando enfim a atravessaram, a claridade cegando-os momentaneamente, Sakura mais uma vez segurou a respiração enquanto a luminosidade retrogradava e era filtrada por seus olhos sensíveis. A paisagem logo assumia a forma dos arranha-céus monstruosos no horizonte refulgido.

— Ah meu Deus... — ela se pegou sussurrando ao passo que a pista se estendia à sua frente, ladeada por prédios dos mais variados formatos e cores, projetos arquitetônicos dos mais exuberantes e arrogantes aos mais simples: torres de vidro e concreto, janelas escuras ou sujas, condomínios luxuosos abandonados e edifícios comerciais se projetavam até onde seus olhos pudessem alcançar.

À distância, as torres do Abeno Harukas cintilavam sob a luz do sol, sua estrutura de vidro de 300 metros de altura destacando-se em meio às demais construções. O belíssimo Castelo de Osaka, uma relíquia do passado, havia sido reduzido a nada mais do que escombros chamuscados e seus muros pretejaram devido à fuligem.

A Via-expressa Meishin suspensa vários metros acima do solo nivelado, mostrava-lhes uma vista tenebrosamente privilegiada da porção sudeste da metrópole japonesa. O horizonte límpido resplandecia na cidade adormecida, o vento trazia o coro dos mortos-vivos, a sinfonia que jamais cessava.

Sakura engoliu em seco quando o uivo enraivecido dos errantes tornou-se discernível do próprio lamento do vento frio.

— Acha que todos... — Mas ela não conseguiu concluir; sua pulsação acelerada martelava suas costelas.

Eles na realidade descobriram essa resposta minutos depois, incapazes de demover os olhos da visão apática, quando o primeiro grupo de mortos-vivos surgiu lá embaixo, nas avenidas espaçadas e nas ruas largas. Sakura inclinou-se em direção à janela do motorista ao passo que mais e mais errantes apareciam em seu campo de visão limitado.

Ela ofegou, tentando contá-los, mas mais e mais errantes despontavam: trinta, quarenta, cinquenta, quem sabe tivessem ultrapassado uma centena quando o coro assustador triplicou de intensidade, os gemidos uníssonos soavam como um vespeiro enlouquecido, os sons caóticos e desordenados roubaram-lhe o fôlego.

— Ah meu Deus, Sasuke! — ela conseguiu exprimir no auge de seu assombro enquanto, mais à frente, uma horda ainda mais numerosa somava-se à primeira, os errantes agitados lá embaixo pareciam-lhe insetos que ela poderia facilmente esmagar com o seu punho.

— Puta que pariu — Sasuke conseguiu rosnar através dos dentes cerrados, alternando o foco de sua atenção entre a pista à frente e a horda assombrosa lá embaixo.

— São tantos! — Sakura murmurou, tapando os lábios apartados com as mãos. — Ah meu Deus, eu nunca havia visto tantos deles juntos!

Sakura olhou para trás e para frente, visivelmente desorientada, mas os números só cresciam a cada segundo. À essa altura, alguns poucos errantes desgarrados insurgiram na pista, atiçados obviamente pelo som do motor do Impreza.

Sasuke desviou de cada um deles facilmente, acelerando para atravessar aquele trecho mais rapidamente. Ao fim, deixaram a horda assustadoramente numerosa para trás, seu coro ininterrupto de gemidos era a única evidência de que eles eram reais e permaneciam ali.

— Eles deviam ser milhares, talvez dezenas de milhares, Sasuke — ela comentou depois que os deixaram para trás, quando a pista gradualmente começava a nivelar com o solo.

Sasuke meneou a cabeça lentamente, como se estivesse com dificuldade para se livrar da visão pavorosa, mas nada disse; manteve-se atento à estrada, sentindo-se inegavelmente mais aliviado agora que o número de errantes diminuíra, apenas alguns pobres condenados vagavam a esmo.

— Pelo menos, deixamo-los para trás — concluiu, assentindo consigo mesma e tentando se acalmar.

Agora, a Meishin tornava a se estender solitária à frente de ambos, o sol se derramando no asfalto, a floresta de coníferas volteando a paisagem com seus picos cônicos e ainda verdejantes. No entanto, o alívio momentâneo que sentiram ao sair de Osaka não foi capaz de suplantar a amargura que saborearam ao primeiro estalo de um dos pneus traseiros do Impreza.

Sasuke grunhiu e seguiu por mais alguns metros antes que outro estalo, desta vez mais agudo, os forçasse a parar. A tarde avançava e o sol desaparecia no céu nuvioso quando eles desceram do carro e avaliaram o pneu furado. Eles não tinham um reserva para trocar.

— Merda — o rapaz vociferou, fechando a mão em punho ao passo que uma raiva ilógica o tomava por inteiro.

— O que nós vamos fazer agora? — Sakura perguntou contida, ciente da aura danosa que emanava do parceiro.

Mas, inesperadamente, ele respirou fundo e tomou a única decisão cabível no momento:

— Coloque tudo o que puder nas mochilas, priorize água e comida. Nós continuamos a pé daqui.

Ela o olhou em dúvida, como se tivesse ouvido mal o que ele dissera, mas Sasuke reafirmou com seriedade suas palavras e abriu o porta-malas amassado para procurar pelas mochilas de acampamento.

Rapidamente, e agindo conjuntamente, eles organizaram tudo e partiram, deixando o Impreza para trás e se arriscando na estrada solitária com um sol pálido ardendo sobre as suas cabeças. Sasuke seguia à frente, tendo se encarregado das mochilas mais pesadas, além de carregar a bolsa com as suas armas e munições, e Sakura seguia mais atrás, silenciosa.

Apesar do reflexo irritante persistir e lhes tentar a fazê-lo enquanto se afastavam do automóvel agora imprestável, nenhum deles olhou para trás.

* * *

Oh, Senhor, na escuridão, guie-me em meu caminho

Oh, Senhor, na escuridão, guie-me em meu caminho

Guie-me de volta para casa, guie-me de volta para casa.

Jamie N. Commons — Trecho de Lead me Home.

Notas finais
Por incrível que pareça, dá pra piorar a situação deles ainda mais Hahaha No próximo capítulo, os novos aliados fazem a sua aparição! ;D ... Quanto ao mangá dessa semana, eu tenho certeza que o Kishimoto tá bebendo alguma coisa antes de desenhar cada mangá :o ... Obrigada a todos que estão comentando e recomendando a Fanfic *-* Responderei os reviews provavelmente amanhã. Até o próximo.