Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
24 Capítulo XXIII: A Face Relegada da Insanidade
Notas iniciais
Dead World Assembly
“O sentimento de urgência é quase imediato. Eles se sentem nus e expostos fora do veículo, de modo que todos se concentram no que têm que fazer: empacotar tudo, voltar ao Suburban e tirar aquela coisa do atoleiro”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 76).
Capítulo XXIII:
A Face Relegada da Insanidade
Sakura soube que havia algo errado no momento em que recobrou a consciência. Primeiro, uma dor aguda na base do seu crânio lembrou-a da pancada que recebera. Em seguida, uma letargia incômoda, aos poucos, descortinou seus pensamentos, clareando-os paulatinamente, progressivamente.
A primeira percepção do entorno a fez gemer de desconforto. Seu rosto estava comprimido contra as tábuas ásperas de madeira do assoalho, seus braços puxados até as suas costas, os seus pulsos amarrados com cordas de nylon. Seus joelhos flectidos encostavam-se ao seu peito e seus tornozelos estavam igualmente retidos.
Suas pálpebras pesavam e manchas cinzentas embotavam sua visão. Os ruídos eram dissonantes, indistintos, vagos. Sombras dançavam à sua frente, ora alongando-se na forma de dedos finos, ora avultando nos mais variados formatos.
Sakura esfregou os pulsos contra as cordas enquanto a realidade recaía sobre ela; como num estalo, lembrou-se do que acontecera. Ouviu-se a si própria arquejando e respirando ruidosamente através dos lábios entreabertos. Não entre em pânico, não entre em pânico!
Olhando em derredor, agora que as manchas se dissolviam e as sombras tomavam formas, ela viu-se ainda na sala de estar do apartamento 28B, deitada de lado sobre o assoalho.
Grãos de poeira rodopiavam acima da sua cabeça, iluminados pelo retângulo de luz que varava as grandes janelas cobertas. O apartamento recendia ao abandono e o silêncio ainda imperava.
Sakura olhou das paredes sujas ao teto encardido; o pânico começava a desorientá-la e ela sabia que precisava se acalmar. Assim, com os pulmões comprimidos e cada batimento cardíaco reverberando dolorosamente, ela esperou, contando os segundos enquanto sons de passos alcançavam-na.
Lutando para mover os membros dormentes, colocou-se de costas contra o assoalho, trincando os dentes e ajeitando-se até que agora pudesse encarar a porta da frente do apartamento, do outro lado do cômodo espaçoso. O saco de lona ainda se remexia no canto, gemendo baixinho.
Quando um pedaço de sombra materializou-se sob a porta, estendendo-se acima do assoalho empoeirado, Sakura prendeu a respiração. A maçaneta girou e a porta abriu-se com um gemido, revelando uma silhueta peculiar.
A pele morena estava suja, os cabelos grisalhos rareavam na testa sulcada e espalhavam-se como uma juba acinzentada em torno da sua cabeça. O nariz adunco equilibrava a armação de um par de óculos de tartaruga e a boca estava escondida sob um bigode farto. Vestia roupas sujas e esfarrapadas, uma calça de moletom com um rasgo no joelho esquerdo e um velho suéter. Balançando na sua mão esquerda, um balde cheio de pombos mortos.
Quando a encontrou ali, desperta e lívida como um fantasma, seus olhos pequenos por trás das lentes grossas se iluminaram.
— Vejo que já despertou, menina. Isso é bom — murmurou, avançando pelo cômodo logo depois de ter cerrado a porta. A mão que carregava o balde tremia sutilmente.
Sakura encolheu-se quando o homem idoso acercou-se dela, depositou o balde no chão e estendeu os braços em sua direção. Ela enrijeceu quando o sentiu envolvê-la, as mãos de palmas grossas encaixando-se sob os seus braços, pegando-a como uma criança e içando-a facilmente.
Ele a firmou contra a parede, deixando-a numa posição um pouco mais confortável.
— Prontinho — disse com um pequeno sorriso. — Só não grite, tudo bem? Eu não gostaria de ter que amordaçá-la.
Soltando o ar lentamente através da boca, Sakura levantou o olhar circunspecto para o homem.
— Quem é você?
Sem dizer uma única palavra, ele apanhou o balde pela alça de plástico, arrastou o colchão de solteiro fino para a outra parede e sentou-se calmamente, avaliando o conteúdo do recipiente tediosamente.
— Olha só! — dizia ele em tom de reprovação. — Esses malditos pombos continuam a fazer os seus ninhos sob os caibros. Bichos nojentos e sujos, transmissores de moléstias! Gatou-sama ficará tão zangado quando voltar e descobrir...
Sakura encolheu-se contra a parede quando ele aumentou o tom de voz:
— “Tazuna, cuide dos malditos pombos”!, ele diz e então eu respondo: Mas, Gatou-sama, eu já tentei de tudo para espantá-los, porém os ratos com asas continuam a construir os seus ninhos nos caibros. “Pois lhes dê veneno”!, ele retruca com aquele maldito bafo de saquê e charutos. “Não me importo se você vai ter que arrumar uma maldita espingarda de chumbinho e derrubá-los um a um. Apenas faça a porra do seu trabalho, Tazuna”!
O homem revolveu cuidadosamente as aves mortas dentro do balde, revirando-as pelas pontas das asas rijas. Sangue pingava de algumas delas.
— Ele nunca me forçou a usar uma espingarda de chumbinho, contudo.
Sakura respirou fundo. Seus pulmões doíam e seus pulsos ardiam. Ela sabia que devia manter a calma agora.
— Você cortou a corrente do portão do condomínio há algumas semanas — ela murmurou num tom baixo, monocórdio. — Seu nome é Tazuna, não é? — sondou-o com o olhar, recebendo em troca apenas uma expressão de desinteresse.
— Eu morei nesse apartamento durante muitos anos, sabia, menina? — desconversou, assentindo consigo mesmo enquanto afastava o balde e se levantava. — Me mudei para cá com a minha filha e o meu netinho, um menino adorável.
Sakura comprimiu o corpo contra a parede quando Tazuna passou por ela. Ele só parou quando estava diante do saco de lona. Com um suspiro, começou a desfazer os nós que o seguravam.
— A minha filha... A minha linda filha tinha acabado de perder o marido e eu era tudo o que ela tinha. Fui o síndico deste condomínio por muitos e muitos anos, trabalhando para Gatou-sama e cuidando para manter os malditos pombos e as porras dos seus ninhos longe dos caibros.
As bordas esfiapadas do saco não demoraram a revelar um tufo de cabelos escuros oleosos e rareados que encimavam uma cabeça podre cujo tom de pele já adquirira aquela tonalidade azul-acinzentada. Era pequeno, com olhos grandes e mucosos que brilhavam feito duas bolas de gude e lábios que grunhiam sem cessar, arreganhando-se sobre os minúsculos dentes negros.
Era só um menino cujo corpo franzino havia sido envolto em grossas correntes de aço galvanizado. A impaciência do errante miúdo se dava exatamente por conta de sua incapacidade de se locomover e de mexer os membros.
— Prometi a ela que cuidaria do menino... Eu lhe fiz uma promessa e falhei em cumpri-la. O pobrezinho nunca teve chance.
— Como conseguiu se esconder aqui durante tanto tempo? — Sakura indagou, endireitando os ombros doridos enquanto Tazuna enxugava os olhos úmidos.
— Conheço esse condomínio como a palma da minha mão — ele lhe respondeu com um pequeno sorriso, afastando-se do morto-vivo e voltando a se sentar sobre o colchão. — No início, acreditamos que devíamos partir; tentamos seguir para Yokohama, para o maldito centro de refugiados de que tanto se sussurrava... Mas era só uma ilusão. Nunca nem mesmo conseguimos sair de Shikoku.
Sakura mordiscou o lábio e esfregou os pulsos contra as cordas mais uma vez. Seus dedos lentamente se infiltraram no bolso da sua calça jeans, tateando em busca do canivete que ela sempre mantinha ali. Limpando a garganta, disfarçou o contentamento quando o encontrou, segurando-o firmemente para não deixá-lo cair.
— Devo supor que não quis nos prejudicar quando deixou o portão aberto, não é?
O rosto de Tazuna ficou pálido, mas só por um instante.
— Santo Deus, devo tê-lo esquecido aberto! Essa minha cabeça já não funciona mais como antes — garantiu com um sorriso, batendo a palma da mão contra a testa. — Espero não ter causado danos irreversíveis.
— Foi por pouco — Sakura deu de ombros, cuidando para manter o tom de voz calmo; suas mãos suavam e o canivete escorregava de seus dedos.
Silenciosamente, enquanto seu estômago se afundava com o peso da expectativa, ela conseguiu desprender a lâmina fina, posicionando-a contra as cordas que envolviam seus pulsos.
Para distrair Tazuna, ela pressionou as costas contra a parede, retraindo as mãos enquanto lentamente, concentradamente esfregava a lâmina nas cordas, causando um atrito gradual e tomando cuidado para que ele não a descobrisse.
— Então... — recomeçou com um tom inesperadamente pragmático, muito embora um suor frio escorresse pela sua nuca. — O que pretende fazer aqui? Tem algum plano?
— Um plano? — Tazuna ergueu uma sobrancelha hirsuta e Sakura assentiu, hesitante.
— Sim. Você sabe, até que o Governo desenvolva uma cura para tudo isso... O que pretende fazer?
Tazuna abanou a cabeça com brusquidão, apanhando um pombo rijo do balde e apoiando-o no assoalho sujo; começou a depená-lo rapidamente. Sakura sentiu que a lâmina começava a se enterrar na corda dos seus pulsos, abrindo caminho eficientemente.
— Não há cura, menina — ele vociferou, arrancando penas cinzentas do pombo com uma determinação pétrea. — Só imbecis caem nesse tipo de conversa. Não vê que este é o julgamento final?! O fim do mundo, o apocalipse... Como foi mostrado ao apóstolo João... “E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles”. Apocalipse, capítulo 9, versículo 6 — citou com uma reverência incontida e depois acrescentou: — Uma das minhas passagens favoritas.
— “E o quinto anjo tocou a sua trombeta” — Sakura murmurou, de chofre; Tazuna a fitou com seus pequenos olhos esbugalhados e logo tornou a depenar o pombo. — Acho que estou com a sua bíblia — disse-lhe, acanhada.
— Fique com ela, menina. Fique com ela — ele lhe respondeu, ainda concentrado em sua tarefa. Depois, ele começou a balbuciar algumas palavras que ela não compreendeu de imediato: — “...e vi uma estrela que do céu caiu na terra; e foi-lhe dada a chave do poço do abismo. E subiu fumaça do poço, fumaça como uma grande fornalha... E da fumaça vieram os gafanhotos sobre a terra... E foi-lhes dito que não fizessem dano à erva da terra, nem a verdura alguma, nem a árvore alguma, mas somente aos homens... E foi-lhes permitido, não que os matassem, mas que por cinco meses os atormentassem... E eram como cavalos preparados para a guerra; e sobre as suas cabeças haviam coroas semelhantes ao ouro; e os seus rostos eram semelhantes aos dos homens. E tinham cabelos como mulheres e dentes como leões. E tinham couraças de ferro e caudas de escorpiões e sobre eles erguia-se o anjo do abismo, Abadom”.
Ao término, Sakura ainda não sabia o que dizer. Tazuna descartou o pombo depenado e apanhou outro do balde.
— Não percebe, menina? Os gafanhotos são eles. Eles vieram para nos atormentar; não podem nos matar, mas nos prendem ao seu tormento. Vieram junto da fumaça, do poço do abismo porque nós, humanos, corrompemos este mundo e agora merecemos esta punição. O tempo da semeadura cessou, é hora de colher o que plantamos. Somos todos réus, menina — finalizou, apertando os olhos lacrimejantes.
Sakura umedeceu os lábios secos e disfarçou sua surpresa quando a primeira das cordas cedeu sob a lâmina do canivete. Tazuna abanou a cabeça enquanto recomeçava a depenar a ave.
— Pobres de nós... Tão mesquinhos, tão egoístas! Mas veja só, temos a oportunidade de renascer agora.
— Renascer? — Sakura questionou estupefata. Tazuna assentiu.
— Olhe só para eles agora... Não ferem uns aos outros. Não fazem mal uns aos outros. Não odeiam, não cobiçam, não mentem. Temos a chance de nos redimir agora por todos os nossos pecados.
— Está mesmo tentando me dizer que... — Sakura nem mesmo conseguiu concluir a sua frase. A lâmina enterrou-se fundo na segunda corda; suas mãos doíam, mas ela não podia parar.
— Por que somos melhores do que eles? — Tazuna indagou, crispando as sobrancelhas hirsutas e grisalhas. — Eles fariam do mundo um lugar melhor, mais pacífico.
— Eles comem pessoas! — Sakura esbravejou, exaltada, trabalhando com mais afinco nas cordas em seus pulsos. — Comem homens, mulheres, crianças, bebês... Deus do céu, eles se alimentam de praticamente tudo!
— E com eles o mundo há de renascer — Tazuna concluiu, descartando o segundo pombo e passando para o terceiro. — O homem já causou dano demais ao equilíbrio natural. E este desequilíbrio trouxe a ira divina sobre nós... Não somos merecedores, mas mesmo assim recebemos a dádiva de uma chance de remissão. Uma vez que a transição tenha terminado... Uma vez que o último dos homens já não mais caminhe sobre a Terra...
— Isso é doentio — Sakura ciciou, baixando a fronte enquanto a segunda corda arrebentava com um som suave.
— Não. — Tazuna discordou, levantando-se e caminhando até o menino; segurando o pombo pelos pequenos pés, ofereceu-o ao menino que bateu os dentes uns contra os outros desesperadamente. — Isso é um recomeço, menina.
Sakura desviou o olhar da cena nauseante; sons úmidos de mastigação rapidamente preencheram o silêncio. Pela visão periférica, ela via que o homem idoso sorria orgulhoso para o pequeno errante, instigando-o a comer mais devagar. A mão livre dele afagava o tufo de cabelos oleosos do morto-vivo.
Quando, por fim, a terceira e última corda cedeu sob o canivete, ela não conseguiu conter um suspiro de alívio. Ainda assim, manteve as mãos imóveis atrás das costas. Mordendo o lábio, tentou pensar às pressas em um plano que a tirasse dali.
Ao mesmo tempo, não queria ferir Tazuna. No fim, descobrira-o como um bom homem, apensas confuso e perturbado com a perda da família e o fim do mundo. Pergunto-me se o mesmo teria acontecido comigo se Sasuke não tivesse me encontrado. Ela sabia que a resposta teria sido sim. E estremeceu.
— Você não precisa fazer isso, Tazuna. Não tem que ficar isolado aqui. Ainda há esperança.
— É aí que se engana, menina — ele a contradisse calmamente, afastando o que restou do pombo dos dentes do menino morto —, já não há mais esperança para nenhum de nós.
— Sasuke, eu e Karin... Nós planejamos partir amanhã em direção à Yokohama, bem cedo. Você podia vir conosco. Ainda pode lutar por sua vida, Tazuna. Ainda pode sobreviver.
— Sasuke é um bom garoto — Tazuna assentiu, sorrindo minimamente. — Lembro-me dele e do irmão, Itachi, brincando juntos quando eram crianças... Mikoto-sama sempre comparecia às missas dominicais; uma mulher tão gentil. O pai, por outro lado, não me parecia ser um bom sujeito.
O homem lhe lançou um olhar apiedado, complacente.
— Fique perto do Sasuke, menina, ele a manterá segura. Mas cuidado com os outros homens... Esse novo mundo está cheio de pessoas desesperadas e que farão qualquer coisa para sobreviver.
— Venha conosco — ela suplicou uma última vez, tentando dissuadi-lo de uma existência miserável, tentando plantar nele uma única semente de esperança. Tazuna, no entanto, permanecia convicto.
— Não há chance alguma para mim, menina. Olhe só para mim! — disse, gesticulando para si próprio. — É improvável que eu resista até o fim do inverno. Estou velho e debilitado já. Ficarei por aqui até o último dia, até o último instante. Então, finalmente, me unirei ao meu Inari.
Ela não soube explicar por que, mas sentiu lágrimas empoçarem nos olhos. Resignada, abaixou a cabeça e, com as mãos já libertas, devolveu o canivete ao seu esconderijo. No entanto, as cordas frouxas ainda pendiam de seus pulsos e ela não havia feito qualquer movimento para se levantar e partir.
— Espero que me perdoe por tê-la desacordado. Eu não podia ter certeza de que você possuía uma boa índole, mas agora que olho nos seus olhos... — ele se deteve, avançou até Sakura e estendeu a mão.
Não esboçou nem mesmo surpresa ao ver que as cordas haviam sido cortadas.
Seus olhos eram cinzentos, ela notou, e suaves. Ao mesmo tempo, estavam fatigados de testemunhar a violência crua do mundo — tanto a violência do velho quanto a do novo.
— Não há mais nada para mim, menina — ele sussurrou, a boca mal se movendo sob o bigode grisalho.
— Sakura — ela disse, assentindo com um gesto. — O meu nome é Sakura.
Tazuna não disse nada enquanto desembainhava uma pequena faca e a levava até as cordas que envolviam os tornozelos da garota. Ainda em silêncio, cortou-as, liberando-a completamente. Depois, ele estendeu para ela uma velha companheira: sua Glock, o pente estava intacto. Sakura não hesitou em apanhá-la e guardá-la no coldre.
Ela levantou-se, esfregando os pulsos doloridos. Hesitou antes de se aproximar da porta, antes de deixá-lo ali, com o garoto morto. Mas Tazuna a encorajou com um olhar e um sorriso.
— Agora vá, Sakura. Vá e sobreviva.
Calmamente, ela abriu a porta e a fechou. Voltou ao outro apartamento e apanhou a caixa de papelão com as roupas que encontrara. Seguiu em silêncio pelo corredor, desceu as escadas e atravessou o saguão. Já no outro bloco, no apartamento de Sasuke, chegou a tempo de ver uma curiosa Karin dobrar um suéter de lã e empilhá-lo em uma caixa; pelo visto, ela também dera sorte em encontrar algumas peças.
— Por que demorou tanto? — questionou, sondando Sakura com o olhar.
Por um instante, ela considerou contar-lhe tudo, sobre Tazuna, Inari, sobre a desesperança que se assomava dentro dela a cada dia, mas acabou desistindo.
Quando depositou a caixa de papelão no assoalho, ajeito uma mecha de cabelo que escapara do seu rabo de cavalo e suspirou.
— Não se preocupe; eu só acabei me distraindo com algumas coisas.
— Tudo bem — Karin concordou, embora Sakura pudesse ver que ela estava desconfiada e se segurando para não fazer mais perguntas.
Sakura limpou a garganta e indicou a porta com um gesto.
— Vamos descer agora. Temos que estar prontas quando o Sasuke chegar.
Mais uma vez, a ruiva assentiu sem qualquer objeção. Já do lado de fora, mais uma vez expostas à névoa fria e úmida, Sakura encarou a sombra do edifício, suas janelas destruídas e vedadas, a tinta descascada nas grossas paredes.
Pensou em Tazuna, no errante chamado Inari, nos pombos mortos pregados à parede e nas palavras pintadas sobre os papeis de parede desgastados. Perdão elas diziam, sussurravam, para ninguém em especial.
Por fim, assumiu uma postura vigilante ao lado de Karin, à espera do retorno de Sasuke com os suprimentos e todos os equipamentos que seriam indispensáveis na viagem do dia seguinte.
Tazuna seria um segredo, decidiu; um segredo apenas seu.
* * *
Perdoe a minha alma ferida, esta aflição que eu respiro!
Cure o meu espírito inquieto que se tornou um nada
Cure o meu coração que se inclinou para o mundo
Eu o nego, o entrego!
Cure o meu coração, a minha alma que chora...
Eu renego esta carne pútrida!
Draconian — Trecho de Through Infectious Waters (A Sickness Elegy)
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