Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
47 Capítulo XLVI: Divididos e Caídos
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Agora estavam mais quietos, mas os estalos e os passos arrastados nos andares acima cruzaram o teto a noite inteira, movendo-se como a presença invisível e insidiosa de cupins. O fato de Philip quase ter se esquecido dos ruídos era uma prova do quanto tinha ficado insensível à proximidade dos zumbis”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 123).
Capítulo XLVI:
Divididos e Conquistados
Sakura adquiriu uma esquisita insensibilidade na face esquerda depois de ter recebido o quinto ou sexto tapa; era difícil continuar contando, de todo modo, o número de agressões que havia sofrido desde o início da sessão de tortura.
No terceiro tapa que recebera de Zaku, acabou mordendo a língua e o lábio violentamente e agora sua boca tinha gosto de sangue e sua bochecha estava começando a dar sinais de que incharia, pressionando a sua pálpebra latejante. Uma grande equimose já começava a adquirir tonalidade, tingindo sua pele púrpura de violeta.
No último tapa, um pouco mais forte do que os antecessores, ela perdeu o equilíbrio e caiu para o lado como um prédio implodido incorretamente. Tombou sobre a lateral do corpo, arranhando a bochecha ilesa no cimento e cuspindo uma mistura de sangue e saliva. Estava tão tonta, talvez a bofetada tivesse sido mais forte do que pensara e, por um momento, sua consciência pendeu por um fio delgado e frágil.
Voltou a si, desorientada e dolorida, apenas porque ouviu a voz de Sasuke chamando-a ao fundo, tão distante que ambos pareciam estar divididos por uma muralha. Encolheu-se no chão, apertando os joelhos no peito e tossiu bruscamente, arquejando em busca do oxigênio que seus pulmões demandavam.
Sentiu-se ser içada pelas axilas como uma criança pequena e foi colocada de joelhos novamente, vacilando sobre as pernas bambas. Os latões que mantinham o imenso galpão da antiga madeireira aquecido e iluminado giravam diante dos seus olhos desfocados, tal como os rostos que preenchiam seu campo de visão. O fogo dançava incontrolável, fundindo-se vez por outra às sombras que pareciam vivas ao escalar as grandes paredes e as vigas de aço que sustentavam o teto côncavo.
— Prontos para começar a cuspir a verdade? — Zaku inquiriu calmamente ao postar-se atrás de Sakura, que ainda se recuperava da última agressão.
Ele puxou o cabelo dela para longe do seu rosto e segurou-o entre as duas mãos de um modo ofensivo; os dedos grossos fecharam-se em torno da mandíbula e cobriram a testa, expondo todas as equimoses e a lateral esquerda da face completamente inchada e vermelha.
Kabuto jazia poucos metros adiante dali, deitado de lado e encolhido em posição fetal. Seu corpo ocasionalmente era acometido por espasmos violentos causados pela dor dos pontapés e socos que levou apenas quinze minutos antes. Ele rendeu-se à inconsciência mais cedo do que Sakura havia previsto, tendo aguentado até o terceiro ou quarto golpe aplicado com crueldade à lateral de sua cabeça. Em consequência disso, agora sua têmpora esquerda tinha um corte fino logo acima da sobrancelha com sangue já secando nas bordas e o couro cabeludo estava manchado e grudento devido a uma mistura de sangue e suor.
Sasuke encontrava-se do lado oposto, contido e subjugado por três homens, dentre eles o tal Dosu com suas horríveis cicatrizes faciais sombreadas pelas chamas do fogo; mais assustadoras do que elas, apenas seu olhar maníaco enquanto Kabuto e, depois, Sakura eram torturados para revelar informações.
Ela deixou o olhar cair sobre Sasuke e viu o ódio incontrolável que o corroía, a cólera que o tomava, infectando seus pensamentos com uma violência crua e selvagem. Via isso e estremecia em antecipação porque sabia o que ele faria assim que a primeira oportunidade aparecesse.
Retraiu-se, enojada, quando os polegares ásperos do homem traçaram círculos na sua pele. Ele se abaixou o suficiente para que sua respiração e seu hálito colidissem com a pele sensível do seu pescoço; os pelos da sua nuca eriçaram-se todos em pânico quando percebeu que o próximo era Sasuke.
Viu o exato momento em que os três homens cercaram-no, espreitando-o como predadores. Sakura sabia que imobilizado daquela forma e contra três de uma vez, ele não teria chance alguma: seria espancado como Kabuto e ela própria. Enjoada com o porvir, tentou desviar o olhar — não suportaria testificar aquilo —, mas o agarre de Zaku em seu rosto impediu-a, forçando-a a continuar encarando a cena bárbara. Como se antevisse que seu próximo ato desesperado seria tentar fechar os olhos, os dedos dele apertaram-lhe o rosto, os indicadores e os polegares de cada mão encravando-se nas suas têmporas, arranhando sua pele e forçando suas pálpebras a se abrir outra vez.
— Não, por favor — suplicou num tom frágil, quebradiço.
Sua vista foi embaçando à medida que as agressões recomeçaram — direcionadas a Sasuke dessa vez. Dois homens o continham, certificando-se de que mesmo com os pulsos e tornozelos amarrados, ele não teria chance alguma de revidar. Dosu foi o responsável pelos golpes e cada baque seco e oco do punho dele, ela estremecia, inconsolável.
Mas da boca de Sasuke, som algum proveio; manteve a mandíbula cerrada, a expressão franzida e plasmada a partir da dor e do ódio. Viu-o receber socos na têmpora esquerda e no abdome e mesmo que eventualmente um arquejo sofrido escapasse dos seus dentes travados, ele se recusava a ceder, recusava-se a admitir e reconhecer o sentimento de impotência diante daqueles homens.
Sakura tentou bloquear os baques sufocados e intermitentes a todo custo, apagar a cena violenta, mas esta parecia gravar-se a ferro e fogo na sua retina, entremeando-se no tecido fibroso do seu cérebro como uma presença invasiva e insidiosa. O agarre de Zaku em seu rosto certificava-se de que ela via cada golpe, cada vez que o punho de Dosu acertava Sasuke e isso doía.
— A cura! — esbravejou Dosu ao tomar distância e esfregar os nós dos dedos doloridos. — Onde esconderam a cura?!
Sasuke, de cabeça caixa, com um filete de sangue escorrendo do seu lábio cortado, gargalhou baixinho e rouco num gesto de puro deboche. A franja preta cobria-lhe os olhos, mas Sakura apostava sua vida de que neles ainda fulgurava aquela cólera perversa e perniciosa, aquele brilho doentiamente mortífero.
— Mesmo que eu soubesse... — ele murmurou, interrompendo-se o suficiente para cuspir sangue e saliva no chão, e continuou, quase alheio ao efeito que suas palavras causavam: — Acham mesmo que eu diria para filhos da puta como vocês?!
A retaliação veio na forma de um murro contra o seu olho esquerdo, tão forte que Sasuke exprimiu um arquejo surpreso e sofrido, e vacilou, mesmo estando contido pelos outros dois homens. Recuperou-se vagarosamente do golpe, aturdido pela dor. Ele tinha a certeza de que seu olho esquerdo incharia; seu cérebro trabalhava a todo vapor, tentando encontrar uma saída que tirasse todos os três vivos dali, mas seus pensamentos assemelhavam-se a camundongos em um labirinto: acabavam sempre em um beco sem saída.
Ele rasgaria a garganta de Zaku com os próprios dentes se assim lhe fosse permitido. Havia assistido, inerte, a toda a sessão de tortura de Sakura, o modo como aquele homem a amedrontou com palavreados sujos e obscenos, incutiu o pavor nela pacientemente, tocando-a a princípio sem pretensões, enquanto Kabuto ainda era o interrogado. Depois, ele não hesitou em esbofeteá-la uma, duas, três e muitas mais vezes. Cada tapa mais violento e mais forte do que anterior.
Agora ela estava ali, presa no agarre dele, como uma lebre volteada pelo corpo esguio de uma serpente. O rosto ferido era delineado pelas chamas do fogo, as mesmas chamas que tornavam visíveis os filetes finos de lágrimas que lhe corriam pelas faces, uma delas tomada por equimoses e completamente inchada.
Sasuke voltou a si quando Kim, a única mulher do grupo, aproximou-se balançando os quadris provocativamente. O brilho frio nos seus olhos era o mesmo que se via nos olhos dos homens; eram os mesmos olhos mortos, encovados e vazios de humanidade.
— Porra, Dosu, eu te disse para não deixar marcas no rosto dele — ela recriminou, avaliando o dano no olho esquerdo de Sasuke, àquela altura já fechado devido ao inchaço. — Ele tem um rosto tão bonito, não é justo marcá-lo desse jeito!
— É do pinto dele que você precisa, não? — Zaku provocou-a com um sorriso libertino. — A cara dele pouco importará para você, nem pense que eu não sei disso.
— Gosto dos meus brinquedinhos bonitos e, preferencialmente, inteiros — deu de ombros, descartando o comentário.
Olhou de relance para Sakura que tremia apavorada sob o agarre de Zaku, e abriu um sorriso cínico.
— Mas por que estamos discutindo a integridade física dos meus brinquedos? O seu também não parece estar em bom estado...
— Deixa que das minhas putinhas cuido eu — rebateu com um ar perverso, acariciando o pescoço de Sakura, que tentava evadir o toque de qualquer forma, mas se via impossibilitada de se afastar.
Sasuke cerrou os dentes e sentiu a ira inflamar-se no seu peito, como uma fera enjaulada debatendo-se irracionalmente para escapar. Mas mal seus pulsos se esfregaram contra a corda que os restringia, o bico de metal de uma bota acertou-o em cheio entre as costelas, fazendo-o se curvar de dor e urrar de fúria, todo o ar roubado dos seus pulmões devido ao choque do golpe.
— A CURA, PORRA! ONDE ESCONDERAM A CURA?! — Dosu esbravejou na sua orelha e respingos de saliva acertaram sua face; ele tinha um hálito mortiço, frio e o seu rosto jamais esteve tão deformado pelas cicatrizes quanto agora.
— Esqueça, Dosu — Zaku palpitou, movendo-se de sua posição às costas de Sakura para rodeá-la como um abutre; ele indicou Sasuke com o queixo. — Esse aí não abrirá a boca, é durão.
Um sorrisinho maldoso repuxou os cantos da sua boca e fez covinhas surgirem. Sua mão acariciou o topo da cabeça de Sakura como se procurasse apaziguar um filhotinho amedrontado.
— Ela, por outro lado, pode ser bem mais maleável.
Curvou-se o bastante para que seu hálito roçasse a orelha esquerda dela e insinuou sua língua para fora como se intentasse lambê-la.
— Não é mesmo, queridinha?
Sakura conseguiu conter um calafrio, mas evitar as lágrimas mostrou-se impossível. Sentiu-se revivendo aquela noite outra vez, ouvindo os apelos de Ino, seu choro sofrido e humilhado horas depois; o medo estampado no seu semblante enquanto a abraçava.
De repente, Zaku espalmou a mão no seu ombro e empurrou-a com força de encontro ao chão. Sakura choramingou ao cair por cima dos pulsos atados, mas por sorte não bateu a cabeça. Tudo o que soube é que no segundo posterior a isso, tinha o corpo pressionado contra o chão, impedida de tentar se levantar por seu agressor, que assomou sobre ela como um predador de olhos famintos.
— Não toca nela! — Sasuke urrou, exasperado, mas foi silenciado por outro chute entre as costelas; desta vez, seu corpo não aguentou o impacto e ele tombou de lado, lutando para recuperar o ar e conter a dor.
Dosu apalpou o bolso de sua jaqueta até encontrar um pequeno canivete e em seguida se aproximou do jovem caído. Passou uma perna por sobre o corpo dele e, puxando-o pela gola da jaqueta que usava, levantou-o novamente. Seu único olho visível encarou Sasuke incisivo um pouco antes de sua mão livre manejar o pequeno canivete e levá-lo de encontro à lateral do abdome dele, cravando a lâmina na pele e nos músculos, mas evitando os órgãos vitais de propósito.
Sasuke sugou o ar com força por entre os lábios apartados e gemeu de dor pela primeira vez, esbugalhando os olhos vítreos. A lâmina queimava-o por dentro, ardia. Sentiu uma umidade pegajosa empapar seu suéter, escorrendo pela lateral do seu corpo e soube que era sangue. Dosu, sem expressar qualquer emoção, puxou o canivete e Sakura se contorceu no chão, alguns metros adiante, quando Sasuke tombou novamente, sem forças.
Chamou-o pelo nome algumas vezes, rezando para que o ferimento não fosse profundo demais ou que ele acabasse por perder muito sangue. Voltou sua atenção para Zaku, a contragosto, quando sentiu a mão dele pousar no seu estômago. O rosto dele estava acima do seu, as pernas flectidas ao lado dos seus quadris; ela estremeceu em pavor.
— Vamos fazer um acordo, sim? — ele disse com um tom condescendente que lhe causou repulsa; a mão pousada na sua barriga lentamente passou a acariciá-la. — Você coopera conosco e nós não te machucamos mais; nem você e nem o seu amigo. O que me diz?
Aturdida, ela não respondeu a princípio e uma fisgada de dor em seu baixo-ventre lembrou-a da vida que ainda lhe escapava junto ao sangue que fluía por entre as suas pernas trêmulas. Sakura estava tão cansada, dolorida, faminta e sedenta. Será que alguém a recriminaria se ela apenas fechasse os olhos e implorasse pelo fim? Será que Sasuke se ressentiria?
Uma bofetada na face a trouxe de volta para a realidade e sua face já dolorida e inchada voltou a latejar. Zaku no instante seguinte agarrou-lhe o queixo e a obrigou a mirá-lo por mais que ela resistisse.
— Preste atenção em mim! — enunciou cada palavra pausadamente; ele ainda a tratava como se ela não passasse de uma criança teimosa. — Você realmente não faz ideia do que podemos fazer contigo e com o seu amigo, não é?
Largou seu queixo com brusquidão e passou a mão nos cabelos escuros e espetados. Sakura ouviu-o rir secamente:
— Você acha que eu não a reconheci? — perguntou retoricamente e ela estremeceu. — Acha que eu não reconheceria a putinha que quase quebrou o meu braço naquela noite?!
Zaku elevou o tom de voz e, ao final, estava berrando com Sakura, que se encolhia no chão, completamente indefesa e amedrontada.
— O quê? — berrou, gesticulando para si mesmo e para ela. — Não tem nada a dizer? Deixe-me te contar uma coisa: a sua amiguinha estava praticamente implorando por uma foda naquela noite. Ela se insinuou para mim, me provocou e depois como toda puta quis voltar atrás quando as coisas ficaram sérias demais.
Mentira!, Sakura esbravejou dentro da sua mente, furiosa. Ino havia lhe contado como tudo acontecera detalhadamente. Havia sido Zaku a sondá-la, a insistir e foi ele quem a forçou quando as recusas de Ino minaram sua paciência. Ele até tentou embebedá-la para consumar o estupro e isso sua melhor amiga havia lhe confessado aos prantos, tremendo nos seus braços.
— Ela praticamente estava me implorando para fodê-la como um animal quando você apareceu e resolveu tomar as dores daquela vadia! — tornou a berrar, levando Sakura a se encolher mais e mais, soluçando e choramingando descontrolada.
Num gesto abrupto, Zaku agarrou a bainha do suéter que Sakura vestia e a ergueu de uma vez só, expondo seu ventre liso e os seios cobertos pelo sutiã para o ar invernal. Ela tentou evadir das mãos sujas que a tocavam serpenteando pelo seu corpo, mas foi facilmente contida de novo e esbofeteada pelo ato imprudente.
— CALE A PORRA DA BOCA! — ordenou para os soluços aterrorizados que ela deixava escapar.
Sasuke, a alguns metros dali, assistia a tudo impotente e enfraquecido pelo ferimento no abdome e, apesar da sensação de ardência haver diminuído, ele ainda sangrava. Kabuto, do lado oposto, dava sinais de estar recobrando a consciência aos poucos.
— Dosu! — Zaku berrou para o comparsa, gesticulando para o canivete que ele segurava. — A cada lamento que essa vadia deixar escapar, corte um dedo dele. — E nisso, indicou Sasuke deitado no chão.
Ele aproximou a boca do ouvido de Sakura e sussurrou perverso:
— Ouviu isso? Eu vou te foder agora como queria ter fodido a sua amiguinha naquela noite, e a cada pio... a cada choramingo seu que eu escutar, seu amiguinho ali vai perder um dedo. O que acha?
Sakura cerrou os dentes para se impedir de lamuriar e tentou permanecer imóvel mesmo com a repulsa que sentia a cada vez que aquelas mãos exploravam seu corpo.
— Que tal uma aposta? — ele sugeriu, alheio ao nojo que ela estava sentindo. — Vejamos quantos dedos ele ainda terá ao final da nossa brincadeirinha.
O terror nos seus olhos não o comoveu, tampouco o asco estampado nas suas feições. Sakura forçou-se a permanecer quieta enquanto ele a subjugava e a molestava com seus toques asquerosos. Pelo bem de Sasuke, obrigou-se a aceitar aquela humilhação, mesmo que por dentro gritasse e se retraísse.
Zaku agarrou sua blusa com ambas as mãos na clara intenção de rasgá-la e ela esperou pelo pior. No entanto, um som alto e contínuo do lado de fora chamou a atenção de todos dentro daquele galpão. Indiscutivelmente era o som de rodas deslizando sobre a neve, um veículo pesado, talvez um caminhão a toda a velocidade — e este de aproximava rápido.
— Que porra é essa? — Kim inquiriu, a mão inconscientemente buscando pela faca presa no seu cinto.
Um milésimo de segundo depois, uma explosão violenta abalou a construção, estremecendo as paredes e as vigas de aço no teto e o equilíbrio de todos que estavam de pé. Kim soltou um arquejo estridente e Dosu, um silvo cortante enquanto vacilavam sobre os próprios pés, tão abalados quanto os alicerces do barracão no qual se abrigavam.
Mal se levantaram e os dois homens que antes estiveram contendo Sasuke correram na direção da porta para averiguar o que estava acontecendo, já armados. Dosu hesitou em deixar os prisioneiros ali, então grunhiu para a mulher de longos cabelos escuros:
— Vá lá fora e veja que merda está acontecendo aqui!
Uma saraivada de tiros do lado de fora, oriunda de um fuzil de assalto, tirou qualquer dúvida que Dosu ainda tivesse: eles estavam sendo atacados. Furioso, ele fulminou a mulher.
— VÁ, PORRA, VÁ! — insistiu e ela assentiu, saindo apressada logo em seguida.
Kabuto gemeu rouco e se remexeu no chão, já consciente, e com certeza trazido de volta pela comoção que a explosão anterior causou. Sakura arriscou um olhar para Sasuke e eles se comunicaram silenciosamente, aquiescendo um para o outro. Mesmo cansada e dolorida, ela sabia o que teria de fazer.
Mais tiros soaram do lado de fora, seguidos desta vez de urros masculinos desesperados. Sakura fitou o homem acima de si, tão ignorante a respeito de suas intenções. Ela cerrou os dentes e agiu.
Levantou o corpo de uma só vez, num impulso, tão rápida e letal que ele mal notou seus movimentos até que fosse tarde demais. Sakura bradou e levou o topo de sua cabeça ao queixo de Zaku, acertando-o com toda a força que possuía. O impacto tirou seu fôlego, mas não sua determinação. Mais ágil do que uma cobra, memorando as aulas de defesa pessoal que tivera anos atrás, ela se atirou sobre o corpo dele, que ainda caía para trás, sangue jorrando do lábio que ele mordera.
Mesmo esbelta e pequena, ela sempre havia sido conhecida por ter uma força que não condizia com sua estatura ou massa corporal. Então, lançou-se sobre ele, acelerando sua queda e ambos arquejaram quando as costas dele bateram contra o chão de cimento.
Zaku mal teve tempo de se recuperar antes de sentir o rosto dela na curvatura do seu pescoço e os dentes na sua orelha direita. Urrou de dor quando ela recuou o maxilar, os dentes ainda cravados na sua orelha levando-a junto. Sakura rasgou-a por completo, puxando-a com toda a força que possuía. Os borrifos de sangue acertaram seu rosto, mas ela mal se atentou a esse detalhe e não terminou ou se afastou até que tivesse arrancado a orelha inteira.
— PORRA! — Zaku berrou num misto de dor e desespero, imediatamente levando a mão ao vazio onde antes havia estado sua orelha.
Sakura virou o rosto e cuspiu o pedaço de cartilagem, enojada. Mas não havia terminado ainda. Rápida, ela rolou de cima do corpo de Zaku, impulsionando o próprio peso para trás. Então rolou de novo, desta vez para longe do alcance dele, ainda que ele estivesse desnorteado pela dor.
Esfregou os pulsos contra as cordas e entendeu que não haveria forma de rompê-las sozinha; precisaria de ajuda. Mas de Zaku, ela decidiu que daria conta sem o auxílio de Sasuke (ou pelo menos, tentaria). Pela visão periférica, viu-o agir também, as pernas longas aplicando uma rasteira em Dosu e derrubando-o de cara no chão cimentado.
Voltou a se concentrar em Zaku, que já se levantava, as mãos ainda pressionadas contra a lateral da cabeça, tentando conter o sangramento. A própria Sakura estava ciente de que seu rosto estava sujo de sangue, mas apesar do asco, não havia nada que pudesse fazer no momento.
— SUA VADIA! — berrou e avançou contra ela, as mãos ensanguentadas intentando fechar-se em torno do seu pescoço.
Sakura tentou recuar, mas com as mãos atadas nas costas atrapalhou-se e viu-se encurralada e, logo, subjugada novamente. Zaku montou sobre ela e fechou os dedos longos no seu pescoço, pressionando sua garganta e impedindo-a de respirar.
Foi Sasuke quem a salvou, já tendo se libertado das cordas nos tornozelos e pulsos com a ajuda do canivete que pegou de Dosu, ele se aproximou rápido e passou os braços em torno do pescoço de Zaku, asfixiando-o enquanto este ainda estrangulava Sakura. Enfraquecido pelo ferimento no abdome, no entanto, ele não foi muito longe e caiu para trás quando Zaku acertou-lhe um cotovelo nas costelas, liberando um dos braços que sufocava-a.
Foi o bastante para ela: Sakura encolheu ambas as pernas atadas e plantou o solado de seus coturnos no peito de Zaku e usou toda a sua força para alavancá-lo de cima do seu corpo. Ambos Sasuke e Zaku tombaram numa confusão de membros e Sakura encolheu as pernas novamente. Deitada de lado, cerrou os dentes para tentar passar os braços por trás delas e trazê-los para frente do seu corpo.
Assim que obteve êxito, Dosu estava de pé e puxava Sasuke para longe de Zaku, levantando-o do chão e dando-lhe um soco no queixo que tornou a derribá-lo. Sakura se lançou sobre Zaku, ainda deitado no chão, e montou sobre o corpo dele como ele fizera consigo anteriormente, com a diferença de que suas mãos, mesmo que contidas ainda, não buscaram a garganta dele — mesmo que quisesse esmagar as traqueias dele. Ao invés disso, seus dedos afundaram-se nos globos oculares, fazendo-o urrar de dor mais uma vez.
Sakura trincou o maxilar e não teve piedade ao pressionar seus dedos para dentro dos olhos do homem, ignorando a expressão contorcida de dor que ele fizera. Afundou as unhas e manteve-se acima dele mesmo quando os membros se contorceram desesperados, agarrando seu rosto cegamente.
Manteve os dedos lá dentro, mesmo que estivessem úmidos e pegajosos de sangue, até que as mãos no seu rosto cederam e as pernas abaixo dos seus quadris deixaram de se contorcer. Engasgou com o próprio choro quando o homem debaixo do seu corpo deixou de se mover, até mesmo seu peito se acalmou, cessando os movimentos sôfregos da respiração alterada.
Jogou-se para o lado, rastejando sobre os cotovelos e os joelhos para se afastar dele. A poucos metros dali, Sasuke ainda travava uma luta contra Dosu e estava em clara desvantagem. Assim, com o rosto sujo de sangue e banhado em lágrimas, arrastou-se até o canivete brilhante caído no chão e pegou-o entre os dedos escorregadios e trêmulos. Primeiro, cortou as cordas que restringiam seus tornozelos, depois, reposicionou a lâmina pequena de forma que pudesse usá-la para cortar as amarras nos seus pulsos.
Cortou-as rápido, ainda que com movimentos imprecisos e desesperados. Levantou-se, intentando ajudar Sasuke, mas uma mão fechou-se no seu tornozelo, puxando-o e derrubando-a no chão outra vez. Ela se virou para encontrar as órbitas vazias e ensanguentadas que eram os olhos de Zaku e, por instinto, usou o canivete na sua mão para se defender.
Cravou-o na boca do homem e empurrou-o para trás. Aproveitou-se do fato de que ele não a enxergava para desferir socos na sua têmpora, atordoando-o, mas as mãos dele continuavam a subir pelo seu rosto, apertando-o num agarre doloroso. Movida pelo borbotão de adrenalina liberado pelo seu pânico, ela agarrou o canivete ainda cravado na boca do homem e o arrancou, tornando a cravá-lo no seu rosto enquanto mais borrifos de sangue quente atingiam seu rosto. Arrancou a lâmina e a cravou, de novo e de novo, desfigurando as feições do homem.
Continuou a cravá-la mesmo depois das mãos terem abandonado seu rosto, mesmo depois do homem haver parado de se mover permanentemente. Cravou o canivete na carne flácida e cada vez que o fazia, urrava de dor e desespero. Cravou a lâmina até que suas mãos se tornaram escorregadias demais devido ao sangue que as empapava, sujando até mesmo as mangas da sua blusa.
E cravou uma última vez, desistindo de reaver o canivete porque de repente suas mãos escorregaram pelo cabo e ela não conseguiu mais removê-lo. Então chorou, um lamento sofrido e angustiado, encolhendo as mãos escorregadias de sangue no peito e curvando-se como um animal ferido, deixando que cada soluço estrangulado rasgasse sua garganta apertada.
A poucos metros dali, Sasuke finalmente conseguiu acertar Dosu e ambos rolaram no chão de cimento até que ele imobilizou o homem, passando as pernas em torno do seu pescoço, apertando-as como o enlace de uma cobra, sufocando-o. Uma vez que o enfraqueceu o bastante, ainda golpeando sua têmpora com o punho para desnorteá-lo, Sasuke soltou-o e, mesmo sangrando, envolveu as mãos no queixo e na nuca do homem e torceu a cabeça dele para o lado bruscamente, ouvindo o estalido do osso se partindo, em seguida do baque seco do corpo tombando no chão.
Ele pressionou uma mão contra o ferimento no seu abdome e cambaleou para chegar até Sakura. Puxou-a de cima do corpo de Zaku e a trouxe para perto; não soube ao certo quem apoiava em quem, mas ambos tropeçaram só por alguns metros antes de se lembrarem de Kabuto e de que ainda precisavam dele.
Mas bastou olharem para o local onde ele estivera apenas minutos antes, para perceber que ele havia aproveitado a distração de Zaku e Dosu para fugir, deixando-os para trás. Sasuke então puxou Sakura para a porta de aço que foi deixada entreaberta, e ambos cambalearam para fora, na direção do caos que tumultuava a anteriormente imperturbável noite invernal.
Uma vez lá fora, ambos se esgueiraram abaixados para evitarem ser vistos. Saraivadas de tiros ainda se mesclavam a brados desesperados e o som inconfundível dos mortos se alimentando. Por isso, usando a balbúrdia como cobertura para a fuga, afastaram-se rapidamente do galpão e das toras de madeira empilhadas, desviando sempre que avistavam um vivo ou um morto.
Em poucos minutos, haviam se embrenhado na floresta.
* * *
Apenas alguns minutos antes a esse evento de escalas cataclísmicas, Temari e Gaara seguiam pela autoestrada num pequeno caminhão baú com os faróis apagados para evitar chamar atenção. Na parte de trás do veículo, ouvia-se intermitentemente os ruídos dos errantes batendo contra a lataria e rosnando impacientes.
Temari, ao volante, não conseguia evitar o reflexo de checar o retrovisor de minuto a minuto para se assegurar de que os mortos permaneciam ali, trancados. Ela havia tido trabalho demais para colocá-los dentro do caminhão baú para que, no final, eles fossem desperdiçados.
Gaara, ao seu lado, bufava impaciente de tempos em tempos, e entretinha-se ao polir suas novas armas. Devido à pista escura, sua irmã dirigia com cautela numa velocidade contínua.
— Tem certeza de que quer fazer isso? — ele quebrou o silêncio, olhando-a de soslaio enquanto mantinha as mãos ocupadas.
— Claro. Por que não? — ela lhe devolveu, neutra. — Façamos com que eles provem do próprio veneno. Além disso, eu tive trabalho demais para conseguir esse caminhão e atrair os fedorentos... Nem fodendo eu vou voltar atrás!
— Não me referia a isso — Gaara esclareceu, deixando suas novas pistolas de lado e ajeitando-se no banco, como se de repente se desse conta de que estava desconfortável. — Estou falando do Shikamaru. Vai mesmo agir como se nada houvesse acontecido?
— Eu não estou agindo como se nada houvesse acontecido — Temari rebateu com irritação, apertando os nós dos dedos em torno do volante. — Eu já te disse que tenho uma promessa a cumprir e, para isso, preciso do doutorzinho vivo.
— Certo, certo — ele anuiu, mesmo que a contragosto, e prometeu a si próprio não tocar mais no assunto, mas não conseguiu evitar o instinto de espiar a irmã de tempo em tempo só para se assegurar de que ela não estava desmoronando.
Alguns minutos depois, eles encontraram a trilha no meio da floresta que os levaria para a antiga Madeireira. Seguiram em frente, porém, antes de adentrarem no campo de visão dos homens que pudessem estar vigiando o perímetro, Temari desviou e seguiu por um caminho ainda mais estreito e rústico pela esquerda. Dirigiu por cerca de cem metros antes de alcançar uma inclinação de terreno que a fez sorrir interiormente.
Forçou o motor do caminhão baú, rindo baixinho quando os cadáveres ambulantes passaram a se chocar uns contra os outros e contra a lataria devido aos solavancos violentos. Gaara encarou-a de rabo de olho e viu-a sorrir a cada vez que os mortos lamuriavam, irritadiços, quase como se risse de alguma piada interna.
Uma vez que alcançaram o topo da colina, Temari colocou o veículo em ponto-morto e preparou suas armas, observando à distância, cerca de duzentos, trezentos metros abaixo, o galpão abandonado, rodeado pela neve, que sob a luz do luar ganhava uma tonalidade índigo.
— E agora? — Gaara indagou e não escondeu sua impaciência para saber dos planos da irmã.
Surpreso, viu-a puxar da bolsa tiracolo que carregara consigo o tempo todo um cinto com três granadas de mão. Arregalou os olhos diante delas e Temari balançou-as diante do semblante pálido dele com diversão.
— Estavam no jipe que roubamos deles — explicou-se. — Achei que tornariam as coisas um pouco mais divertidas para nós.
— Você é louca! — ele exclamou, mas também sorriu para a visão das granadas de mão.
Temari pendurou a alça de sua MP5 H&K descarregada no ombro, ainda tinha a Uzi Carbine consigo, encaixada no coldre em sua coxa direita, e o fuzil russo Abakan AN-94 com cinco pentes de munição, um achado interessantíssimo, ou como preferia se referir a eles, suvenires de guerra. Gaara, além de sua Taurus .380, tinha agora as duas Desert Eagles .44. E ele as exibia como uma criança com brinquedos novos e caros.
Temari encaixou o pente no Arbakan AN-94 e puxou a trava de segurança.
— Pronto, maninho? — ela o provocou com uma piscadela e Gaara revirou os olhos.
Temari abriu a porta da cabine e saltou sobre a neve e o irmão fez o mesmo. Ela deu a volta no caminhão, conferindo a carga preciosa que carregava, e voltou para a cabine; soltou o freio de mão enquanto Gaara liberava a trava de segurança do baú do caminhão. Os mortos se agitaram, grunhindo e rosnando.
Em seguida, ambos espalmaram as mãos na traseira do caminhão e usaram toda a força que tinham para alavancar o veículo ladeira abaixo. Os pneus relutaram a princípio, atolando na neve, mas logo cederam e o caminhão deslizou devagar no começo, depois adquiriu velocidade ao descer o terreno íngreme, tornando-se desgovernado já na metade do percurso.
— Vamos! — convocou-o e correu na direção da floresta, descendo a ladeira agilmente.
Ambos se apressaram para vencer a distância, mas ao mesmo tempo desceram o terreno com cautela, chutando neve até os tornozelos e escorando-se nos pinheiros que se agarravam na diagonal. Uma vez tendo alcançando o sopé do outeiro, eles rodearam o perímetro e encontraram um local seguro para observar.
Viram o exato instante que o caminhão desgovernado acabou de descer a ladeira e invadiu a madeireira, derrubando algumas cercas e batendo numa pilha de toras, tombando logo em seguida com uma enorme comoção; como previram, a porta retrátil do baú ergueu-se e os cadáveres contidos lá dentro foram atirados para todos os lados.
Temari tocou o cinto com suas granadas de mão e indicou para o irmão o caminho que deveriam tomar. Urros masculinos ansiosos fizeram-se audíveis na noite até então calma.
Sorrindo, ela desprendeu a primeira granada. Removeu o pino, mas não soltou a alavanca de imediato. Gaara observou fascinando a irmã mirar a granada e então lançá-la contra o céu escuro com um arremesso perfeito. Apesar de ter desaparecido no céu noturno, ambos ouviram o estrondo que a explosão causou, o clarão alaranjado que iluminou o céu cobalto poucos segundos depois a cerca de trinta metros do ponto onde estavam. Os homens adiante passaram a se mover como formigas nervosas e desorientadas contra a neve prateada.
Temari mostrou as outras duas granadas remanescentes para o irmão e preparou seu fuzil russo, indicando o caminho com um aceno de cabeça, o brilho nos seus olhos sugeria a motivação pessoal por trás daquela empreitada e ele sempre soubera disso: sua vingança pela morte de Shikamaru.
— Vamos lá, maninho. Vamos nos divertir um pouco, sim? — chamou-o e recuou das sombras, correndo na direção dos militantes que revidavam contra os errantes.
Com um suspiro derrotado, Gaara tocou uma de suas armas novinhas e seguiu a irmã mais velha enquanto o caos se instaurava, com homens lutando contra os mortos que se levantavam enquanto duas sombras camufladas entre as folhagens secas acercavam-se sorrateiras.
* * *
Agarre-se à dor
Do amor que foi arrancado de você
É uma praga.
Chelsea Wolfe — Trecho de Carrion Flowers.
Fale com o autor