Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
53 Capítulo LII: A Retribuição dos Destemidos
Notas iniciais
Dead World Assembly
“April se prepara. Respira fundo. Aperta a alça das mochilas. Fecha os olhos. Faz uma prece rápida e silenciosa... e então dispara, puxa a barra da porta e a empurra.
Ela espia do lado de fora. O vento balança seus cabelos e o cheiro é de matar. Ela se mantém abaixada enquanto corre na rua”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 140).
Capítulo LII:
A Retribuição dos Destemidos
* * *
Sakura subiu um degrau de cada vez, o coração martelando no peito. As palmas suadas de suas mãos, contrariando as temperaturas extremamente baixas, escorregavam ocasionalmente do pé-de-cabra, mas ela as firmava ainda assim, apertado os dedos em torno da sua única chance de defesa.
Arquejando minimamente no escuro, ela procurou se acalmar de todas as formas possíveis enquanto seus pés a levavam para o piso superior do edifício tomado tanto pelo abandono quanto pela penumbra. Ruídos e farfalhares conseguiam sobressaltá-la de vez em quando, ecoando por toda aquela ala e oriundos de todas as direções possíveis.
Mesmo assim, ela prosseguiu pelas escadas de emergência até ter alcançado o quarto andar do hospital de Shinsei, a noroeste da pequena cidade de Settsu, na prefeitura de Osaka. Era ali o destino final de sua jornada.
Assim que ultrapassou o último degrau e seguiu por um corredor estreito, avistando ao final a porta de ferro, ela se agachou, procurando fazer o mínimo de barulho.
Encostou as costas à parede fria e ladeou a porta fechada, erguendo um braço até a maçaneta. Envolveu-a com os dedos suados e a puxou, rezando para que as dobradiças não guinchassem quando a porta se abriu devagar, revelando aos poucos outro corredor extenso e envolto em sombras. Os únicos feixes de luz, que provinham das poucas janelas que não haviam sido bloqueadas, eram esparsos e tênues demais, apenas serviam para criar uma espécie de aura cinzenta que tremeluzia na semiescuridão.
O ar ali dentro estava parado e pesado; cheirava a morte. Sakura conteve um sobressalto quando ouviu o ruído distinto de vidro sendo pisoteado seguido do gemido lânguido de um errante. Lívida, ela tentou calcular a distância entre ela e o morto-vivo, inclinando-se para espiar melhor o corredor. Um vulto se mexeu no fim do corredor, adentrando uma das salas adjacentes. Se bem se lembrava das placas indicativas que viu ao longo das escadarias, o quarto andar supostamente era a ala de tratamento intensivo de pacientes.
Engolindo em seco, tornou a afirmar ambas as mãos no pé-de-cabra e se levantou, ainda com as costas coladas à parede. Respirou fundo antes de deslizar em direção ao corredor, passo por passo, cuidando para não chutar nenhum pedaço de lixo espalhado pelo chão. Na escuridão parca, conseguia discernir ao menos os contornos de aparelhos hospitalares, macas e um ou outro errante abatido jogado sobre o piso branco ou apoiado nas paredes sujas.
Sakura ladeou cada um deles cuidadosamente, ultrapassando cada obstáculo enquanto, ao mesmo tempo, percorria as placas dependuradas nas paredes do corredor, orientando-se por elas. Apesar da pouca luminosidade, conseguia discernir as indicações e suspirou de alívio quando enxergou a palavra “Almoxarifado” numa placa de fundo branco e com uma grande seta apontando para o fim do corredor.
Àquela altura, o único errante visível, e ainda ativo, já havia captado o seu cheiro e, como um predador, parecia farejar o odor do seu medo, vindo a passos arrastados pelo corredor na sua direção. Sakura então percebeu que ele usava um jaleco manchado de sangue seco e de outras secreções, além de ter um crachá preso ao bolso externo. Vinha manquejando, arrastando a perna esquerda no piso de linóleo branco, e grunhindo cada vez mais alto.
Se ele fizesse mais ruídos do que aquilo poderia atrair atenções desnecessárias. Então, cerrando a mandíbula, Sakura se adiantou primeiro. Acelerou o passo e foi ao encontro do morto com o pé-de-cabra em riste. Ergueu bem os braços acima da cabeça, já que o homem havia sido consideravelmente alto, e cravou fundo a extremidade pontiaguda da ferramenta no lobo frontal da criatura, perfurando-o com um som pegajoso. Afastou-se num pulo quando ele oscilou, tombando de bruços no piso com um baque abafado meio segundo depois.
Contornou-o sem dificuldades, seguindo para o fim do corredor onde, enfim, encontrou a porta estreita de metal que tanto ansiara. Ansiosa, envolveu a maçaneta fria com a mão trêmula e tentou puxá-la, mas sem sucesso. Grunhiu de frustração, voltando a forçá-la a ceder a todo custo.
Não, não pode ser!, berrava em seu consciente, recusando-se a digerir a verdade intragável. Depois de tanto esforço, uma sólida porta de ferro a separava do que tão desesperadamente buscava.
Afastando-se dois passos, Sakura se permitiu berrar em frustração e ergueu uma perna para chutar a maldita porta com o solado do seu coturno. A pancada reverberou mais alto do que achou que o faria, mas não conseguiu se importar. O que Sasuke precisava podia estar logo atrás daquela porta, estava tão perto e, ainda assim, ela não podia pegá-lo.
Levando as mãos aos cabelos e agarrando mechas entre os dedos, aflita, ela ponderou sobre o que fazer. Alguém deveria ter as chaves do Almoxarifado. Piscando a fim de afastar as lágrimas dos olhos e agir mais racionalmente e menos movida pelos sentimentos que se acumulavam no seu peito, ela olhou ao redor de forma frenética.
Correu até o cadáver do morto que havia abatido anteriormente e o virou de barriga para cima. Ignorou a ânsia súbita de vomitar enquanto passou a tatear os bolsos internos do jaleco e da calça que ele usava. Achou uma caneta, um pacote de chicletes velho coberto de secreção, mas nenhum molho de chaves.
Desesperada, moveu-se para o próximo, recostado à parede e com a cabeça baixa. E então para o outro, jogado sobre o piso de qualquer forma. Com o coração martelando o peito e prestes a saltar pela garganta seca, começou a ponderar suas opções. Voltou até a porta e pegou no pé-de-cabra de novo. Encaixou a extremidade curva numa pequena fresta da porta e cerrou os dentes, grunhindo, enquanto a forçava sem sucesso. Ignorou a ardência nas palmas das suas mãos, a dor latejante que subiu pelos seus braços. Apoiou um pé na porta e tentou usá-lo como alavanca, forçando as dobradiças de ferro de qualquer maneira.
Poderia ter socado a porta se achasse que isso a faria cedê-la, mas não o fez. Frustrada, largou o pé-de-cabra com um estrépito e encostou a testa à superfície fria que não havia se movido um único centímetro. Sakura voltou à estaca zero; ainda precisava das chaves.
Respirando aos arquejos, limpou as lágrimas que haviam escorrido pelas suas bochechas com o dorso da mão e se abaixou para pegar de volta o pé-de-cabra. Correu pelo corredor, a adrenalina inundava suas veias e minava pouco a pouco a sua capacidade de pensar com clareza.
Invadiu a primeira sala adjacente, à sua direita, chutando a porta que havia sido bloqueada por algum entulho e macas quebradas. O estardalhaço que provocou despertou uma mulher errante, que estava de costas para ela e ainda vestia a camisola fina do hospital. Sua pele havia escurecido para um tom doentio de verde. Os olhos mucosos focaram na garota, adquirindo um estranho brilho faminto, um pouco antes que Sakura se antecipasse na direção dela e cravasse fundo a ferramenta no crânio da mulher morta.
Então, ela passou a vasculhar o cômodo sofregamente, derrubando tudo em seu caminho e provocando um alvoroço maior do que achou que deveria. Mas a adrenalina no seu sangue ainda a punha num estado de agitação impossível de ser contido.
Dali, ela partiu para o próximo recinto, invadindo-o como fez com o primeiro. Não estava pensando com clareza, seu corpo agia por conta própria. Matou mais um errante no terceiro cômodo contíguo ao corredor e o vasculhou com evidente desespero.
Saiu para o corredor assim que escutou o ruído de passos arrastados e de grunhidos. Três errantes vinham na sua direção, do próximo corredor, com olhos famintos e bocas esgarçadas. Sakura gritou em frustração para eles, mantendo o pé-de-cabra diante do corpo. Correu até eles, derrubando o primeiro com um chute e cravando a ferramenta no seu lobo frontal. Segurou-o com firmeza e, com as suas mãos na extremidade inferior do pé-de-cabra, balançou os braços, acertando a extremidade arqueada na têmpora do morto e arrancando um bom pedaço do crânio dele junto, fazendo-o oscilar para o lado, mas não apagar.
Sakura passou por ele, agitada, e lançou o peso do corpo contra o terceiro, derrubando-o no piso. Plantou os dois pés ao lado do torso da criatura e se curvou para aplicar o golpe de misericórdia. Exceto que não se deteve com o primeiro. A cada golpe expelia um grito de raiva e de frustração, fazendo com que borrifos de sangue coagulado atingissem as paredes do corredor.
Parou apenas quando o crânio da criatura abriu-se sobre o piso, completamente deformado, com os braços esticados acima da cabeça e o pé-de-cabra em suas mãos escorregadio com sangue arterial e outros fluídos. Parou também para recuperar seu fôlego, respirando dificultosamente entre ofegos sofridos.
Virou-se para trás quando o último dos três errantes conseguiu se levantar. Ele estava baqueado, letárgico, mas ainda movia os membros de forma descoordenada e lânguida. Sakura olhou bem para ele, só agora, com o jorro de adrenalina sendo drenado do seu sangue, percebendo tardiamente que era uma mulher. Vestia o uniforme típico das enfermeiras, que um dia havia sido impecavelmente branco, e o crachá preso à blusa de mangas dizia “Enfermeira-chefe”.
Sakura arfou quando percebeu o que aquilo poderia significar, deixando-se olhar para o rosto podre da mulher como se estivesse hipnotizada. Os olhos mucosos pareciam querer engoli-la e a boca abria e fechava para emitir alguns grunhidos roucos. Sem perder tempo, ela tornou a erguer o pé-de-cabra para bater com a extremidade curva no crânio da mulher outra vez.
A morta grunhiu novamente em resposta, mas desabou no piso sem mais protestos. Sakura golpeou-a uma outra vez para se certificar de que ela não se mexeria de novo e logo em seguida já estava vasculhando os bolsos do uniforme da enfermeira. O nome no crachá, logo acima da expressão séria na foto, era Yoko Shimizu.
Apalpando os bolsos da calça de linho branca, Sakura não demorou a sentir os contornos de um objeto familiar. Afundou a mão sem cerimônias no bolso traseiro, levantando o corpo parcialmente para facilitar e seus dedos se fecharam em torno do que procurava. O tilintar de um molho de chaves trouxe lágrimas de alívio ao seu rosto.
Sem perder tempo, correu até o fim do corredor novamente. As mãos tremiam quando destacou a primeira chave e tentou encaixá-la na fechadura do almoxarifado. Quando a primeira não entrou, tentou a segunda e, assim, a terceira. Na quarta chave prateada que destacou, conseguiu encaixá-la na fechadura e também girá-la, ouvindo um ruído suave quando a tranca cedeu.
Envolveu a maçaneta e a empurrou com brusquidão; o recinto estava igualmente envolto em penumbras, mas parecia desabitado à primeira vista. Entrou sem fazer ruído e fechou a porta por precaução. Havia fileiras e mais fileiras de estantes repletas de caixas dos mais variados tamanhos. Algumas ainda estavam lacradas e cobertas de pó, mas, felizmente, todas pareciam etiquetadas e organizadas. Também havia pequenos armários com portas de vidro. Ninguém vinha ali há meses.
Sakura se lançou na direção da estante mais próxima e verificou a etiqueta na primeira caixa. Vasculhou inúmeras delas e quase chorou de alívio quando encontrou as etiquetas que procurava. As palavras “penicilina e piperacilina” nunca a haviam deixado tão feliz quanto agora. Sakura rompeu o lacre da caixa de papelão com pressa, abrindo-a e pegando o primeiro frasco de vidro com um líquido transparente. Conferiu o rótulo antes de tirar a mochila dos ombros e abri-la. Colocou o primeiro frasco lá dentro com cuidado, então passou para o próximo.
Levou mais frascos do que Sasuke precisava apenas por precaução. Depois voltou a vasculhar mais caixas em busca de seringas e agulhas. Quase riu quando encontrou, até mesmo, agulhas e linhas de sutura, além de gazes limpas. Ela poderia tratar completamente do ferimento dele agora.
Sasuke ficaria bem. A constatação deixou seus joelhos fracos. Ele viveria. Mas antes precisava voltar para ele com os medicamentos. E precisava estar viva para isso.
Apressada, colocou tudo dentro da mochila e fechou seu zíper, atirando-a sobre os ombros novamente. Correu até a porta e puxou sua maçaneta com cuidado. Mas, assim que o fez, um imenso errante, que havia apoiado todo o peso do seu corpo na porta, caiu sobre ela, desavisada e despreparada para o impacto.
Sakura abriu a boca para gritar, mas não teve tempo. O imenso morto-vivo despencou sobre ela, empurrando a ambos em direção ao chão. Ela mal conseguiu se preparar para o impacto. Só pensou em soltar a mochila na hora para evitar que caísse sobre os frascos de vidro. A pancada que sofreu nas costas roubou todo o ar dos seus pulmões e a pancada que sofreu na parte de trás de cabeça conseguiu desorientá-la por um momento.
Suas mãos, entretanto, cravaram-se nos ombros do morto-vivo, exercendo toda a força que poderiam para manter os dentes podres afastados da sua carne. Sakura achou que nunca teria a morte tão próxima. O hálito fedorento da criatura chegou a causar arrepios na sua pele assim como os grunhidos desesperados — tanto os dele quanto os dela.
O morto debateu os braços para tentar agarrá-la e Sakura exerceu mais força nos ombros dele, tentando inutilmente serpentear para fora do alcance dele. Ela esperneou, ansiando encontrar algum ponto de apoio, mas não encontrava nada e seus pés apenas derrapavam pelo piso.
Sakura atirou a cabeça para trás, forçando-a para longe da fileira de dentes que se fechava na sua direção e grunhiu de raiva. Finalmente, seu pé encontrou um ponto de apoio no osso do quadril do morto e ela não hesitou em usar toda a sua força para chutá-lo de cima dela.
Desesperada, esgueirou-se para longe dele, rastejando sobre o piso, mas ele já estava se levantando; os olhos brilhavam para ela como se faróis iluminassem por dentro dos globos mortos. Sakura mal se colocou de pé antes que a criatura viesse para cima dela outra vez, forçando-a para baixo com seu peso. Ela não tinha nenhuma arma ao alcance de suas mãos agora. Nenhuma chance de defesa.
Dessa vez, entretanto, eles caíram juntos contra um dos armarinhos que estocavam medicamentos. Foi Sakura quem bateu as costas contra o móvel e foi ela a arquejar de dor antes que os dois tornassem a atingir o chão. Dessa vez, cacos de vidros choveram sobre ambos, forçando Sakura a fechar os olhos para protegê-los. O morto imenso em cima dela pouco se importou.
As mãos de Sakura só conseguiram agarrar as golas da camisa que ele usava, usando toda a sua força para afastar a mandíbula dele do pescoço quente dela. Desesperou-se, entretanto, quando o morto mudou seu alvo e virou a cabeça para tentar cravar os dentes podres na pele fina do seu pulso.
Sakura grunhiu de raiva enquanto uma mão estendeu-se até o chão, tateando a procura de qualquer coisa que ela pudesse usar como arma — qualquer coisa mesmo. Sua mochila estava longe demais, o pé-de-cabra ensanguentado havia ficado no corredor, então, seus dedos se depararam com a superfície irregular e afiada de um grande caco de vidro, resultado de quando tanto ela quanto o errante se chocaram contra um dos armarinhos.
Ela não pensou duas vezes antes de fechar os dedos ao redor dele com força, levando-o de encontro ao crânio careca do morto-vivo. Precisou ignorar a queimação que sentiu nas articulações dos dedos e na palma da mão enquanto cravava o pedaço irregular e cortante de vidro com toda a força que possuía, enterrando-o na cabeça do morto. Sangue fresco correu pelos seus dedos, lambuzando-os, e sangue arterial verteu do rasgo que Sakura abriu na têmpora esquerda do morto.
Quando a criatura nem ao menos vacilou em sua ofensiva contra ela, seus dedos puxaram o caco de vidro e tornaram a enterrá-lo no crânio molenga, de novo, de novo e de novo. Sakura arfou, exausta. Estava conseguindo desnorteá-lo pouco a pouco, mas agora seu outro pulso estava a centímetros das mandíbulas de tubarão dele. Estava prestes a perder a batalha.
Seus dedos ensanguentados vacilaram ao enterrar o pedaço de vidro pela última vez, escorregando pelas extremidades cortantes e machucando ainda mais as suas articulações. Ela fechou os olhos, preparando-se para o pior, para sentir a dor lancinante de dentes podres se fechando no seu pulso e rasgando sua pele.
Chegou a sentir o hálito frio da criatura contra a sua pele numa exalação esfomeada. No entanto, tudo o que sentiu foi o peso imenso ser retirado de cima do seu corpo abruptamente enquanto um grunhido masculino bastante sofrido e familiar ecoava o ruído rouco de frustração da criatura por perder a sua presa.
Sakura reabriu os olhos só para discernir, na fraca iluminação, Sasuke agarrar o errante pela parte de trás da camisa, erguendo-o com dificuldade devido ao peso dele e devido à sua saúde debilitada, e atirá-lo contra uma das estantes, arrancando mais gemidos da criatura.
Sasuke cambaleou de encontro à parede, pálido e suado, e apertou uma mão contra o ferimento latejante no seu abdome. Ainda assim, os olhos estavam cravados nela, deitada sobre aquele chão frio e com sangue pingando de uma das mãos. Ele assumiu o pior.
— S-Sasuke...! — exclamou o nome dele num apelo alquebrado.
Antes que pudesse respondê-la ou mesmo ir até ela, o errante se levantou mais uma vez, erguendo-se sobre as pernas longas enquanto os braços pendiam descoordenados, balançando a cada gingado do corpo imenso. Sakura se levantou num pulo e segurou a mão ensanguentada contra o peito. Sasuke, a mais ou menos seis metros dela, e apoiado contra a parede por conta de sua debilidade, estava tão indefeso quanto ela.
Quem agiu, entretanto, foi um vulto, que passou pela porta escancarada com uma faca de cozinha em mãos. Kabuto peitou o morto-vivo antes de cravar a lâmina entre os olhos brilhantes dele. Ele puxou a lâmina de volta, retrocedendo num pulo quando o grande errante desabou de bruços no piso.
O silêncio que recaiu entre os três se mostraria tão efêmero quanto frágil. O que se comprovou assim que Sasuke desencostou da parede onde se apoiava e veio até Sakura em passadas rápidas; seu rosto não conseguia esconder o desconforto que era dar cada passo. Ainda assim, ele a alcançou e, mesmo visivelmente esgotado, envolveu o rosto dela entre as duas mãos, atraindo os olhos dela, ainda esbugalhados e trementes.
— Sakura, porra, ele te mordeu?! Me diz, puta que pariu!
Ela meneou a cabeça, digerindo devagar cada palavra dele. Sasuke então envolveu a mão ferida dela, inspecionando a palma à procura de marcas denteadas. Mas havia apenas cortes irregulares espalhados ao longo da palma e dos dedos, alguns eram mais profundos do que outros. Suspirou aliviado. Ela havia apenas se cortado com alguma coisa. Não havia sido mordida.
— Sakura, está me ouvindo?! Merda, fala alguma coisa!
Finalmente, seus olhos marejaram e lágrimas não demoraram a correr pelas suas bochechas. Suas pernas cederam e, como Sasuke não estava em condições muito melhores do que a dela, ela levou-o junto dela, fazendo com que ambos desabassem no chão.
— O que... O que você... — tentou perguntar, mas não conseguia parar de chorar.
Por um momento, pensou que nunca mais fosse vê-lo. Pensou que os dentes da criatura se cravariam na sua carne e então ela estaria condenada. Pensou que fosse morrer. Pensou que Sasuke morreria.
— O que deu em você para sair sozinha?! — ele a repreendeu num rompante de fúria, como um adulto repreenderia uma criança, mas ela não conseguiu se importar com isso.
Na verdade, não conseguia se importar com muita coisa no momento que não fosse o cheiro de Sasuke, o calor de Sasuke, o toque dele em seu rosto e em sua mão ferida. Ouvi-lo murmurar seu nome, mesmo com raiva, deixava-a incrivelmente feliz e aliviada.
Kabuto, Sakura notou ao espiar por cima do ombro de Sasuke, estava estranhamente quieto, do outro lado do recinto. Ao que parece, tentava dar privacidade aos dois, o que era ainda mais bizarro.
Ela umedeceu os lábios secos e voltou o olhar para o rosto pálido de Sasuke. Na verdade ele estava tão lívido e sua pele brilhava fracamente sob uma fina camada de suor. Lembrar o estado crítico no qual ele se encontrava a fez recordar de algo ainda mais importante.
— Sasuke, eu encontrei tudo o que você precisa! — murmurou ao perceber que finalmente havia reencontrado sua voz, apesar disso, lágrimas silenciosas ainda escorriam pelo seu rosto. — Você vai ficar bem — sussurrou tanto para ele quanto para ela mesma, precisava ouvir isso de novo e de novo.
Kabuto, que até então estivera em silêncio, se manifestou pela primeira vez, dirigindo-se a ambos:
— Ótimo, então vamos dar o fora daqui agora. Essa porra desse lugar está me dando calafrios.
Sakura não podia concordar mais.
* * *
Eles se abrigaram em outra residência não muito distante dali, num bairro aparentemente calmo e tão abandonado quanto o restante da cidade. Sakura ainda não podia dizer que se acostumaria com a nova postura do biomédico.
Estava claro, observando-o do assento de trás com Sasuke, enquanto dirigia pelas ruas sinuosas que Kabuto havia sido arrastado até ali e, mesmo contrafeito, ele fizera bem o que tinha de fazer. Podia não confiar completamente nele, mas estava inclinada a ser menos ríspida se ele havia cuidado de Sasuke na sua ausência.
Por falar em Sasuke, ele havia caído no sono no seu colo e Sakura afagava seu cabelo escuro com a mão boa. A outra estava completamente enfaixada e Kabuto foi categórico ao afirmar que ela também podia precisar levar alguns pontos. Por sorte, eles se abasteceram de tudo o que precisavam no almoxarifado e então partiram.
Agora, estavam ali, sãos e salvos — na medida do possível.
Foi Kabuto a escolher uma residência e a ordenar que ela esperasse no carro com Sasuke enquanto ele averiguava se seria seguro. Sakura observou cada movimento dele através da janela do Nissan Leaf. Viu-o esgueirar-se pela calçada semicongelada primeiro, pulando o muro baixo para depois se infiltrar no interior da casa.
Estava começando a nevar de novo e ela estava ansiosa para enfiar Sasuke debaixo de muitos cobertores e ministrar os antibióticos. Ele havia começado a tremer novamente há alguns minutos.
Felizmente, a inspeção de Kabuto foi rápida e ele voltou minutos depois para o carro. Abriu a porta e ajudou-a a levar Sasuke para dentro, cada um apoiava um braço dele no próprio ombro. Trabalhando em conjunto, levaram-no para o segundo andar da casa modesta, diretamente para um dos quartos.
Quando conseguiram deitá-lo sobre a cama de casal, Sakura lançou a ele um olhar de gratidão que não durou muito já que, logo, ela abria sua mochila e revirava seu conteúdo atrás dos frascos de vidro e de uma seringa. Sua mão machucada e enfaixada, contudo, dificultava o processo. Seus dedos estavam rijos e era difícil manusear tudo corretamente.
Vendo sua dificuldade, Kabuto assumiu a tarefa para si, tomando o frasco e a seringa das mãos dela. Ele rapidamente fez o que era necessário enquanto Sakura desinfetava o local com algodão e álcool.
Ele ministrou o antibiótico e se afastou com um ar de dever cumprido. Sakura se aconchegou mais perto de Sasuke e beijou sua testa afetuosamente. Por enquanto o semblante dele ainda denotava desconforto.
Ela só queria que aquelas linhas pesadas desaparecessem das feições dele e que a tez recuperasse um pouco de cor. Aquela seria uma noite bem longa, sabia. Mas não conseguiu lamentar o fato; estava ao lado dele novamente, nada mais importava.
* * *
Sasuke acordou só no entardecer do dia seguinte. Estava se sentindo muito melhor. A claridade que varava as grandes janelas do quarto foi a responsável por despertá-lo de um sono muito pesado.
Ele olhou ao redor, um tanto confuso ainda devido à letargia irresistível que o abarcava, e suspirou quando percebeu que Sakura dormia serena ao seu lado. A mão enfaixada repousava sobre o travesseiro, mas seu rosto tinha uma expressão tão angelical que não se atreveu a despertá-la.
Baixou os olhos para o seu torso e afastou o cobertor e a camiseta só para descobrir que Kabuto e Sakura haviam feito um bom trabalho nele enquanto dormia. Seu ferimento havia sido limpo, suturado e envolvido em mais gazes limpas. O latejar havia sumido, a pele já tinha voltado à tonalidade normal assim como o aspecto purulento do corte desapareceu.
Mais importante, ele percebeu: não tinha mais febre. Suspirou aliviado, sabia que havia escapado por muito pouco da morte e isso graças à Sakura.
Virou o rosto para ela de novo e decidiu que não podia deixá-la dormir mais. Precisava ouvir sua voz suave e olhar nos seus olhos para ter certeza de que não estava tendo um sonho muito bom. Eles realmente haviam conseguido superar aquilo, juntos... Mais uma vez.
Sasuke esticou um braço para tocar no cabelo dela, afastando a franja dos olhos, e Sakura reagiu ao seu toque, despertando. Assim que o verde das íris espreitou por debaixo das pálpebras cor de lavanda e ela se deu conta de que ele havia acordado sentou-se ereta na cama, tentando avaliá-lo superficialmente.
— Sasuke?! Como está se sentindo?
— Estou bem — assegurou tranquilamente e ela relaxou em resposta.
Um instante depois o dorso da mão dela encostava-se à pele da sua testa e pescoço, atestando a veracidade de sua resposta. De fato ele parecia muito melhor. Seu rosto havia adquirido cor novamente e ele não estava mais suando. A temperatura da pele também estava normal.
— Está sentindo alguma dor? Tem alguns analgésicos na mochila ainda.
— Estou bem, Sakura — repetiu com uma nota de impaciência na voz. Os olhos escuros dele voltaram-se para ela: — E você? Como está se sentindo?
— Eu estou perfeitamente bem — garantiu sem preâmbulos e era verdade.
Kabuto a havia ajudado a suturar os cortes mais profundos na sua mão ferida no dia anterior, mas isso havia sido tudo. Depois, ela havia o instruído cuidadosamente a realizar o mesmo procedimento em Sasuke. O ferimento dele já tinha um aspecto bem melhor na manhã daquele dia quando ela trocou os curativos.
Ela ficou em silêncio então, praticamente imóvel. Sasuke desviou o olhar de repente, parecendo aborrecido com algo. O que se comprovou assim que tornou a abrir a boca:
— Você não deveria ter feito o que fez. Arriscou-se demais, Sakura.
Ah, então isso ainda estava o incomodando.
— O que eu fiz, eu faria de novo e de novo se você precisasse, Sasuke.
Ele cerrou os dentes e virou o rosto para o lado oposto, zangado.
— Não quero que se sacrifique por mim, Sakura. Entenda isso de uma vez.
Mas ela era teimosa o bastante para se inclinar contra ele, para envolver o rosto dele e para trazê-lo de encontro ao dela. Seus lábios roçaram aos dele num toque breve e delicado. Os olhos de Sasuke continuaram abertos e atentos a ela.
Sakura não se constrangeu por isso. Lambeu o lábio inferior dele delicadamente, provocando um gemido baixo e rouco por parte de Sasuke, e alisou a face com o polegar. Quando se afastou, ainda olhava nos olhos dele.
— Fiz isso porque percebi que não posso viver sem você. Eu perdi tudo, Sasuke, mas de você eu não posso abrir mão.
— Por quê? — ele questionou com as sobrancelhas franzidas e a boca apertada.
Sakura descobriu que não conseguiria mentir para ele, ela tampouco queria fazer isso. Então, sussurrou, com a testa colada à dele.
— Porque eu te amo. Isso basta para você?
Ele relaxou visivelmente sobre o colchão. A reação oposta que ela havia antecipado. Sakura contou os minutos ansiosamente enquanto um silêncio gostoso os abarcava. Não havia tensão entre ambos, muito menos ressentimento quando ele pediu, encabulado:
— Diga de novo.
Sakura sorriu antes de pressionar outro beijo nos lábios franzidos. E mais outro.
— Eu te amo — repetiu e, apesar da expressão imutável, enxergou a leveza no olhar dele que não se desconectava do dela.
Não precisou ouvir da boca dele para saber que era recíproco. Não, ela o entendia bem demais, conhecia-o bem demais. Por isso se deixou ser abraçada enquanto ele a puxava para que se deitasse outra vez. Satisfeita, ela o fez.
Naquela mesma noite, enquanto compartilhavam uma refeição modesta, Kabuto entrou no quarto sem se dar ao trabalho de anunciar a sua presença. O que ele trazia nos braços, entretanto, era curioso.
— Onde você achou isso? — Sakura perguntou a ele enquanto o biomédico colocava uma caixa de papelão velha sobre uma mesinha e sentava na beira do colchão da cama de casal.
— Estava procurando por coisas úteis no porão quando me deparei com isso. É sem dúvidas bem antigo, talvez o antigo morador dessa casa tenha servido ao exército ou algo parecido, mas vale a pena tentar — ele refletiu.
De dentro da caixa, ele tirou um grande e obsoleto rádio comunicador, e o equilibrou sobre a mesma mesa, testando os botões até conseguir ligá-lo.
— Isso é o que eu estou pensando que é? — ela indagou e Sasuke franziu o cenho, um pouco perturbado, embora não tenha dito nada.
Sem se virar para olhá-la, Kabuto passou a mexer no botão da frequência, tentando sintonizar em um canal específico. Os olhos estavam frios por trás das lentes dos óculos.
— Sabe, quando estava em Kyoto, eu não fiz contato só com o grupo de vocês. Achei que minhas chances de sobrevivência seriam maiores se eu expandisse o meu pedido de socorro para outros canais.
— E...? — Sakura o instigou, cruzando os braços.
— E eu consegui fazer contato com outro grupo que estava um pouco mais ao norte do país. Havia um ex-militar entre eles e foi com ele que eu conversei. Infelizmente, o grupo de vocês chegou primeiro e nós sabemos toda a merda que aconteceu depois.
— Então, esse grupo que você contatou...
— Ainda pode estar por aí procurando por mim — ele a interrompeu com um sorriso astuto.
Seus dedos ainda trabalhavam no botão da frequência, mas tudo o que eles ouviam até então eram chiados. Isso até que ele sintonizou no canal desejado, hesitando em apertar o botão para fazer contato.
— E então? — ele perguntou, voltando-se para os dois, e seus olhos escuros faiscavam de excitação. — Estão prontos para pedir ajuda?
* * *
Esse suspiro do inverno
O Gosto da morte
Onde o ferro encontra a carne
Nós tomaremos tudo.
Ruelle — Trecho de Take it All.
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