Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

40 Capítulo XXXIX: Saudosa Velha Capital Deflagrada


Notas iniciais
Trigésimo nono capítulo. Boa leitura!

Dead World Assembly

“Sem hesitar e com o sistema nervoso conectado à mão direita, Philip encaixa a marcha à ré e gruda os olhos na trêmula imagem amarela que aparece na tela de navegação. A imagem mostra o céu parcialmente nublado acima da linha do asfalto atrás dele: o alto do viaduto. Antes que o regimento de zumbis tenha a chance de se aproximar 50 metros, o Escalade parte como um foguete para trás”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 104).

Capítulo XXXIX:

Saudosa Velha Capital Deflagrada

O Army-M939 rugia indolente ao cruzar a região de Kansai, aproximando-se cada vez mais de seu destino final. Perto do quilômetro 183 da Via-expressa Meishin, eles avistaram o primeiro errante que se arrastava para fora dos restos de um automóvel parcialmente chamuscado.

Mais sinais do Apocalipse insurgiram então: lixo espalhado pela autoestrada, acumulando na pista dupla, ao passo que alguns automóveis abandonados passaram a atulhar a passagem, forçando Kankuro a reduzir a velocidade e a desviar das carcaças de ferro meio enferrujadas.

A nevada havia crescido incongruentemente nas últimas horas, o que parecia preocupar Temari, Sasuke conjecturou, a julgar por sua expressão tensa e atravancada; os olhos mal desgrudavam da aba da lona que cobria a caçamba do caminhão militar, esvoaçando ao vento. Os dedos apertavam inconscientemente a Heckler & Koch MP5, uma submetralhadora facilmente cobiçável, que atirava em regime automático, semiautomático e bursts.

— É uma arma excelente — ele comentou com certa apreensão e ela franziu as sobrancelhas, unindo-as no centro da testa, quando o olhou; parecia surpresa com o seu gesto, de certa forma.

Logo em seguida, um sorriso malicioso redesenhou a curva rosada e cheia dos seus lábios. Temari era mesmo um enigma, ele concluiu taciturno.

— Olha só, ele fala.

— A Sakura me disse que você atuou na enfermaria do centro de refugiados... — ele relutou grandemente com as próximas palavras; pareciam pesadas, densas quando pronunciadas. — Ela me disse que você poderia ajudá-la quando a hora chegasse...

— Com o parto? — interrompeu-o indelicada. — É claro que eu ajudaria. Não precisa nem se dar ao trabalho de perguntar.

Por um instante, pareceu a Sasuke que ela tinha se sentido ofendida com a mera possibilidade de não ajudar Sakura e o bebê durante o parto. Ele se sentiu aliviado pela confirmação da mulher — e até mesmo feliz.

— Você salvou a vida dela, não?

Sasuke a fitou atônito e anuiu com um meneio de cabeça. Temari voltou a sorrir, mas desta vez o sorriso era mais suave, menos afiado e travesso. Quase um sorriso de menina.

— Não precisa se preocupar, eu farei o que puder pela Sakura e pelo bebê. Acredite você ou não, me afeiçoei a ela. Sakura é uma garota bem durona — acrescentou, divertida.

O silêncio tornou a imperar entre ambos, rompido apenas pelo ronco portentoso do motor do caminhão. O vento glacial ainda chicoteava a aba da lona, na extremidade da caçamba. Era estranho olhar através dela, Sasuke pensava, era estranho olhar pela pequena abertura e contemplar a paisagem apocalíptica ser pintada gradualmente pelo branco puro da neve.

O mesmo mundo que só vira morte, violência e desesperança desde que o arauto divino trouxera o decreto do fim do mundo como a humanidade o conhecia. Agora, ele se deitava debaixo de uma inocência equivocada. Havia sangue por baixo de toda aquela neve.

Sangue, suor e lágrimas.

— Ei, vocês dois aí atrás! — Ambos se voltaram, sobressaltados, em direção à cabine do caminhão; era a voz de Kankuro. — Nós chegamos.

Kankuro manobrou o caminhão até o acostamento; cascalhos estrepitaram sob os imensos pneus e Sasuke notou de imediato um odor acre e pútrido pairando no ar, um cheiro incômodo e denso ao ponto de se tornar enjoativo.

— Vocês têm que dar uma olhada nisso — Kankuro anunciou da cabine, berrando acima do uivo do vento quando o caminhão estacionou no acostamento, o rugido do motor enfim silenciado.

Sasuke ouviu o som das portas da cabine sendo abertas assim como o som dos passos de ambos os irmãos sobre os cascalhos. Ele levou cerca de meio segundo para se aprumar e se locomover até a ponta da caçamba, afastando a lona para saltar em meio aos seixos e à neve. Temari o seguiu um pouco depois.

O ar estava ainda mais pesado e carregado de estática quando Sasuke pousou suavemente no chão, parecia o ar temperado que prenuncia uma tempestade violenta, só que as nuvens escuras que agora se aproximavam pelo oeste não trariam chuva, mas gelo.

Entrecerrou o olhar para o horizonte escuro e indiscernível, inseguro a respeito de como as nuvens esfarrapadas de extremidades alongadas cobriam todo o firmamento, ensombrecendo-o. Foi então que Sasuke desviou o rosto para frente, para o platô logo abaixo, cerca de duzentos e cinquenta metros adiante, onde imergiam prédios e templos de épocas distintas, de arquiteturas divergentes — do moderno e requintado contemporâneo ao clássico e tradicional.

Infelizmente, todos ou a maior parte estavam consumidos ou comprometidos por um incêndio de proporções colossais. Ou foi isso que Sasuke constatou ao observar as edificações chamuscadas, os muros destruídos, as ruas cobertas de fuligem.

O ar tóxico e carregado de dióxido de carbono pesava como uma névoa suja sobre a velha Kyoto, de uma coloração cinzenta e impura; por trás dela, pequenos focos de incêndio ainda transpareciam, emitindo um calor brando, e anéis de fumaça escapavam pelas vidraças quebradas das janelas.

A leste, distante no horizonte embaciado, o rio Kamogawa corria lento, letárgico, o leito quase seco fluindo dificultosamente entre bancos de areia e seixos congelados. A escassez de chuvas o tornara lodoso, suas águas turvas refletiam o céu coberto de nuvens; nas margens lamacentas, plantas aquáticas mortas se amontoavam. A neve ainda cobria tudo paulatinamente, obstinadamente.

A outrora majestosa Torre de Kyoto, com sua cúpula achatada, ainda ardia sob os resquícios de algumas poucas chamas frugais. Uma coluna de fumaça negra elevava-se acima da estrutura do monólito e a fuligem obscurecera boa parte da edificação, tornando-a quase irreconhecível.

Na verdade, o cenário desolador arrastava-se para onde quer que olhassem. Em todas as direções, a situação era igual ou até mesmo pior.

Eles contemplaram por um tempo a visão medonha daquela que foi tida, um dia, como a cidade mais charmosa do Japão, razão de orgulho entre os seus patriotas. A chamada “Velha Capital” queimou até as cinzas e ninguém havia tentado impedir a fúria destrutiva do fogo — ninguém esteve lá para lamentá-la.

— O que acham? — A voz de Temari, rouca devido às emoções atravancadas e em rebuliço no seu âmago ao estudar as fachadas caídas dos prédios, levou todos os três a divagar a respeito da quietude quase traiçoeira que se apoderava das avenidas espaçadas e das ruas ladeirentas.

— Calmo demais — Gaara se manifestou taciturno, as sobrancelhas claríssimas pesavam os olhos cor de turquesa.

A poucos metros, um outdoor promovia as atrações turísticas de Kyoto. O rosto sorridente de crianças e aprendizes de gueixas, as chamadas maikos, descascavam e desbotavam acalentados num autêntico sentimento de abandono e descaso. Outra placa, cerca de quinze metros adiante, saudava os visitantes simpaticamente.

— Dessa vez eu serei forçado a concordar contigo, maninho — Kankuro puxou do bolso da calça de brim um boné velho e desbotado e o colocou na cabeça, ajustando a aba até ocultar o olhar sombrio. — Esse silêncio da porra está me sufocando.

Silente, a loura deu um passo adiante, o solado dos coturnos esmagando os seixos sob os seus pés conforme ela avançava contra o vento. Seu dedo roçava o gatilho da H&K MP5 apenas de leve, como se pretendesse inconscientemente se livrar de uma comichão incômoda.

— Bem, e o que estamos esperando? Vamos lá — decretou ela imperativa, respirando uma lufada do ar tóxico e quente que circunvalava os restos putrefatos da velha capital.

Os irmãos anuíram antes de reassumirem suas posições na cabine. Eles desenrolaram um mapa velho e amassado de Kyoto, estendendo-o sobre o painel para reavaliarem a rota traçada por Shikamaru.

Sasuke e Temari tornaram a subir na estação de carga do Army-M939, a lona os protegeu da nevada e do vento impetuoso novamente. O próximo destino era a estação de trem de Kyoto, dali eles teriam de seguir a pé pela cidade para evitar chamar atenção; seguiriam pelo oeste até o Hotel Okura, atravessando metade do centro antes de alcançarem o prêmio. O que encontrariam ou enfrentariam no percurso até lá ainda era um mistério.

Kankuro deu a partida no motor, reaquecendo-o, e logo voltou à pista principal, seguindo em direção ao ponto vermelho destacado no mapa.

Quando eles passaram pela placa desbotada que saudava os visitantes, nenhum deles imaginou o que aconteceria dentro de algumas poucas horas. Nenhum deles sequer suspeitou do que estava a caminho.

Nem mesmo Sasuke.

* * *

— Então, para quê precisa de mim? — Sakura perguntou a Shikamaru enquanto eles cruzavam o acampamento, ela em seu próprio ritmo, suas passadas largas e eufóricas, ele se arrastava com suas muletas, inexpressivo.

Ela só parou quando ele o fez, diante do único jipe militar da frota de automóveis do grupo, o Toyota Land Cruiser 4x4 no tom verde-escuro típico do exército. Shikamaru se apoiou em uma única muleta a fim de buscar as chaves dentro do bolso interno da jaqueta acolchoada, e quando as encontrou atirou-as para Sakura, que as apanhou, surpresa.

— Você dirige — ele informou com humor negro e Sakura sorriu.

— Você manda.

Ela abriu a porta do motorista e se acomodou no banco de couro, vendo que o homem perneta fizera o mesmo, mas para se ajeitar no banco do carona, as muletas apoiadas junto à porta. Sakura encaixou a chave na ignição e deu a partida, testando o ronco possante do motor. Então fechou a porta para bloquear a corrente de ar glacial que entrava e esboçou um sorriso para Shikamaru.

— Então, para onde vamos?

Ele sorriu de canto, mas não a olhou nos olhos. Apanhou um mapa cuidadosamente dobrado no porta-luvas e o abriu diante do painel, indicando para Sakura uma via interestadual quase invisível, a ponta do dedo tracejou um percurso imaginário até outro ponto indiscernível no papel amarelado.

— Só pegue a interestadual e depois eu te digo para onde seguir.

— Certo — ela anuiu contrafeita, manobrando o Jipe de pequeno porte em direção ao único ponto de acesso ao acampamento.

No portão, Shikamaru acenou para um homem magricela de bigode, indicando que ele deveria abrir o portão de ferro manual. A trilha na floresta era estreita e esburacada, de forma que a cada minuto, o Jipe sofria um solavanco forte, mas uma vez que os pneus encontraram o asfalto uniforme da Via-expressa, o trajeto tornou-se mais tranquilo.

A nevada havia aumentado àquela altura e Sakura achou mais prudente ligar os limpadores de para-brisa para ter uma visão mais clara da estrada. Perto do quilômetro 54, ela dobrou em uma estrada adjacente e seguiu por ela durante aflitos vinte e cinco minutos antes que Shikamaru a indicasse outra pista convizinha.

— Nós estamos nos aproximando da Prefeitura de Nara — ela informou, guiando-se através de placas e consciente de que estavam no extremo da província de Osaka.

— Eu sei — confirmou Shikamaru. — Mas tem algo que eu preciso pegar em uma cidadezinha, perto daqui; Fujiidera.

— Suprimentos? — Sakura conjecturou, mas ele meneou a cabeça, negando.

Ela suspirou e decidiu não pressioná-lo mais, mas bastou olhar para o céu escuro e para a quantidade de neve que se chocava contra o para-brisa para fazê-la engolir em seco. Eles precisariam voltar antes que essa nevada se tornasse uma nevasca violenta. A pista já se tornava escorregadia por conta do gelo que derretia e isso exigia o dobro de sua atenção e coordenação para dirigir.

Não bastasse isso, ela havia começado a sofrer com cólicas, típicas do primeiro trimestre de gravidez, mas que ainda a deixavam inquieta e angustiada. Seu abdome estava rígido e os músculos se contraíam com cada vez mais vigor.

Apertando os dedos em torno do volante, Sakura só conseguia rezar para que seu bebê estivesse bem — para que ele ficasse bem.

* * *

A Estação JR de Kyoto havia sido, um dia, um grande centro de concentração de turistas. A arquitetura moderna e reforçada em ferro destacara-se com charme e imponência em um passado que parecia ter acontecido há eras. Na verdade, o fim do mundo ainda era prematuro, de certa forma, pois fazia nove meses mais ou menos que o primeiro caso da praga havia sido registrado e relatado pelos veículos de informação.

O teto da estação era uma abóboda intricada de vigas de ferro e aço retorcido. Os dois pisos haviam abrigado lojas de todos os tipos e franquias de fast food. O assoalho era de mármore e variara do branco ao cinza, mas hoje estavam cobertos de lixo, fuligem e restos humanos.

Buracos feitos à bala decoravam as pilastras e as paredes agora, além de borrifos de sangue e manchas oleosas que eram impossíveis de serem identificadas.

Fachos de luz transpassavam o intricado de vigas no teto, mas estes eram parcos e mal alumiavam o interior da estação. Os trilhos de ferro abandonados traziam memórias de tempos remotos, quando trens-bala chegavam e partiam da estação de embarque a todo o minuto.

Sasuke e Kankuro avançavam pela frente enquanto Temari e Gaara cobriam seus flancos e retaguarda. Embora a estação parecesse vazia à primeira vista, havia poças densas de escuridão dentro do edifício e qualquer coisa poderia facilmente se esconder nelas.

O Army-M939 ficara para trás, escondido sob um viaduto de fácil acesso para que a qualquer sinal ou indício de perigo ou emboscada, eles pudessem retornar sem dificuldade.

No percurso até a estação, eles se depararam com alguns poucos errantes que sobreviveram ao fogo e foram facilmente abatidos ou evitados, mas a julgar pelo silêncio e pela calmaria, a maior parte dos mortos havia sucumbido ao incêndio que devastou Kyoto. Temari havia comentado casualmente, mais cedo, como lamentava a perda da cidade e de seus belos templos xintoístas.

Sem delongas, eles deixaram a estação vazia — aliviados pela ausência tanto de errantes quanto de humanos — e seguiram rumo ao Hotel Okura onde a figura misteriosa os esperava.

A nevada transformou-se em uma nevasca, perceberam com alarde, e o vento impetuoso uivava nas estruturas chamuscadas remanescentes dos grandes edifícios. O cheiro da morte pairava sobre eles como um lembrete constante da calamidade que recaíra sobre Kyoto.

Línguas de fogo haviam reduzido tudo a arcabouços negros e frágeis e o cheiro da combustão era quase sufocante, insuportável. Cacos de vidro sujo luziam no asfalto como pequenos cristais e estrepitavam sob os sapatos dos quatro intrusos.

Eles se moviam com o máximo de cuidado e silêncio, esgueirando-se sob marquises e fachadas destruídas, as armas em punho, os dedos ansiosos pressionando os gatilhos ao menor ruído ou estalo repentino. Trocavam comandos através dos punhos e dos olhos.

Àquela altura, com a nevasca crescendo exponencialmente ao redor deles como um furacão de gelo, uma besta rugidora e furiosa, a neve cobria tudo como uma manta gélida e pura, dispersando o odor acre da fumaça dos incêndios e apagando os últimos e pequenos focos de fogo.

Sasuke puxou a gola de sua jaqueta em determinado ponto, até mesmo seus ossos tiritavam pelo frio e suas mãos estavam dormentes, dificultando o processo de segurar a pistola Ruger e de manter um dedo sentinela sobre o gatilho. Mas ele foi adiante, obstinado, e continuou a seguir Kankuro através da nevasca.

O céu branco acima dos prédios era lindo e mortal de se contemplar. O vento rugia com cada vez mais ímpeto, soprando grandes flocos de neve nos rostos de todos. Mas a caminhada prosseguiu até que eles avistaram a estrutura intacta (uma visão agradável) do grandioso Hotel Okura.

Um gigantesco bloco de concreto e cimento, cercado por bordos que infelizmente não sobreviveram ao incêndio. A não ser por algumas manchas de fuligem, o prédio parecia estável e seguro, ou pelo menos à primeira vista numa rápida inspeção de Sasuke.

Kankuro sinalizou com o punho cerrado para que eles parassem e indicou uma reentrância entre dois prédios para que eles se abrigassem e discutissem os próximos passos. Uma vez protegidos das rajadas violentas de vento e gelo, eles suspiraram aliviados.

— Certo, como prosseguiremos agora? — Foi Temari quem perguntou enquanto afastava o capuz de seu casaco da cabeça e espanava a neve do cabelo.

— Vamos nos dividir — anunciou Kankuro também espanando a neve do cabelo e do boné desbotado. — Sasuke e Gaara vão entrar pelos fundos do hotel, sem que ninguém possa vê-los para garantir que não teremos nenhuma surpresa desagradável, enquanto Temari e eu vamos entrar pelo saguão principal. Então, vamos verificar um andar de cada vez, e se lembrem de não abaixar a guarda não importa o que aconteça.

— Certo — Temari anuiu e em seguida puxou o capuz sobre a cabeça novamente.

— Nos encontramos no terraço em quinze minutos no máximo.

Dito isso, Sasuke e Gaara trocaram um olhar cortante, pouco amistoso, antes de seguirem até o fim do beco para darem a volta no quarteirão e se esgueirar até a entrada dos fundos do Hotel, ao passo que Kankuro e Temari seguiram na direção oposta, rumando para a entrada frontal do edifício.

O Hotel Okura estava localizado em uma avenida plana e que um dia foi uma das mais movimentadas de Kyoto, no coração do centro da cidade. Era uma estrutura imponente e elevava-se acima dos prédios convizinhos, destacando-se em noites iluminadas ou em crepúsculos violáceos. Mas agora era apenas um fantasma do que havia sido; as vidraças escuras estavam em sua maior parte quebradas, trincadas ou bloqueadas por dentro com placas de aço e tábuas.

Sasuke achou a visão do prédio de roubar o fôlego de qualquer forma, mesmo enquanto ele e Gaara se locomoviam com dificuldade em meio à nevasca, esgueirando-se pelo quarteirão e ocultando suas presenças de qualquer um.

O garoto ruivo não era muito falante como os outros dois irmãos e por isso Sasuke o agradecia. Estava tenso e a dormência em suas mãos o preocupava, além disso, estava faminto e congelando, o que só azedava seu humor.

Então, quando Gaara e ele acessaram a entrada de funcionários, uma porta enferrujada e meio emperrada nos fundos do prédio, ele suspirou aliviado. Sacudiu as mãos no cabelo a fim de tirar a neve e logo estava ao lado do ruivo novamente, cruzando às cegas um cômodo que ele julgou ser a cozinha do hotel.

Os balcões de granito estavam abarrotados de entulho, caixas de papelão vazias e panelas e frigideiras de todos os tamanhos, além de vasilhames com restos de comida vencida. Gaara avaliou um pote de frutas em conserva antes de descartá-lo com uma careta.

Eles verificaram a lavanderia e o elevador de serviço antes de seguir para a escadaria dos fundos. Os primeiros três andares estavam completamente intransitáveis com móveis quebrados, mudas de roupas suja e corpos de errantes abatidos atulhando os corredores, nos outros encontraram apenas ratazanas e restos humanos indiscerníveis.

A cada andar, constatavam que o hotel estava, de fato, vazio, como havia aparentado mais cedo, à primeira vista. E apesar dos corpos de errantes abatidos, não havia qualquer outro indício de atividade recente de mortos-vivos ou de humanos; estava tudo abandonado.

No último andar, os dois subiram uma escadaria estreita que levaria ao terraço e Gaara levou mais do que o habitual para abrir a porta de ferro. Quando o fez, uma rajada violenta de vento e neve irrompeu no espaço seco e apertado, chocando-se contra as faces encrespadas de ambos.

Gaara foi o primeiro a avançar, o solado de seu tênis afundando na neve com um som úmido e ritmado. Sasuke o seguiu, impedindo que a porta de ferro se fechasse com um estrondo, deixou-a apenas encostada por via das dúvidas.

Estava difícil de enxergar ali em cima com toda aquela neve e o céu havia escurecido ainda mais; Sasuke só desejava que Sakura estivesse a salvo no acampamento agora porque o tempo pelo visto só pioraria até o fim do dia.

— Onde ele está? — Gaara se perguntou, claramente não se dirigindo a Sasuke pela forma como avançou na frente, a Taurus .380 pronta para ser disparada a qualquer momento.

De súbito, uma voz masculina o respondeu, recuando das sombras e da cortina de neve que os cercava, sua silhueta se destacava no fundo ciano que era o céu.

— Estou bem aqui.

Ele se aproximou com ambas as mãos enluvadas levantadas e espalmadas, o semblante era calmo e irônico, de compleições aristocráticas. Um par de óculos de armação arredondada pendia sobre o nariz, semiocultando dois olhos escuros e viperinos.

— E estava à espera de vocês — acrescentou com divertimento, abrindo um sorrisinho irônico.

Os cabelos cinzentos estavam presos em um rabo de cavalo na nuca. Vestia um casaco acolchoado com capuz e calças de brim enfiadas em coturnos. Sasuke e Gaara o tinham na mira, atentos a cada movimento, a cada gesto do estranho.

— O meu nome é Kabuto Yakushi — ele se apresentou indiferente. — Sou um biomédico conceituado e trabalhei para o Governo nos últimos anos, estudando a doença misteriosa que fodeu toda a humanidade.

Ele alargou o sorriso, o que levou Sasuke e Gaara a entrecerrarem o olhar e a firmarem suas miras no homem. Enfim, eles o haviam encontrado.

Kabuto abaixou as mãos lentamente, deixando-as imóveis ao lado do corpo.

— E eu desenvolvi o soro que suprime terminantemente o gene da praga.

* * *

Lembre-se

(Eu ainda me lembro)

De como nós éramos

Tudo e nada juntos.

Stone Sour — Trecho de Home Again.

Notas finais
Pra quem duvidou da existência da cura: ela realmente existe! E, sim, é o Kabuto e ele está falando a verdade. Só que eles não vão colocar as mãos nessa cura ainda HEHEHEHE ... Estejam preparados porque daqui em diante é só tragédia... E nem digam depois que eu não avisei. Ahh sim, e culpem George R. R. Martin e Robert Kirkman e suas fortes influências sobre mim pelos eventos que nos aguardam em DWA =) ... Prontos para o retorno da 5ª temporada de TWD? Eu mal posso esperar! *-* ... NÃO SE ESQUEÇAM DE COMENTAR, PLEASE! É importante que eu saiba se a Fanfic continua agradando, sei que as coisas estiveram bem calmas nos últimos capítulos, mas na verdade eu só estava construindo o palco para o meu massacre HUEHUEHUEHUEHUE ... Nos vemos no próximo (e nos reviews). Até!