Notas iniciais
Quadragésimo primeiro capítulo dedicado à Akemihime pela linda recomendação. Obrigada mesmo! *-* ... Boa leitura! P.S: Não me matem pelo capítulo! HAHAHA

Dead World Assembly

“É quase como se as vísceras estivessem caindo do céu, como chuva, em vez de estarem subindo por debaixo das rodas ou escorrendo pela lataria, ou esguichando da grade frontal, enquanto o Escalade vai triturando os corpos. A matéria líquida se esparrama pelos vidros, ininterruptamente, com o ritmo de um gigantesco cata-vento, um caleidoscópio colorido, um arco-íris de tecidos humanos — vermelho-sangue-de-boi, verde-lodo-de-lago, amarelo-ocre e preto-piche. Para Philip, é quase lindo”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 110).

Capítulo XLI:

O Julgamento Final

Shikamaru tinha um sorriso preguiçoso no rosto quando retornou da sua segunda inspeção ao terceiro piso do Shopping Center Q’s Mall, no veio central destruído do distrito de Fujiidera, localizado no extremo oeste da Prefeitura de Osaka e da região de Kansai, próximo à divisa com a Prefeitura de Nara.

Sakura rapidamente compreendeu a razão do sorrisinho do ex-militar quando ele lhe mostrou o maço de cigarros que encontrou. Com dificuldade, porém sem recorrer ao auxílio dela, ele escorregou pela parede até se sentar escorado contra ela, as muletas descansavam logo ao lado.

— Você não teria um isqueiro ou fósforos aí, teria? — ele perguntou enquanto puxava um cigarro da carteira e o pendurava entre os lábios.

Sakura escorregou na parede oposta a dele, sentando-se de frente para o rapaz, e meneou a cabeça em negativa com um sorriso apologético para o qual ele prontamente revirou os olhos.

Suspirando, Shikamaru tornou a devolver o cigarro para a carteira e guardou-o no bolso interno de seu casaco. Então, sua expressão tornou-se devaneadora, seus olhos pequenos e escuros perderam-se no crepúsculo cinzento que assomava dentro da estrutura do prédio conforme a tarde avançava e a nevasca lá fora adensava.

— E pensar que adquiri esse hábito estúpido do meu capitão.

Shikamaru pareceu escarnecer do próprio comentário a seguir, pois soltou um muxoxo e alisou o bolso interno do casaco como se quisesse se certificar de que a carteira permaneceria ali independente das circunstâncias.

— Ele morreu no centro? — Sakura indagou, dobrando os joelhos e passando os braços ao redor deles para abraçá-los.

— Não, ele morreu antes disso — Shikamaru a respondeu, tombando o rosto para evitar olhá-la. — O nome dele era Asuma. Não era o melhor cara do mundo, mas eu o respeitava... Do meu próprio jeito.

Sakura o contemplou em silêncio; sentimentos conflitantes envolviam Shikamaru: o luto ainda fresco, a admiração relutante, o afeto perene. Estava à vista para que qualquer um os notasse. Para distraí-lo dos pensamentos pessimistas, ela sorriu para ele e ajeitou-se em busca de uma posição mais confortável no piso gelado de mármore. Encolheu-se minimamente quando uma pontada em seu abdome quase a fez arquejar; as cólicas estavam piorando.

— E a Temari?

À menção do nome da namorada, Shikamaru quase não disfarçou um sorriso antes de franzir o rosto.

— Ah, ela é extremamente problemática e mandona.

— Ela gosta muito de você — Sakura interpôs com certa diversão e Shikamaru se perguntou se aquela jovenzinha não estaria fazendo troça dele.

— É, e é um sentimento recíproco, independentemente do quanto ela me chateie.

Os ombros da garota se sacudiram levemente com a risada que se seguiu.

— Isso é o mais próximo de uma declaração que você já disse a ela? — ela ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha, agora visivelmente embaraçada.

— A Temari é perfeita para sobreviver a esse mundo, sabe? — ele murmurou de súbito, encolhendo os ombros e encarando as mãos vazias que descansavam em suas coxas. — Ela tem que sobreviver, na verdade — sussurrou com um tom alquebrado que Sakura facilmente identificou.

— Eu tenho certeza que ela vai conseguir, não importa o que aconteça.

Shikamaru tombou a cabeça para trás, apoiando-a na parede logo atrás e, mais uma vez, seus olhos miraram o teto, as sombras que se alongavam no gesso e no ferro.

— É, ela vai — concordou com um tom embargado e Sakura se perguntou o que ele estava pensando agora, considerando seu semblante contemplativo e até mesmo levemente amargurado.

Sakura suspirou quando suas tentativas de manter uma conversação amistosa minguaram mais cedo do que ela previra, o clima de descontração foi rapidamente substituído por um sentimento de pesar, uma sensação inexplicável de perda que por pouco não a sufocava, enovelando em sua garganta feito um volume intragável.

Ela quase se dobrou sobre o próprio ventre quando outra pontada a atingiu com mais força, mais vigor. Por sorte, Shikamaru não pareceu notar nada. Sem dizer qualquer palavra, Sakura se levantou e deu um olhar sugestivo ao ex-militar:

— Pode me esperar um pouquinho? Preciso ir ao banheiro — escusou-se, contendo-se para não pressionar a palma da mão contra o baixo-ventre.

Shikamaru observou o entorno subitamente desperto. Escorando uma mão na parede enquanto a outra buscava pelas muletas, ele colocou-se de pé com certa dificuldade, manquejando e bamboleando para recuperar o equilíbrio.

— Não demore muito. Nós temos que voltar para o acampamento.

— Não vou demorar — Sakura assentiu e tentou disfarçar seu nervosismo quando, seguindo algumas placas, se encaminhou para o banheiro público do Shopping Center, ainda no segundo piso.

Ela tentou manter a calma, mas o desconforto em seu baixo-ventre se intensificara nas últimas horas ao invés de arrefecer e, para o seu desespero, uma dorzinha latejante se instalara na base de suas costas. Ainda assim, Sakura se negou a assumir qualquer possibilidade enquanto corria até uma das cabines e fechava a porta.

Arquejando finalmente, ela comprimiu ambas as mãos contra o ventre. Lágrimas quentes rolavam pelas maçãs do seu rosto, embora ela lutasse veementemente contra cada uma delas. Trêmula, ela se sentou sobre a tampa do assento sanitário e decidiu se controlar antes de verificar.

Não demorou a levar as mãos até o botão e o zíper de seu jeans e puxá-lo junto com a calcinha para baixo, os olhos piscando no cubículo abafado a fim de se acostumar à falta de claridade. A visão de uma pequena mancha de sangue em sua roupa íntima a levou ao limite do desgaste físico e emocional e a fez se curvar sobre o próprio corpo e chorar baixinho, cobrindo os lábios para não deixar escapar qualquer soluço.

Sakura estava ciente de que pequenos sangramentos eram comuns no primeiro mês de gestação quando o óvulo que fora fecundado se fixava às paredes uterinas, entretanto ela não se encontrava mais nessa etapa do início da gestação, e aquele pequeno sangramento somado às cólicas que estivera sentindo desde o começo do dia e agora com o latejar incômodo na base de sua coluna a deixou apavorada.

Ela sabia que era cedo ainda para constatar um princípio de aborto espontâneo, contudo se levasse em conta as condições a que foi exposta desde a concepção do feto, Sakura sabia qual era a sua resposta: ela passara fome, se alimentara mal, estivera sob constante estresse e tivera o emocional e o psicológico abalado por mais de uma vez. Mas era injusto que agora que tudo estava se ajeitando que ela perdesse seu bebê e de Sasuke.

— Sakura, está tudo bem aí? — ela arfou na parca escuridão da cabine e rapidamente ajeitou suas roupas, limpando os rastros de lágrimas das bochechas desajeitadamente com as costas da mão e a manga do casaco.

Ela sabia que se seu corpo tivesse começado um processo de aborto, não havia recursos e nem mesmo meios de evitá-los.

— Eu estou b-bem! — balbuciou esbaforida e saiu da cabine em seguida, abrindo um sorriso forçado que não alcançava seus olhos. — Já podemos ir — disse a Shikamaru ao passar por ele, que estava parado diante da entrada do toalete feminino, na companhia de suas inseparáveis muletas.

Ele notou o sorriso fraco de Sakura, seus olhos frágeis e fugidios. Mas não teceu qualquer comentário acerca da instabilidade emocional que viu estampada no rosto dela. Tampouco tencionou perguntar-lhe o que estava havendo.

No fundo, Shikamaru sabia que não havia nada para ser dito.

* * *

A nevasca que atingia a região de Kansai agora poderia ser facilmente comparada a um imenso furacão de gelo. Tinha o rugido de um dragão recém-desperto, faminto e furioso, e as rajadas de vento que fustigavam os velhos arranha-céus consumidos pelo fogo poderia muito bem ser fruto de suas asas ossudas e demoníacas.

Sasuke se viu forçado em certo ponto a ligar os limpadores, dada à quantidade de neve e granizo que se chocava contra o para-brisa sem descanso ou trégua; eles, ao menos, lhe davam uma visão mais limpa das ruas atulhadas de lixo de Kyoto.

Estavam no encalço do misterioso caminhão militar coreano e de seus ocupantes intimidadores a pelo menos quinze minutos e eles ainda não haviam diminuído a velocidade ou feito um desvio em nenhum momento. O Toyota Aqua já se aproximava de uma das saídas da velha capital, notaram receosamente, mas não se detiveram por conta disso.

Inopinadamente, um esquecido walkie-talkie, preso ao cinto de Temari, emitiu um chiado estático característico. Sasuke manteve apenas uma parte da atenção na pista coberta de gelo enquanto a loura desprendia o aparelho e o levava até o rosto.

Temari? — Uma voz falhada, entrecortada pelo som da estática soou do aparelho. — Temari, onde vocês estão?

Ela pressionou o pequeno botão para ter a vez de falar e murmurou num tom esbaforido a localização de ambos, tendo facilmente reconhecido a voz do irmão caçula, mesmo com a interferência da tempestade de neve:

— Gaara? Você está com o Kankuro? Eu estou com o Sasuke... Me escuta! — ela demandou peremptória, por pouco não se atropelando nas próprias palavras afobadas. — Estamos perseguindo um caminhão militar coreano modelo KM500 na cor verde-escuro. Eles estão deixando a cidade nesse exato momento!

Houve um forte chiado do outro local, seguido de uma profusão de xingamentos e palavrões por parte de Gaara que não poupou seu fôlego ao ordenar para a irmã que eles retornassem para o viaduto onde o Army-M939 fora deixado.

— Eles estão com o Doutor Yakushi como refém! — ela se defendeu aos berros no intuito de se sobrepor ao tom imperativo do irmão caçula. — Não podemos deixar que o levem, Gaara! — apelou com um timbre agora alquebrado, falho. — Olha, nós estamos nos dirigindo para o acesso principal de Kyoto agora.

Nos veremos em breve então — Gaara murmurou num tom quase apático, mas o desespero era tangível por baixo de sua frágil placidez.

E tendo dito isso, ele encerrou a transmissão, deixando Temari um pouco angustiada acerca das óbvias intenções dos dois irmãos. Nesse ponto, o Toyota Aqua atravessava o acesso principal de Kyoto, sentido Osaka. A visão da autoestrada da Via-expressa Meishin plantou um calafrio na base da coluna da mulher.

— Coloque o cinto — Sasuke recomendou, pesando o pé um pouco mais no acelerador e sendo acatado por Temari que nem mesmo pestanejou ao prender a trava do cinto de segurança.

Através de toda a neve e gelo que se derramava incessantemente sobre a estrada, eles tinham pequenos vislumbres da traseira imensa do caminhão, já que seus faróis estavam todos apagados. O céu que encimava as montanhas ao fundo e a linha das copas das árvores era negro como alcatrão e estava coberto por nuvens violáceas ainda mais escuras que fervilhavam como um imenso caldeirão.

Não obstante, uma luz num tom fosco de ciano terebrava-as em forma de fachos finos, varando a imensa massa de ar glacial e alumiando parcialmente as duas pistas sobrecarregadas de entulho e automóveis abandonados e inutilizados da Via-expressa.

Dirigir sob uma nevasca forte já era um desafio que Sasuke particularmente considerava laborioso, mas ter de fazê-lo numa velocidade constante que não os denunciasse e com os faróis todos apagados apenas triplicava o seu trabalho e demandava toda a sua atenção.

Por sorte, a nevasca lhes conferia uma excelente cobertura, não apenas ocultando os contornos cinzentos do Toyota, como também camuflando o som do motor. Eles estavam em torno de oitenta, noventa metros de seu alvo: o imenso caminhão que seguia em velocidade constante na pista, facilmente esquivando-se de outros automóveis menores e errantes dispersos.

— Para onde acham que estão indo? — Temari o questionou a certa altura, mas Sasuke limitou-se a cerrar os dentes e grunhir.

— Eu não sei e para ser sincero não estou nem um pouco interessado. Eu só quero pegar de volta a porra da cura e dar logo o fora daqui.

A loura então puxou a trava de segurança da sua submetralhadora H&K MP5 e testou empunhá-la, mirando-a casualmente na traseira imensa do caminhão através do para-brisa.

— O que estamos esperando para pegá-la de volta então?

Sasuke repuxou a boca num sorriso estranho, um tanto maníaco e, então, trocando a marcha, afundou o pé no acelerador, encurtando a distância com o caminhão que trafegava desassossegado na pista. Temari abaixou o vidro de sua janela e apoiou a metralhadora na porta, encaixando um olho na mira, fechando o outro.

— Acerte os filhos da puta na caçamba primeiro, mas cuidado com o médico.

— Entendi — ela vociferou, o maxilar travado pela tensão, o dedo indicador roçando o gatilho como numa carícia.

— Quando eu me aproximar o bastante pela lateral esquerda, concentre-se nos pneus.

Sasuke tornou a lhe dar instruções, os olhos fixos ao para-brisa, à traseira do caminhão que se avolumava e assomava a cada metro percorrido. Àquela altura, o para-choque traseiro assemelhava-se à boca denteada de algum monstro de ferro e aço. Os homens que ocupavam o compartimento de carga rapidamente se tornaram visíveis na nevasca: eram três, dois de pé, um ajoelhado.

Temari instantaneamente reconheceu a figura do biomédico, então apontou sua mira para um dos homens que ladeavam a sua figura prostrada e indefesa. Ela deu uma boa olhada em seu rosto macilento antes de pressionar o gatilho com um pouco mais de força; uma parte dela hesitava, aguardando pelo momento ideal, a outra a mandava acabar com aquele desgraçado de uma vez.

O Toyota se acercou perigosamente do KM500, a adrenalina paulatinamente lhe despertava do seu estado momentâneo de estupor, esfrangalhando os seus nervos de aço e desgastando-os até que se tornassem cordas frouxas e fracas. O dedo dela hesitou apenas um pouco mais, o suficiente até, subitamente, Sasuke acender os faróis do carro, chamando a atenção dos dois homens armados na caçamba, fazendo-os notar a sua presença.

E, então, com um tom rouco, conclamou através dos dentes cerrados com força:

— AGORA!

Temari pressionou o gatilho no momento em que os homens, tomados pela visão dos fachos de luz amarelados dos faróis, distraíram-se fugazmente, por apenas alguns poucos centésimos de segundos, mas foi o bastante para ela.

A cabeça do primeiro homem explodiu com o impacto do projétil, a mira perfeita de Temari garantiu que ele não se recuperaria do dano; a bala alojou-se no espaço pequeno entre os olhos e um borrifo de sangue arterial saiu pela parte trás do crânio do homem, batizando o caminhão com fluídos encefálicos. Ele despencou pelo vão da balaustrada da caçamba e seu corpo desabou no asfalto meio congelado, quicando e rolando do veículo ainda em movimento.

O outro homem e Kabuto se lançaram no chão em busca de proteção enquanto o Toyota se aproximava ainda mais, os faróis agora apagados para lhes garantir uma cobertura superficial provinda da forte nevasca. Sasuke encaixou um pente novo em sua pistola Ruger SR911 e equilibrou-a sobre o colo enquanto reassumia o volante, posicionando o Toyota fora da linha de visão do motorista do caminhão e longe do alcance dos tiros.

Temari manteve um olho vigilante sobre a caçamba enquanto o automóvel se aproximava fatalmente para mais uma abordagem, desta vez pelo flanco esquerdo do imenso monstro de metal. Ela disparou algumas vezes no intuito de acertar um dos pneus traseiros gigantescos, mas devido à movimentação e a um nervosismo crescente, acertou apenas a lataria. Cada bala tilintava e produzia uma torrente de faíscas ao se chocar no ferro reforçado.

Sasuke abriu o vidro da sua janela e apanhou a Ruger com a mão esquerda, mantendo o Toyota estável apenas com a direita sobre o volante. Ele estendeu o braço para fora e diminuiu a velocidade mais uma vez, mas ainda se mantendo paralelo ao KM500. Antes que pudesse disparar, no entanto, uma saraivada de tiros choveu sobre eles, acertando apenas a lataria em sua maioria, ainda assim obrigando-os a diminuir a velocidade e se reorganizar mais atrás.

Temari deslizou o corpo pelo banco, cerrando os dentes quando um projétil acertou em cheio o para-brisa, trincando-o e criando finas rachaduras como teias de aranha no vidro meio congelado. Sasuke abrigou-se como conseguiu, mantendo o corpo semiereto no banco para poder ter uma visão mínima da pista enquanto pesava o pé sobre o acelerador para se aproximar mais uma vez.

O caminhão coreano por pouco não desapareceu na tempestade de gelo, o motorista havia aumentado a velocidade e levava o motor potente ao máximo. O cano de descarga emitia uma nuvem negra de dióxido de carbono que sumia na nevasca violenta.

Sasuke olhou por cima da linha do painel do Toyota em busca da origem dos tiros, mas não os localizou a tempo e, com isso, foi forçado a recuar mais uma vez, diminuindo a pressão de seu pé no acelerador. Contorcendo-se um pouco no banco, Temari por sua vez encontrou uma boa posição para atirar e se proteger ao mesmo tempo, de modo que, alguns segundos depois, voltou a disparar contra os pneus do caminhão no intuito de perfurá-los e fazer o veículo parar.

Entretanto, ela perdeu o alvo de vista e a concentração quando um forte solavanco oriundo da traseira do Toyota Aqua os enviou violentamente para frente e, se não fosse pelo cinto, a loura teria batido a fronte contra o painel do carro. O som ensurdecedor de uma pancada os alertou para a presença de perseguidores.

Sasuke olhou para trás rapidamente a tempo de ver os para-choques dianteiros imensos de um jipe militar de fabricação norte-americana, um Hummer 4x4 com um poder gigantesco de tração, recuarem rapidamente a fim de se protegerem da linha de tiro de ambos. Quando o fez, ele discerniu na pista ao lado pelo menos mais um veículo, uma caminhonete prateada talvez.

— Merda, é uma armadilha — Sasuke rosnou com os dentes trincados e os dedos apertados no volante.

Eles se encolheram em seus assentos quando o Jipe logo atrás acelerou novamente para bater em sua traseira. Sasuke pisou fundo no pedal do acelerador e jogou o Toyota para a esquerda, esquivando-se por um triz, no entanto, as gigantescas grades frontais do Jipe roçaram na lateral da lataria, fazendo-os sofrer mais um solavanco.

— Eu me livro deles! — Temari berrou por cima dos sons dos motores e do gemido alquebrado do vento.

Aproveitando-se do fato de que as rajadas de tiros haviam cessado, ela debruçou a parte superior do corpo sobre a janela e apoiou a coronha da H&K MP5 no ombro esquerdo, pressionado o gatilho de tal forma que uma saraivada de projéteis cascateou sobre o para-brisa e o capô do Hummer, infelizmente nenhum deles causou qualquer tipo de dano.

Ela voltou a buscar abrigo ao primeiro sinal de que haveria retaliação, o que se confirmou verdadeiro segundos depois quando mais tiros acertaram a lataria do Toyota, estourando o para-brisa traseiro e levando os dois a se encolherem em meio à cacofonia atroadora.

— MERDA! — Sasuke rosnou, abaixando-se o máximo que podia enquanto mais projéteis atingiam o Toyota; ele sabia que se o tanque fosse atingido, eles estariam liquidados.

Às cegas, ele tentou revidar, dobrando o corpo no assento e esticando o braço na direção do para-brisa traseiro estraçalhado. Disparou uma, duas vezes, três vezes contra o para-brisa do Hummer, mas as balas apenas rasparam a lataria do capô antes de se extraviarem devido à imprecisão de sua mira.

— PORRA, SASUKE, O QUE VAMOS FAZER?! — Temari rogou numa voz estridente e esbaforida para se fazer ser ouvida por cima dos ruídos dos motores e das balas crivando a lataria do Toyota.

Sasuke, numa manobra arriscada e desesperada, diminuiu a velocidade do Toyota até se emparelhar com o Hummer e rapidamente virou o volante para lançar o carro contra o Jipe no intuito de desestabilizá-lo.

— SE ABAIXA! — ele gritou para Temari quando o vidro da janela ao lado dela explodiu em um milhão de pedaços por conta do impacto, destruindo o vidro do motorista do Hummer conjuntamente; faíscas iridescentes jorraram das laterais de ambos os carros devido ao atrito, provocando um barulho trovejante que doeu aos tímpanos de ambos.

Sasuke empunhou sua Ruger nesse instante e apontou-a para a janela destroçada do motorista do Hummer; não hesitou ao puxar o gatilho num encadeamento desenfreado e insano. Desgostoso, assistiu ao homem no volante se encolher em seu assento enquanto quem era alvejado era o outro, sentado no banco do passageiro. Uma das balas perfurou o pescoço grosso do homem fazendo jorrar sangue em borrifos carmesins enquanto o homem se debatia e se afogava no próprio sangue que lhe enchia a sangue e lavava ambas as faces.

Quando o motorista do Hummer levantou um braço musculoso para expor um Fuzil de Assalto Heckler & Koch G3 de 7,62 mm, Sasuke pisou no pedal com força, forçando os freios até que o Toyota ficasse completamente para trás em uma nuvem de fumaça com um forte odor de borracha queimada.

Eles mal tiveram tempo para recuperar o fôlego, no entanto, antes do para-choque de uma caminhonete Isuzu prateada acertar em cheio a lateral do Toyota, fazendo-o girar no asfalto ainda envolto pela bruma provocada pelos pneus. Sasuke e Temari, entontecidos devido à pancada abrupta, demoraram a recobrar completamente os sentidos. Mal piscaram, e a imensa caminhonete deu marcha ré a toda velocidade, o motorista do outro lado se preparando para investir contra eles mais uma vez.

Os pneus cantaram no asfalto e Sasuke puxou Temari para o seu lado na intenção de protegê-la da próxima batida. Contudo, ficaram verdadeiramente surpresos quando a caminhonete foi violentamente interceptada por outro veículo, maior e mais potente.

A dianteira do Army-M939 bateu em cheio na lateral da Isuzu prateada, deformando-a até o ponto de que parecesse feita de papel. Os imensos para-choques do caminhão militar arrastaram-na por alguns bons metros; o ruído da lataria se amassando e se desfazendo era ensurdecedor.

AGORA TOMEM ISSO, SEUS FILHOS DA PUTA! — trovejou um exultante Kankuro através do walkie-talkie de Temari, seguido de uma gargalhada maníaca que mais se assemelhava a um carcarejar vicioso.

CALE A PORRA DA BOCA E SE CONCENTRE NA ESTRADA! — Gaara demandou com seriedade e irritação típicas e, em seguida, baixou o tom de voz para um ciciar ao se dirigir à irmã e a Sasuke: — Vocês estão bem aí?

— É, não vão morrer antes de a diversão terminar! — Kankuro acionou os freios pneumáticos do caminhão e a Isuzu parou de derrapar no asfalto. Uma fumaça branca era emanada da lateral completamente destruída da caminhonete.

Kankuro mudou a marcha antes de dar a ré com o imenso veículo e, valendo-se mais uma vez do seu incrível poder de tração, investiu novamente contra a caminhonete enquanto Gaara preparava a sua Taurus, prendendo um novo pente e liberando a trava de segurança.

Trêmula, Temari apanhou o walkie-talkie e Sasuke, ainda parcialmente abalado e desorientado, deu a partida no motor do Toyota, manobrando-o para logo atrás do Army-M939, para usá-lo como cobertura.

— Eu estou muito feliz por vê-los outra vez — a loura sussurrou com a boca próxima ao bocal do pequeno aparelho, lágrimas brotavam-lhe nos cantos dos olhos escuros.

É, nós também, maninha — concordou o mais velho dos irmãos, acelerando a velocidade a fim de alcançar o veículo que liderava a pequena frota: o KM500. — Agora, nós temos um doutorzinho para resgatar e a porra de um mundo para salvar, não é mesmo?

Só cale a boca, Kankuro — Temari murmurou com um tom cansado, refestelando o corpo esbelto no banco. Ela fechou os olhos e continuou a murmurar sem parar: — Só cale a merda da boca dessa vez...

— Lá vêm eles de novo — Sasuke a alertou, mudando a marcha do Toyota e desencostando da traseira do Army-M939, passando para a lateral direita do veículo enquanto Kankuro perseguia o veículo maior.

Temari preparou sua submetralhadora novamente e apoiou a coronha no ombro enquanto eles, por sua vez, acossavam incansavelmente o Hummer mais à frente. A mulher se preparou para disparar novamente, no entanto foi forçada a buscar abrigo quando uma bala acertou a lataria do Toyota.

Sasuke cerrou os dentes quando olhou o retrovisor e viu a caminhonete Isuzu ainda em seus encalços. Ele mesmo preparou a sua Ruger e disparou contra a caminhonete persistentemente através do para-brisa traseiro destruído. Desta vez, por sorte, uma das balas perfurou o para-brisa dianteiro e aparentemente atingiu o motorista a julgar pela forma como a caminhonete perdeu o controle no instante seguinte, derrapando com um guincho ensurdecedor no asfalto antes de tombar violentamente.

Ele quase sorriu ante a cena não fosse a voz de Temari ter gritado seu nome no segundo posterior, demandando sua atenção de volta para a pista:

— SASUKE!

Sua primeira reação foi a de voltar a atenção para a autoestrada, o que se provou um equívoco, uma vez que não houve tempo suficiente para Sasuke pisar no freio e evitar a colisão com a traseira do Hummer, cuja velocidade havia sido propositadamente reduzida no intuito de acidentá-los.

Sasuke fez o que pôde para evitar a colisão ao jogar o Toyota para a direita, sair da estrada e destruir a barreira de contenção da pista. O veículo, completamente sem controle, derrapou em uma pequena ravina lamacenta, impulsionado pelo terreno íngreme e pelas rochas escorregadias, enviando-os encosta abaixo sem qualquer chance de defesa aos trancos.

Eles só pararam quando o para-choque dianteiro do Toyota se prendeu em uma pequena árvore já no fim do barranco. O impacto foi tão forte que, mesmo presos ao cinto de segurança, seus corpos foram lançados para frente e sofreram terrivelmente com o solavanco brutal.

Sasuke olhou para o lado com sua visão turva, desfocada; incapaz de vocalizar uma única palavra ou formar um único pensamento, ele desabou no banco. Sua testa latejava e havia uma umidade incômoda cobrindo-lhe as pálpebras cansadas.

Antes de perder a consciência, contudo, um rosto lhe veio à mente, apenas um único rosto: de traços suaves e quase angelicais, um rosto indiscutivelmente feminino e agradável, envolto em uma cascata de cabelos coloridos como ele nunca vira igual.

Sakura, lembrou-se da pessoa a quem pertencia aquele rosto. Então apagou.

Ainda na autoestrada, Gaara olhava estupefato para o retrovisor e sinalizava para que Kankuro desse meia volta para que eles pudessem resgatar Sasuke e a irmã. Eles se encolheram na cabine quando uma saraivada de tiros tentou lhes acertar. O mais novo vez ou outra arriscava atirar no Jipe menor que os seguia, mas a visibilidade era quase nula, já Kankuro cerrou os dentes e forçou-se a continuar no encalço do caminhão KM500.

— NÓS VIEMOS AQUI ATRÁS DESSA CURA, NÃO É?! — ele lembrou ao irmão caçula quando este tentou fazê-lo voltar mais uma vez. — Além disso, se voltarmos, seremos mortos... E Sasuke e Temari também. Podemos dar uma chance a eles de escapar dessa porra, Gaara! Nós só podemos seguir em frente... — murmurou consigo mesmo, lutando ele próprio contra o novelo em sua garganta. — Nós só podemos continuar.

Gaara fitou a pistola descarregada em suas mãos; eles estavam sozinhos e Kankuro tinha razão: se voltassem agora, sentenciariam Temari.

— Eu vou te proteger — Kankuro garantiu ao irmão caçula com um sorriso frágil. — Você se lembra de quando eu o protegia daqueles valentões na escola primária? De como eu os afugentava?

Relutantemente, o ruivo aquiesceu, memorando outros tempos, quase uma vida inteira atrás. Revivê-los era como adentrar a um pesadelo: a ausência da mãe, o vício autodestrutivo do pai que o consumiu lentamente ano após ano — e consumiu seus filhos consequentemente. Os três irmãos cresceram juntos e unidos e no fim só tinham uns aos outros.

— Vamos em frente — Gaara declarou de súbito, fitando a autoestrada através do para-brisa sujo do Army-M939.

Dito isso, Kankuro soltou um suspiro antes de trocar a marcha e pisar fundo no acelerador, aproximando-se perigosamente do caminhão que seguia vários metros à frente.

— Você se lembra do que o papai nos prometia nos raros momentos em que ficava sóbrio o bastante para se lembrar de que tinha uma família?

Gaara fechou os olhos por um momento e encaixou um novo pente em sua Taurus, puxando a trava de segurança com uma determinação fria:

— Nós ficaremos bem, é o que ele sempre dizia — deu de ombros ao final, como se não mais se importasse com as promessas vazias do pai (havia aprendido a deixar de se importar com os anos).

— Nós ficaremos bem — Kankuro ecoou as palavras do irmão, fixando os olhos na pista e enfim deixando que aquela falsa sensação de tranquilidade e bem-estar se fosse.

E quando ela se foi por completo, não lhe restou mais nada exceto o vazio abissal do medo e do desespero.

* * *

Mantenha os seus olhos fechados

Fique perto de mim

Eu não quero que outro dia alvoreça.

Fink — Trecho de Warm Shadow.

Notas finais
Eu honestamente espero que ninguém já queira a minha cabeça em uma bandeja de prata porque, sendo sincera, eu estou apenas começando! HAHAHAHA Como estão as apostas de quem vive e quem morre? Nos próximos capítulos teremos novos vilões; algum palpite de quem serão? ... E então? Preparados para o retorno de TWD amanhã? O Sr. Kirkman já nos adiantou que o episódio de amanhã será diferente do que a série já mostrou, será brutal e nós, fãs, o odiaremos... AI, MEU DEUS, COMO ELE FAZ ISSO COMIGO?! T_T ... Enfim, estou acabando o livro A Queda do Governador - Parte II e *spoilers* AHH MEU PAI, a morte do Governador foi muito mais épica nos livros e quadrinhos! Eu gritei um "Jesus, me acuda" nessa hora HAHAHAHA Desde que li os livros nunca mais consegui detestar o Brian/Philip/Governador :c Mas sim eu odeio a Lilly U_U ... Qualquer erro de digitação, me perdoem, digitei esse cap. quase todinho hoje e minha vista já está até embaralhando T_T Espero pelos reviews (e espero que não queiram o meu couro também HAHAHAHA). Até o próximo!