Notas iniciais
13° capítulo. Boa leitura!

Dead World Assembly

“Conforme se afastam dali, todos eles — inclusive Penny — olham pelo espelho retrovisor para a pequena placa que vai ficando à distância: TODOS ESTÃO MORTOS. NÃO ENTRE.

KIRMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 57).

Capítulo XIII:

Memento Mori

A lâmina da machadinha atingiu a parte posterior da cabeça do morto-vivo num golpe violento; uma rajada úmida e amorfa de odor rançoso e pútrido esvoaçou — por pouco alígera — pelo ar, espalhando-se feito um borrão de tinta enquanto o gume afiado penetrava na carne esponjosa do cérebro, abrindo caminho através do crânio estilhaçado.

Lascas do osso podre explodiram como recortes de um espelho destruído por um punho portentoso. O borrifo de sangue arterial manchou o papel de parede que algum dia havia sido creme, aterrissou nas tábuas do assoalho como gotas de chuva e respingou na camiseta cinza de Sasuke em formato de pequenas lágrimas.

O errante, cujo rosto carcomido havia se franzido, repuxando as tiras finas de pele que ainda o recobriam, silvou em protesto. Os olhos grandes como bolas de gude luziram como as asas de um inseto um pouco antes de apagarem-se, mas a boca malcheirosa ainda se movia em um lamento silencioso quando Sasuke, cerrando os dentes, apoiou um dos pés na base das costas do morto-vivo, enquanto que com as mãos tentava remover a machadinha da parte de trás da cabeça deformada, puxando-a com força a partir da extremidade do cabo longo e fino.

Quando obteve êxito em desprender a lâmina aguda, o cadáver dobrou-se para frente com violência, tombando como um monumento antigo no assoalho empoeirado. O sangue continuou a vazar da fenda aberta, empoçando como uma mancha negra de óleo perto do tapete branco felpudo. Uma baba escura escorreu do canto da boca morta, para sempre escancarada.

Sakura, que havia servido de isca para atrair o errante para a posição correta, ainda segurava firme a enorme faca de cozinha diante do corpo. Também olhava fixamente para o cadáver agora imóvel no chão. Com este abatido, somavam-se quatro. Um dia haviam sido uma família e deveriam ter sido mordidos e transformados uns pelos outros, a julgar pelo estado lastimável do apartamento.

Aquele, algum dia, foi o chefe do lar; podia-se afirmar isso pelo terno escuro que vestia e pelos sapatos de couro legítimo que calçava, além da aliança fina presa no seu podre dedo anular. A mãe e as duas crianças jaziam no outro cômodo, estendidos no chão da mesma maneira, seus crânios abertos lançavam um odor quase impossível de se suportar.

— E este — Sasuke murmurou, de cócoras, limpando a lâmina da machadinha com um pedaço da calça do errante — foi o último dos cabeças podres.

— Espero que você esteja certo — Sakura suspirou, relaxando a postura pela primeira vez e baixando a faca.

Em seguida estudou o quarto de casal aparentemente liberto da presença dos mortos vivos; as janelas estavam obstruídas tanto pelo entulho acumulado de móveis empilhados e quebrados como pelas densas cortinas de veludo escuras. Havia caixas de papelão reviradas pelo chão, sugerindo que a família tentou uma fuga às pressas — mas que foi interrompida por algo ou alguém.

O colchão da cama estava terrivelmente sujo, tanto de sangue quanto de secreções de errantes, a fina colcha de renda pendia em tiras e os travesseiros foram todos atirados no chão. Ainda, pálidos fachos de luz vespertina penetravam nas entranhas frias do cômodo, roçando a superfície empoeirada da mobília e empalidecendo as nódoas de sujeira.

Sakura atirou-se com um pouco de empolgação em direção ao roupeiro, imediatamente começando a revirá-lo, remexendo nas peças de roupa que se avolumavam em suas mãos. Sasuke já a pegara inspecionando o cadáver da errante lá na sala de estar e sabia quão entusiasmada ela estava com a possibilidade de se livrar das roupas dele.

— Vou dar uma olhada nos armários da cozinha — ele indicou o cômodo com a machadinha, além do umbral da porta estreita que dava para um pequeno corredor, e Sakura assentiu.

Ela suspirou quando percebeu que estava sozinha no cômodo parcamente iluminado. Tinha nas mãos agora uma calça jeans desbotada, e, colocando-a diante dos quadris, virou-se diante do espelho ovalado, franzindo de leve a boca rosada e averiguando se a peça serviria em seu corpo. Sem conseguir esperar mais, ela apanhou a mochila que trouxera e enfiou a calça lá dentro. Separou também algumas camisetas de algodão, uma jaqueta de couro sintético e alguns shorts de tactel, certamente não recomendados para uma súbita e eventual necessidade de fuga, mas ela achou que seriam confortáveis o bastante para dormir.

Era estranho furtar peças de roupas de uma pessoa morta, mas Sakura achou justo que se a proprietária dos objetos não pudesse mais reclamá-los, então teria a bondade de cedê-los a outrem que deles necessitasse. Na verdade ela estava maravilhada porque encontrou uma escova de cabelo quase nova sobre a mesinha da cabeceira, uma embalagem de pilhas, uma cartela de chicletes sabor menta e um frasco de analgésico.

Movendo-se para a suíte do quarto do casal, ela estacou diante do espelho da pia e abriu o armarinho, instantaneamente começou a esmiuçar seu conteúdo. Achou fio-dental, mais frascos de remédios, mas estes ela não soube identificar para quê serviriam, um frasco de xampu quase cheio, grampos para cabelo e um pacote de absorventes — que ela agradeceu grandemente por ter encontrado.

Sakura enfiou tudo dentro da mochila e voltou para o quarto, lutando contra o fecho do zíper. Foi até a cozinha e encontrou Sasuke avaliando a data de validade de alguns alimentos enlatados. Não haviam tido muita sorte naquele último apartamento, no sexto andar. A maior parte dos alimentos já havia vencido e a outra parte havia sido furtada por outros visitantes há mais tempo. Conseguiram salvar apenas um pacote de macarrão triturado e algumas latas de legumes e carne diversificados.

Ele colocou ambas as latas dentro da caixa de papelão com o restante dos mantimentos.

— Acho que isso é tudo — declarou e a insatisfação não passou despercebida no seu tom de voz.

Sasuke consultou o relógio em seu pulso direito e concluiu que eles haviam gasto toda a manhã e parte da tarde para limpar os apartamentos restantes. Apesar de agora se sentir relativamente mais seguro, sabendo que eles estavam limpos dos errantes, os poucos mantimentos e objetos que conseguiram encontrar o deixaram sutilmente incomodado. Em breve, eles teriam de procurar suprimentos fora do condomínio — essa possibilidade ainda o inquietava um pouco.

— Nesse caso, podemos voltar já? Estou faminta, cansada e coberta de secreções nojentas da cabeça aos pés. — Sakura apertou a mochila contra o corpo e achou que seu peso era reconfortante. — Estou desesperada por um banho! — E, sorrindo, indicou o embrulho contido em seus braços: — Achei alguns sabonetes e um frasco de xampu quase cheio.

— Prerrogativas... Elas ainda nos seduzem, não é? — Sasuke escarneceu, torcendo a boca em um sorriso cínico. — Certamente mais do que antes.

Sakura fez-lhe uma careta e eles deixaram o apartamento. No cômputo geral, seguiram a rotina normalmente, vez por outra trocando farpas e tecendo comentários carregados de sarcasmo. Sakura adorou a sensação de se sentir verdadeiramente limpa depois de semanas se limitando a banhos incompletos. Além disso, seu cabelo agora tinha um aspecto mais natural e aceitável do que a palha ressecada que parecera ultimamente.

Sasuke demorava-se no banho quando ela bateu à porta com os nós dos dedos, anunciando com empolgação:

— Vou até à lavanderia coletiva!

Ela o escutou grunhir uma aprovação por cima do barulho do chuveiro e desceu os degraus de metal com o cesto de roupas entre os braços. O céu chumbo contrastava covardemente com o esplendor verdejante do gramado que crescia sem controle nos jardins frontais do condomínio e o vento ruía de encontro às sólidas edificações, precedendo o aroma delicado das chuvas de outono.

Por vezes, Sakura sentiu falta daquele aroma tão fresco e conhecido. Mas, ao que parecia — e as nuvens escuras sugeriam —, esta não seria uma das chuvas típicas de outono, e, sim, uma tempestade sem precedentes.

Lá fora, o vento grudou os fios ainda meio úmidos do cabelo de Sakura, colando-os em sua testa e na pele fina do seu pescoço. Mesmo assim, o mau tempo não minorou o entusiasmo dela em lavar as peças de roupa que havia encontrado mais cedo. Há tanto tempo ela não sentia a textura de uma calça jeans, e sentia falta da sensação contra a sua pele.

O caminho de cascalhos estrepitou sob o solado de seus coturnos e o ar dentro da lavanderia coletiva estava mais quente em relação ao exterior e também estava inquietantemente silencioso. Ali, longe dos sibilos intrépidos do vento, ela procurou se entregar aos afazeres. Havia uma caixa de sabão em pó em cima de uma lavadora meio enferrujada e uma barra de sabão um pouco gasta.

Enquanto enchia uma bacia razoavelmente funda com água e mergulhava uma a uma as peças, acabou por se lembrar de que esquecera uma camiseta que havia usado para dormir no quarto. Ela girou sobre os calcanhares, cantarolando baixinho enquanto seguia o trajeto de volta ao apartamento, no entanto, seu corpo enrijeceu quando o bico de seu coturno chutou algo macio em meio aos cascalhos irregulares.

Seguindo a trajetória da coisa, viu-a rolar pelas pedras cinza-claro antes de estacar, imóvel e amorfo. Havia uma trilha de sangue entre as pedrinhas, como respingos de chuva, além de pequenas tripas rosadas, finas como fios de barbante e ainda úmidas. O pequeno cadáver jazia aberto, repousado de lado, com as patas encolhidas e retesadas, e o pescoço terminava abruptamente em um espaço vazio, rodeado por bordas irregulares e ensanguentadas.

Sakura nunca soube por que ficou ali, observando a imensa ratazana que havia sido obviamente atacada e devorada por um errante, mas ela tampouco fez menção de mover-se dali. Ela tinha certeza de que não havia visto aquela ratazana enquanto se encaminhava para a lavanderia...

Um calafrio violento na espinha a despertou; pondo-a imediatamente em alerta, os músculos do seu corpo se retesaram e seus olhos esmiuçaram as imediações: das pilastras de concreto que sustentavam um imenso estacionamento coberto, ao gramado alto que a ladeava, e em seguida a um entroncamento, a talvez uns vinte e cinco metros, onde uma gigantesca pilastra do estacionamento e a parede sul da lavanderia se encontravam, as reentrâncias acomodando ambas as estruturas de forma confortável.

Sakura lentamente desembainhou a faca de cozinha que levara até ali e tentou distribuir o peso dos passos nos pés de forma que os cascalhos não se avultassem sob ela. Na esquina, ela mordiscou os lábios e pôs a lâmina afiada diante do rosto, sentindo sua frieza contra a pele da face interna de seu pulso e antebraço. Sua respiração adensou-se conforme ela contava os passos finais para dobrar o entroncamento.

E então ela estava sob um crepúsculo violeta, proporcionado pelo teto espesso do estacionamento e suas vigas impenetráveis, entre carros diversificados e tão abandonados quanto velharias. Seus coturnos abafavam o som de seus passos trêmulos sobre o concreto e em seu íntimo ela se perguntava se devia voltar e pedir ajuda a Sasuke.

A ratazana bem podia não significar nada, mas ela não seria leniente, não com o peso do fim do mundo envergando suas costas.

Sakura deslizou através dos automóveis abandonados, com a faca ainda em punho e um suor frio escorrendo pela sua nuca.

Ela abaixou-se lentamente, encostando ambos os joelhos e as palmas das mãos no chão, e espiou por baixo de um March preto cujos vidros dianteiros haviam sido completamente estilhaçados. Os sons já a haviam alertado, mas, mesmo assim, o que viu a deixou emudecida de pavor, com o hálito frio do medo baforando em sua nuca.

Sakura tapou a boca com a mão livre para se impedir de emitir qualquer som enquanto, do outro lado do estacionamento, e depois de uma fileira de carros, um errante alimentava-se de outra ratazana rechonchuda.

Sasuke precisava saber disso. Mas como eles haviam entrado? E quando?, sua mente atirava com desespero nas paredes ocas dentro da sua cabeça, açambarcando seus pensamentos e pondo-a em um modo automático de defesa. O condomínio não estava completamente selado?, ela se perguntava.

Com lágrimas quentes de medo correndo pelo rosto, ela levantou-se num sobressalto, ordenando a seus membros que não fraquejassem agora. Ela sabia que seria uma questão de tempo até que o errante fosse atraído pelo cheiro dela, então não economizou forças para mover os pés um diante do outro e fugir.

Entretanto, mal se virou antes que um errante a surpreendesse, clamando-a para dentro do enlace pútrido de seus braços mortos. O cheiro forte e nauseante golpeou-a com a potência de um soco na boca do seu estômago e os dedos sujos se estenderam em direção a ela.

Sakura engoliu um grito esbaforido e, sem conseguir pensar direito mas agindo por instinto, levou a faca até o rosto do morto-vivo, até que seus olhos de tubarão refletissem o brilho da lâmina, e, então, ela a cravou, fundo, e com força no centro da testa da criatura.

O errante, um homem maltrapilho e vestido apenas de farrapos ensanguentados cambaleou para trás, grunhindo sons guturais num dialeto irreconhecível; a boca podre abriu e se fechou antes que ele desabasse no concreto. Mas a essa altura, o outro errante havia sido arrebatado pela comoção e largara sua refeição ainda não terminada, arrastando seus pés no chão frio e gemendo sem cessar.

Sakura abaixou-se até que o automóvel conseguisse ocultá-la e volteou-o para tentar evitar a abordagem do segundo errante. As palmas de suas mãos estavam pegajosas de suor e seu coração martelava dolorosamente suas costelas, como se buscasse rasgar seu peito. Ela sabia que o menor ruído atrairia a criatura, sabia que a criatura captaria seu odor mais cedo ou mais tarde, e agora a sua única arma estava enterrada na testa do errante caído no chão.

Cerrando os olhos, ela procurou se acalmar e tentar encontrar uma saída de lá. Sakura não queria levar o errante até o apartamento, mas estava ficando sem escolha. Respirando fundo, ela espiou novamente através da janela do passageiro, mas não encontrou o segundo morto-vivo. Antes que conseguisse se desesperar, contudo, sentiu um agarre firme fechar-se em torno do seu tornozelo e puxá-la para baixo.

Desta vez, uma exclamação espavorida escapou de sua boca enquanto seu corpo cedia sob o puxão inesperado e insistente, enviando-a de costas ao chão. Sakura tentou reagir, ordenando a si mesma que contra-atacasse, mas o medo era um adversário temível demais para se combater.

Ela tentou inutilmente puxar seu tornozelo do agarre do morto-vivo que se arrastava debaixo do automóvel e grunhia e rosnava, expondo uma fileira de dentes podres e tortos como lápides negras e antigas. Então, flectindo o joelho, ela golpeou a cabeça do errante com o calcanhar, atordoando-o o suficiente para que o enlace em seu tornozelo se afrouxasse.

Libertando-se de seu captor, Sakura arrastou-se pelo concreto frio, não registrando nem ao menos a ardência em seus cotovelos por havê-los esfolado no processo. O errante, por outro lado, não desistiu e a perseguiu, arrastando-se de bruços pelo chão com a flexibilidade de uma serpente.

O maxilar abria e se fechava, os dentes batiam uns contra os outros e os punhos podres procuravam agarrá-la novamente. Sakura vasculhou em derredor, à procura de qualquer coisa afiada que pudesse usar para se defender, mas nada além de seus chutes pareciam atordoar a criatura por tempo suficiente.

Num golpe inesperadamente violento, a sola de seu coturno se afundou no rosto do errante, deformando-o e arrancando pedaços de pele podres enquanto uma baba negra escorria da boca do morto e pingava no chão como piche. Um olho mucoso, quase do tamanho de uma bola de pingue-pongue desprendeu da órbita e ficou pendurado por alguns centímetros de músculos.

Sakura cerrou os dentes quando as mãos da criatura tornaram a envolver uma de suas pernas e a cabeça dela inclinou-se para trás, a boca aberta como a de um crocodilo cujo bote será certeiro. Antes de sentir a dor, no entanto, uma sombra alta e esguia avultou-se acima dela e do errante.

No instante posterior, Sasuke removia a coisa de cima de Sakura, liberando-a do agarre, ao mesmo tempo em que as mãos dele se fechavam em torno do casaco esfarrapado que o errante usava, alçando-o por ele e atirando-o com violência contra o chão áspero.

O morto-vivo grunhiu em protesto, batendo os dentes uns contra os outros, enquanto o rapaz montava sobre ele, imobilizando-o e começando a esmurrá-lo na face de um jeito que apavorou Sakura. Ela tentou contar as vezes em que o punho dele chocou-se violentamente contra o rosto do errante, mas perdeu a conta.

Tudo o que sabia era que seu corpo se retraía a cada golpe desferido, a cada pancada úmida e pegajosa que ouvia, a cada vez que o sangue negro respingava na camiseta de Sasuke.

Ele não parou até que o crânio do errante se abrisse sob seus punhos. Não parou até que ela gritasse e pedisse a ele para fazê-lo, enquanto tecido e cérebro escorriam pelo concreto sem parar e a forma amorfa diante dele se tornasse imóvel.

Sasuke não parou até que ouviu os primeiros soluços de Sakura e, por fim, o seu choro.

E então tinha começado a chover.

* * *

Eu empurro os meus dedos para dentro dos meus olhos

É a única coisa que lentamente estanca a minha dor.

Slipknot — Trecho de Duality.

Notas finais
Perdão pela demora em atualizar, mas fiquei travada nesse capítulo nessas duas semanas e foi com dificuldade que consegui finalizá-lo ontem. Vou tentar voltar com as postagens semanais. Obrigada pelos leitores que aguardaram pacientemente e que também puxaram a minha orelha com as MP's. :) ... Alguém assistiu os novos trailers da segunda parte da 4ª temporada de TWD? Eu sofri com a Michonne chorando... ... Enfim, responderei os reviews assim que eu puder. Até o próximo.