Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
55 Capítulo LIV: A Estrada do Declínio e da Degradação
Notas iniciais
Dead World Assembly
“— Nós temos que ficar juntos — diz Philip, sem muita convicção. Só fala porque não sabe mais o que dizer”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 152).
Capítulo LIV:
A Estrada do Declínio e da Degradação
* * *
Sasuke apanhou o bocal do rádio-comunicador das mãos de Kabuto um tanto incerto. Podia dizer até que seus dedos frios tremiam de leve quando se enrolaram com força em torno do objeto. Sakura o ajudou a se mover para a beirada do colchão, para mais perto do aparelho, e o biomédico lhe deu espaço.
Ao aproximá-lo dos lábios entreabertos, hesitou. Não sabia o que dizer. Pela primeira vez em muito tempo as palavras lhe escapavam. Deveria lhe dar uma saudação? Deveria enchê-lo de perguntas? Seus olhos ardiam pelas lágrimas não derramadas. Seu irmão estava vivo. Seu irmão se encontrava do outro lado daquele canal de comunicação.
Por fim, Sasuke lambeu os lábios secos e encontrou sua própria voz:
— Itachi.
Não passou de um sussurro alquebrado, estilhaçado pelas emoções beligerantes que punham seus nervos em frangalhos. E, no entanto, era tudo o que poderia — que conseguiria — dizer no momento.
Sasuke ouviu uma exalação profunda. Podia até mesmo imaginá-lo agora: suas feições um tanto cansadas e desgastadas, o modo como ele sempre afastava o cabelo dos olhos de vez em quando ou a forma como esfregava o rosto para disfarçar alguma emoção.
— Sasuke — Itachi o cumprimentou no mesmo timbre fragilizado; já fazia muito tempo. — Irmãozinho, me diga como você está? Você está bem, não está?
Sasuke relutou com as palavras novamente. A alegria que sentia entrava em conflito com a frustração de não poder abraçar seu irmão, de não tê-lo presente fisicamente. Apenas ouvir sua voz torturava-o de uma forma que não achou ser possível. Ele fungou, estava perdendo o controle sobre suas emoções.
— Eu estou bem — murmurou apressado, querendo mais do que tudo tranquilizar o irmão. — Agora eu estou bem, Itachi.
Quando seu tom de voz falhou mais um pouco, Sasuke sentiu o toque reconfortante de Sakura no seu ombro. Ele a agradeceu mentalmente enquanto retomava o fôlego. O ar que inalava pesava-lhe o peito. Os dedos dela massagearam os pontos tensos no seu ombro, procurando relaxá-los. Sasuke suspirou enquanto esperava pela réplica de Itachi.
— Sasuke, merda, eu nem consigo dizer o quanto estou aliviado por ouvir sua voz e saber que está bem.
— Digo o mesmo — respondeu com mais confiança, um sorriso se espalhava pelos seus lábios.
Itachi ficou em silêncio por um tempo depois disso. Por algum motivo, quase como se pudesse prever suas próximas palavras, o coração de Sasuke passou a lhe socar as costelas com força.
— Sasuke... — Houve uma pausa, outra exalação profunda. Itachi estava hesitando e isso não era bom. — O fato de você estar sozinho significa que o papai e a mamãe...
Sasuke por pouco não entrou em desespero. Seu primeiro reflexo foi quase soltar o bocal do aparelho, como se fosse uma cobra venenosa em suas mãos. Cerrando os dentes, não o fez. Encararia Itachi, mesmo que ele jamais o perdoasse por sua falha.
— Itachi, nós vamos conversar quando estivermos cara a cara.
— Tudo bem. — Seu irmão acatou sua decisão com um suspiro pesado que causou arrepios de medo na espinha de Sasuke. Não seria covarde, contaria a verdade para Itachi, ele não merecia nada menos do que isso. Apenas precisava se preparar para isso primeiro, precisava olhar nos olhos do irmão quando lhe pedisse perdão.
Sasuke podia sentir o olhar apreensivo e preocupado de Sakura sondando seu rosto, à procura de um sinal de ruptura certamente, algum indício de que ele desabaria. A mão livre dele se enterrou nos lençóis, apertando-o no seu punho.
— Escuta, Sasuke, eu tenho que fazer os preparativos para a viagem. Eu estou a caminho, irmãozinho. Aguente só mais um pouco. Estou chegando com a ajuda — declarou e Sasuke podia sentir a afeição em cada palavra dita. — Eu entrarei em contato de novo, mais tarde. Espere por mim, Sasuke.
— Eu vou esperar — afirmou sem qualquer hesitação ou dúvida.
Itachi interrompeu a comunicação em seguida e Sasuke muito relutantemente se desfez do aparelho, devolvendo-o a Kabuto, que o olhava de cima, de pé diante da cama.
Sasuke apertou uma mão na têmpora latejante, depois a usou para cobrir seus olhos — e consequentemente suas emoções dos demais. Sakura notou isso, é claro, e mais que depressa o puxou de volta para o meio da cama e para os seus braços, deixando que ele escondesse o rosto no seu peito.
Lançou um olhar arisco a Kabuto, que deu de ombros e entendeu perfeitamente a mensagem. Contornou a cama para sair do quarto e deixá-los a sós com sua privacidade. Não queria se intrometer em assuntos complicados de família de qualquer forma.
A forma como Sasuke se encolheu e procurou se esconder nos seus braços assemelhava-se a uma criança em busca de consolo. Sakura beijou o topo de sua cabeça e afagou os grossos cabelos pretos. Recostou-se à cabeceira da cama e esperou que ele se acalmasse. Sabia que suas emoções deveriam ter sido levadas ao limite nos últimos minutos, daria a ele o tempo que precisasse para se recompor.
Felizmente, ele não chorou, embora Sakura tivesse certeza de que chegou perto disso em vários momentos. O silêncio os abarcou muito cedo, mas ele ainda não a havia soltado quando o ritmo de sua respiração normalizou. Ela corria os dedos pelos cabelos e pelas costas dele, ansiando confortá-lo. Voltou a beijar-lhe o couro cabeludo.
Sasuke, por fim, quebrou o silêncio com uma constatação tão sombria e amarga que tais palavras pesaram até mesmo em Sakura:
— Ele não vai me perdoar pelo que eu fiz, Sakura. Ele nunca vai me perdoar.
Ignorando o aperto em seu peito, ela esfregou o queixo no topo da cabeça dele.
— É claro que ele vai. Ele é seu irmão e ele te ama mais do que tudo, Sasuke.
Uma risada curta foi abafada contra a camiseta dela.
— Como ele pode me perdoar, Sakura? Não cuidei da nossa mãe como deveria. Permiti que ela fosse mordida e que se transformasse. E não fiz nada para me opor ao meu pai quando ele decidiu mantê-la atada em correntes e alimentá-la com os nossos vizinhos. Não até que fosse tarde demais. Eu sou um medroso de merda, Sakura.
— Não, você não é — ela o contrapôs com calma, ainda afagando seu cabelo. — É preciso coragem para fazer o que você fez. Para tomar a decisão que você tomou.
— Como vou encará-lo sabendo que falhei em cuidar da nossa família? Eu odiava meu pai, mas nunca quis que as coisas chegassem ao ponto em que chegaram.
Sakura afastou uma mecha de cabelo comprida dos olhos cerrados dele.
— Você vai encará-lo sabendo que fez tudo o que podia, Sasuke, e nada menos do que isso. Acha que não me culpo pela morte de Ino também? Eu me responsabilizo por não ter conseguido salvá-la até hoje. Mas eu tenho certeza de que ela jamais iria querer que eu me martirizasse por isso. Não se torture pelo que houve, por coisas que você não pôde controlar, isso só vai te fazer mal. Encontre uma forma de se perdoar e de seguir em frente.
— Não sei se posso — admitiu num murmúrio compungido que arrancou um suspiro de Sakura.
— Estou aqui com você — ela se pegou dizendo, pois era tudo o que lhe vinha
à cabeça no momento: — Eu sempre vou estar contigo, Sasuke.
Não sabia se eram as palavras certas, mas talvez fossem as palavras que fizessem diferença, que importassem para ele. Sem pressa, voltou a pressionar os lábios no cabelo dele e correu os dedos pelas linhas fortes das costas masculinas.
Quando percebeu que ele pegou no sono com o rosto ainda apoiado nos seus seios, permaneceu na mesma posição. Ele ainda estava se recuperando, afinal. E precisaria de todo o descanso que conseguisse para os próximos e decisivos dias.
Se o vento que assobiava fino no vidro da janela, por trás das persianas grossas e cerradas, era uma indicação de que grandes mudanças estavam a caminho, então Sakura pressentia que todos precisavam estar em boa forma para recebê-las.
* * *
Itachi correu de volta para o hotel enquanto o vento frio lhe fustigava os ossos mais uma vez. Tinha boas novas para compartilhar com todos e foi exatamente o que tratou de pedir que fizessem em poucos minutos: que se reunissem no refeitório do hotel.
Finalmente, ele se postou diante de todos com um semblante sério, mesmo que as marcas do cansaço houvessem suavizado desde a última vez que se reuniu com seu grupo. Pelo canto do olho, à sua esquerda, localizou os dois irmãos, Temari e Gaara. À sua frente estava Naruto e as duas irmãs Hinata e Hanabi. À sua direita, Deidara e outros dos homens em quem ele confiava.
E espalhados entre aquelas pessoas estavam outras cujas vidas ele havia salvado, protegido nesses últimos meses. Contavam com ele como líder e murmuravam uns com os outros agora, inquietos pela súbita intimação de comparecerem ali, todos reunidos.
Exalou demoradamente, ele próprio ainda custava a digerir as boas novas que tinha para partilhar com todos. Finalmente, fixou o olhar em algum ponto à sua frente, já podia vê-lo na verdade: o caminho que o levaria até Sasuke, uma estrada que serpenteava além da sua imaginação com obstáculos indizíveis. Itachi não tinha dúvidas de que esmagaria tudo para chegar ao irmão.
— Fiz contato com o cientista agora pouco — disse ele para o pequeno grupo, calando um a um os murmúrios, atraindo a atenção de todos. — O cientista que procuramos há semanas nos contatou pelo rádio-comunicador e nós já temos a sua localização.
O arquejar agudo proveio de Temari cujos olhos estavam arregalados de surpresa agora e seu rosto havia se tornado lívido como uma folha de papel. Gaara a apoiou, tocando-a no ombro.
— Isso é sério, Itachi? — A voz estrídula de Naruto soando alta no refeitório fê-lo fitá-lo; ele estava sorrindo.
— Sim — Itachi anuiu sisudamente. — Ele está em Settsu, a noroeste de onde estamos e a cerca de meio dia de viagem. Quero organizar um grupo de busca para vir comigo. Nós partiremos amanhã antes do sol nascer.
— Eu ‘tô dentro com certeza! — Naruto foi o primeiro a se manifestar, levantando uma mão. — Pode contar comigo, Itachi.
— Comigo também — Deidara foi o próximo a se voluntariar e Itachi sabia que isso tinha pouco a ver com o futuro da humanidade ou qualquer merda parecida; Deidara apenas queria se divertir um pouco e via nessa expedição sua chance.
Mais um homem jovem levantou uma mão, de pele bronzeada e cabelos castanho-escuros espetados. Se não estava enganado ele se chamava Kiba e estava sempre na companhia de outro, recluso, que se escondia sob o capuz do seu casaco e um par de óculos escuros chamado Shino.
— E quanto ao restante de nós? O que faremos? Vamos esperá-los voltarem com o tal cientista aqui?
Itachi gesticulou para que ele aguardasse um momento. Precisava definir os pormenores do seu plano. Deixar tantos civis agrupados ali por muito tempo poderia não se provar uma decisão sábia. Então, fitou o homem jovem com serenidade:
— Por favor, me deixe decidir todo o plano primeiramente, então eu responderei sua pergunta mais tarde.
Não foi o bastante para apaziguar seus temores, mas ao menos os silenciou por ora. Em seguida, Itachi dispensou a todos, alegando que estudaria todas as possibilidades agora, mas antes sinalizou para que Naruto o acompanhasse. Mesmo aturdido, ele o acatou, afirmando à Hinata que a encontraria depois.
Não questionou o homem mais velho mesmo quando ele o levou até um recanto afastado do refeitório onde ambos não seriam notados e muito menos ouvidos, exceto por Deidara que os encarava discretamente de longe.
— Aconteceu alguma coisa, Itachi? Há quanto tempo o cientista entrou em contato conosco exatamente?
— Tem algo que preciso dizer a você, Naruto — Itachi o interrompeu, ignorando sua pergunta; Naruto estranhou, mas não disse nada, apenas anuiu.
Itachi inspirou longamente, exalando o ar devagar, o que era ainda mais atípico do seu comportamento. Em meses convivendo diariamente com ele, Naruto quase nunca o havia visto tão ansioso ou prestes a perder a compostura. Embora sua expressão permanecesse serena, eram seus olhos e gestos agitados que destoavam.
— O cientista que nos contatou, que alega possuir a cura para essa doença, não estava sozinho.
— Há mais pessoas com ele então? Essa é a razão da sua inquietação?
— Em parte, sim — Itachi assentiu, escolhendo cuidadosamente as palavras. — Mas não quaisquer pessoas. — Depois de mais uma pausa dramática que enchia cada microssegundo com uma expectativa nauseante, ele complementou com um sorriso ínfimo: — Sasuke está com ele, Naruto.
A primeira emoção a cruzar o rosto de Naruto foi sem dúvida o choque. Seu rosto comumente expressivo sempre o denotava, não permitia que escondesse suas emoções. Sua boca escancarada falhava em formar qualquer som até que ele se recompusesse.
— O S-Sasuke? Ele está com o cientista? Itachi, caralho, você tem certeza disso?!
Itachi anuiu com outro sorriso discreto, divertindo-se em segredo com a reação espalhafatosa de Naruto, exatamente a reação que esperava dele.
— Puta que pariu, Itachi, e ele está bem?!
— Aparentemente sim. Conversei um pouco com ele.
— Ah, merda! Agora eu vou com você a Settsu de qualquer maneira, está me ouvindo?! Não aceito não como resposta! Preciso chutar o traseiro daquele bastardo por ter demorado tanto tempo para nos encontrar! — Naruto discorria interminavelmente sobre o que faria assim que visse Sasuke, levando as mãos até o cabelo para ora segurá-lo ora bagunçá-lo ainda mais, e Itachi não conseguia evitar se divertir com toda a situação.
— Eu farei contato com eles novamente mais tarde, para discutirmos todos os detalhes do meu plano.
— Merda, eu tenho que estar presente da próxima vez, está me ouvindo?! Eu tenho que ouvir a voz daquele filho da mãe para acreditar que ele realmente está vivo e bem!
Naruto parou, de repente, abaixando as mãos e encarando Itachi com uma expressão angustiada.
— Itachi, ele está com os seus pais?
Naruto pressentiu o pior quando o moreno desviou o olhar e abaixou a fronte, parecendo-lhe derrotado e até resignado com o inevitável. Ponderou pedir desculpas a Itachi, mas não sabia exatamente pelo quê. Tampouco sabia quais palavras seriam mais adequadas ao momento.
— Acho que preciso começar a lidar com o pior cenário imaginável desde já — ele se justificou, esfregando as pálpebras fechadas com as pontas dos dedos. — De qualquer forma, nós conversaremos melhor quando estivermos frente a frente.
— Acho que é o melhor a ser feito — Naruto aquiesceu, não sabendo o que mais poderia ser dito; o próprio Itachi parecia já estar conformado com o que ele mesmo chamou de “pior cenário imaginável”. Mesmo que o sentimento amargo do luto fosse difícil de digerir.
Pensou em estender a mão e tocar o ombro de Itachi, pensou em quais palavras poderiam, de alguma maneira, amenizar a dor que já ameaçava começar a consumi-lo, a dor que se tornaria mais real e mais palpável assim que ouvisse a verdade da boca de Sasuke.
Mas então percebeu que nada seria suficiente, não naquele momento. Não era dele que Itachi buscaria consolo. Não era com ele que buscava compartilhar o amargor daquele sentimento.
Não, essa pessoa que Itachi inconscientemente procurava estava em outra cidade agora, a milhas dali.
* * *
Sakura ajudou Sasuke a tirar a camiseta suja, sentindo como se estivesse despindo uma criança rabugenta que se recusava a trocar os curativos regularmente. Perguntou-se se deveria resistir ao impulso de provocá-lo com isso, mesmo que seu humor tivesse melhorado nas últimas horas: estava menos ansioso e deprimido com a perspectiva de reencontrar o irmão agora.
— Certo, vamos ver como está — ela murmurou mais para si mesma enquanto o empurrava contra a cabeceira da cama e contra os travesseiros empilhados; riu quando ouviu um bufo vindo dele.
Inspecionou o curativo feito com gaze e esparadrapo, retirando-o com cuidado para examinar os pontos que uniam a pele abaixo dele. O aspecto estava muito, muito melhor, sem qualquer sinal da infecção de dias atrás. Seus dedos tocaram a pele ao redor, testando sua consistência e temperatura. De fato, estava tudo normal, concluiu com evidente alívio.
— Está cicatrizando muito bem e mais rápido do que eu esperava. Mais alguns dias e talvez possamos retirar os pontos — ela disse a Sasuke que já apanhava sua camiseta de volta para vesti-la assim que fizesse um curativo novo.
O corte não havia sido grande coisa, de fato. E muito menos havia atingido qualquer órgão vital — Sasuke não se considerara uma pessoa de sorte até ali —, indicando que o pior já havia, de fato, passado.
— E a sua mão como está? — ele perguntou num tom monocórdio, indicando com a cabeça para o curativo na palma da mão direita dela.
— Bem melhor — assegurou, abrindo e fechando os dedos para mostrar a ele que as articulações não haviam sofrido qualquer dano.
Enquanto trabalhava no novo curativo para Sasuke, sentiu uma necessidade impreterível de continuar conversando. Achou que estivesse mais calmo depois de tudo, mas ele praticamente transpirava ansiedade através dos seus poros. Então, manteve um tom casual ao perguntá-lo:
— Já está quase anoitecendo. Seu irmão deve entrar em contato a qualquer momento.
— Hmm, eu sei.
— Está ansioso?
— De jeito nenhum — Sasuke negou prontamente com uma expressão emburrada e Sakura riu graciosamente da reticência dele.
Ela o ajudou a vestir a camiseta novamente quando colocou o curativo limpo e Kabuto entrou no quarto nesse momento. Talvez sua ansiedade aparente só não suplantasse a de Sasuke, que a negava insistentemente.
— Nada ainda? — ele perguntou aos dois ao focar o rádio-comunicador sobre a mesinha.
Sakura estava ciente de que o céu deveria estar escurecendo por trás das janelas cortinadas e definitivamente ela era a única a manter a calma nesse momento. Eles já tinham comido um pouco mais cedo, mas ela sabia que seria impossível fazer Sasuke se alimentar agora; a ansiedade dele não o permitiria.
Ela estava prestes a balançar a cabeça em negativa quando o aparelho emitiu um chiado alto e constante que encheu todo o cômodo. Três pares de olhos se voltaram para o objeto, mas apenas Kabuto se moveu para apanhar seu bocal, segurando-o com dedos rijos de tensão até que o chiado se tornou apenas um som ínfimo de fundo.
— QRA. Alguém na escuta?
— Aqui é o Kabuto. QAP.
Sakura viu que Sasuke se debruçou na direção do aparelho, piscando de olhos arregalados e vítreos a cada vez que ouvia a voz rouca e indiscutivelmente masculina soar do bocal.
— Cheguei a um consenso com meu grupo e já tracei um plano para buscá-los.
— Ótimo — Kabuto anuiu satisfeito, porém Itachi ainda não havia terminado.
— Porém tenho algumas exigências que preciso que vocês cumpram.
— Que exigências? — Kabuto recuou um pouco, desconfiado.
— Nada extravagante, eu prometo. Primeiro — ele explicou devagar, pausadamente, exigindo que os três prestassem atenção às instruções —, dividi o meu grupo em dois. Um deles irá comigo até Settsu para buscá-los. São homens em quem eu confio e Sasuke ficará contente em saber que Naruto irá comigo.
— Naruto?! — Sasuke pronunciou o nome baixinho com um misto de surpresa e diversão. — O imbecil esteve com o meu irmão esse tempo todo?!
Sakura afagou as costas dele, mas não as sentiu mais tensas; ele estava relaxado agora que ouvia novamente a voz do irmão. Itachi sem dúvida transmitia muita segurança e confiança ao irmão mais novo.
— E o que o segundo grupo fará? — Kabuto perguntou, interrompendo os pensamentos de Sakura.
— É aí que entra uma das minhas exigências — Itachi explicou, mas estava reticente. — A primeira delas é que vocês me encontrem na entrada da cidade amanhã. Eu partirei com o meu grupo antes do sol nascer, portanto devo chegar aí no início da tarde. É importante que vocês já estejam lá quando eu chegar à Settsu.
Kabuto concordou. Era fácil. Eles só precisavam arrumar tudo o que haviam juntado nos últimos dias. Possuíam veículo e alguma gasolina ainda.
— Estaremos na entrada da cidade quando você chegar.
— Ótimo — Itachi assentiu e ficou em silêncio então, até que Kabuto o indagasse.
— E quanto à segunda exigência?
— Isso tem a ver com eu ter dividido o meu grupo em dois e eu preciso que confie em mim para me revelar algo, Kabuto Yakushi.
Apesar de estar incomodado com o peso das palavras, Kabuto não recuou.
— E o que seria?
Itachi hesitou antes de respondê-lo.
— Me diga onde escondeu a cura. Suponho que não a tenha com você no momento, estou enganado? Por favor, me corrija se eu estiver.
Sakura e Sasuke se entreolharam enquanto o biomédico hesitava em atender a segunda exigência, ponderando todos os prós e contras certamente. Eles sabiam como Kabuto havia relutado em revelar o local onde escondera a cura, certamente em Kyoto onde o helicóptero com a unidade que o transportava fez um pouso de emergência e onde ele fez contato com o grupo de Shikamaru pela primeira vez.
Tais eventos pareciam ter ocorrido toda uma vida atrás quando na verdade fazia, na verdade, pouco mais de uma semana.
Finalmente, Kabuto exalou profundamente e voltou a aproximar o aparelho da boca:
— Muito bem, eu direi onde escondi a cura. Escute bem, pois eu só direi isso uma vez.
— Certo — Itachi anuiu e uma aura soturna se apossou do restante da conversação enquanto os dois acertavam todos os detalhes finais.
Finalmente, Kabuto ofereceu o bocal a Sasuke, pois Itachi queria conversar com ele. Hesitante, ele o apanhou e se acomodou próximo ao aparelho, abrindo a boca ainda que som algum proviesse dela.
— Sasuke, como você está? — Foi Itachi a quebrar o silêncio entre ambos e Sasuke se sentiu aliviado pela pergunta boba, afinal eles haviam conversado fazia só algumas horas.
— Eu estou bem. E esperarei por você amanhã, Itachi.
— Sim, espere por mim, por favor. Nada vai me impedir de chegar até você amanhã, eu prometo.
Ele se sentiu mais leve com o peso dessa promessa, não obstante. Era um juramento praticamente. Itachi estaria a caminho amanhã, viria buscá-lo. Amanhã, antes do entardecer, eles estariam reunidos depois de meses de separação.
— Fique bem até lá, Sasuke — ele pediu com preocupação e Sasuke concordou.
— Nos vemos amanhã — ele disse, agarrando-se àquelas palavras, àquela promessa; era o seu bote salva-vidas.
— Sim, nos vemos. — Sasuke ouviu seu suspiro do outro lado do canal e apertou o aparelho entre os dedos. — QRT.
Relutantemente ele soltou o aparelho enquanto o ruído alto do chiado da estática era o único som mais uma vez a preencher as lacunas do cômodo e dos seus pensamentos. Sakura alisou as costas dele novamente e dessa vez sentiu os músculos tensos sob os seus dedos.
Kabuto se voltou para os dois com um ar de triunfo em seguida.
— Bem, façamos os preparativos então. Amanhã partiremos e, se tudo der certo, em breve estaremos a caminho de Kunashir.
Sakura por pouco não havia se esquecido de Kunashir e do que ela significava: a promessa de salvação para todos. Uma ilha tão ao norte de Hokkaido e atualmente sob o controle dos russos.
Um lugar onde eles supostamente encontrariam um tipo de paraíso perdido no mundo morto no qual haviam sobrevivido por tanto tempo.
O estirão final para todos eles, inclusive para Sasuke e Sakura, começava agora.
* * *
Acorde
E olhe para mim
Não se finja de morto
Pois talvez algum dia
Eu vá embora e diga:
Você me decepciona pra caralho
E talvez você esteja melhor desse jeito.
A Perfect Circle – Trecho de Passive.
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