Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
54 Capítulo LIII: Os Justificados e os Eleitos
Notas iniciais
Dead World Assembly
“A voz que vem de David Chalmers é grave e arrastada, como se fosse um motor de caminhão.
— O dia do Juízo Final se aproxima... O Impostor caminha entre nós.
Ele fica em silêncio, com a cabeça caída num lado do travesseiro, como se as ligações com o cérebro tivessem sido cortadas”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 150).
Capítulo LIII:
Os Justificados e os Eleitos
* * *
Temari acordou cedo, antes mesmo de o sol nascer naquele fim de madrugada insuportavelmente gelado.
Felizmente, ela havia conseguido desfrutar de uma boa noite de sono pela primeira vez em semanas e isso se devia ao fato de voltar a dormir num colchão de verdade, com quatro paredes ao seu redor e um teto sobre a cabeça. Na noite passada, eles haviam, por fim, parado em Hirakata, uma cidade a nordeste da prefeitura de Osaka devido à intensa nevasca que castigava a região e interrompera as buscas por Kabuto.
Estava um pouco escuro ainda quando ela puxou as cortinas que cobriam as imensas janelas-balcão do quarto de hotel que dividira com Gaara, revelando através do vidro sujo uma paisagem bizarramente etérea, com o famoso parque de Hirakata embranquecido pela neve, bem como a visão medonha da estrutura de ferro de uma imensa roda gigante abandonada ao fundo.
Haviam se escondido da nevasca intensa da noite anterior num hotel chamado Goen Lounge and Stay, a um quilômetro apenas do parque, e o utilizariam como base para reverem suas estratégias de busca — ela e Itachi, é claro, estava óbvio quem estava no comando ali e quem detinha a maior experiência no quesito de sobrevivência.
Suspirando, Temari olhou para trás; Gaara ainda dormia profundamente, esparramado sob os cobertores em uma das camas. Decidiu que ele merecia um pouco mais de descanso antes de sair do quarto com passos silenciosos. Fechou a porta com um sorriso ínfimo e um último relance suave para o irmão caçula.
Atravessou o corredor, ciente dos murmúrios e dos roncos leves por trás de outras portas cerradas e seguiu direto para as escadarias, descendo os degraus acarpetados até uma recepção que ainda conservava alguns ornamentos charmosos aqui e ali. De lá, dirigiu-se até o refeitório do hotel, bem ao lado, e notou a figura alta e insone de Itachi debruçada sobre uma das mesas.
Ao se aproximar, notou que ele observava fixamente algo estendido sobre a mesa. Ele a saudou com um sorriso pequeno e um leve aceno de cabeça. Itachi podia ser mais cordial do que o irmão, mas a escuridão nos olhos dele não era nem um pouco menos densa.
— Bom dia. Dormiu bem eu presumo? — murmurou no tom gentil que sempre a deixava um pouco desconcertada.
Àquela hora, feixes pálidos de luz matinal varavam as grandes janelas de vidro da recepção e inundavam timidamente o refeitório. Ainda assim, a aura de abandono daquele hotel conseguia lhe dar calafrios na base da espinha.
— Sim, dormi bem. Obrigada — acenou com a cabeça também e espichou os olhos para o grande mapa desenrolado sobre a mesa, então era isso o que ele estava estudando atentamente.
Estreitando os olhos, ergueu os olhos para ele novamente:
— E eu posso presumir que passou a noite toda acordado?
— Estava descartando as áreas e cidades que já checamos — disse ao bater os nós dos dedos casualmente no papel fino com linhas coloridas, algumas áreas haviam sido circuladas com marcadores, já outras, descartadas com um “x” — áreas que eles já haviam checado cuidadosamente.
— E como estamos? — Temari perguntou a ele ainda que já imaginasse a resposta.
Itachi suspirou demoradamente antes de respondê-la.
— Não muito bem, eu receio. As áreas e cidades que checamos, dentro do perímetro que delimitamos, estavam todas ao sul ou a leste de Osaka. Já havíamos descartado as cidades a oeste por causa da proximidade com o oceano. Então, o que nos resta...
— É verificar os distritos e cidades ao norte de Osaka — Temari completou sua linha de raciocínio e Itachi assentiu, dedilhando o mapa em cada um dos pontos vermelhos marcados no papel fino, seguindo as curvas sinuosas do rio Yodo desde o local do seu deságue, na baía de Osaka, até todas as cidades e distritos que o margeavam, rumo a nordeste.
— Seguiremos o curso do rio Yodo por ora — Itachi decretou peremptório.
Nesse momento, Naruto adentrou o refeitório do hotel; bocejava e espreguiçava-se languidamente, e os cabelos dourados estavam um pouco desarrumados, a prova de que havia acabado de cair da cama. Ele parou quando percebeu que Itachi não estava sozinho ali e sorriu amarelo para a figura alta e esbelta de Temari.
— Ei, bom dia.
Ela se limitou a assentir e voltou sua atenção para o outro homem, vendo que agora ele traçava novas linhas no mapa, novas trajetórias que eles deveriam seguir nos próximos dias à procura tanto do cientista Kabuto Yakushi quanto de Sasuke e de Sakura que continuavam desaparecidos.
Naruto se aproximou e se debruçou sobre a mesa enquanto também via o homem mais velho trabalhar silenciosamente no mapa. Eles discutiram mais alguns detalhes referentes à viagem e o refeitório aos poucos se encheu de pessoas. As duas irmãs, Hinata e Hanabi, chegaram um pouco depois de Naruto e se acomodaram numa das mesas. O membro do grupo mais irritante era um loiro barulhento chamado Deidara, a quem Temari desprezava profundamente. Mas ele estava lá fora, junto dos veículos, de olho nas coisas — e ela agradecia por isso.
Konohamaru e Moegi também desceram para o refeitório depois de uns minutos, junto do seu irmão Gaara, que continuava rabugento. Sorrindo para ele, foi até a mesa para se sentar com os três. Logo todos tomavam o desjejum e conversavam aos sussurros e murmúrios.
Itachi mantinha apenas uma caneca fumegante de café por perto enquanto discutia algo com Naruto, que ora assentia, ora esfregava o queixo ponderativamente, avaliando algo que ele dissera. Depois, ele foi se sentar com as duas irmãs e pareceu bastante íntimo da mais velha delas, uma menina bastante tímida.
— O que acha de todos eles? — Ouvir a voz tão próxima de Gaara se sobrepor aos murmúrios dispersos no refeitório trouxe a atenção dela de volta para a mesa e para o irmão.
— O que quer dizer?
Gaara franziu as sobrancelhas claríssimas para a irmã mais velha.
— Quero saber se se convenceu de que eles são mesmo confiáveis — explicou num tom condescendente, como se o fato de ter que explicar algo óbvio para a irmã lhe causasse um sentimento de desdém.
— Achei que já tivéssemos superado isso — retrucou e bebericou um gole do leite quente em sua caneca, no outro dia haviam encontrado um lote lacrado em bom estado de conservação nos fundos de um armazém, o que era ótimo para ela e para o bebê que esperava.
Há dois dias, havia tido a sorte de achar vitaminas pré-natais numa farmácia em outra cidadezinha. Sua gestação progredia muito bem, pensou ao alisar distraidamente a barriga.
Gaara estalou a língua no céu da boca em desaprovação para a irmã e em seguida se levantou da mesa, rabugento. Ela entendia a desconfiança de Gaara, depois de haver sido forçado a testemunhar a morte de Kankuro, mas Temari não partilhava do sentimento. Além disso, Itachi e Naruto realmente pareciam ser boas pessoas e estavam tão empenhados quanto ela em encontrar Kabuto, e ela tinha preocupações maiores no momento.
Assim, resolveu deixar o assunto de lado, por ora, e voltou a bebericar o leite da sua caneca.
Gaara, por outro lado, parecia não estar tão convencido a respeito da boa índole dos membros daquele grupo. Ignorando o frio, ele se encolheu dentro do seu casaco e marchou para fora do hotel, pisando na calçada semicongelada. Parou de repente, perto do meio fio. A rua estava tão silenciosa quanto desabitada, o que era bom. Decidiu que não haveria problema se se afastasse um pouquinho, queria ficar sozinho com seus pensamentos.
Parou de frente para a fachada charmosa do que havia sido um dia uma confeitaria. As vitrines coloridas estavam sujas e cobertas de gelo e o interior estava um breu. Gaara esfregou as mãos frias e as colocou diante do rosto para soprá-las. Sua respiração se tornou uma nuvem de vapor no ar gelado.
Perdeu a noção do tempo: relembrou a infância sofrida com os irmãos, as crises do pai, a única garota que conseguiu despertar seu interesse há muitos anos. Sentia falta do desbocado irmão mais velho. Inferno, sentia falta até dos discursos ébrios do seu pai.
— Ah, aí está você! — murmurou uma voz rouca às suas costas.
Gaara se virou a tempo de ver o loiro — Naruto era o seu nome, não? — se aproximar com um sorriso cheio de dentes. Ao ver a testa franzida do ruivo, ele imediatamente tratou de levantar uma garrafa de uísque, como se se tratasse de um gesto de paz entre ambos.
— Achei essa coisinha num dos quartos. É um Yamazaki 12 anos — assobiou ao final para enfatizar seu assombro. — E ainda está lacrada.
Sem que Gaara o invitasse, ele se aproximou e removeu a tampa da garrafa. Encostou a boca no gargalo e inclinou a cabeça para beber um bom gole. A bebida cintilava e o pomo de adão dele subiu e desceu com os movimentos que fazia para engolir. Quando a afastou do rosto, os olhos azuis estavam mais brilhantes e os lábios, úmidos.
— Porra, se meu pai me visse bebendo isso há uns anos, com certeza me daria um sermão de horas. E a minha mãe me esfolaria vivo depois disso! — E riu. Ele secou a boca nas costas da mão e estendeu a garrafa para o ruivo, baixando o tom de voz. — O Sasuke e eu vivíamos comprando essas coisas quando éramos adolescentes. Geralmente quem sempre acabava nos acobertando era o Itachi. O pai deles era uma pessoa... complicada — sussurrou a última palavra como se ainda o temesse.
Gaara aceitou a garrafa e emborcou-a para beber um longo gole, assim como ele havia feito. Ao final, encarava-a com um olhar vidrado, com olhos injetados.
— O meu pai era fodidamente viciado nisso. Ele passava a maior parte do tempo bêbado e nos poucos momentos em que estava sóbrio, Temari, Kankuro e eu desejávamos que não estivesse.
— Sério? Puxa, sinto muito — murmurou num tom embaraçado enquanto aceitava a garrafa de volta e bebia outro longo gole.
— Eu já superei isso e o filho da puta morreu há muitos anos — deu de ombros.
— Mas, espera, vocês eram três irmãos? — perguntou sem querer soar invasivo, mas queria que ele continuasse conversando consigo; eram as primeiras palavras amistosas que trocavam em dias.
— Nós éramos — Gaara confirmou, mas não forneceu maiores detalhes. Naruto imaginou o motivo e abaixou a cabeça, concordando com um aceno sutil.
Gaara estendeu a mão, pedindo a garrafa de uísque de volta, e Naruto a cedeu solicitamente. O ruivo emborcou mais um gole generoso, apreciando o calor que a bebida deixava na sua garganta e estômago. Num dia frio como aquele, era mais do que bem-vindo.
— Mas e então? Qual é a sua história? É tão fodida quanto o resto de nós? — perguntou a Naruto e, pela primeira vez, sua expressão ensombreceu.
— Bem, resumindo — ele recomeçou com um tom leve, mas que falhou nas primeiras sílabas: — Perdi os meus pais no centro de refugiados. Vaguei por semanas de cidade em cidade, quando consegui escapar de lá, até que um anjo me salvou de toda essa merda. — Seu riso ao final soou mais genuíno, cristalino. — No final, Itachi me encontrou e eu devo muito a ele.
— Também esteve no centro em Yokohama? Aquilo sim foi um inferno — ele comentou quando repassou a garrafa para o loiro, que assentiu. — Só escapamos de lá graças a alguém que foi muito querido para a minha irmã — limitou-se a dizer apenas o necessário.
Naruto parecia não possuir outras intenções que não fossem conversar amigavelmente com ele e conhecê-lo um pouco. Além disso, havia uma espécie de aura em torno dele, tão calorosa e receptiva quanto o sol, que fazia com que quisesse conversar com ele, aproximar-se. Algumas pessoas nasciam com esse tipo de carisma, com essa capacidade de atrair outras pessoas quase como imãs. Naruto sem dúvidas era uma dessas pessoas, Gaara percebeu isso trocando poucas palavras com ele.
— Entendo — ele assentiu e tomou o último gole de uísque, dessa vez com uma careta. — Você parece legal, Gaara, gostei de conversar contigo.
O ruivo arqueou uma sobrancelha; estava mesmo falando dele? Gaara nunca tivera amigos. Os problemas familiares e sua própria personalidade retraída sempre pareceram afastar as pessoas. Ele não tivera outras pessoas no mundo que não tivessem sido seu pai alcoólatra, o fantasma da mãe entre eles e seus irmãos. Ouvir de um quase estranho que era um cara legal estava sendo uma novidade para ele.
De qualquer forma, Naruto não ofereceu a ele uma oportunidade de retrucá-lo, uma vez que se virou e se afastou pela calçada levando a garrafa de uísque meio cheia e deixando para trás um Gaara intrigado com suas palavras.
* * *
Naruto subiu para um dos quartos sem pressa. Os poucos goles de bebida que tomou não haviam colaborado muito para fazê-lo se sentir mais leve, mas certamente haviam deixado rastros de um calor agradável no seu sangue. Seu corpo, entretanto, estava sentindo falta de outro tipo de calor agora.
Ao abrir a porta de um dos quartos, deparou-se com a silhueta familiar de Hinata de pé perto das janelas e delineada pela luz que as cortinas semiabertas filtravam. Ela o olhou quando passou pela soleira e se deslocou quando o viu fechar e trancar silenciosamente a mesma porta pela qual entrou, vindo ao seu encontro.
— Você está bem? — perguntou ao levar as mãos aos ombros femininos, massageando-os por cima do suéter que ela usava.
— Sim — ela assentiu e corou quando ele afastou uma mecha do cabelo escuro, colocando-a atrás da sua orelha.
— Não está com frio, está? — Naruto esfregou os braços dela dessa vez, mas ela negou com um sorriso pequeno.
Surpreendendo-a então, ele rapidamente passou os braços por sua cintura e abaixou-se para passar o outro pela parte de trás dos seus joelhos, erguendo-a nos seus braços num rompante e fazendo-a arquejar. Hinata se agarrou a ele enquanto encarava os reluzentes olhos que eram da cor do céu.
— Mas eu estou com frio — justificou-se com um sorriso de canto enquanto suas pernas levavam ambos em direção a uma das camas.
Não hesitou em se deixar cair junto dela no colchão macio, ainda a segurando nos seus braços. Entreolharam-se em silêncio até que Naruto traçou os lábios cor-de-rosa com um dedo e trocou com ela um sorriso de cumplicidade:
— Estamos sozinhos — sussurrou travesso e ela assentiu, ruborizando outra vez.
No momento seguinte a essa afirmação, ele havia se inclinado para tomá-la num beijo suave. Segurou-a mais perto ao enlaçá-la pela cintura e sentiu-a suspirar contra os seus lábios. Quando havia sido a última vez em que ficaram sozinhos assim? Hinata nem conseguia se lembrar, mas estava com tanta saudade quanto ele.
Naruto era quente como o sol e o calor do seu corpo a atraía para mais perto. Estremeceu de desejo quando uma mão escorregou por baixo do seu suéter e tocou na pele sua cintura, acariciando-a. Puxou os cabelos na nuca dele com um pouco mais de força quando ele se colocou por cima do seu corpo e subiu tanto a mão quanto o seu suéter. Agradeceu por ele não descolar os lábios dos dela, caso contrário gemeria alto e atrairiam atenção desnecessária.
Timidamente também abaixou as mãos para remover o casaco pesado dos ombros dele, passando os braços pelas mangas, e depois as infiltrou sob a camiseta que ele usava. A pele bronzeada dele era sempre tão quente, os músculos sempre tão firmes. Naruto gemeu rouco e se afastou para olhá-la de um jeito tão ardente que ela arfou.
Ele lambeu os lábios e se inclinou para beijá-la uma última vez antes de mover as mãos para o botão e o zíper da calça jeans que ela usava. Hinata suspirou e deixou que os dedos dele fizessem o trabalho, abaixando suas roupas pela curva dos seus quadris e coxas. Naruto se abaixou para beijar e lamber o ventre plano, deliciando-se com a pele macia e alva que sempre rescendia a baunilha.
Livrou-se das próprias calças, apressado. Eles nunca tinham muito tempo. Hanabi poderia vir procurar a irmã a qualquer momento, ou Itachi poderia requisitá-lo para perguntar-lhe ou pedir-lhe algo. Apoiou-se sobre o colchão, ambos ofegavam. Procurou pelas mãos dela e entrelaçou os dedos. Só então se permitiu afundar no corpo deliciosamente feminino, abafando tanto o gemido dela quanto o seu com outro beijo.
Devagar, conduziu a ambos em direção ao ápice do prazer. Sem fôlego depois de uns minutos, entretanto, se separou dela para esconder o rosto no seu pescoço e deixou que ela abafasse os murmúrios de amor no seu ombro. Libertou uma das mãos para erguer mais o suéter que ela usava até ter liberado os seios volumosos contidos pelo sutiã, ampliando o contato de pele contra pele. Hinata passou o braço livre pelo pescoço dele e o trouxe de volta para os seus lábios. Suas costas deslizavam pelos lençóis a cada arremetida dos quadris dele e estava se tornando mais difícil conter seus gemidos.
O calor entre os seus corpos se intensificou além do tolerável. Hinata se agarrou com mais força a ele e Naruto gemeu rouco na sua boca até que, por fim, numa última investida ela tremeu junto dele e suspirou profundamente. Todos os músculos do seu corpo relaxaram ao ponto da letargia.
Naruto também não demorou a se encontrar no mesmo estado sonolento e relaxado dela, embora ainda sorrisse de orelha a orelha ao encará-la. Hinata sorriu quando o sentiu pressionar beijos cálidos em todo o seu rosto e as mãos ásperas ainda acariciavam seus quadris. Um último beijo foi deixado sobre os seus lábios antes que ele virasse no colchão, levando-a consigo.
Gostava de poder desfrutar desses raros momentos de calmaria com ela depois de haverem feito amor.
Não sabia o que seria de si se não a houvesse conhecido meses atrás, se Hinata não tivesse entrado em sua vida. Ela era, indiscutivelmente, o seu anjo. Não permitiria, nunca, que nada e nem ninguém a tirasse dele.
* * *
Itachi se reclinou na cadeira, suas costas estavam começando a doer pela posição desconfortável. Suspirou e buscou a caneca de café que haviam deixado para ele havia algum tempo. Franziu o rosto quando percebeu que a bebida já tinha esfriado completamente. Ainda assim, tomou até o último gole.
Então voltou a estudar o mapa desenrolado sobre a mesa. Nas últimas horas, havia determinado quais rotas seriam mais seguras e quais cidades da região valiam a pena averiguar. Algumas, ele sabia, haviam sido consumidas em incêndios incontroláveis ou estavam tomadas por hordas numerosas demais.
Não bastasse a questão com o cientista desaparecido que supostamente detinha a solução para todo esse inferno, ainda havia seu irmãozinho cujo paradeiro também continuava a ser uma incógnita. Temari e Gaara haviam dito que conheceram Sasuke em Takatsuki, uma cidade a alguns quilômetros dali. E que ele estava na companhia de uma garota chamada Sakura.
Temari havia afirmado convictamente que acreditava que tanto Sasuke quanto Sakura estavam vivos, e Itachi havia se agarrado a isso com todas as suas forças. A última vez em que viu seu irmãozinho, estava em um helicóptero que seguiria para Yokohama para supostamente proteger um centro de refugiados que esteve fadado a perecer desde o começo.
O som das pás havia abafado as palavras de adeus que Sasuke disse a ele, mas Itachi jamais se esqueceria da sua expressão. O irmão que ele amou mais do que tudo e protegeu da melhor forma que pôde durante toda a vida estava por aí e podia estar correndo perigo.
Itachi se perguntava se o fato de Sasuke estar acompanhado de apenas uma garota significava que seus pais estavam mortos. Era uma suposição intragável, mas plausível.
Ele sempre esteve a par do tanto que seu irmão se ressentia do pai deles e do modo como os criou e controlava suas vidas, mas ainda assim Itachi lamentaria se o velho realmente houvesse perdido a batalha contra aquele novo mundo insano.
Já sua mãe... Sua doce e ingênua mãe. Bem, sua perda causaria uma ferida maior e mais profunda no seu peito. Itachi afastou o cabelo do rosto com um suspiro e voltou a se debruçar sobre a mesa. Sua cabeça estava começando a latejar, mas a dor física naquele momento era um doce consolo em comparação com o peso do luto que ele já começava a amargar.
Talvez devesse tentar dormir um pouco agora. Eles podiam partir pela manhã e Itachi não queria que seu corpo estivesse sobrecarregado, já que precisaria de energia e disposição para procurar pelo cientista e por Sasuke.
Levantou-se, apoiando ambas as mãos na mesa e suspirou. Deu a volta para sair do refeitório e subir as escadas para ocupar um dos quartos no segundo piso quando os passos apressados de alguém ao irromper na recepção do hotel chamaram a sua atenção.
— Itachi! Itachi! PORRA, ITACHI, VOCÊ PRECISA VIR COMIGO AGORA! — vozeava um Deidara esbaforido que vinha correndo ao seu encontro com olhos muito esbugalhados e o cabelo loiro comprido esvoaçando.
— O que aconteceu? — inquiriu, o corpo já tensionado, esperando que Deidara dissesse que uma horda havia acabado de dobrar a esquina.
Deidara parou diante dele, curvado e com os punhos cerrados apoiados nos joelhos, enquanto resfolegava e recuperava o fôlego. Quando se endireitou, falou depressa, atropelando-se nas sílabas e gesticulando energicamente.
— Merda, Itachi, você tem que ir até o jipe agora! PORRA, ALGUÉM ESTÁ TENTANDO FAZER CONTATO!
Itachi praticamente correu do refeitório para a recepção do hotel, mal conseguindo assimilar as palavras ditas por Deidara. Ao pisar na calçada, uma rajada glacial de vento penetrou sua jaqueta até os seus ossos, levando-o a estremecer tanto de frio quanto de ansiedade.
Ele se acercou do jipe Toyota Xingu e escancarou a porta do carona, lançando-se no banco de couro ao passo que sua mão se lançava para o bocal do rádio-comunicador embutido no veículo. Pausou com o aparelho a centímetro dos lábios, mal respirava, mas, por fim, pressionou o botão.
— Q.A.P. Estou na escuta — murmurou com o coração retumbando no peito e o timbre um tanto rouco.
Deidara parou ao lado dele, ainda esbaforido por haver corrido o caminho de volta. Mas ficou em silêncio e, por isso, Itachi se sentiu grato.
Demorou alguns segundos — que pareceram minutos inteiros para o moreno — antes que a pessoa do outro lado respondesse:
— Quem está na escuta? — perguntou um homem e Itachi teve certeza de se tratar do mesmo tom de voz do cientista com quem conversou há vários dias.
— Sou eu, o ex-militar com quem você entrou em contato há alguns dias e a quem pediu socorro. Você é o cientista, certo?
— Certo — respondeu o homem sem hesitação.
— Kabuto Yakushi é o seu nome, não é? — Itachi se arriscou e ouviu apenas um silêncio indeciso do outro lado.
— Como sabe como me chamo? Nunca trocamos nomes — ele apontou com desconfiança.
— Encontrei duas pessoas, há alguns dias, que estiveram com você. Seus nomes são Temari e Gaara. Lhe soam familiar?
Itachi achou que ganharia a confiança dele mais rápido se revelasse todos os pormenores de uma vez. Na última conversa, o cientista havia sido cauteloso demais em fornecer informações importantes.
Ele ouviu mais de um arfar de surpresa do outro lado e pensou também ter ouvido alguns murmúrios, mas eram dissonantes demais, não conseguiu distingui-los, tampouco lhes atribuir alguma possível identidade.
— Temari e Gaara? — o cientista perguntou. — Merda, sim! Eu os conheço! Estiveram comigo em Kyoto.
Itachi decidiu acabar com os rodeios e logo perguntou o que verdadeiramente importava ali:
— Onde você está? Para que eu e meu grupo possamos resgatá-lo.
Dessa vez, ele demorou mais a responder sua pergunta. Itachi pensou ouvir mais murmúrios trocados. O homem definitivamente não estava sozinho. Aguardou meio minuto até ouvir a voz dele de novo.
— Estou numa cidade chamada Settsu, ao norte de Osaka, no quilômetro 147 da Via-Expressa Meishin. Consegue vir até mim?
O sangue retumbava nos ouvidos de Itachi, mas ele ainda era capaz de ouvir cada palavra distintamente, cada sílaba reverberava dentro do seu crânio latejante. Settsu estava a menos de meio dia de viagem dali. Tão, tão perto.
— Estou com meu grupo em Hirakata — respondeu pragmático.
— Merda, você está mais perto do que eu imaginei — Kabuto ofegou do outro lado e Itachi quis se convencer de que se tratava de alívio.
Houve mais murmúrios muito bem abafados do outro lado. Itachi aproximou o aparelho da boca novamente, mas hesitou em fazer a próxima pergunta:
— Você está sozinho?
Kabuto riu um pouco antes de respondê-lo. Merda, ele está realmente feliz, Itachi pensou com alívio crescente.
— Na verdade, há duas pessoas comigo. Um homem e uma mulher. Escapamos juntos há alguns dias de uma madeireira.
A interjeição abafada do outro lado — e indiscutivelmente feminina — indicava indignação. Kabuto murmurou algumas palavras apressadas que ele não conseguiu distinguir. Ouviu ruídos. Pareciam... risos?
— Eles querem saber o seu nome — continuou ele, mas seu tom continuava leve.
Deidara trocou com Itachi um olhar de advertência, ainda assim, ele voltou a aproximar o bocal dos lábios.
— Eu me chamo Itachi.
Dessa vez, a exclamação de choque que ele ouviu do outro lado foi masculina, mas depois disso se fez silêncio. Itachi esperou por quase outra metade de um minuto inteiro até que Kabuto voltasse a manifestar.
— E... os nomes deles são Sakura e Sasuke.
O tempo pareceu ter congelado depois disso para Itachi. Mas depois de um momento de completo assombro e estupor conseguiu reunir forças para voltar a se manifestar com um tom comovido e extremamente afetuoso, e tampouco se dirigia ao cientista chamado Kabuto:
— Eu estou a caminho, Sasuke. O seu irmão está a caminho.
* * *
Esperando pelo meu fim
Respirando nesse dia que me acha novo
A redenção começa agora
A redenção começa agora.
Demon Hunter — Trecho de Deteriorate.
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