Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
4 Capítulo III: Lobos e Cordeiros
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Ele fica ali deitado, remoendo seus fracassos — como acontece noite após noite —, mas hoje esse ruminar é intercalado com uma carnificina, como trechos de um filme velho inserido no fluxo de sua consciência”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 32).
Capítulo III:
Lobos e Cordeiros
Costumeiramente, ele acorda cedo. O velho relógio de pulso acusa que faltam alguns minutos ainda para o alvorecer. Como em todos os términos de madrugada nebulosos em Komatsushima, ele se veste em silêncio. Passara boa parte da noite olhando para o velho porta-retratos outra vez e — como já havia se tornado um hábito — adormeceu abraçado a ele.
Os rostos sorridentes desvanecem de sua memória como numa nuvem de fumaça. Agora há apenas as recordações do que um dia significou tudo para ele. Ele ainda pragueja a si próprio e se recrimina por continuar sofrendo por algo que não tem mais volta. Mas é inevitável.
O apartamento soçobra tão embatucado como um mausoléu. O vento espreita por trás das janelas fortemente vedadas, assobia como um coiote esfomeado. Mas junto dele está a cacofonia que nunca cessa. Uma trilha sonora saída diretamente do inferno e que testa a sua sanidade diariamente. Um coro de gemidos que se espalha como uma nuvem de gafanhotos.
Ele acha que sabe exatamente por que esses desgraçados nunca se calam, tem fomentado uma teoria para explicar a ânsia absurda que aquelas coisas podres tem de gemer continuamente — e, claro, irritá-lo no processo.
E é claro que a parte favorita dele em tudo isso é silenciá-los. Nada é mais gratificante do que vê-los apagar como vagalumes abatidos numa noite escura. A parte divertida é justamente bolar novas formas de explodir aqueles crânios em putrefação enquanto fluídos malcheirosos rodopiam no ar e caem como chuva.
Ele para no meio do apartamento, completamente sozinho e abandonado. Os pés descalços repousam nas tábuas do assoalho e talvez elas estejam um pouco encardidas agora e ele faz uma nota mental de esfregá-las com água e sabão mais tarde.
Vestindo a camiseta surrada e a calça cáqui, ele parou para pensar que talvez essas manias de limpeza não signifiquem mais nada naquele mundo. Mas então, pensa em sua mãe, e no que ela diria caso o visse morando em meio a um chiqueiro, e decide-se por fim em abandonar a futilidade. Não faz qualquer sentido mesmo.
Sua velha jaqueta repousa no encosto da única cadeira que sobrou na cozinha, e ele a veste com sentimentos de familiaridade e reconhecimento que são quase tão reconfortantes quanto reencontrar um velho amigo de infância.
O fogão improvisado ainda funciona muito bem, embora precise de alguns ajustes, e enquanto a água ferve na chaleira, ele decide procurar pelo maço de cigarros.
Talvez o tenha deixado em algum lugar na noite passada enquanto amaldiçoava pela centésima vez o fato do irmão mais velho o ter apresentado ao mundo da nicotina. O mais curioso sobre tudo isso é que ele não fumou um único cigarro até a partida de Itachi, há dois meses e meio. Sirva o país e morra jovem, costumava ser o lema dele e suas últimas palavras enquanto se despediam numa confusão de hélices de helicópteros e pessoas chorando foram “Fique vivo, irmãozinho” e “Não deixa esses filhos-da-puta te pegarem”.
Então, ele subiu no helicóptero com a sua unidade e desapareceu no céu nuvioso.
Sasuke nunca mais teve qualquer notícia do irmão, e as últimas transmissões via rádio informavam a população alardeada e prestes a entrar em pânico que o exército já não estava mais conseguindo conter os avanços das coisas.
Itachi tinha ido para Yokohama, proteger um campo de refugiados, onde, supostamente, diziam os confiáveis veículos de comunicação, estava sendo pesquisada e desenvolvida a cura para essa moléstia. A grande ironia nisso tudo, é óbvio, é que nunca mais mencionaram nada e as estações de rádio foram apagando uma a uma nas últimas semanas, bem depois das emissoras de TV terem saído do ar.
Nunca houve cura, disse para si mesmo, aborrecido por ter se lembrado daquele dia e do último olhar do irmão, já embarcado no helicóptero. Nunca haverá a porra de uma cura para a porra dessa doença!
A chaleira ameaçou apitar e Sasuke desistiu de tentar encontrar o maço de cigarros. Correu em direção a ela e retirou-a do fogo. Infelizmente, o café estava particularmente intragável naquela manhã e ele desistiu de tomá-lo depois da terceira golada desgostosa.
Estranhamente, ele nunca pensou em prantear o irmão. Sabia que Itachi era feito do mesmo material resistente e inflexível que o dele e tinha mais certeza ainda de que se alguém poderia sobreviver naquele mundo e ainda o fazer com louvor, esse alguém era Itachi. O irmão daria um jeito — ele sempre dava.
Sasuke pensava em algum dia, possivelmente, deixar os fantasmas de Komatsushima para trás e partir em direção à Yokohama para se juntar ao irmão. Mas ainda não.
Ele queria — não, ele precisava — de um cigarro. E seu humor começava a dar sinais de estar amargando terrivelmente, e sabia que só uma coisa poderia aplacá-lo. Então foi até o armário onde seu pai costumava guardar a preciosa coleção de armas e o escancarou, olhando-as como um menino diante de uma vitrine de doces.
Sentiu-se tentado em levar a carabina (um dos orgulhos da coleção do pai). Uma puma de cano redondo .38 e com capacidade para 10 balas. Mas ele queria um pouco mais de diversão, então se voltou para o rifle de caça, um Remington .300 Winchester Magnum com mira acoplada.
Apanhou algumas das facas de esfolar animais do pai e encaixou seu coldre no cinto. Levou também a Ruger SR1911 (que sempre havia sido uma das suas favoritas), por sem mais compacta e rápida, caso necessitasse de um plano de fuga, e a prendeu no coldre axilar, sob a jaqueta.
Pendurou a alça do rifle no ombro e sentou-se nos degraus para amarrar os cadarços dos coturnos. Ao sair pela porta, apenas a encostou, caminhando pelo carpete sujo do corredor. Parou, contudo, em uma intersecção assombrada, e olhou por longos e significativos segundos para a escadaria que levaria aos andares superiores.
Fixou o olhar negro e imperscrutável naquele antro escuro e fétido e um suor frio porejou suas têmporas. Engoliu em seco antes de afastar aqueles pensamentos, empurrando-os para o canto mais doente e perturbado de sua mente.
Desceu as escadas até chegar ao térreo e passou pela recepção destruída a longas passadas. Apoiou o cano longo do rifle na nuca e respirou pela primeira vez o ar nojento que circulava lá fora. Àquela altura, um sol pálido despontava no horizonte, mas mais tarde o tempo fecharia provavelmente, pois a quantidade de nuvens que insurgiam no céu era assustadora.
Sasuke pressionou a sequência de botões que destravava o pesado portão automático frontal do condomínio e lamentou que o gerador reserva, movido à energia solar, estivesse com seus dias contados. Ele o verificou na tarde passada e talvez durasse mais duas ou três semanas no máximo, se ele mantivesse as economias precárias da energia.
Ainda descendo a rua calmamente, ele manteve o olhar focado à frente. Tudo estava tão abandonado e deserto que vez ou outra se surpreendia pensando para onde aquelas coisas fedorentas haviam ido. As casas e prédios vizinhos continuavam tristemente solitários e silenciosos, e postavam-se ali como espectros amargurados demais até mesmo para lastimar. Algumas das barricadas que ele ergueu na semana passada continuavam de pé, as tábuas de madeira pregadas com uma velha parafusadeira do seu pai ainda continuavam firmes, retendo os avanços das coisas por pelo menos alguns poucos metros.
Ele percorreu alguns bons metros a pé, olhando com desdém para as coisas que se arrastavam por detrás das placas sólidas de madeira e das cercas de arame, grunhindo e metendo as mãos de dedos podres por quaisquer frestas que conseguissem encontrar.
Sasuke se lembra de ter feito aquele trajeto inúmeras vezes; primeiro, durante toda a infância e adolescência para chegar ao colégio, mais tarde, para se encontrar com seu único e melhor amigo Naruto. A família dele havia deixado Komatsushima antes mesmo que as coisas saíssem de controle e ele ainda se lembra de como o amigo havia garantido que em Yokohama a situação estava melhor.
Óbvio que Sasuke não deu ouvidos, a verdade irrefragável é que em nenhum lugar se estava seguro agora. Além disso, seus pais se recusaram a sair da cidade até o último instante e ele próprio não se sentira muito inclinado a abandonar tudo também. Claro que dias depois, Komatsushima caiu.
O último helicóptero sobrevoou a cidade na semana passada, mas parecia não ter nenhum lugar específico para ir e a última pessoa que ele avistara, estava fugindo de dezenas de zumbis, subindo a rua, e, segundos depois, Sasuke ouviu apenas os seus bramidos agudos e intermináveis pouco antes dos grunhidos das criaturas terem cessado para dar espaço aos sons pungentes da satisfação.
Agora, ele havia chegado a um bairro que conhecia como a palma da mão, e dirigindo-se para a lateral de um prédio comercial, encontrou uma escada de incêndio e começou a subi-la sem qualquer preocupação. O rifle continuava pendurado em seu ombro e era um peso amigavelmente confortador.
Eram cerca de quatro andares apenas e Sasuke não demorou a encontrar o terraço da construção, abarrotado de lixo. Depois de verificar a única porta que daria acesso àquele lugar e constatar que ela estava fortemente trancada, ele aproximou-se da beirada. O vento soprava um pouco mais rude lá em cima e jogava mechas de cabelo preto contra os seus olhos. Mas ele sorriu e deitou de bruços sobre a beirada contornada com cimento, ajeitando o apoio da arma pesada em seu ombro direito.
Roçou o dedo no gatilho, sentindo-o, e aproximou o olho da mira acoplada. Não precisou procurar por muito tempo, pois logo um cabeça podre entrou em sua mira, arrastando os pés e abrindo e fechando a boca de forma débil. Sasuke sorriu torto antes de puxar o gatilho e sentir o ricochete da arma contra o seu ombro. Logo, a coisa tombou no asfalto, a cabeça explodida em um milhão de pequenos pedacinhos.
— A vida é uma droga — ele murmurou para si mesmo antes de buscar pelo próximo desgraçado que enviaria ao inferno.
Ele ainda queria desesperadamente um cigarro e a falta de nicotina já o deixava enormemente exasperado e irritado; era bom que ao menos pudesse descontar a sua insatisfação e o seu desagrado naquelas cabeças podres. E era como se tivessem alvos pintados no alto da cabeça, pois ele não se permitia errar um único tiro. E não era como se alguém viesse a achar falta de alguns deles.
Ter acompanhado seu pai e seu irmão nas caças nunca havia sido tão útil quanto agora, e pensando bem, ele estava fazendo bom uso de tudo o que havia aprendido, abatendo agora aquelas coisas estúpidas e desgraçadas que ficavam vagando sem rumo, e quão idiotas elas eram por a cada vez que um deles fosse ao chão, eles se sentissem mais atiçados, mais agitados. Grunhindo e rosnando, franzindo aquelas caras decompostas e criando sulcos naquelas peles podres azuladas e esverdeadas.
Escancaravam a boca — ao menos, aqueles que ainda a tinham — e andavam em círculos, arrastando os pés num lento e estúpido vagar. Sasuke os observava, não com diversão agora, mas com escárnio. Mirava em suas cabeças podres, apertava o gatilho, e então as via explodir como melancias estragadas.
Vamos mandar mais alguns desgraçados para o inferno e depois procurar por um maço de cigarros, alegou para si próprio e apontou seu rifle para outra criatura desalmada quando o som de pneus cantando no asfalto o alardeou. Como se tivesse acabado de tomar um choque, ele afastou a mira do rifle do olho e buscou pela origem enigmática do som.
Avistou o Toyota prius prateado fazer uma curva larga na esquina, a cem metros de onde estava, percorrer a rua abaixo dele velozmente e logo sumir. Seu corpo reagiu antes do seu cérebro conseguir assimilar direito e ele levantou-se num rompante, correndo na direção em que o automóvel seguiu. Ouviu o coro de gemidos que vinha por trás dele, e decidiu que não era a hora mais sábia de descer. Olhou adiante e viu que havia um prédio de frente para si, apenas um pouco mais alto, sombreando-o.
Pendurou o rifle no ombro e, calculando a distância entre os dois prédios vizinhos como uns dois metros e meio, apoiou o pé na beirada e impulsionou os joelhos, saltando. Chocou-se contra a escada de incêndio, agarrando-a com ambas as mãos e começou a subi-la imediatamente. O barulho o entregou e agora algumas das criaturas o haviam avistado, passando a estender os braços para cima e a grunhir.
Sasuke ignorou-as conforme subia os degraus aos saltos, logo alcançando a eira da construção. Por sorte, os prédios haviam sido construídos tão próximos uns dos outros que saltar entre eles não era desafio algum. E por sorte também, durante o colégio secundário, ele sempre havia sido do tipo atlético e que apreciava um bom desafio que testasse seus próprios limites.
Ainda, estava ofegante quando encontrou um ponto mais acessível, livre das criaturas, para poder descer. Àquela altura, ele também havia deixado as coisas para trás, mas o coro de seus bramidos era uma lembrança constante e amarga de que eles ainda estavam em seu encalço.
Já na calçada, e correndo o mais depressa que ele se permitisse, continuou descendo a ladeira. Encontrou o automóvel de antes no fim da rua, com a dianteira destruída diante do que um dia foi um muro de tijolos. Não havia sinais do motorista, mas os vidros eram escuros demais para que ele pudesse arriscar qualquer palpite àquela distância.
— Sai do carro! — ele gritou a plenos pulmões, torcendo para que, se ainda estivesse dentro do automóvel, não estivesse inconsciente. Sasuke sabia que estava a alguns quarteirões do seu prédio, mas tentar carregar um peso morto até lá seria suicídio. — Ei, sai do carro e vem comigo!
Como não obteve resposta alguma, ele tomou uma decisão e tentou outra abordagem. O coro de gemidos continuava atrás dele, baforando em sua nuca, então Sasuke deu a volta pelos fundos de uma casa, cruzando o quintal abarrotado de entulho, e pegou um atalho pelos fundos da construção, desviando dos zumbis que já se aglomeravam nas ruas.
Emergiu na calçada outra vez, vários metros e casas depois, saltou uma cerca de madeira e deparou-se com um zumbi bem diante dele. Não pensou, apenas agiu; buscou pela faca em seu coldre e cerrando os dentes avançou em direção à coisa, cravando a lâmina fundo na testa podre antes mesmo que ela tivesse tempo de grunhir. Deixou-a onde estava e olhou para os lados freneticamente antes de ouvir o primeiro disparo, abafado. Ouviu muitos mais depois disso, sequenciados.
Travou o maxilar quando avistou um nissan x-trail negro, estacionado no meio-fio com as portas escancaradas. Não pensou duas vezes; lançou-se em direção a ele e subiu sobre o capô, e com uma longa passada depois subiu sobre o teto do automóvel. Assim, teria um ângulo melhor e retardaria por pelo menos um pouco os avanços das coisas.
Apanhou o rifle outra vez e focou-o perto do automóvel destruído, do outro lado da larga rua, onde uma garota com cabelos cor-de-rosa estava em apuros. Ela havia desistido, a julgar por sua expressão de derrota, e uma coisa fedorenta já escalava suas pernas, procurando mordê-la.
Sasuke apenas roçou o dedo sobre o gatilho antes de pressioná-lo de leve e explodir a cabeça de mais um desgraçado, livrando a garota do infortúnio.
Mas desta vez, não sentiu nada nem remotamente parecido com diversão ao fazê-lo.
* * *
E o Império nos matará a todos
Nós nos lançamos contra as muralhas
Mas ninguém é capaz de ver
O mártir preservado que há em mim.
Slipknot — Trecho de Psychosocial.
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