Dead Roses
1 Smelling Dead Roses
Notas iniciais
“Encurralado pelo precipício de um penhasco, localizado no meio do Monte Fuji, por trás e pela polícia na frente, o hacker Takeda estava sem saída. Um policial novato gritou:
— Senhor, Takeda, entregue-se! — porém o outro deu um olhar extremamente perturbador para os policiais — especialmente para o novato que ordenou a entrega do hacker — mais um sorriso debochado e respondeu:
— Entregar-se? Só se for nos sonhos de vocês! Adiós, otários! — dando uma risada alta e extremamente sarcástica, o procurado fechou os olhos e deu um salto para trás, indo precipício abaixo até seu corpo bater no chão, assim findando a própria vida.
O policial deu um grito desesperado, em lágrimas por ter falhado gravemente na sua obrigação, enquanto a rádio da polícia tocava Killer Is Me, da banda norte-americana Alice In Chains.”
— Corta! — gritou o diretor do dorama japonês policial, sucesso de audiência, The Killer Is Me e continuou — Katsuki-san, brilhante trabalho! Bravo, bravíssimo!
Todos no set de gravação aplaudiram o ator japonês Yuuri Katsuki, protagonista deste. Em seguida, todos os outros atores, incluindo Yuuri, agradeceram o diretor pelo trabalho bem-feito, porém Katsuki não pode ficar para as comemorações no set, um banquete, pois tinha uma sessão de fotos para a famosíssima revista de moda Vougue, na qual era a estrela principal.
Despediu-se do restante do elenco, saiu do local de maneira apressada rumo ao banheiro do estúdio, onde tomou um bom banho, trocou de roupa, perfumou-se e andou em direção a saída do estúdio. Após sair do estúdio de gravações, Yuuri foi até o estacionamento, onde o carro com seu motorista particular e empresária os esperava.
No carro, Yuuri ouvia as explicações dela de reforço sobre a proposta do ensaio, os próximos compromissos após aquele ensaio: coletiva de imprensa final com o elenco do dorama, entrevista exclusiva com um repórter brasileiro famoso por entrevistar figuras da alta sociedade, em geral, festa comemorativa oficial do final deste e atualizar as redes sociais.
Ao chegar na editora do ensaio, Yuuri cumprimentou toda a equipe junto com sua empresária, entretanto quando uma assistente de fotografia ofereceu um cupcake para Katsuki. Educadamente, o ator agradeceu a mulher e caminhou até para o camarim com banheiro privativo, segurando-o na mão.
Chegando no local, Katsuki abriu a porta e agradeceu por não ter nenhum staff da revista esperando-o lá dentro, entrou, andou em direção ao banheiro privativo e trancou-se lá dentro.
“Fome, você não pode sentir fome, Yuuri. Um cupcake de Oreo grande, como o que ela te deu, tem 410 calorias. Você ainda está gordo, Yuuri, as pessoas mentem para você. Você não está magro, ainda tem muito peso a perder. Siga a dieta, tome seu remédio e está tudo certo.”
Agradeceu pela privada ser ao estilo ocidental, pois lá pode jogar o cupcapke que segurava na mão e mandá-lo descarga abaixo. Fechou a porta da privada, abaixou-se, pegou a carteira, abriu-a e mexeu em um fundo falso e lá dentro, estava. Pegou o pacote com o pó branco, jogou-o na tampa da privada, dividiu-o em várias carreiras e cheirou cada uma.
Na hora, a fome passou, Yuuri sentiu um repentino prazer, uma inexplicável euforia, bem agitado, coração acelerado, e a sensação de que estava tudo bem. Guardou a carteira, inclusive o pacote vazio no fundo falso desta, levantou-se do chão, abriu a porta do banheiro, andou até a porta do camarim, abriu-a e lá estavam vários staffs, junto a empresária, esperando Yuuri abri-la.
O ator deu o sorriso mais brilhante para eles e falou:
— Me desculpe por fazê-los esperarem tanto. Estava falando com a minha mãe ao telefone e queria privacidade. — em seguida, dirigiu-se para a assistente que lhe deu o cupcake — Muito obrigado pelo cupcake, estava delicioso. — e finalizou. — Vamos começar?
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A relação de Yuuri Katsuki com a comida nunca foi das melhores. Apesar de amar comer katsudon e salgados, no geral, esse prazer passou a ser algo fora do saudável, quando Yuuri passou a descontar todos os seus sentimentos, desde os mais podres até os mais sublimes, na comida. Se estava alegre, comia um prato de katsudon; se estava triste, comia dois pratos; se estava nervoso, comia três pratos; sentia frustrado, comia cinco pratos e se deixassem, Katsuki passava o dia inteiro comendo katsudon. Junto a essa relação não saudável com comida, havia também a gordofobia a qual Yuuri conviveu diariamente até sua formatura. Contudo, a violência contra ele não era barulhenta: do primeiro ano do maternal até o último dia no colegial, Yuuri Katsuki foi isolado e ignorado por todos, até pelos professores. Silenciosa e cruel.
A única válvula de escape do rapaz, além da comida, era tentar “teatrar” a vida, pois nela o importante eram as suas habilidades para incorporar o papel a ser feito, não o peso. Exatamente para tentar ir contra uma sociedade que diz que ser gordo é sinal de “fracasso”, Yuuri investiu nas suas habilidades artísticas para maquiagem de terror e passou a postá-las em sites de compartilhamentos de vídeos de forma privativa, ou seja, só quem tinha a senha, conseguia ver os vídeos e foi através de um deles que Katsuki foi descoberto por um olheiro de uma agência poderosa de entretenimento, onde trabalha até hoje, e assim começou a carreira de ator idol do rapaz: treinamento intensivo de canto, dança, atuação até estrear como recheio de uma revista e um papel pequeno em um dorama escolar. No entanto, a atuação de Yuuri chamou tanto a atenção do público que de mero figurante, o personagem de Katsuki, um delinquente bem estereotipado, passou para terceiro personagem secundário mais popular da trama — com direito a ganhar até prêmios devido a este feito. Daí para o primeiro protagonista e para a fama foi um pulo, porém Yuuri teve que pagar um preço alto por isso.
Dietas atrás de dietas, tomar laxante depois da comida para o corpo não absorver as calorias e uma fala do presidente e dono da agência que nunca saiu da mente dele, no dia da sua contratação:
— A imagem que venderemos de você é justamente de um ex-gordo que emagreceu, pois ela servirá como incentivo para gordos pararem de ser preguiçosos e emagrecerem. Você, a partir de hoje, não tem o direito de engordar, entendeu, Yuuri Katsuki?! Repita cem vezes comigo “Eu não tenho o direito de engordar, porque meu eu gordo morreu quando assinei este contrato.” — e Katsuki repetiu cem vezes seguidas a sentença. Depois da praticamente lobotomia, o presidente continuou. — Seu peso atual é 54 kg exatos, se você engordar uma grama, está demitido. Ah, e para deixarmos bem explícito: para contratados com 1,73 m o limite de peso é exatamente 54 kg e 0 gramas. Seja bem-vindo e, por favor, acompanhe nossa secretária, pois ela lhe apresentará sua empresária.
No dia seguinte da contratação, Yuuri pesou-se e estava com 54,5 kg, na mente dele, a culpa era do pequeno pedaço de carne a mais posto no jantar, porém precisava manter-se nos 54 kg e tinha um ensaio fotográfico para fazer na próxima semana. Tentou aplicar mais laxantes depois da comida, mas ficou com medo de ir parar no hospital por algum efeito colateral que denunciasse seu atual peso, tentou restringir ainda mais as calorias da sua dieta, sem efeito algum. Até que pediu ajuda para um colega de trabalho na agência, elogiado por sempre estar magro, o cantor e dançarino de uma boyband famosa, Yuri Plisetsky — ou Yurio, seu nome artístico:
— Pilsetsky-san, qual o seu segredo para comer e não engordar?
— Quem disse que eu como? Eu só bebo líquido, tomo sopas e caldos não-calóricos e para não sentir fome em horários inapropriados ou vontade de sólidos, eu uso isso aqui. — deu para Yuuri um pacotinho contendo cocaína. — Recomendação dos empresários do meu grupo e dos meus veteranos. Se precisar de mais, só me avisar que te explico direitinho os esquemas, beleza?! Agora tenho que ir, ensaio para o Music Station. Falou!
Katsuki despediu-se do rapaz de apenas 20 anos e de uma primeira instância, relutou em fazer uso daquilo, pois era ciente do quanto cocaína fazia mal para a saúde, altamente prejudicial em outros setores da sua vida, principalmente o profissional e o pessoal, e, acima de tudo, que era ilegal. Entretanto, o medo de ser demitido, fracassar novamente e ser uma vergonha para a família, já que largou tudo em Hasetsu, interior do Japão, para ser ator na capital, Tóquio, falaram mais alto e Yuuri foi até o banheiro da empresa, abriu o pacote, entrou em uma cabine, jogou o conteúdo em cima da tampa de uma privada, dividiu o pó em três fileiras e cheirou uma por uma. Já gostou do resultado por eliminar sua fome instantaneamente; em seguida, gostou do efeito de liberar a timidez ainda existente no ator e, por último, o resultado na balança: Yuuri perdeu um quilo só de ficar em jejum.
A partir dali, Katsuki passou a comer cada vez menos e cheirar cada vez mais até chegar ao ponto atual (um ano depois): consumir somente as calorias da garrafa de água com whey que toma no café da manhã, no pré e pós treino da academia, antes de dormir e dividindo o conteúdo da garrafa em quatro — 27,5 calorias para cada “refeição” — mais água. Detalhe: “dieta” feita “apenas em época de pegar músculos”, caso contrário, Yuuri bebia apenas água e, no máximo, uma ou outra bebida não-calórica, justificando-se com a seguinte linha de raciocínio:
“Eu bebo somente para não morrer, pois se seres humanos pudessem pegar músculos rápidos sem whey e aguentassem ficar sem água como aguentam ficar sem comida, nem whey com água e muito menos água pura, beberia”.
Já a cocaína, o ator tentava minimizar o uso e os efeitos dela, mesmo ciente do quanto ela fazia mal, usando o seguinte pensamento:
“Ela é apenas uma auxiliar, um remédio, porque cocaína é tão química quanto remédios para emagrecimento e laxantes. Eu só cheiro para não sentir fome, conseguir interagir melhor com as pessoas e posso parar a qualquer momento, pois eu sigo a dieta direitinho”. — Yuuri já cheirava todos os dias e nos dias em que não cheirava, passava tão mal que não conseguia cumprir sua agenda até que Yurio, ou alguém que “soubesse dos esquemas” trazer-lhe a droga, a “sua Nina”.
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