Notas iniciais
Aqui vai o terceiro capítulo.

Daniel Gilles respirou fundo, sentindo seu nariz arder. Não lembrava-se de estar tão frio no momento em que saíra da sua sala em direção ao estacionamento do complexo de prédios da velha e conceituada universidade. Fosse como fosse, naquele momento, pensou que congelaria. Respirou fundo e pode ver o ar expelido do seu corpo transformar-se em uma nebulosa nuvem de vapor.

Sentindo um calafrio percorrer seu corpo eriçando os pelos de sua nuca, ajeitou os livros de antropologia em um braço só e, com o outro, fechou ainda mais o casaco que vestia contra seu corpo. Ainda meio encolhido, continuou a percorrer o caminho entre a pesada porta de madeira do seu local de trabalho e o seu carro, estacionado no final do estacionamento. Era um longo e frio caminho a ser percorrido.

Apesar de fria, porém, a noite mostrava-se a mais bela dos últimos três nublados meses de Palo Alto. Limpa e exuberante como Daniel não lembrava-se de ter visto, sua lua cheia parecia tão próxima que esticar o braço ao céu era o suficiente para tocá-la. Além disso, a cor branco chantili do satélite jogava, ao seu redor, um halo prata que iluminaria até a mais sombria alma humana. Somado a tudo isso, uma incontável quantia de estrelas ladrilhava a imensa escuridão do céu infinito onde se encontravam, como pequenos brilhantes que encrustassem o mais fino tecido negro existente.

Realmente, era uma noite magnífica para a alma poética e romântica incorrigível do professor Gilles.

Ao fundo, viu uma silhueta encolhida caminhando na mesma direção que ele. Estava um pouco à sua frente, e graças à luz prata da lua, podia observar o contorno delicado do corpo da mulher. Seus cabelos soltos balançando à suave brisa da noite, seu vestido ondulando-se à altura dos joelhos, sua figura esguia encolhida à procura do alojar-se do frio.

Mesmo àquela distância ele pode perceber a maestria e delicadeza de seus movimentos.

O homem apressou o passo, tentando alcança-la.

— Hey, senhorita! – chamou, assim que estava perto o suficiente para ser ouvido.

A garota olho para trás, e naquela distância, Daniel pode observar suas feições. Com o nariz pequeno, empinado e um pouco redondo na ponta, olhos cor do mais profundo mel e cabelos cor cobre, ela, mesmo à pouca luz, parecia ser a criatura mais estonteante em que Gilles já havia posto os olhos.

O jovem professor tentou concentrar-se apenas na ajuda que iria oferece-la.

“Você é noivo.” Dizia, para si próprio, como se aquilo fosse um mantra. “Kiara te espera em casa, a sua Kih, a mulher da sua vida.”

Por que tinha a sensação que tudo o que dissesse não seria suficiente para tirar de sua mente os desejos que agora alojavam-se no seu canto mais escondido e obscuro?

— Quem é você e o que quer comigo? – disse ela, desconfiada, e o mundo ilusório de Daniel desfez-se como uma bola de chiclete explodiria.

— Calma, garota. – disse, sorrindo docemente. – Meu nome é Daniel Gilles, eu sou professor da universidade. E tudo o que eu queria era te oferecer uma carona, você deve estar morrendo de frio.

A garota de traços ingênuos pareceu refletir por alguns instantes. Sentindo um arrepio novamente, acenou positivamente com a cabeça.

O professor seguiu em frente, seguido pela jovem, tentando tirar de sua mente imagens que nem deveriam ter entrado nela.

Abriu a porta do passageiro para ela entrar. Pondo, então, seus livros no banco de trás do carro, dirigiu-se ao banco do motorista e fechou a porta ao entrar. Ligou o ar quente e esperou até que o ambiente estivesse aquecido.

— Então... você é professor, não é?

— Sou sim, senhorita...

— Timothy. Bridgit Timothy. Me chame de Bri.

— Bri, okay. Sou professor sim. Por quê?

A garota encolheu-se no banco um pouco, mas o calor do carro passou a tornar-se um tanto confortável. Então ela soltou-se.

— Você conhecia o Sr. Cooper... – não era uma pergunta.

— Sim. Terrível o que aconteceu com ele.

— Verdade... ele era meu... eu era amante dele. A esposa dele não sabia, e eu me sentia culpada, mas não pude evitar... tenho uma queda por professores mais velhos, mais experientes.

Daniel engoliu em seco. Era sua imaginação, ou ela estava insinuando-se para ele? E ela tinha mesmo desabafado todo o caso extraconjugal de Eliott Cooper à alguém que acabara de conhecer?

— Sabe... – continuou ela, e seus olhos marejaram-se. Ela começou a chorar, e Daniel sentiu-se culpado por ter pensado mal dela. Era tão doce... – Eu amava ele, e me sinto tão sozinha agora... ele ia se separar para ficar comigo, ele prometeu!

Agora ela já chorava copiosamente, e o professor não resistiu ao impulso de toma-la em seus braços. Queria poder tirar daquela jovem todo o seu sofrimento e leva-la para um mundo onde ela jamais sofreria novamente.

— Shh, não chore, doce Bridgit! – dizia, enquanto afagava os cabelos dela.

A garota afastou um pouco o rosto do peito do homem para observá-lo. Logo, por um impulso, os lábios dele já estavam junto aos dela.

Assim que os lábios dos dois se afastaram, Gilles dirigiu até o pequeno apartamento que alugara para a temporada em que ministraria o curso de antropologia complementar na universidade.

Entre beijos, a garota foi levada para o quarto de Daniel. O professor sentia o calor assolar o corpo dele por completo, como se fosse arder em chamas e entrar me combustão ao mínimo toque da garota.

Ela tirou-lhe o pesado casaco de inverno e foi abrindo a camisa dele, enquanto ele tirava o vestido dela pela cabeça, exibindo a pele alva de seu corpo coberto apenas por uma lingerie azul bebê, que inacreditavelmente, a deixava a coisa mais sensual que já vira na vida. Prensou-a contra a parede e começou a dar-lhe beijos e mordidas pelo pescoço, descendo até o vale entre os seus seios.

A garota o empurrou para longe e abriu os botões do jeans do professor, baixando-os. A calça foi jogada longe e agora ambos estavam apenas de roupa íntima.

O professor jogou a garota na cama, e ela fez a volta, colocando-se sentada em cima dele. Começou a beijar-lhe o peitoral ainda definido de nadador.

— Kiara ia gostar de saber que você está fazendo isso? – disse ela, durante os beijos.

Gilles arregalou os olhos, e viu quando a garota frágil de lingerie azul bebê olhou-o com as faces deformadas, um sorriso perverso em seu rosto.

Os gritos de Daniel Gilles romperam o obscuro silêncio da noite.

~~*~~

O cubículo ao qual Christopher Leonard carinhosamente chamava de sala estava mais para um gigantesco forno de micro-ondas que para um ambiente habitável. O calor dentro daquele local fazia as costas do policial suarem e molharem sua camisa azul marinho. O homem careca, que deveria pesar uns 130kg, levantou-se da cadeira com um pouco de esforço, sentindo seus joelhos reclamando. Caminhou até a minúscula fenda que deveria ser uma janela e abriu-a, esperando que a brisa refrescasse minimamente o local, mas ao contrário, o vento quente que entrara só foi capaz de piorar a sensação.

“Merda de sala sem ar condicionado.” Pensava o policial, abanando-se com uma mão utilizando uma folha de papel, enquanto a outra mão acariciava a redonda e protuberante barriga. “Como alguém pode trabalhar nessas condições? Isso deve ser contra as leis.”

Estranho como a temperatura daquela cidade mudava de maneira drástica. Na noite anterior, o frio era tão grande que podia-se ver vapor saindo de seus lábios quando se bocejava, e o policial havia sido forçado a acender a lareira de sua sala. Aquele ambiente não lembrava em nada o calor tórrido que ele vivia agora.

Por um segundo, sentiu-se como um frango assando no forno.

Christopher encarou novamente os dois novatos idiotas e esnobes à sua frente, e lembrou-se, instintivamente, daqueles charlatães de filmes policiais americanos que serviam apenas para atrapalhar o trabalho bem feito dos policiais sérios e competentes.

— Quem vocês disseram que são mesmo? – perguntou, marrento.

— Agentes Carter e Mitchelson, FBI. – disse Dean, e ambos mostraram seus falsos distintivos adquiridos dois dias antes.

— Federais. – bufou o careca, reclamando quase que internamente pelos dois metidos às suas frentes. – Por que, afinal, os federais estão interessados no caso Gilles?

Dean apoiou a mão na mesa, empurrando o corpo para frente e ficando cara a cara com o policial gordo. Sam pôs a mão no braço do irmão, tentando fazê-lo parar.

— Por que nós seguimos ordens e gostamos de concluir nossos casos com ÊXITO, Sr. Leonard. Dos últimos três casos de assassinato de Palo Alto, quantos foram encerrados com êxito?

Leonard encolheu-se na cadeira. Definitivamente, ele não gostava daquele federal.

Pensou no asar do pobre coitado do federal mais alto, que era obrigado a trabalhar com aquele idiota em tempo integral. “Algumas pessoas”, pensou ele, “nasceram para ter azar no trabalho”.

- Os fatos são simples: Gilles fora encontrado só de roupa íntima em sua casa, trucidado. Seu corpo estava espalhado por todos os cantos. Assassinato encomendado, vingança.

— Ah, sei. E como explica as portas trancadas por dentro e nenhum sinal de arrombamento, Inspetor Leonard? Por acaso o assassino entrou pelo ralo da pia da cozinha? Ou será que foi pelo vão embaixo da porta?

O sangue subiu para o rosto do policial, e por um segundo, Sam pensou que aquele pobre sujeito fosse explodir.

— Escuta aqui, garoto: meu trabalho não é saber COMO a pessoa entrou no apartamento para cometer o crime, mas QUEM era o criminoso. Não há provas. Não há nem suspeitos! De alguma maneira, esse cara é um ótimo assassino, não deixa vestígios. Como ele entrou e saiu não me desperta o mínimo interesse.

Dean respirou fundo e contou mentalmente até dez. Policiais haviam sido criados com apenas duas finalidades: deixar casos em aberto e acabar com a sua paciência.

— Bom saber como a polícia de Palo Alto se atém aos detalhes. – reclamou, mais para Sam do que para Christopher Leonard.

— Sr. Leonard. – principiou-se Sam, ao ver seu irmão começando a irritar-se mais que o adequado. – Você poderia reabrir o caso de Angélica Parker? Ou melhor, NÓS poderíamos dar uma olhada nos relatórios sobre o mesmo?

O policial gordo bufou, de má vontade.

— E por que eu estou reabrindo um caso de seis anos atrás, mesmo?

— Por que, Sr. Leonard... – Dean começou, encarando-o com o olhar mais assassino que tinha. Daria medo até em um demônio. – Eu sei que o senhor NÃO QUER ter problemas com o nosso chefe, não é? Afinal, quem iria querer perder um emprego miserável e sem valor como esse seu? Você pode não acreditar, mas tenho contatos que iriam amar tirar gente da tua raça de um cargo como esse.

— Dean! – Sam o puxou de volta para a cadeira, já que, lá pelo meio da sua ameaça nada sútil, ele já havia levantado e peitava o policial às suas frentes. – Desculpe, senhor. Dean, vai tomar uma água.

— Eu não quero água e...

— Dean, AGORA!

O mais velho bufou, levantando-se e dando um tapa em uma cadeira de escritório, que atravessou a sala com o impacto. Bateu a porta atrás de si, ainda reclamando por ter de aguentar a hipocrisia e a idiotice desse tipo de gente.

— Me desculpe, Sr. Leonard. – disse, novamente, Sam, assim que Dean já havia afastado-se um pouco. – Sabe, o agente Carter era muito chegado ao Sr. Gilles, eles eram como irmãos... é difícil, para ele, lidar com a perda. De qualquer maneira, seria uma enorme gentileza reabrir o caso de Angélica para nós, e também seria de grande utilidade para a nossa investigação.

O velhote jogou-se na cadeira, suspirando pesadamente naquele local úmido e abafado que os superiores cismavam em chamar de sala.

— Ah, okay. Eu vou reabrir o caso, apenas por que gostei de você. ao contrário desse seu parceiro, você é fácil de se lidar.

— Ah, obrigado, Policial Leonard. – disse o Winchester mais novo, levantando-se e segurando firmemente a mão do senhor, olhando-o da maneira mais complacente que pode. – Muito obrigado mesmo.

O rapaz alto caminhou em direção à porta, sentindo cada vez mais próximo da fuga daquela extensão do inferno, aquele mini forno.

— Hey, garoto! – chamou o policial.

Sam virou-se, surpreso.

— Dá um jeito naquele idiota do seu parceiro, por que eu não quero ser obrigado a prendê-lo por desacato à autoridade ou por desordem pública, ou por qualquer outra encrenca que ele se meter. Não esqueça que eu estou na minha jurisdição.

Sam levou um susto de início, mas depois viu uma centelha de sorriso nos lábios dele. Quem sabe Christopher fosse um cara bom, lá no fundo.

— Pode deixar, Sr. Leonard.

O rapaz estava saindo, mas parou novamente. Olhando para o chão, sem virar-se de frente para o policial, ele falou:

— Sabe, Sr. Leonard... meu parceiro é um cara legal, lá no fundo. Ele pode ser estourado, metido, implicante, teimoso, pode até ser um pouco difícil de se conviver. Mas ele é uma pessoa realmente boa, e seria capaz de dar sua vida por outra pessoa, sem pensar duas vezes. Todos os dias da minha vida eu deito minha cabeça no travesseiro e penso em como queria ser alguém tão bom e complacente quanto ele. – Sam parecia estar em um mundo próprio, somente dele, enquanto falava. – No fundo, ele é o maior motivo para eu tentar ser melhor a cada dia que passa. Ele é meu exemplo.

E dizendo isso, ele saiu, fechando a porta atrás de si.

Christopher ficou olhando para a porta fechada, pensando em como aquele garoto parecia ser capaz de matar e morrer pelo arrogante loiro de olhos verdes. Aquilo era mais que uma amizade. Eles eram irmãos.

Por algum motivo, teve a impressão de que não importava o que a vida lhes guardasse para o futuro, eles estariam juntos. Matariam juntos, morreriam juntos. Não importava o que viesse a acontecer, eles jamais abandonariam um ao outro.

~~*~~

Dean estava escorado junto à porta do Impala, com o nó da gravata frouxo e as mangas da camisa erguidas. Ao som de The Eye of The Tiger, bebia uma cerveja direto da garrafa, em grandes goles, tentando aplacar o calor imenso daquele tórrido sol do meio-dia.

Acompanhou com os olhos quando, meia hora depois dele, seu irmão passava pelas portas da delegacia, trazendo consigo um envelope laranja lacrado, com o logo da delegacia de Palo Alto impresso na lateral.

— Já estava na hora, maninho. – disse ele, bebendo o último gole da sua cerveja e jogando a garrafa em uma lixeira próxima a ele. – O que conseguiu?

— O dossiê do caso Angélica e os relatórios do caso Gilles seriam informação suficiente?

Dean encarou, pasmo, o irmão, que agora exibia a ele o pacote como se ele fosse um troféu, algo de valor inestimável.

— Cara, isso é perfeito! Como é que você convenceu aquele parrudo a lhe dar esses documentos?

— Não convenci, dude. Eu roubei.

Dean deu uma risada, entre a descrença e a alegria. Entrou no carro e aumentou o volume do rádio, mesmo com as reclamações de Sam. Ao dar a partida no veículo e pisar fundo no acelerador, ele sabia exatamente pra onde deveriam ir.

Hora de conhecer o ninho de Daniel Gilles.

Notas finais
Espero que tenham gostado. (:
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