Dead Line Circus - Interativa
23 Quem não trabalha, não come
Notas iniciais
“Entre mortos e feridos, há os sonhos”
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O som do relógio marcava os segundos do que parecia uma eternidade para Evanecer. Lá fora já estava escuro, a lua estava alta no céu, mas Evanecer não dava importância a isso, tinha trancado as portas e as janelas e acendido uma vela para não ficar totalmente no escuro. O silencio do quarto só realçava o quão barulhento um relógio poderia ser, ele sempre fez um som tão alto ou ela que não tinha prestado atenção antes?
Encolhida na cama, ela encarava a porta com seus pensamentos voando longe, até ver uma sombra pelo vão da porta. Alguém chegou bem perto do quarto dela e parou, ficou três ou quatro segundos parado e depois foi embora. Sem bater, chamar ou ao menos tentar entrar. Devia ser só algum curioso.
Evanecer segurou sua cruz com uma mão e a faca com a outra. Silenciosamente, ela repetiu o nome de Rick como se fosse uma oração, por mais que carregasse uma cruz ela não sabia rezar, também não conhecia ninguém lá em cima que pudesse ouvir o pedido de uma garota moribunda como ela, além de Rick, então era para ele que suplicava.
Novamente alguém parou em frente a sua porta, ela pode ver a sombra, ficou lá parado em silencio. Evanecer imaginou que talvez pudesse ser o Mago, querendo fazer um ultimo apelo silencioso ou então Oliver querendo entrar, mas se fosse o menino ele já teria tentado abrir a porta. Não devia ser difícil perceber que tinha uma vela acesa no quarto, a luz devia passar por baixo da porta, então por que a outra pessoa hesitava?
Um minuto para meia-noite e os ponteiros do relógio param. Evanecer percebeu instantaneamente quando o som do tic-tac sumiu.
Sentiu um vento fraco e gelado fazer as pontas de seu cabelo flutuarem e quando olhou pra porta novamente encontrou-a aberta.
O pânico veio de uma vez e não deu tempo nem para ela se levantar.
Ao redor da porta as paredes começaram a descascar, revelando uma nova parede cinzenta por trás, a própria porta também se descascou como se fizesse parte de um desenho, dando origem a uma nova porta com grades de ferro. Aos pouquinhos ela saiu do quarto do circo para voltar ao seu antigo quarto de prisão.
Ela olhou em volta com os olhos arregalados, sem ter certeza se estava sonhando acordada. Ouviu uma risada nasalada e imediatamente mirou sua faca para a origem do som, até perceber que estava segurando uma colher. Porém, a colher não ganhou sua atenção por muito tempo, sentado na outra cama havia uma garoto com a perna enfaixada. Era bem mais novo que ela, tinha o cabelo cor de areia e olhos brancos devido a cegueira.
— Bom... acontece – ele brinca.
Evanecer não entendeu por um momento, mas ao olhar para baixo percebeu que ele estava rindo por ela ter molhado a cama, nem se lembrava quando tinha feito aquilo, mas acontecia com frequência quando tomava os novos medicamentos.
Sua primeira reação foi fechar as pernas e tentar disfarçar a situação em que se encontrava, algo desnecessário já que ele não conseguia vê-la, porém logo raciocinou que não tinha como ela estar ali, não com Rick, ele morreu. Levou sua mão até o colar, porém não o encontrou, olhou para o pescoço de Rick e viu sua cruz ali, como sempre esteve.
Se aquilo era uma ilusão, o falso Rick tinha roubado o único tesouro que ela possuía e isso era imperdoável. Mesmo que ele estivesse usando a forma do verdadeiro dono daquele acessório, apenas o verdadeiro Rick merecia usar aquilo.
— Você está bem? Parece meio perdida – Rick pergunta estranhando o silencio dela.
— Não tem como isso ser real – ela o olha acusadoramente como se ele fosse o responsável por tudo.
— Ainda está sonhando?
— Você não é de verdade – ela suspira e olha em volta. – Eu tenho que acordar.
Ela pula da cama, mas escorrega na ponta do lençol e quase cai no chão, escorando-se na borda de ferro da cama de seu companheiro antes do impacto.
— Você está bem? – assustado com o tombo, o garoto inclina sua cabeça tentando ouvir Evanecer.
Ela só geme, em frustração, porém ele interpretou o som como algo sério.
Rick deixa sua cama tomando cuidado com a perna enfaixada, tateia o chão atrás de Evanecer e quando a encontra se senta ao seu lado, pondo a mão na testa para ver se ela estava com febre.
— O que eles te deram?
— Ei! Me solta! – ela tenta se desvencilhar dele, como se não bastasse a ilusão estar usando a aparência de seu amigo, ainda tentava imitá-lo? – Eu vou acordar com ou sem sua ajuda.
— Você já esta acordada – ele diz com convicção.
— Não estou.
— Está sim. Não está vendo que eu estou aqui? Onde você acha que está? – ele pergunta tentando convencê-la.
— É por isso que não estou acordada. Eu saí daqui, sua presença já é a prova de que estou sonhando, não tem como eu vir do circo pra cá.
— Mas do que você está falando? Eva, você dormiu a noite inteira.
Evanecer dá um tapa no rosto dele e logo fica chocada por perceber duas coisas: primeiro, mesmo sendo uma ilusão, ela acertou o rosto de Rick, a ultima pessoa que deveria maltratar. Segunda, ela sentiu a dor do impacto, mesmo ele sendo uma ilusão.
Em segundos a expressão do garoto foi de choque para raiva. Ele a libertou espalmando as mãos no ar, deixando bem claro que se rendia e com dificuldade subiu de volta para sua cama, arrastando sua perna de volta pro lugar. Olhou para o nada emburrado e depois de tatear o ar procurando a parede, usou a estrutura como guia para evitar o olhar de Evanecer.
— Da próxima vez que você chorar eu não vou mais te ajudar – ele resmunga.
Aquele Rick parecia muito real. Ela sentiu a pele dele. O chão de pedra também parecia bem áspero e frio, incrivelmente realista. Em comparação com suas memórias do circo, aquele quarto parecia muito mais real do que a ideia de um circo macabro a sequestrando pra virar artista. Rick tinha razão, devia ter sonhado com tudo aquilo.
— Desculpa – Evanecer engatinha até a cama dele e cutuca suas costas. – Desculpa Rick.
Ele resmunga alguma coisa e a ignora. Esse não era o reencontro que ela tinha imaginado, conseguia até sentir o cheiro de bolor dos cantos das paredes, de certa forma isso a reconfortava, os defeitos da paisagem só lhe diziam o quanto aquele momento era real.
— Eu juro que vou te recompensar. Por favor, esqueça o que eu fiz agora, eu estava fora de mim – ela pede com um tom de voz manhoso.
— Se pedir com jeitinho...
— Oh grande e poderoso Rick, por favor perdoe essa humilde serva e suas atitudes egoístas.
— Que exagero, agora forçou demais – ele ri.
Seus olhos cegos não podiam ver onde ela estava, mas Evanecer podia ver que a expressão dele havia relaxado.
— Vai tentar fugir hoje de novo? – Rick pergunta.
— Vem comigo – ela pede.
Era um pedido inútil. Rick não podia correr devido a sua perna e tentar fugir com uma cadeira de rodas só pioraria a situação, além do que ele não conseguia enxergar o caminho, não precisava nem tentar pra saber que seria um desastre.
— Eu vou ficar nos bastidores – ele diz pegando a cruz em seu pescoço para rezar. – Como sempre.
— Quando eu sair daqui eu volto pra buscar você. Prometo. E ainda farei aqueles caras pagarem pelo que fizeram.
— Realmente, o que eles te deram? – Rick pergunta feliz pela determinação de sua companheira.
Quando Evanecer vai dar um beijinho na bochecha dele, sente amarras puxarem suas mãos pra trás e quando bate a cabeça no chão percebe que estava presa em uma maca. A luz forte em sua cara e deixa momentaneamente cega e quando olha para o lado vê uma porta entreaberta. Uma enfermeira empurrou uma cadeira de rodas pelo corredor. Evanecer pisca os olhos tentando acostumá-los a luz, mas só conseguiu reconhecer um borrão de quem estava na cadeira de rodas. Era Rick? O que tinha acontecido?
— Onde você pôs a morfina? – um médico pergunta atravessando o campo de visão dela.
Evanecer o segue com o olhar e vê ele se colocar ao lado de outro médico, que ajeitava uma bandeja.
— No lugar de sempre, já olhou no armário?
— Não está lá.
— Está aqui comigo – uma enfermeira aparece apressada. – Achei que iam precisar no outro quarto.
O homem que tinha atravessado o campo de visão de Evanecer volta pra perto da maca e ajeita a luz que iluminava a cara dela. Usava um jaleco branco, diferente do médico que estava com um uniforme azul, óculos de grau e uma máscara branca cobrindo sua boca.
— É uma ilusão, não pode te machucar – Evanecer diz para si mesma começando a entrar em pânico. – é uma ilusão...
— É um olho artificial? – a enfermeira passa um cilindro com uma esfera branca flutuando em meio ao liquido para o homem de jaleco. – Parece que brilha no escuro
O olho arroxeado dentro do cilindro deixa Evanecer em pânico por reconhecê-lo. Na mesma hora ela se lembra do rosto de Arman em meio a escuridão da gruta, com aquele olho queimando feito fogo enquanto ele perguntava: “Meu olho está com você?”
Evanecer começa a gritar, se debatendo entre as correias da maca. Não iriam colocar aquilo nela de novo, ela não permitiria.
— Morfina – o homem de jaleco pede como se estivesse pedindo um refrigerante na lanchonete. Completamente indiferente ao desespero dela.
Evanecer não queria mais ver. Antes, quando Arman arrancou o olho dela, sentiu raiva e medo por perder aquele dom, mas se, e apenas se, de alguma forma, tinha voltado ao passado, ainda dava tempo de concertar as coisas. Se Rick tivesse aquele olho amaldiçoado poderia provar que as alucinações que via não eram fruto de sua mente, se ele tivesse aquele olho não seria cego, ele entenderia as coisas que ela tinha visto e Evanecer não ficaria mais sozinha.
No começo, quando ganhou aquele olho, ela pensou que o que via eram fantasmas, espíritos distorcidos que não pareciam humanos, mas depois ela percebeu que era mais complicado que isso. Rick não estava lá para guiá-la, ela teve que aprender tudo sozinha. Não havia nome para aquelas coisas, elas existiam sem precisar existir e influenciavam sem intenção de influenciar. Evanecer não sabia o que eram ou de onde vieram, mas acreditava que estavam ali muito antes do dono de seu olho pedir para vê-las. O que via era “o que não deveria ver”. Na época não sabia o que o dono daquele olho fez para conseguir aquilo, mas agora tinha quase certeza que aquelas coisas eram um bônus não calculado. Arman estava preso ao circo e ela caiu na mesma armadilha tentando encontrá-lo.
— Pinças – o médico ao lado do homem de jaleco pede a enfermeira.
— Se der rejeição mate a menina, mas não danifique o olho – o homem de jaleco adverte. – Foi difícil de conseguir.
Evanecer não conseguia mover nem mesmo os dedos, seu corpo estava tão cansado que ela sentia que ia dormir a qualquer minuto, a morfina estava fazendo seu efeito. Quando acordasse Rick estaria morto, ela ficaria sozinha e teria que lidar com as alucinações que ele descreveu para ela desde que a conheceu, mas agora saberia que não eram alucinações.
Suas pálpebras foram ficando pesadas, o sono roçou sua consciência e ela fechou os olhos. Atrás de suas pálpebras, ela mergulhou em um sonho. Um que tinha esquecido. Ela viu as nuvens de tempestade no céu, o vento forte fazia as grossas gotas de chuva atingirem sua pele com violência, assim como o navio que balançava com a ondas fortes. Raios brancos cortavam o céu seguidos do som dos trovões, o mar estava agitado fazendo as ondas negras se quebrarem em espuma tentando derrubar o navio. Evanecer nunca entendeu por que viu aquela tempestade sem sentido. Parecia tão importante, mas ela nunca entendeu o porque.
Ela não viu mais nada além da tempestade furiosa, mas sentiu que havia alguém atrás dela. Não conseguiu virar a cabeça ou tirar os olhos da chuva, mas ficou preocupada com a presença.
— Vou entrar em outra ilusão agora? – Evanecer pergunta.
— Não, você não vai a lugar algum – uma voz feminina e infantil diz.
Levada pelo pânico ou talvez livre do que a prendia de olhar para a tempestade, Evanecer vira-se para trás e não encontra ninguém. Apenas os marujos que tentavam sobreviver as rajadas de chuva e um lobo. Parecia estranho, ele estava calmo no meio daquele caos e os marujos pareciam ignorar a presença da fera ali, parecia que nem mesmo o estavam vendo. O que era impossível, o lobo era enorme.
No momento que ela fez contato visual com os olhos do lobo, Evanecer sentiu suas pernas enfraquecerem, ela caiu de joelhos e o chão do navio desapareceu, jogando-a num poço escuro e profundo de inconsciência.
Muito longe dali, fora da mente de Evanecer, seu corpo estava caído no chão do quarto. O badalar do relógio retumbava com um som fúnebre anunciando meia-noite em ponto. As rosas que usava como enfeite no cabelo se desfizeram e seu olho especial não havia retornado, em seu lugar só havia um buraco em carne viva, como sempre houve ali. Seu único olho restante estava nublado como nuvens de tempestade, congelado numa expressão sem vida de uma garota morta e do canto da boca escorria sua saliva misturada com sangue.
Uma menina pálida de cabelos brancos e olhos amarelos abandona o corpo de Evanecer estirado no chão, saindo pela mesma porta em que tinha entrado. Outra garota igual a ela a esperava do lado de fora.
— Ela não nasceu com aquele olho, um menino chamado Rick morreu e o cientista deu pra ela – a menina diz indiferente, relatando tudo o que vira.
— Quem é Rick? – a outra menina pergunta, não estava interessada, mas precisava perguntar.
— Descendente do Arman. O olho era pra ele, mas o menino morreu pra ficar pra ela.
As meninas não viam importância nas informações que conseguiram com Evanecer, se todos já morreram não havia mais problema. Para qualquer um que a examinasse, Evanecer havia morrido devido a uma parada cardiaca, mas para as meninas que a mataram, Evanecer ficou um tempo viva e depois simplesmente morreu, como uma vela apagada.
As duas se aproximam de um monstro esquelético e seguram suas mãos, a besta rosna as saudando e as acompanha pelas ruas mal iluminadas do circo.
As meninas pálidas de olhos amarelos não tinham nomes, não havia a necessidade de um. Tinham um ciclo de vida muito curto e delicado. Se um membro do circo fosse morto por um VIP, tudo o que viesse dele passava a ser propriedade de seu assassino, normalmente eram pontos que iam para seus cartões. Se um membro ficasse doente, era propriedade do Doutor e, portanto, intocável até se recuperar. As meninas morriam rápido se não tivessem pontos para se recuperar, por isso ficavam esperando. Sem capacidade para confrontos, o Mestre lhes deu permissão de ceifar quem se tornasse inútil para o circo, então além de sobreviver aos outros membros e aos VIPs, os artistas e empregados tinham de se tornar indispensáveis, caso contrário, se as meninas tivessem o mínimo motivo para acreditarem na inutilidade de alguém, ceifariam quem ficasse para trás, para alongar as próprias vidas. Era um sistema simples, todos se focavam tanto nos predadores que esqueciam os carniceiros.
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Em uma sala com colunas de mármore e a abobada feita de vidro, potes de tinta, pinceis e panos sujos se encontravam esparramados pelo chão. Um homem de cabelos castanho escuros, quase pretos, e olhos igualmente castanhos estava sentado no alto de uma escada dando o ultimo retoque para sua tela.
A sala e o homem tinham o aroma de flores de lótus, não havia um canto daquela mansão que tivesse um odor desagradável, sua irmã Fleur Durand de Lapouge, não permitiria que ele denegrisse o nome da empresa exalando qualquer cheiro que não fosse o de perfume, apesar da empresa ser dele.
Raphael molha o pincel no vermelho sangue e passa a ultima pincelada contra o tecido da tela.
— O jantar já está pronto a horas, quando você vai comer? – Fleur aparece com um olhar pouco amigável e pronta para um confronto.
— Daqui a pouco – ele responde.
— Você disse isso horas atrás – ela se aproxima do quadro olhando torto para ele. – Que mal gosto.
— Algo contra o inferno de Dante?
— Não podia pintar girassóis? – ela cruza os braços. – Algo alegre pelo menos. Não vai fazer mal se dedicar em algo mais calmo e feliz em vez desse... ahn...
— Desespero excruciante e sofrimento eterno? – Raphael olha para ela com um sorriso perverso.
— É. Isso.
— Este é apenas o quarto circulo do inferno, para os gananciosos e avarentos, – Raphael desce da escada e entrega a paleta com as tintas a ela – uma amostra grátis de seu futuro Fleur.
— Desde quando sou avarenta? Divido tudo com você.
— EU divido tudo com você – ele exibe um sorriso confiante. – mas estou só brincando, você é a santa que me resgatou da escuridão.
— Por que sinto que está zombando de mim?
— Eu sou grato, eu te adoro, você é a única capaz de me domesticar, mas não posso e não quero mudar meu desejo de provocá-la. É um estilo de vida.
— Estou rindo por dentro, agora que tal você comer alguma coisa? Está nesse inferno a horas.
Ela dá meia volta e encontra a carteira, os cartões de crédito e o dinheiro dele espalhados no chão, demasiadamente perto das tintas e das ferramentas de pintura. Alguns até sujos com massa.
— Eu não acredito, olha a bagunça que você fez – ela se abaixa e começa a recolher os cartões. – Faz ideia do que pode acontecer se perder um desses?
— Quis pintar um condenado com cartão de crédito, qual o problema? Acabei de falar que é a pintura dos avarentos.
Fleur pega os cartões e os guarda na carteira, até pegar um cartão sem o nome do banco, identificação ou qualquer dado de Raphael, apenas asas de mariposas e um circulo de lagrimas no meio.
— O que é isso? – ela vira o cartão de lado e o examina sem entender de onde ele é.
— Isso não é brinquedo Fleur – Raphael tira o cartão cuidadosamente da mão dela preocupado.
— É cliente VIP de alguma coisa? – ela dá de ombros voltando a guardar os cartões.
— Sim, dos portões do inferno – ele guarda o cartão no bolso um pouco mais aliviado.
— Que divertido, deve ser ótimo – ela revira os olhos.
Terminando de organizar, ela entrega a carteira ao irmão com um sorriso orgulhoso.
— Agora, comida.
— Eu já vou – ele diz pegando a carteira e contornando a irmã. No meio do caminho muda de ideia e volta-se pra ela. – Fleur, só pra conferir, pode colocar esse cartão em frente aos seus olhos?
— Pra que? – ela pergunta já obedecendo e olhando através do cartão.
— Nada. Consegue ver alguma coisa?
— Sim, estou vendo um homem magrelo fascinado pelo inferno. Ah, espera, é você.
— Serio, consegue fazer ele virar pra trás com a mente?
Fleur olha para Raphael com um olhar que já respondia a pergunta dele.
— Deixa pra lá – ele diz pegando o cartão de volta. – Só queria ter certeza que a trava estava funcionando.
— Sim, seu cartão é a prova de magos. Feliz agora? Vamos.
Ela se adianta em sair do estúdio esperando que ele a seguisse.
— Fleur, que horas são?
— Quase meia noite, por que?
Raphael abre um sorriso malicioso e encosta-se a uma das colunas enquanto olha o céu noturno.
— Nada, pode ir na frente – ele diz.
Fleur abandona o irmão e não vê quando ele se dirige a uma mascara escondida e trancada em suas coisas pessoais. A mascara era o rosto de um homem pálido e cheio de cicatrizes, algumas ainda abertas e sangrando com sangue falso.
— Sinceramente, eu quase morri do coração. Se a Fleur for pra lá vai encher meus ouvidos até eu querer ficar surdo.
Ele coloca a mascara ajeitando-a para não atrapalhar sua visão, como sempre ela se encaixava perfeitamente, tal qual um segundo rosto. Raphael coloca o cartão em frente aos seus olhos e quando o circulo de lagrimas vira pro outro lado ele se vê no circo, tão rápido e fácil quanto virar uma folha.
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Alice da Corte Vermelha, carregando um machado, parecia de bom humor. Nobre do amanhecer caminhava com uma mão no bolso enquanto girava uma chave com a outra, completamente despreocupado, e o Amante das Bestas tomava sua taça da champanhe, sem querer socializar com ninguém.
Raphael Lorenzo de Assis, conhecido ali como Inferno de Dante, admirava a paciência da Dama intocável, ela era quase tão antissocial quanto o Amante das Bestas. Ao seu lado, a Colecionadora olhava Lua Azul dançando com Carnificina Noturna como se estivesse intrigada com alguma coisa que não queria dizer em voz alta.
— Não me diga que quer roubar o par da Lua Azul? – Inferno de Dante pergunta.
— Se eu quisesse já teria feito isso – a Colecionadora diz voltando o olhar para ele.
— Eu não duvido – Inferno de Dante estende a mão para ela e tão logo a mulher o toca ele a puxa para uma dança.
Caveira das flores mortas esticava as mangas do kimono de Sheng varias vezes analisando a qualidade do tecido. O chinês olhava preocupado para os puxões que o garoto com mascara de caveira dava, com medo de sua roupa rasgar. Ele nem havia o cumprimentado, Caveira das flores mortas começou a testar a resistência do tecido tão logo se aproximou de Sheng. Quando ficou satisfeito com a tarefa, ele uniu as duas mãos e fez um cumprimento a moda chinesa para Sheng, curvando-se em uma reverencia, isso depois de quase 15 minutos de puxões.
— Já faz algum tempo, como tem passado? – Caveira das flores mortas pergunta.
Sheng ainda não teve vontade de pular da roda-gigante, então podia dizer que estava bem.
— Eu vou bem e com muita saúde, desejo o mesmo a você – Sheng retribui a reverencia não esquecendo de ser educado.
— Você é o que aqui no circo? – Caveira das flores mortas pergunta.
— Acrobata.
— Ah, por isso é tão flexível. – Caveira das flores mortas comenta.
— Obrigado – Sheng aceita o elogio, porém logo fica constrangido ao perceber a natureza erótica daquele comentário. – Por favor esqueça isso.
— Dificilmente algo assim passa em branco, não quero ser o responsável por nenhum trauma, ainda mais em circunstancias tão estranhas.
— Eu estou bem e não te responsabilizo – Sheng diz indiferente, abandonando o mexicano e indo se colocar ao lado de Arman.
O acrobata olhou uma vez para Sheng estranhando a preferência de companhia, mas decidiu ignorar.
Ênia carregava um buquê de rosas brancas junto de Will, que carregava as negras. Os dois veem a tenda principal cheia de VIPs e decidem ir por outra entrada.
— V-v-vamos guard-d-dar antes que Magnus c-c-chegue – Will diz.
Ênia concorda uma vez com a cabeça.
Os dois integrantes da Caixa de Brinquedos fazem a volta da tenda para entrar por trás, porem quando estavam chegando à entrada os dois param diante do obstáculo inesperado. Oliver estava sentado em um caixote perto da entrada, usando os lábios para alisar o fio de nylon que tinha passado dentro de um anzol. O menino olha pra eles uma vez, franze as sobrancelhas ao olhar os buques de rosas e decide por ignorá-los.
— V-v-vai cortar sua b-b-boca – Will avisa.
— Eu tomo cuidado – Oliver dá de ombros conferindo o próprio trabalho com o anzol.
— Não está um pouco tarde para pescar? – Ênia levanta uma sobrancelha desconfiada.
Oliver olha para a bailarina por alguns segundos, a analisando, antes de abrir um sorriso travesso.
— Talvez. Depende de quem olha – ele se levanta pegando o rolo de nylon e parando em frente aos dois. – Se sobreviverem hoje, amanhã vai ter brigadeiro no café da manhã.
— S-sério? – Will pergunta estranhando o cardápio.
— É mentira. Ainda estou esperando isso acontecer – Oliver passa por eles. – Mik-nii-chan dizia isso todas as noites e eu estou indo pegar uma coisa dele. Se virem o mordomo tentem distrai-lo pra mim.
E deixando os dois sozinhos, Oliver some na escuridão da noite enquanto balançava o seu anzol como se fosse um brinquedo.
Will ia comentar sobre o encontro com o garoto, até perceber que Ênia já o tinha abandonado para guardar as flores. Ele se apressou para ir ao encontro dela e entregou seu buquê para que ela o armazenasse ao lado das suas. Ênia ajeitou as rosas em um cesto de vime e depois colocou a tampa para fechá-las ali.
— A-a-agora temos q-que ir p-p-pa-...
Antes que Will terminasse de falar, Ênia estendeu pra ele uma das rosas que não tinha guardado.
— Pra você – ela disse sem um pingo de emoção no rosto.
Will pegou a rosa e percebeu que era a que ele tinha cortado irregularmente. Pela falta de expressão de Ênia não conseguiu saber se estava levando uma bronca, ganhando um presente ou acatando a ordem para jogar aquilo fora. Ele franziu as sobrancelhas sem saber o que deveria fazer a seguir, a situação não estava invertida? Ou ela estava esperando que ele se desculpasse pelo caule mais curto?
— Obri-... Sinto mui-... Desculpe?
— Imaginei uma resposta mais direta – Ênia diz contornando Will e saindo da tenda.
Will a segue olhando aquela rosa no caminho, ainda sem saber interpretar o presente. Colocou a rosa na lapela do casaco de soldadinho e decidiu ignorar o problema, de qualquer forma ainda tinha que descobrir o que havia na misteriosa caixa que encontrou no jardim do mordomo, uma rosa era o menor de seus problemas.
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Quando a ultima nota do violino e do piano que os VIPs tocavam ressoa, os pares terminam o ultimo passo da dança e todos aplaudem, tanto os dançarinos quanto os músicos. Abismo dos Espelhos e Violino de Banshee fazem uma reverencia e abandonam os seus instrumentos, notando que a ultima VIP que faltava, Comedora compulsiva, tinha acabado de chegar.
Madame Sondhein olha em seu relógio, faltava um minuto para a meia noite. O ponteiro dos segundos de repente parou de andar e por um momento ela achou que o relógio tinha quebrado, franziu as sobrancelhas e considerou a ideia de chacoalhá-lo, porém ele logo voltou a andar como se nada tivesse acontecido. Ignorou o acontecido torcendo internamente para não ser mau agouro e olhou para a Comedora Compulsiva. Ela andava com suas roupas coladas ao corpo como se estivesse numa passarela, os olhos cor de rubi com uma presença ameaçadora e chamativa. Sendo a única que faltava, ela se juntou aos outros sem cerimônia, cumprimentou Desencanto Singelo e Criador de Estrelas e ouviu, junto com os outros, o badalar do relógio indicando meia noite.
Uma gaiola cheia de pessoas foi empurrada para o centro por Erich e Cain. As pessoas dentro dela estavam apertadas e se espremiam contra as grades tentando buscar firmeza em suas posições desconfortáveis. Elas gritavam pedidos de ajuda para as pessoas com roupas elegantes e os mascarados as observavam como se não fossem mais que passarinhos, intrigados com eles, mas sem nenhuma emoção verdadeira de empatia.
Madame Sondhein tomou a frente e fez uma reverencia para o publico, o que fez alguns estranharem a presença dela ali enquanto outros olhavam em volta procurando uma pessoa.
— Muitos de vocês estão habituados ao Sr. Michael, eu serei a substituta dele até encontrarmos um novo apresentador – Madame Sondhein explica ao perceber a confusão do publico.
— Ele morreu?– Abismo dos espelhos pergunta – Com o evento da noite passada não percebi sua ausência.
— Sim – Madame Sondhein pensa em como amenizar a explicação.—Após completar certa tarefa, alguns componentes de seu trabalho se viram apegados demais a ele e houve o receio de que ele se apegasse demais aos componentes.
— Você está falando dos novos membros? Parece que está falando dos novos membros – Sombra das estrelas pergunta.
— Esses componentes... – Madame Sondhein decide por ignorar a VIP com mascara de urso.
— Ela está falando dos novos membros – Sombra das estrelas conclui sussurrando para Miss Arco-iris que estava do seu lado, esta concorda com a cabeça, compartilhando o segredo.
— Uma certa pessoa receou que esses componentes prejudicassem o julgamento dele e o demitiu de seu cargo – Madame Sondhein conclui seu discurso.
— Aposto 10 pontos que foi o Magnus – Miss Arco-iris sussurra para a ursinha.
— Michael era esse tipo de pessoa? – Violino de Banshee levanta a mão confusa. – ele não me pareceu um homem que se apegasse tão facilmente a desconhecidos.
— Foi o meu argumento! – Madame Sondhein exclama concordando com a VIP. – Ele podia parecer submisso, mas era obvio que ele era o ativo. Ele conquistaria, mas não se entregaria.
— Madame... – Violino de Banshee leva uma mão a sua máscara de ovelha cobrindo a boca teatralmente, como se estivesse afetada. – não vê que ele era versátil? Eu consigo imaginar muito bem ele tanto por baixo, quanto por cima.
— Do que está falando? Esqueceu como ele se apresentava aqui?
Arman suspira e massageia a sua própria testa, elas continuariam a discussão por horas se lhes pudessem.
— Voltando ao assunto principal, que tal continuar a programação madame Sondhein? – Arman fala com firmeza.
— Desculpa, me empolguei – Madame Sondhein pisca e fica um minuto em silencio tentando se lembrar onde tinha parado. – Ah, sim. Com isso dito, eu farei o sorteio das próximas noites.
— Sorteio? – Isis, a leoa, franze uma sobrancelha.
Arman faz um “shh” para que ela ficasse em silencio.
— Voluntários? – Madame Sondhein olha para o publico um pouco incerta de sua própria posição.
Uma VIP com máscara de gato cor de rosa levanta a mão imediatamente. Até a mão dela tinha luvas que lembravam as patinhas de um gato e seu vestido era rosa e cheio de babados brancos, combinando com as cores da máscara.
— Eu! Me escolhe! Estou me voluntariando! – Desencanto Singelo não esconde a urgência na voz.
— Pode vir – Madame Sondhein pega uma caixa cheia de pontos de interrogação, com dois buracos para enfiar a mão e espera a VIP ir até ela.
Desencanto Singelo joga um beijinho por cima do ombro para Miss Arco-iris e Sombra das estrelas, que também tinham levantado a mão, e se encaminha para a caixa. Poe a pata/mão dentro da caixa e tira de lá uma bala de revólver com um número: 05. Do outro buraco, tira uma carta pequena escrito “Jardim de Monstros”.
Por trás da máscara ela faz um biquinho frustrado e olha para a jaula.
— Quem é o número cinco? – Desencanto Singelo pergunta.
Madame Sondhein dá de ombros e estende a caixa para ela continuar. Desencanto Singelo continua sorteando a vitima e o palco até não sobrarem mais pessoas dentro da jaula. Quando a ultima foi sorteada e os convidados e artistas começaram a deixar a tenda, Ênia foi ao encontro de Ivie e no caminho percebeu que as pessoas da gaiola, as vitimas escolhidas para aquela noite, seguravam rosas negras e brancas, iguais as que ela tinha passado a tarde colhendo. Não foi preciso muito tempo para seu cérebro ligar os fatos e adivinhar a verdadeira finalidade delas.
Ênia não estava dando rosas para o publico, estava dando alvos. Quem pegava uma rosa estaria destinado a participar do espetáculo VIP. Por que existiam duas cores? Ela ainda não sabia, mas sentiu-se culpada pelo buquê que tinha feito questão de colher.
Arman e seus acrobatas passaram perto das novas vitimas e algo na direção delas chamou a atenção do homem de cabelos arroxeados. Ele olhou na direção delas e percebeu uma pessoa o observando.
Dentro da gaiola, a garota que havia esbarrado nele mais cedo o olhava com uma calma impassível. Mesmo na zona apertada e em meio a aflição dos outros ela parecia tranquila. Seu cabelo cor de mel estava meio bagunçado e havia uma rosa negra no seu vestido. Algo nela o deixou incomodado, seu estomago embrulhou como se tivesse comido carne crua no café da manhã.
Arman lançou um olhar hostil e desconfiado para Amelie e segurou o ombro de Sheng para apressá-lo a sair dali, apertando o passo para se ver livre daquela sensação desconfortável.
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Magnus ouvia rosnados e ganidos do outro lado da porta. Não era um cão ou alguma das feras de Erich, mas a frequência dos barulhos fez ele esperar uma oportunidade mais calma para bater na porta.
Quando a oportunidade apareceu e o som cessou, ele deu três batidinhas contra a madeira escura e entrou na sala carregando uma bandeja com iguarias e um bule de chá.
As marcas de garras contra o piso de mármore o desagradaram, algumas estátuas estavam quebradas e as velas apagadas. Se não estivesse acostumado a encontrar aquele cenário algumas vezes ao ano, ficaria preocupado com a condição do dono do lugar.
— Mestre? – Magnus diz parando próximo a mesa, sem conseguir ver mais formas a sua frente.
— Está com medo do escuro? – uma voz ressoa com certa diversão e cinismo.
Grunhidos sofridos vem do escuro junto com o som de galhos de quebrando, Magnus não consegue ver a localização exata da criatura, mas não precisa adivinhar, por que logo ela vem ao seu encontro. Um monstro alto e magro, parecendo ter sido esfolado vivo pela falta de pele ou mesmo uma camada de pelo, apenas os músculos e os ossos do esqueleto a mostra, exibia os dentes de piranha e as patas de crustáceos que entalavam sua boca. A criatura não estava em sua melhor forma, andava com as quatro patas num gesto de submissão e parecia acuada, tentando ameaçar Magnus num reflexo de autodefesa, mas ele podia perceber que estava assustada e não representava um perigo real. Provavelmente era um recém-nascido.
— São tão rebeldes nessa época... – a voz vinda do escuro comenta fazendo a criatura se encolher ainda mais.
— Seus bichinhos de estimação precisam ser adestrados.
Magnus adentra a escuridão segurando a bandeja e guiando-se unicamente por seu instinto. Ele sente seus sapatos esmagando cacos de vidro e algo fofo que parecia madeixas de cabelo. Quando sente a presença que procurava, serve o chá na xícara de porcelana e estende para o escuro.
— Chá de amora silvestre com algumas gotas de limão.
Uma mão a sua frente pega a xícara e ela desaparece flutuando no escuro. Perto de Magnus uma vela se acende, iluminando muito pouco o ambiente. O mordomo vê um tabuleiro de jogo esculpido na mesa de pedra, lembrava vagamente um tabuleiro de xadrez com casas pretas e vermelhas, porém era circular e com linhas curvas arranhando os quadrados. Algumas peças estavam espalhadas pelo tabuleiro: peões, bispos, cavalos e rainhas, porém também havia um rato e um escorpião como peças, ocupando as bordas do tabuleiro. Os reis estavam ausentes e só havia peças brancas. Magnus deduziu que era um tabuleiro para três jogadores, porém as peças dos oponentes estavam fora do tabuleiro.
— O xadrez tradicional já não era difícil o bastante? – Magnus pergunta tentando imaginar como se jogava o novo jogo.
— O tabuleiro mudou, mas o jogo é o mesmo. As peças ainda tem as mesmas funções.
— E contra quem está jogando? – Magnus pergunta olhando a peça de rato.
— Ainda não há um oponente.
— Está jogando sozinho? – o mordomo pergunta sem acreditar.
— Esse não é um jogo normal – o Mestre diz e no mesmo instante um dos peões treme e vira uma torre. – As peças são instáveis, elas evoluem e regressam sem que eu me mova. Quando uma delas virar rei, então eu terei um oponente pra jogar.
— Se uma delas virar rei, quer dizer que almeja matar você.
— Por isso fico observando – ele diz e entrega a xícara de chá vazia ao mordomo. – Não sou negligente o bastante para deixá-las a vontade em minha casa.
Magnus recolhe a xícara vazia e volta a enchê-la, entregando o chá de volta ao escuro.
— Ênia está aprendendo o bastante? – o Mestre pergunta.
— Ela está decorando minhas lições, deixo ela ver e aprender, mas não parece gostar de executar as atividades.
O mestre bebe um gole e olha para o liquido da xícara pensativo.
— Ela pode gostar de torturar seus inimigos, mas se não torturar os amigos teremos um problema.
— O que deseja que eu faça? – Magnus pergunta esperando receber as ordens.
Uma mão fechada sai do escuro e um pouco confuso Magnus estende suas mãos em concha. O Mestre entrega dois casulos de mariposa nas mãos de Magnus e desliza seus dedos de volta pra escuridão.
— Só precisa fazer o seu trabalho, esses dois cuidarão do resto.
Dois novos VIPs. Magnus olhou os casulos tentando imaginar como seriam os novos clientes. Teria que fazer os preparativos para eles.
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