Dead Line Circus - Interativa
17 Quando olhei para trás, você estava lá
Notas iniciais
"Em seu anel vi um brilho que me fez te invejar, até perceber que era onde você guardava o veneno para me matar."
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Aquela era uma oportunidade única de interação. Sabia como as coisas prosseguiriam, ou pelo menos em parte. Meninas adoravam conversar. Johanne estaria confinada no mesmo espaço que elas, onde trocariam informações, aprofundariam amizades e talvez soltassem histórias que fariam umas as outras rirem e comentarem com suas próprias experiências, mas a costureira sabia: Conversas entre garotas eram um campo minado. Ao contrario dos homens, que são simples e diretos, garotas eram complexas e instáveis. Guardavam rancores em silencio como cobras acumulando seu veneno, diziam o oposto do que realmente pensavam apenas para avaliar o terreno em que pisavam e eram bem mais cautelosas em suas relações. Uma colocação errada de palavras poderia despertar feras que seriam melhores adormecidas. E ela não estava com as companhias mais dóceis do mundo ali.
Johanne vira muito pouco de suas colegas de trabalho, mas mesmo ela já tinha guardada suas primeiras impressões sobre cada uma. Havia Saga, a mulher das cobras, uma mulher narcisista que se achava superior aos demais e era sempre acompanhada pelas serpentes sibilantes; Isis, a leoa ruiva, que tinha um aspecto selvagem e irritadiço; Satsuki, que parecia uma felina dócil e fofa, do tipo que se tem vontade de fazer carinho e brincar, mas que abria um sorriso sádico quando algo não estava do seu agrado e lhe dava um arrepio na espinha; Ênia, de todos a mais calma, com sua expressão sempre serena até mesmo quando alguém se machucava, mas que tinha o interior tão rápido e preciso quanto um computador registrando e acessando informações por nanosegundos; Bernardo, a pequena mas animada menina muda que estava sempre passeando pelo circo; Isadora, cuja origem de tudo sempre parecia lhe interessar e curiosa o bastante para querer ir a fundo e descobrir respostas para suas perguntas; Arisu, que no começo parecia não se adaptar a lugar nenhum mas que depois da noite anterior tinha adquirido ações mais firmes e uma torrente de estranha malicia e ira, e a misteriosa e reclusa Liadan, que apareceu no circo de um dia para o outro como se caísse do céu, não falava, não comia, e não olhava nos olhos de ninguém, vivia afastada em um canto do Jardim de Monstros e só interagia com as siamesas 1 e 2 e um rapaz que sempre a visitava.
Nenhuma delas tinha dormido nada e pareciam mais irritadas e arredias do que de costume depois da noite penosa pela qual passaram, parecendo perto de atacar o infeliz que falasse com elas naquele estado de humor. Pensar nisso fazia o estomago de Johanne revirar.
Estavam todas nos banhos, nuas como vieram ao mundo, banhadas em água quente perfumada. Até que era um lugar bonito, fazia Johanne pensar que romanos e egípcios se uniram naquela arquitetura. A “banheira” por assim dizer, era uma espécie de escavação nas rochas que estava incrustada de lápis-lazúlis, cuja fonte derramava a água quente e distribuía de uma banheira para a outra. Havia vitórias-régias flutuando, folhas de papiros crescendo entre as rochas e colunas de pedra decorando o ambiente.
A costureira achou que a água quente queimaria sua pele sensível, mas quando entrou só conseguiu sentir alivio, percebendo o quanto estava cansada apenas naquele momento. Sentia-se incomodada de ficar nua na frente de tantas pessoas e percebeu que muitas das garotas também pareciam se sentir assim. Apenas as mulheres veteranas sentiam-se mais a vontade, estavam acostumadas, Johanne percebeu.
Seryu, a cartomante com um olhar enigmático, desembaraçava seus cabelos negros com seu corpo quase colado ao de Ivie, a malabarista de fogo, que a ajudava a lavar suas costas. A ruiva passava suas mãos ensaboadas pela pele da mulher sem o menor pudor, até mesmo fazendo movimentos mais audaciosos que iam na direção dos seios dela não pareciam incomodá-la. A cartomante tinha um olhar sereno e distraído, mesmo com outra mulher tocando tão deliberadamente em seu corpo, Johanne podia sentir, ela estava muito mais distante de Ivie do que o espaço físico podia demonstrar.
A costureira não estava acostumada a isso, podia chamar de choque cultural, mas ver costumes diferentes dos seus ainda a deixava desconfortável. Talvez se não desse tanta importância e fingisse que era algo normal poderia fazer aquilo futuramente, quer dizer, Seryu não parecia ligar, pra ela tomar banho com outra mulher deveria ser tão normal quanto passar manteiga em um pão. Tudo dependia de como visse a situação.
Determinada a querer conhecer um pouco mais as pessoas que a cercavam, Johanne nada decidida até Ênia, a única que achava que não ia lhe atacar de imediato.
– Quer ajuda com suas costas? – Johanne pergunta com um sorriso amistoso. Talvez se as imitasse veria com seus próprios olhos que aquilo não era nada demais.
Os olhos bicolores de Ênia se voltam para ela em um silencio analítico. Estava medindo os prós e contras, deduzindo o por que da pergunta e qual a resposta mais adequada. Johanne tinha agulhas em suas mãos, um deslizar de dedos e ela abriria cortes em sua pele, não que Ênia se incomodasse com a dor, já estava acostumada apesar de saber ser prejudicial, mas ainda não parecia uma boa ideia deixar um estranho lhe abrir cicatrizes sem motivo algum.
– Eu consigo alcançá-las sozinha, obrigada. Com suas mãos, você só iria atrapalhar.
Ela tinha razão, suas mãos não foram feitas para tocar em coisas vivas, podiam costurar tecidos com agilidade e tinham grande precisão ao segurar uma agulha, mas em questão de criaturas que sentem dor não eram as mais indicadas para fazer carinho.
– Ah... sei... desculpe, eu tinha...bem, esquecido. – Através dos olhos de Arachme ela via as próprias mãos, pareciam mais afiadas do que tinha imaginado. – Desculpe.
Ênia balança a cabeça. Após um minuto, como Johanne permaneceu no mesmo lugar sem saber o que dizer, Ênia assumiu o controle da situação.
– Quer que eu lave as suas costas? Deve ser difícil com essas mãos.
– Eu... agradeceria...
Johanne vira de costas escondendo o embaraço, não foi bem como tinha planejado. Ênia pega uma bucha em cima da vitória-régia que flutuava e a mergulha na água para amolecê-la, começando um ritmo de vai e vem nas costas da mulher. Havia uma aranha no ombro dela, que observava o trabalho de Ênia, mas logo mudou-se para cima da cabeça a fim de ter uma visão melhor.
– Diga alguma coisa. – Johanne pede.
– O que?
– Qualquer coisa, puxe assunto comigo.
Ênia pensa em tópicos para discussão. Havia muitos em sua cabeça desde que se estabeleceu ali. Muitos mistérios e perguntas sem respostas. O que acha que aconteceu com o corpo de Michael? O que você acha que atraiu o loiro até nós? Entre tantas pessoas no mundo por que fomos os escolhidos? Por que o circo se move de lugar sem deixar rastros para trás? Quem é o Mestre? O que você acha que ele quer? Por que realiza desejos? Por que aquele livro de contos os levou até aquele lugar isolado? O que aconteceu com as pessoas que desapareceram? Muitas perguntas, muitos assuntos, mas o que deveria revelar para ela? Não confiava em Johanne, acabara de conhecê-la, e os próprios artistas daquele lugar diziam para não confiarem uns nos outros. Decidiu comentar um assunto leve, sem muita importância para avaliá-la melhor.
– Por que veio pra cá?
– Precisava de emprego. Perdi meu marido e eu não posso atender os clientes com minha aparência atual, eles saem correndo. Minha loja fechou e ficou com fama de assombrada, mas eu ainda estava lá dentro trabalhando.
Ênia imaginou uma loja abandonada, visualizou o momento que algum curioso entrasse pela porta e escutasse o som da maquina de costura funcionando, adentrando um pouco mais o lugar e encontrando de repente a costureira com mãos de agulhas e olhos de botão. Parecia filme de terror, não era a toa que foi considerada assombrada.
– E você?
Não era algo que pretendia esconder, então não fazia diferença ela saber.
– Procurava ajuda. Enquanto procurava uma pessoa minha pesquisa acabou cruzando dados com esse lugar. Digamos que aqui tem uma coisa que eu preciso para quando encontrá-la.
– Quem? – Johanne nem precisou virar a cabeça, com os olhos de Arachme focados na menina era como ter olhos nas costas, viu quando Ênia apertou os lábios em duvida sobre responder ou não. – Não precisa dizer. Tudo bem, eu entendi. Espero que você a encontre. – A dinamarquesa faz uma pausa. – Por falar em “encontrar”, você percebeu? O numero de pessoas aqui diminuiu.
Sim, ela tinha percebido. Não só entre as meninas, mas os garotos também. Depois da morte de Michael, Ellie tinha desaparecido, e durante essa ultima noite Tzvetana e Aegeon também, assim como Evanecer.
– Devem estar mortas. – Madame Sondhein se intromete na conversa. – Uma coisa com a qual você se acostuma. Se alguém que você conhece sumir, você não vai vê-lo novamente. – Ela faz uma careta e comenta consigo mesma. – Um desperdício. Eu tinha planos pra Sultana.
– Como sabe que estão mortos? Você viu os corpos? – Isadora pergunta se intrometendo. – Alguém não deveria procurá-los?
– De alguém que está aqui há muito tempo para alguém que chegou recentemente: Procure e você será o próximo. Muitas pessoas já morreram aqui, mas vocês estão vendo alguma lápide?
– É proibido procurar os corpos? – Arisu franze o cenho ao ouvir isso.
– Nada aqui é proibido, só é perigoso. – Como a albina continuava desconfiada, Sondhein explica. – Vamos colocar assim: Sua boneca favorita está dentro de uma fornalha acesa. Nada te impede de esticar a mão e pegá-la, mas se você fizer isso sabe que vai queimar o seu braço. Se você quiser fazer uma coisa, faça, mas tome cuidado. É quase do mesmo jeito que você vai em um duelo com um homem armado. Pode matá-lo ou pode ser morto, fracassar ou triunfar.
Falando em fracassar e triunfar Isis tinha uma pergunta, sobre o que tinha visto na noite passada. Já que teria que lidar com os VIPs toda noite não faria mal se soubesse com o que estava se metendo.
– Aproveitando, quais são as chances de alguém morrer e não morrer ao mesmo tempo?
– Como assim?
– Digamos hipoteticamente que eu tenha visto uma pessoa atirar na cabeça de outra pessoa com uma arma de verdade e depois de uns minutos ela voltar a vida?
– Ah, você deve ter visto um VIP morrer. Parecia que ele estava sendo levantado por fios como uma marionete?
– Sim. Isso mesmo. Eles não são humanos?
– Não é isso, eles são humanos, mas são VIPs, ganham tratamento preferencial. Hum... eu não sei como explicar isso sem entrar na mecânica da coisa. Seryu, você pode me ajudar?
A cartomante já sabia que ela diria isso, pois não demonstrou surpresa ao chamarem sua atenção, na verdade parecia já saber a conversa inteira que teriam pois sua expressão não mudou nem um traço de quando ela estava entediada. Elegantemente, ela abandonou Ivie e caminhou pela água, em direção ao grupo, chamando o resto das garotas que apenas escutavam atentas a conversa sem emitir opiniões.
Isis sempre tinha se achado atrativa, mas vendo a aproximação de Seryu, com um corpo explosivo como aquele e o ar de elegância e sofisticação frios como pedra, ela se sentiu diminuída, de repente, seus seios pareciam tabuas, seus quadris eram pequenos e seu cabelo selvagem que sempre foi seu orgulho, parecia um ninho de pássaro. Ela não foi a única a se sentir assim, Rebecca e Saga também, e Isadora e Arisu. Seryu tinha uma presença marcante como Magnus, ambos eram opressores e monumentais. As garotas acabaram se aproximando umas das outras numa tentativa de esconder a timidez. Se o objetivo dela era aproximá-las, tinha dado certo.
– É uma transferência ou um processo, se preferirem. – Ela explica com sua voz limpa e transparente. – Quando se tornam VIPs eles passam por um ritual de passagem. Todos começam como pessoas comuns, uma vez escolhidos, Magnus os convida para assistirem um espetáculo durante a noite. Se eles desejarem se tornarem VIPs depois de assistir, Magnus os leva para sua Casa de Chás, onde acontece o ritual. – Seryu trás Isis para perto de si de forma sutil, ela nem percebe que estava se aproximando até ficar cara a cara com a mulher, Seryu molha os cabelos vermelhos como sangue da egípcia e começa a desembaraçá-los com toda a paciência do mundo. – Primeiro, eles bebem um chá que apenas Magnus é capaz de preparar, chamado “Abertura”. Em seguida, espetam seu dedo e usam uma gota para escrever seu nome no livro de visitas e uma gota para alimentarem a mariposa de seu cartão VIP.
– Mariposa? – Isis pergunta absorvida pela história.
– O cartão VIP tem o formato parecido ao de um cartão de crédito. No centro existe um circulo com imagens de asas de mariposas. A mariposa que eles alimentam fica presa ao cartão até ele ser quebrado ou o portador morrer, quando se quebra ela volta para cá. É o animal preferido dele. – “Mestre”, a palavra não pronunciada ficou pairando no ar, deixando o clima desconfortável. Johanne nunca o tinha conhecido, mas sentia instintivamente que era mau agouro falar sobre ele, como se ele pudesse escutar. Se perguntava como isso era possível, temer alguém que nunca viu, sem saber o que pode ou não fazer e sem nem mesmo conhecer o nome verdadeiro, como só o fato de uma pessoa existir pode lhe causar tamanho pavor? Como os monstros das histórias infantis. –Assim como a borboleta, a mariposa também passa pela metamorfose, sua transformação. Mas ao contrário das borboletas, as mariposas são noturnas. Para os astecas, a mariposa era conhecida como o "Sol Negro", pois atravessa os mundos subterrâneos em sua viagem noturna. É um dos símbolos da morte, pois seu ciclo de transformações está ligado à imortalidade.
– Não sabia que mariposas representavam a morte nyan. – Satsuki pensa se lembrando de quando era criança e perseguia mariposas durante a noite.
– Uma vez feito isso, vem o que chamamos de “Metamorfose”, Magnus atrai sua essência para fora e eles adormecem. Com os corpos imóveis e a sua disposição, ele inicia o procedimento de transformação. A partir desse dia, eles tomam posse de todas as almas que suas mãos quebrarem, por isso existem os comuns, para transferir vidas a eles.
– Então... É como um jogo? Eles pegam os pontos dos carinhas ao completar missões? – Isadora pergunta.
– Quase isso.
– E esse “ritual”... esse de transformação... dói? – Johanne pergunta.
Madame Sondhein solta uma gargalhada interrompendo e responde no lugar da cartomante.
– Ele está mudando sua existência como ser humano. Sua natureza está sendo transformada.
– Espera. Então... Se alguém matar um VIP ele não vai morrer por existirem outras almas em seu corpo? – Arisu pergunta assustada.
– Sim, quanto mais almas mais forte o VIP. Mas existe um porém, essa possibilidade ilimitada de mortes só existe nas imediações do circo. Se um VIP tiver cinco almas em seu cartão, mas morrer fora do circo, ele não vai ressuscitar.
– O que acontece com as almas que ele colheu se ele morrer fora do circo Nyan? – Satsuki pergunta.
– Elas vem pra cá. – Seryu responde com um sorriso misterioso.
– Nyan!? Nyão me diga que... Elas não viram fantasmas e ficam perambulando por aqui, nyé?
– Não. – Seryu finaliza, sem explicar o que realmente acontece com elas.
– Vamos! – Isadora se aproxima e chacoalha Seryu pelos ombros. – Não faz mistério, eu quero saber o que acontece com elas.
– E o que acontece com você? – Ela observa Isadora. – Nisso você não tem interesse?
As meninas acreditaram que Seryu se referia ao que aconteceria com Isadora se um VIP a encontrasse, mas Isadora sabia que não era isso. Seryu estava se referindo ao que estava acontecendo com ela “naquele” momento.
Quando Isadora acordou depois da noite exaustiva, percebeu que não se lembrava do que tinha acontecido durante a noite, e havia sinais de que ela tinha feito muita coisa. Primeiro, seu quarto estava bagunçado. Ela era bagunceira, mas reconhecia sua própria bagunça quando a fazia. Gavetas e armários abertos, roupas espalhadas, livros esparramados e objetos que não eram seus aparecendo lá do nada, não foi um assalto, estava tudo ali, ela logo notou. Sua roupa estava empoeirada e tinha pedaços de grama grudados em seus pés, as pontas de seus dedos estavam avermelhadas com sangue seco, seu cabelo estava com um penteado diferente do que aquele que começara a noite e Biruta lhe estranhava. Sua fiel companheira felina lhe arranhou quando tentou pega-la e chiava em ameaça de seu esconderijo embaixo da cama. Uma ratinha dormia tranquilamente em seu travesseiro como se a presença da gata fosse insignificante e ainda havia aqueles sinais de que não esteve sozinha. Duas taças de vinhos mal terminadas, a garganta seca como se tivesse conversado a noite e Seryu parecia saber o que aconteceu.
– Me conte mais. – Isadora pede.
Seryu termina de desembaraçar os fios de Isis e a leoa percebe como ficaram lisos. Passava os dedos do começo ao fim sem enroscá-los nenhuma vez em seu percurso.
– Talvez mais tarde. Passe no Lua Minguante quando sentir que esta desesperada de novo. – Ela diz e se afasta do grupo.
De alguma forma o “efeito Seryu” tinha feito seu papel. Johanne percebeu que o clima tinha ficado mais leve, ninguém estava mais mal humorada e isolada em algum canto. Todas tinham se aproximado o bastante para ate se tocarem, e com essa proximidade conversarem. Em duplas ou em trios as garotas conversavam enquanto tomavam banho, com aquele assunto pairando no ar, já tinham até esquecido a timidez. De repente, ficar nua na frente de estranhas não tinha mais importância, tinham coisas melhores em que pensar.
Johanne olha para Ênia para aproveitar a atmosfera e percebe que esta a estava avaliando em silêncio.
– Que foi?
– Depois do banho você ficará muito ocupada? – Ênia pergunta.
– Muito ocupada não... por que?
– Quero que venha até meu quarto. Preciso que me ajude a apertar algumas roupas. – Ela mente.
– Ah! Isso é minha especialidade. Mas por que não entregá-las no meu ateliê?
Ênia mexe a cabeça.
– São muitas, não sei quais tem concerto e quais não tem. Preciso que me ajude a ver quais ainda dá pra usar.
– Pode deixar. Depois do banho vamos juntas.
Ênia relaxa os ombros com a confirmação do pedido. Johanne não ia gostar nem um pouco do que realmente teria que fazer quando chegasse lá, mas depois de estar dentro não teria como voltar atrás.
~ ❖ ~
Callisto carregava um grande cesto de roupa suja que Magnus lhe dera quando os avistou. Policiais de fardas e distintivos passavam pela entrada do circo com um olhar afiado e profissional. Com tantas roupas sujas de sangue e rasgos animalescos naquele cesto chamativo ele soube logo que estava numa pessima situação.
– Ei você! – Uma policial o chama tão logo o avista.
Callisto sente o seu sangue gelar, se saísse correndo seria muito suspeito, se fosse até eles correria o risco de ser pego. Mantendo a compostura de um ator, ele se vira com uma expressão ingênua de surpresa e deposita o cesto no chão, caminhando despreocupadamente até os policiais. Se desse muito na cara aí sim as coisas ficariam feias, por ora era melhor agir como se não soubesse de nada.
– Pois não? – Ele pergunta solicito.
– Onde está todo mundo? – A mesma policial.
– Hum... – Ele finge pensar. – As mulheres estão tomando banho antes de começarem o espetáculo e os homens estão preparando seus instrumentos antes de irem tomar banho.
– Queremos falar com o dono desse lugar.
Você não é a única. Callisto pensa sentindo-se um pouco irritado.
– Desculpe, mas não sei onde ele está. – Ele abre um sorriso constrangido.
– Nesse caso pode nos levar a algum superior por aqui?
O único superior que conhecia era Magnus, mas essa era uma péssima ideia... Ele estava muito irritado aquele dia. Supostamente algo que ele não gostou aconteceu durante a noite, Callisto logo soube quando sentiu seu olhar mortífero assim que lhe disse bom dia. Era sim, uma pessima ideia, da ultima vez que o viu ele estava carregando um corpo para se livrar dele.
Ou talvez não? Se pegassem Magnus com a mão na massa, era bem capaz deles o prenderem e aqueles massacres noturnos terem um fim definitivo. Não era uma ideia de todo ruim.
– Isso eu posso fazer. Sigam-me por favor.
Callisto dá meia volta guiando os policiais como um solicito e comum trabalhador sem nada a esconder. Encontrou Magnus carregando um cesto com ramos de trigo até a cozinha e apresentou ele aos visitantes. Não era o que queria, mas o temperamento agressivo o delataria.
– Você é o encarregado daqui? – A policial pergunta se aproximando do mordomo.
– Sim, em que posso servi-los?
– Policia de Berlim. – Ela se apresenta mostrando o distintivo. – Viemos fazer uma busca. Algumas pessoas desapareceram próximas dessa área, estamos procurando pistas que levem a seu paradeiro.
– O senhor reconhece algum desses rostos? – Outro policial mostra uma folha cheia de fotos para o mordomo.
Ele finge analisar atentamente cada foto antes de devolvê-las ao policial.
– Sinto muito, não os reconheço. Muitas pessoas vêm para cá todos os dias, confesso não prestar muita atenção aos rostos deles. – Ele sorri envergonhado.
– “QUEM É VOCÊ?” – Callisto pensa sem acreditar na expressão que estava vendo.
– Fiquem a vontade para fazerem uma busca, espero que encontrem algo que os leve a essas pobres almas. Ah, mas por favor, se forem revirar alguma coisa peço para que coloquem de volta no lugar depois. Não podemos nos dar ao luxo de arrumar a bagunça entre cada espetáculo.
– Sem problemas, continue seu trabalho como sempre faz.
– Certamente.
Callisto olha descrente para a calma expressada pelo mordomo. Estava esperando que ele fosse dar alguma desculpa para que os policiais fossem embora ou que tentaria ganhar tempo enquanto alguém dava um jeito de esconder tudo, como ele poderia aparentar tamanha tranquilidade?
Os policiais os deixam a sós e começam sua busca, Magnus olha para Callisto com sua já tão comum expressão séria e Callisto sente seu rosto responder com igual seriedade apesar de querer mostrar uma expressão boba e ingênua para desviá-lo de sua atenção.
– Em que estava pensando?
– Nada. Apenas queria tirar a atenção deles de mim. – Callisto dá de ombros. – Foi uma noite daquelas, estou cansado demais para um interrogatório.
– Você é idiota. – Magnus corta o clima leve que ele tenta instalar. – Não preciso lhe dizer para ficar em silencio sobre isso preciso?
– Não, eu já imaginei que tenho que ficar de bico calado, mas só por curiosidade, ninguém nunca tentou falar nada pra policia sobre o que acontece aqui?
– Só algumas gerações. Quer saber o que fiz com elas?
– Já consigo imaginar.
– Moralistas ingênuos. Quando a policia vinha davam um relato detalhado de suas atividades em busca de proteção, mas se esqueciam que não podiam sair daqui independente do que fizessem. Ao cruzarem a entrada seus salvadores se esqueciam de tudo que viram ou ouviram aqui dentro e não voltavam por considerarem o circo um lugar livre de suspeitas, o que deixava os delatores desprotegidos e a mercê de minha vontade.
– Já consigo imaginar. Mas sério, pra que tudo isso? O que esse tal de “Mestre” quer com essa maluquice toda?
Ao ouvir a palavra Magnus sorri calorosamente e pousa uma mão na cabeça de Callisto, bagunçando seus fios negros como se fosse uma criança e com o mesmo sorriso paternal diz:
– Fale sobre ele com esse tom informal de novo e arrancarei a sua língua da próxima vez.
Com a mesma expressão calorosa ele aperta os cabelos de Callisto entre seus dedos, puxando os cachos da cor de carvão com força e arrancando um punhado de fios pela raiz enquanto jogava o corpo dele no chão. Caído, Callisto olha imediatamente para seu agressor com raiva e surpresa, Magnus o encarava de cima com uma opressora aura que parecia paralisar o corpo de Callisto no lugar, era como ver um gigante. As sombras cobriam seus contornos e só seus olhos tinham destaque, aquele prateado afiado e feroz de uma lâmina, com a frieza do gelo. Mesmo depois que Magnus saiu para cuidar de outros assuntos, seu corpo ainda era incapaz de se mover, como se tivesse petrificado. Suas mãos tremiam e seu corpo parecia pesar uma tonelada, sabia que tinha que se levantar, mas não conseguia.
– Agora sei por que quase ninguém discute sobre aquele cara com mais frequencia. Magnus não sabe brincar. – O moreno comenta consigo mesmo tentando relaxar a si próprio para sair daquele estado.
– O que você esperava?
Erich se aproxima carregando o cesto que ele havia abandonado, estendendo uma mão para ajudá-lo a se levantar.
– Magnus é sensível em tudo que diz respeito aquela pessoa.
– Sensível não é bem a palavra que eu usaria. – Callisto aceita a ajuda, se levantando e massageando a área dolorida no couro cabeludo. Tentando parecer normal o bastante para disfarçar a tremedeira.
– É sempre assim, se for falar dele tenha certeza que Magnus não está ouvindo. – Uma vez que Callisto se levanta Erich franze uma sobrancelha confuso. – Pra ajudar também sinto a mão dele em você. Você o encontrou ontem a noite não é? Como foi?
– Encontrei quem?
Erich ergue uma sobrancelha abrindo um sorriso malicioso. Callisto soube na hora do que ele estava falando.
– Não, não, não. Eu não o encontrei. Só tive um sonho louco por causa das circunstancias bizarras que estavam acontecendo. Prova disso é que nada mudou desde meu sonho maluco.
– Nada mesmo? Então você não perdeu nada ultimamente?
– Não. Continuo na estaca zero.
Erich dá leves tapinhas em suas costas, Callisto detectou o que seria um sentimento de pena e divertimento por parte do domador.
– Tente não ficar muito chocado companheiro, a vida é uma coisa bem esquisita para se lidar. Qualquer coisa eu lhe darei orquídeas, ainda acho que não vou te ver na semana que vem.
– Você vai perder sua aposta.
– Veremos. – Erich pega o cesto de panos sujos e entrega a Callisto. – Se você tiver paciência e uma boa dose de loucura, pode aprender a gostar daqui.
– Eu duvido muito, mas obrigado.
Callisto se despede de Erich e caminha em direção a fornalha para queimá-las, uma vez lá ele joga as roupas com cuidado para não se queimar e observa as labaredas engolirem-nas. Uma coisa que Erich disse lhe incomodou, não se lembrava de ter perdido alguma coisa mas sentia que tinha mudado. Estava tendo uma sensação estranha desde que acordou no quarto de Arman, um sentimento controverso. Sentia que estava faltando alguma coisa nele, que de fato, tinha perdido alguma coisa, mas ao mesmo tempo sentia que alguma “outra coisa” estava rondando-o. Sentia a ausência de algo e a presença de algo. Pra ajudar, estava com dificuldade em manter sua personalidade ingênua e boba o tempo todo, as vezes sua raiva escapava.
Havia muitos fatores para isso. Estava trabalhando no seu tão odiado circo que esperou durante tanto tempo para rever, participou de um jogo doentio com pessoas sem coração ou sanidade, encontrou um objeto extremamente comum de uma maneira muito estranha que o fazia suspeitar de suas propriedades, não impediu que uma garota desacordada tivesse seu olho arrancado e ainda teve aquele sonho estranho com a sombra que forçou seus verdadeiros sentimentos a se revelarem. Qualquer uma dessas coisas poderia ser o motivo de seu desconforto, o acumulo delas deviam tê-lo estressado, mas sentia que não era.
Um arrepio lhe percorre sem que ele sentisse uma única corrente de ar, de novo aquela sensação. Suspira e retira o globo de neve-sem neve de seu bolso e observa-o atentamente. O homenzinho de argila e o lobo pareciam fazer uma referencia aquela história que tinha lido para Alma, aquela fabula que explicava por que o mundo era monoglota. Não que ele acreditasse que um dia cada país tinha falado uma língua diferente do outro, mas estava intrigado.
Ele sobe para a cozinha chacoalhando o brinquedo tentando ver o que ele fazia.
– Terminei de usar a fornalha. – Ele anuncia para o cozinheiro albino.
Ivan se vira para Callisto com um sorriso simpático.
– Obrigado, é... Callisto, não é?
– Sim, não precisa me agradecer, não fiz nada.
– Desculpe.
– Não precisa se desculpar. – Ele suspira. – O que está fazendo pra hoje? – Callisto se aproxima tentando ver os pratos.
– Como hoje esta abafado estou fazendo algo mais frio-...
Antes que ele pudesse terminar a frase, é surpreendido quando um floco de neve congelado se desprende de sua bochecha e flutua até o brinquedo de Callisto, atravessando o vidro para dentro do globo. Ivan leva uma mão até a bochecha sentindo a área de onde ele se desprendeu, desde quando aquilo estava ali?
Callisto observa dentro do globo começar a nevar, os bonequinhos começam a se mover, o homenzinho corre sem sair do lugar e o lobo corre atrás dele. Parecia até que estavam em cima de esteiras. E a neve que ele tanto tentou encontrar agora flutuava suavemente pela cena.
– Que isso? Um brinquedo? – Ivan se aproxima observando o globo.
Em um pulo o lobo consegue abocanhar o homenzinho e nesse momento o vidro do globo se transforma em uma enorme bola de espinhos que atravessam toda a cozinha, perfurando os dois homens que a observavam. Ivan e Callisto cospem sangue ao terem seus estômagos perfurados sem entender de onde aquilo saiu e nesse momento eles tem uma visão.
Num mundo cinza, milhares de ruínas de prédios estavam abandonados em estado de deteriorização e flocos queimados de cinzas flutuavam pelo ar, não havia um sinal de vida naquele mundo vazio. Então eles vêem no alto de uma rocha o que parece ser um cervo, mas muito diferente do que estavam acostumados. Seus olhos sem pupila brilhavam como duas estrelas emitindo uma sobrenatural luz branca, sua galhada tinha um brilho neon que pulsava vermelho como sangue e sua estrutura era avermelhada como se a própria pele fosse feita de tumores. O cervo salta daquela rocha e onde ele pousa faz o solo rachar em veias avermelhadas que se estendem até além de onde Callisto e Ivan estavam, praticamente todo o chão num raio de 500 km tinha sido afetado por aquele salto. Pilastras emergem do chão e se juntam no céu formando um globo cheio de olhos escarlates que as usa para se mover como se fossem as pernas de uma aranha. Embaixo dessa estrutura, o cervo avança sem pressa na direção onde eles estavam, cada passo fazendo as veias de sangue brotarem e terremotos surgirem cada vez que pisava.
Por algum motivo, o termo “praga” veio à mente dos dois. A palavra “doença” ficava pairando como se alguém tivesse sussurrado e eles tivessem escutado.
– Acorda, acorda... – Ivan diz para si mesmo sem conseguir desviar os olhos da imagem do animal que se aproximava.
O cervo solta um berro que lembra alguma espécie de chamado e buracos ocos que lembram pequenos vulcões se erguem da terra morta. De dentro deles um liquido avermelhado começa a borbulhar do interior do solo e dele saem ferozes esqueletos humanos com dentes tão afiados quanto o de piranhas, não um nem dois, mas grupos enormes de talvez cinquenta ou mais. Tão logo eles saem já começam a correr em uma emoção frenética, atropelando até os companheiros para irem mais rápido. Callisto vira-se para trás na direção em que eles corriam e vê muito longe uma casinha mal cuidada com uma luz fraca no andar superior e mais adiante uma cidade cinzenta.
Um dos grupos de esqueletos corre até a casinha enquanto o resto continua mais a frente. Ivan fecha os olhos sem querer ver aquela cena mas Callisto vê, e desejou conseguir ter feito o mesmo que o albino. Os monstros atacam a casinha com toda sua força e ferocidade, quebrando as janelas e atacando os moradores que ali viviam. Os humanos daquele lugar ou ao menos pareciam humanos, usavam roupas grossas e mascaras de gás, que tipo de pessoas usava mascaras de gás dentro da própria casa?
O cervo fica praticamente lado a lado com Callisto e Ivan, eles sentem a densidade do ar mudar ao redor deles, fazendo-os prender a respiração. Sem conseguir se mover, o moreno desliza seus olhos para aquela coisa e ao olhar em seus olhos brilhantes, ele sente um descomunal e gigantesco medo.
A coisa move a cabeça vagarosamente para o lado, fixando sua visão nos dois. E então a luz de seus olhos os cegam e a visão muda.
Agora estavam dentro de uma profunda e escura caverna, lá em cima existia uma abertura que deixava alguns fracos feixes de luz passarem. Estava um breu total, eles não conseguiam dizer qual era o tamanho exato do lugar mesmo com a parca iluminação. Um barulho lá em cima chama a atenção deles e ao olharem para a abertura encontram um menino, com talvez quatro ou cinco anos descendo pelas rochas da parede.
– De todos os lugares para fazer um piquenique é aqui que você me vem? Pra onde foi o seu juízo? – A silhueta de um homem surge da abertura olhando para o menino.
– Você não precisa entrar se não quiser. Medrosos não são bem vindos.
Isso parece perturbar o homem que tão logo é chamado de medroso já começa a descer pelas fissuras das rochas sem pensar duas vezes.
– Não vou aceitar ser chamado de covarde por alguém que não tem nem um décimo de minha idade.
Como ele é mais alto consegue chegar ao solo primeiro, pegando o menino para ajudá-lo a descer quando este se aproxima do chão.
Uma vez lá embaixo um galho próximo começa a queimar com um tom avermelhado, iluminando um pouco mais o recinto. O homem olha para aquela chama perto deles com desconfiança e suspeita.
– Foi você que fez isso?
Agora que o brilho iluminava os rostos deles Ivan os reconheceu de imediato, apesar de não entender o que estava vendo. O homem era alto, com cabelos loiros e olhos violeta. Seu rosto era idêntico ao de Cain, cada traço com uma assustadora semelhança e provavelmente a mesma idade e altura do Cain que conhecia. Apesar do cabelo estar mais comprido e das roupas de época que ele usava, tinha certeza absoluta que era ele. O menino no entanto, era uma visão que ele nunca esperava ver. Era fraco, com uma aparência pobre e abandonada, parecia tão frágil e delicado que se não fosse os cabelos negros e os olhos cor de gelo ele nunca adivinharia quem era. O menino mal batia na cintura de Cain, era difícil associá-lo com a figura temida de Magnus, mas era ele.
O pequeno Magnus abre uma bolsa feita de pele de rena e retira dela um saquinho cheio de amoras e broas de milho embrulhadas em uma toalha.
– Eu estava brincando na parte do piquenique. Desse jeito você vai acabar atraindo algum urso pra cá. – Cain diz ainda olhando o fogo que acendeu sozinho.
– Os animais não chegam nem perto desse lugar, eles sabem que é perigoso, se você não fosse estrangeiro também saberia.
O som de passos vindo da escuridão deixa Cain em alerta e sem esperar pelo ataque ele lança uma faca no escuro, se aproximando da tocha que queimava e tocando seu cabo com a ponta dos dedos, dando batidinhas e vendo que era seguro, a segurando.
– Fique atrás de mim pequeno. – Ele puxa Magnus para trás dele usando a tocha para tentar espantar o que quer que tivesse ali.
– Não é assim que se trata o anfitrião. – Magnus diz com mais calma do que Cain esperava. – Está sendo rude.
Uma risada baixa e debochada vem do escuro. Cain segura uma faca em posição defensiva ao ouvir a voz humana, provavelmente pensando se tratar de um ladrão usando o menino como isca.
– Não precisa se esconder. Se quer me atacar então venha logo, eu estou preparado para o que der e vier. – Cain diz deixando a tocha no chão para ter mais liberdade de movimento.
– Isso, meu caro, é algo que eu duvido muito.
Callisto reconheceu de imediato a voz do Mestre, por já tê-la ouvido antes em seu sonho. Mas de repente, sem saber como, eles acordam. O coração batia tão rápido que parecia que ia saltar do peito. Callisto se senta levando uma mão ao coração assustado e ao tocar o próprio corpo percebe que não havia mais nenhum buraco das agulhas de vidro que tinham o atingido. Ele quase sorri ao sentir a própria carne intacta, então levanta o olhar e sentado na mesa na cozinha encontra Magnus que lhe rende mais um susto e pulsação acelerada.
– Estava se divertindo?
O mordomo rolava o globo contra a mesa usando um de seus dedos, com seus olhos gelados fixados nos dois igual uma águia.
Callisto passa mais uma vez a mão no peito para ter certeza de que não estava ferido ou possivelmente morto. Olhando confuso e assustado para Magnus em seguida.
Com um rolar de olhos o mordomo move sua cabeça para o lado, Callisto segue o olhar naquela direção e encontra o silencioso Doutor tomando um prato de água. Quietinho em seu canto. Agora a parte dos furos estava explicada, mas faltava a da alucinação.
No momento que abriu a boca para perguntar, Magnus se levantou e Callisto se calou imediatamente. O mordomo contornou a mesa e levantou Callisto à força pelo colarinho até este ficar da sua altura.
– Eu fiz uma pergunta.
–... eu-...
Sem esperá-lo completar a frase o solta deixando-o em pé e lhe desfere uma bofetada. O som estalado ecoa pelas paredes assustando o cozinheiro que se sentia tão desorientado quanto o moreno. Callisto cai no chão e trata logo de se afastar do mordomo temendo um segundo golpe.
– Eu imaginei que mais cedo ou mais tarde eu teria que fazer isso. – Os olhos dele vagavam longe perdido em pensamentos e ele suspira cansado. – Sim, é isso mesmo, vou ter que fazer isso com todos.
– O que...? – Ivan não consegue terminar.
– Veja, vocês são como cães sem adestramento, mas, quando tiver acabado com vocês, serão tão atenciosos quanto a maioria dos cães fiéis. E como qualquer animal da matilha, aprenderão a serem disciplinados, saberão os seus lugares em nossa família. – Um doce sorriso perpassava seus lábios frios.
O Doutor suspira em seu canto, levantando-se e pegando o globo de neve de cima da mesa, devolvendo-o a Callisto.
– A mente de Cain não é um lugar para se brincar.
– Cain? – Callisto não entende.
– Isso é bem antigo. Busca experiências para lhe dizer a verdade. – O medico aponta para o globo que agora Callisto segurava. – Se fizer as perguntas certas, ele buscará pelas respostas na cabeça de quem as possuir.
Ivan olha preocupado para Magnus com o canto do olho, o Doutor podia falar aquilo para eles? O mordomo não queria esconder aquele objeto precioso em outro lugar?
Já Callisto olhava a esfera confuso, não se lembrava de ter feito nenhuma pergunta, será que fez alguma inconscientemente? E se aquilo que viu era uma resposta vinda das memórias mais profundas de Cain, o que ele era? Pois se o que viu era verdade, então Cain... era mais velho que Magnus?
O Doutor se dá por satisfeito com a explicação simples e direta e se coloca ao lado do mordomo, sabia que ele iria utilizar os seus serviços em breve, pois quando ele disse que adestraria seus companheiros ele sorriu. Pior do que quando Magnus estava irritado, era quando Magnus sorria.
~ ❖ ~
Adeline Grayford, a pequena Sombra das estrelas, pendurava sua máscara de urso no improvisado altar que tinha feito para ela e seguia animada para seu “quarto escuro”. Na cozinha, sua irmã mais velha Naomi, bocejava sonolenta tentando permanecer acordada durante o café da manhã.
– Quando vai tirar essa máscara de urso Naomi? – Seu pai riu da outra ponta da mesa deixando-a envergonhada de não ter percebido e guardando-a em cima do colo imediatamente. – Eu sei que vocês estão treinando pra uma peça, mas dormir também é muito importante sabia?
– Desculpe. Minha irmãzinha parece mais ligada na tomada durante a noite do que de dia.
– Isso é verdade, durante a noite eu também fico mais ativo, acho que sem querer ela herdou isso de mim. Pelo menos agora ela não está mais metida em investigações perigosas, é um alivio não ter mais policiais hospedados em minha sala quando chego em casa. Essa peça está mesmo fazendo bem para ela.
– É... claro... – Naomi dá um riso forçado desviando o olhar.
– E vocês ainda não me disseram qual o nome, eu podia ajudar sabia? Sou uma plateia fabulosa.
– Ah, é, uma coisa de ursos... sabe... U-uma peça com ursos?
– Eu podia ter adivinhado isso só olhando para a máscara querida.
– E como vai indo o novo quadro? Já descobriu qual o azul perfeito para o casaco voador? – Naomi muda de assunto mordendo uma torrada.
– Não, ainda não. Mas hoje vou ver as novas marcas de tintas para ver se eu encontro. – Ele se levanta terminando de beber o café. – Depois você pode convencer a sua irmã a comer alguma coisa? Ela tem estado tão eufórica com o teatro que até se esquece de comer.
– Sim senhor. – Ela bate continência.
O pai deposita um beijo na testa dela e pega o casaco que uma das empregadas lhe estendia. Naomi fica ouvindo os passos dele se afastarem e o som da porta de fechar. Serve uma caneca de café e com cuidado para não derramar sobe o lance de escadas que a levam até o quarto de Adeline.
Ela empurra a porta com as costas e permanece junto a madeira fazendo uma pose de “entrada misteriosa”. Quando ela vê que não tinha ninguém ali, trata logo de se endireitar constrangida por ter falhado e procura a irmã. Como a porta do “quarto escuro” estava fechada não foi difícil adivinhar que ela estava lá dentro.
Ela se dirige para a porta e antes de bater escuta um grito furioso vindo lá de dentro.
– FILHOS DA MÃE!
Ela se assusta e pensa um pouco antes de bater, mas acaba batendo mesmo assim.
– Dedê. Tudo bem aí? Posso entrar?
Uma frestinha se abre e ela é puxada para dentro antes da fresta se fechar de novo.
– Ah! Minha blusa. – Ela diz sentindo a quentura do jato de café que foi derramado em sua roupa com o puxão. – Um simples pode sim, já era o bastante. Eu tive tanto cuidado.
Uma luz vermelha iluminava o quarto sem janelas. Fotos, recortes de jornal, folhas de anotações e mapas decoravam a parede. Em cima da mesinha, um recipiente com liquido transparente guardava delicadas pinças metálicas e em um varal, novas fotos tinham sido adicionadas a coleção.
– Acabei de revelar as fotos que consegui essa noite.
– Aham. E aí? Como ficaram?
– Em branco. Ou melhor, em preto. Nenhuma revelou nada e eu ainda tive a certeza de conferir antes de voltar pra casa. Acredita que tiveram a coragem de tirar sarro de minha cara? – Ela coloca as mãos na cintura olhando de cara feia para o varal.
A irmã mais velha se aproxima e examina as fotos. Doze fotos em escuridão total, pareciam até que foram pintadas de preto, e na ultima foto, em letras fantasmagóricas que costumava ver nos créditos de filmes de terror, um inseto feito de fumaça e a mensagem flutuante: “Melhor sorte na próxima.”
– Bem... – Naomi reflete e não consegue pensar em nada pra dizer. – Isso te deixa bem irritada né?
– Claro que deixa, eles sabiam que estávamos tirando fotos e resolveram nos zoar. Eu estava mesmo achando estranho que ninguém tinha tentado confiscar minha câmera e ela não tinha dado nenhum defeito, mas agora entendi que não faria diferença. Eles são bem brincalhões, mas eu ainda vou equilibrar o jogo.
– Ahn? Você vai ir lá de novo? Adeline, você tem que dormir sabia? E comer também. Eu fui perseguida por feras zumbis e bati minha cabeça com força, não quer me dar um descanso não?
– Pode ficar aqui essa noite se quiser. Hoje eu tenho um encontro marcado.
– Encontro? Ah, então você já está naquela idade... –Naomi olha a irmã de cima abaixo. – Precisamos ir às compras.
– Pra que?
– Precisamos realçar sua fofura e comprar um sutiã com enchimento. Mas se eu não aprovar o candidato pode esquecer, só quero o melhor pra minha Adeline.
– Não, não é nada dis-...
– Vamos, temos o dia inteiro pela frente e muitas lojas pra visitar. – Naomi começa a ficar animada enquanto puxa a irmã pelas escadas.
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