Dead Line Circus - Interativa

3 Nem tudo é o que parece ser


"Por que perder tempo explicando? Nem tudo que faço é na base da lógica."

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Verkhoyansk, Sibéria, Rússia.

Uma das menores cidades da Rússia era também a mais fria, existia neve em todas as direções que se olhasse, seja no chão cobrindo a grama seca ou nos galhos dos pinheiros congelando a vegetação. O sol ficava escondido atrás de grossas nuvens escuras, de onde caiam pequenos cristais de gelo que cobriam a paisagem. A cor branca era o que predominava no local, junto com um silêncio mórbido que só era visto em cemitérios. De certo ninguém queria deixar suas casas quentes e acolhedoras naquele dia frio, mas existia uma única figura, sozinha naquele lugar cercado de neve, que não tinha escolha. A noite anterior foi recheada de fortes emoções, tanto para os moradores quanto para a figura solitária.

A neve que caiu das nuvens cinzentas apagou o rastro da multidão de sapatos em direção a uma construção no centro e o silêncio do lugar era tão calmo que parecia ser uma prova inegável de que era apenas mais um dia comum, sem nada ter acontecido naquela semana. O que estava errado. A carcaça de uma grande construção de madeira queimada jazia no meio dos outros chalés acesos e a garota no meio da neve, com nada mais do que trapos de roupa rasgados, indicava que algo havia sim, acontecido. O céu despejava os cristais de gelo como um cobertor branco sobre as duas figuras, cobrindo gentilmente a história. A madeira queimada da construção já estava quase toda coberta de neve, apenas alguns pontos queimados que se recusavam a ceder e a garota já possuía um acúmulo branco sobre a cabeça e ao redor do corpo, tremendo de frio e encolhida na tentativa de se aquecer.

Próximo a garota, e possivelmente sendo o único ponto com uma cor chamativa no espaço inteiro, estava o cadáver de um guaxinim. Alguém tinha aberto o seu corpo pela barriga e separado as costelas para poder ver melhor seu interior. Os órgãos estavam separados do cadáver e colocados aleatoriamente ao redor do pequeno animal, mas o mais extraordinário de tudo era que apesar do corpo ter sido inteiramente aberto, os órgãos retirados e ele parecer um sapo dissecado, o pequenino coração da criatura ainda batia, ficando em evidência os movimentos constantes de batidas desesperadas, ele ainda estava vivo. Os minúsculos olhinhos pretos do animal olhavam a garota ao seu lado, ele provavelmente sabia que ia morrer, a dor que estava sentindo devia ser insuportável, mas ainda lhe faltavam alguns minutos de vida, longos e torturantes minutos de vida.

A garota que tremia dos pés a cabeça tentando em vão se aquecer com as tiras de pano que cobriam seu corpo e com sua própria temperatura corporal, começou a cantar uma melodia, sua voz era doce e magnética. Se não estivesse naquela situação seria confundida com uma sereia.

Se eu cortar o seus braços,

O que pode fazer?

Se torcer suas pernas,

Como vai me prender?

Se afogue no lago por que mando em você.

Não consegue fugir e nem me alcançar....

quero te queimar enquanto vejo-o dançar

Quero te matar e quero me divertir,

Onde está você?

O pequeno guaxinim ainda olhava para ela, suas duas pérolas negras implorando por ajuda. A garota retira então um canivete do bolso e afunda a lâmina no coração pulsante do animal, sangue escorre da ferida aquecendo seus dedos e o coração dele para de bater.

Agora ela estava cansada, muito cansada. Inclinando-se para o lado ela deita na neve, se o gelo não fosse tão frio poderia ser considerado macio por amortecer sua queda. Não conseguia mais sentir seu corpo e sua respiração estava desacelerando. Suas pálpebras ficam pesadas mas ela luta para mantê-las abertas.

Duas botas de combate negras cruzam seu sonolento campo de visão. A garota sente uma mão tocar em seu rosto e se esforça para olhar quem está ali. O seu corpo é envolto em algo quente, seria um casaco ou cobertor? Sente quando é levantada e colocada contra algo muito mais quente: um corpo humano. Direciona seu olhar para quem quer que seja que a está tirando dali, mas não consegue ver seu rosto, sua visão fica embaçada, os contornos esfumaçados sugerem que é alguém loiro.

— Pai? — pergunta num sussurro antes de cair no sono.

~ ❖ ~

Cheiro de nozes invadiam o local, sua mãe estava fazendo sua famosa torta de nozes e anchova. Conseguia ver ela no fogão pela porta da cozinha. Seu pai estava lendo o jornal em sua poltrona, o cabelo loiro caindo sobre a testa e o olhar atento nas notícias. Ele tira os olhos do jornal e olha para sua filha, piscando um olho e sorrindo em seguida. A torta que sua mãe fazia era muito ruim, mas os dois comiam como se fosse uma delicia para não desapontá-la. A mulher surge pela porta carregando um grande pedaço de sua refeição em um prato de porcelana e serve para seu marido. Ele faz uma careta quando olha para o prato e é acertado por um leve soco no ombro, os dois rindo alegres logo em seguida e sua filha rindo também.

— PAI! — ela diz abrindo os olhos e estendendo uma mão em direção ao vazio.

Michael congela no meio de uma mordida, olhando tenso para a garota com uma mão estendida em sua direção. E a mesma arregala os olhos ao ver um homem desconhecido em sua frente. Os dois olhando espantados um para o outro.

— Ahn... Eu não sou seu pai — ele diz e pensa melhor, assumindo uma expressão descrente. — EU SOU?

— Quê? Não, não. Quem é você? — ela puxa um pouco mais seu cobertor em direção ao corpo.

— Michael — ele diz relaxando na poltrona, aliviado por sua não-filha. — E você?

— Tzvetana Tschaikowsky.

— ....

— ....

— Repete? Não prestei atenção da primeira vez.

— Tzvetana Tschaikowsky!

— Certo, Tsutana...

— Tzvetana!

— Tsbutana....

— Tzvetana!

— Nome complicado, Tzivetana.

— Me chame de Tzna.

— Tzna é melhor. Tzna, como está se sentindo?

— Hã? Como assim?

Michael se levanta da poltrona e caminha até a cama onde está a garota, sentando-se na beirada, perto da mesma, e ajeitando seu travesseiro para ela se deitar.

— Eu te encontrei semi-morta no meio da neve. Se ficasse mais tempo naquele lugar provavelmente morreria, então como está se sentindo? Acha que precisa de um médico?

— Me sinto bem... mais quente agora — diz indiferente.

Tzvetana era loira, seus cabelos possuíam o mesmo tom dourado que Michael, mas ela possuía algumas mechas laranjas e outras rosadas nas pontas, com uma franja que cobria metade de seu rosto. A pele dela era clara, levemente morena, cheia de cicatrizes nas mãos e nos braços. Mas o que se destacava em sua aparência era seu olho vermelho alaranjado. Era tão intenso e carregado, que parecia ser feito de fogo e ódio, combinação interessante e destrutiva. O outro olho estava coberto pela franja dourada.

Os dois se encontravam em um quarto com as paredes de madeira. Existiam três sofás e duas poltronas no lugar, tirando a grande cama em que Tzvetana estava. A lareira estava acesa, castiçais de velas e um banquete de frutas, leite, pão e mel enfeitavam a mesa. Quadros de caçadas decoravam as paredes. O cobertor que cobria Tzvetana era muito quente, a cor e a textura dele sugeriam que era feito de pele de urso. O quarto em que estavam parecia um chalé ou um apartamento de luxo na Rússia.

— Eu comprei algumas roupas enquanto você dormia, esses trapos que você está usando não escondem nada. Desculpe, mas roupas intimas cobrem mais do que isso.

A garota puxa o cobertor para mais perto do corpo, afundando nele.

— Não enche.

— Estão no armário. Vou sair para você se trocar e quando voltar quero ter uma conversa com você — ele diz gentilmente.

Michael se levanta da cama e caminha até a porta do quarto, saindo e trancando a porta em seguida. Tzvetana fica ouvindo os passos dele no corredor, quando não consegue mais ouvir expressa um sorriso malicioso nos lábios.

~ ❖ ~

— Então... como isso terminou assim? — Michael estava com os braços cruzados olhando descrente para Tzvetana.

O armário estava repleto de casacos de pele, tinha até mesmo vestidos, blusas, saias e sapatilhas, mas Tzvetana estava usando um casaco de couro negro por cima de uma blusa preta com a gola rasgada. Tinha calças sociais com alguns rasgos e estava usando um par de botas de combate negras. Um colar de couro com uma fivela enfeitava seu pescoço e ela tinha colocado um acessório na orelha que possuía uma corrente que ligava seu brinco com um piercing nos lábios. Seu único olho visível mostrava-se sarcástico, enquanto sua franja continuava a cobrir seu olho esquerdo.

— Por que está vestindo minhas roupas? — Michael pergunta sem sair de sua pose autoritária com os braços cruzados. — Sabe, essas roupas são minhas.

— Qual o problema? Assim é melhor — ela diz descontraída exibindo um sorriso alegre e dando leves tapinhas no ombro de Michael. — Aquelas coisas são de patricinhas. Não é bem o meu estilo.

— Hum.... — Michael estava descontente, sua calça favorita tinha vários rasgos nas barras e em um joelho, e estava sendo vestida por uma garota. Pobre calça.

Quando estava semi-morta no meio da neve parecia um anjinho, Michael até ficou preocupado para o caso dela morrer congelada naquele lugar, e agora que estava bem e se recuperou parecia ser uma pessoa completamente diferente.

— Sinto que fui enganado... — ele diz se lamentando.

— O que queria falar comigo? — ela pergunta se sentando na cama alegre.

— Você tem algum lugar para ir? Parentes com quem ficar?

A expressão da garota muda, seu olhar fica mais sério. Ela desvia os olhos sem falar nada.

— Foi o que eu imaginei — ele diz com um suspiro. — Conheço um lugar muito divertido que você pode ir.

— Divertido é? — ela diz de modo sarcástico. — Por acaso se chama orfanato ou manicômio?

A expressão dele fica séria, rígida. O clima em torno deles torna-se tenso e o olhar que ele lhe dirige não é dos mais amigáveis, o que faz Tzvetana se arrepender do que disse. Talvez ele não gostasse muito de brincadeiras.

— Talvez possa ser considerado um manicômio para alguns, mas para todos é um circo um tanto especial e principalmente um lar pra quem vive nele — ele se aproxima de Tzna e sussurra em seu ouvido — Você e seu pai teriam gostado.

Ela gela. Tzvetana saca seu canivete da barra do casaco e coloca a lâmina contra o pescoço de Michael, olhando seriamente para seu rosto, que não demonstrou nenhuma alteração.

— Tente.

Ela arregala os olhos em sua direção. E ele foca seu olhar nos olhos dela.

— Vamos, tente me matar. Se conseguir te dou um prêmio.

Olhos nos olhos. Tanto Michael quanto Tzvetana não tinham nenhum traço de exitação. Então Tzna começa a rir. Não é um riso qualquer é uma gargalhada. A garota realmente gostou daquela situação.

— Você não existe — diz em meio as risadas. — Tem mais gente nesse circo como você?

— Você ficaria surpresa — ele fala com um sorriso perverso. Talvez a personalidade dela não fosse tão ruim, afinal.

— Eu quero ir — ela tenta controlar o riso. — Quero ir até lá.

Michael dá um sorriso satisfeito, com um toque malicioso que ela não percebe, e se curva em frente a Tzvetana, como um antigo cavaleiro.

— Seu desejo é uma ordem.

~ ❖ ~

Os olhos de Tzvetana brilhavam como se voltasse a época em que era uma criança inocente.

— Você viu isso? — Tzna olhava animada para o palco.

A figura de um cometa foi colado em sua bochecha e então, do nada, a garota russa se viu no circo. Michael não conseguiu contê-la quando viu Tzna correr em disparada pelas atrações, ela ia de um lugar a outro observando tudo como uma criança, nem parecia ter dezoito anos. Os dois se encontravam agora no espetáculo de um malabarista de facas. Um único homem loiro de olhos violeta lançava as lâminas consecutivamente para o alto fazendo-as adquirir padrões no meio do ar. Ora pareciam formar um vendaval, ora pareciam dragões voando, algumas vezes lembravam um campo de flores e até mesmo nomes elas formavam no meio do ar.

Tzna assobia forte em meio a plateia e outras pessoas também assobiam e batem palmas durante o show. Michael nem olhava para o espetáculo, seus olhos estavam focados na figura de Tzvetana.

— Vai assobie também — ela diz dando uma cotovelada no braço de Michael. — O malabarista merece, ele é incrível.

— Não é uma boa ideia — ele diz sem tirar os olhos da garota.

— Vamos. Estão todos assobiando, vai me dizer que você não sabe? — ela diz com um sorriso sarcástico.

— É claro que eu sei assobiar! — ele fala indignado.

— Então vá em frente — diz com uma expressão irônica.

Michael revira os olhos e dá um passo para frente, colocando dois dedos nos lábios e olhando para outra pessoa que fazia o mesmo na plateia. Pretendia assobiar ao mesmo tempo que ela para disfarçar o som que emitisse e quando o som saí dos lábios do desconhecido ele faz o mesmo, dando um assobio forte.

O malabarista de facas vira seu rosto de modo abrupto na direção de Michael e Tzvetana, com uma expressão de surpresa e espanto. Inclusive perde o controle de uma das facas, mas disfarça o seu erro pegando-a com os lábios e encenando de modo que parecesse que aquilo era parte do show.

— Hum... ele é bom. — comenta Tzna sem se dar conta do erro — Morreu por tentar assobiar Michael?

— Adoraria morrer por assobiar Tzna. Seria hilário. — ele diz bagunçando os cabelos dourados da garota.

Quando o show terminou e todos saíram, o malabarista se dirigiu até o espaço onde se encontravam Michael e Tzvetana, isso após guardar todas as suas facas é claro. O loiro encontrava-se encostado na parede, ao lado da garota imprevisível que estava sentada no peitoril da arquibancada.

— O que está fazendo aqui? — o malabarista pergunta levemente irritado.

— Apenas uma visita Cain. Tinha uma pessoa que queria te conhecer — Michael diz apontando seu olhar para a loira.

Tzvetana olhava para o malabarista com curiosidade, ele tinha uma pose certamente confiante e seu olhar sério sugeria que ele não era do tipo que brincava despreocupadamente. Era a primeira vez que via alguém com olhos violeta, mas certamente já tinha visto pessoas com um olhar frio como aquele. Algo nele a inspirava a querer cortá-lo, a pele clara e macia dele devia ser linda com cortes vermelhos.

— Será que você poderia cuidar dela para mim? — Michael pergunta com seriedade — Tenho que viajar logo.

Cain cerra as sobrancelhas certamente irritado, não queria ser babá de ninguém, ainda mais de uma garota que parecia ser a encarnação da antipatia. Saca uma de suas facas da barra do casaco e atira em direção à cabeça do loiro. Para sua surpresa a lâmina não completa seu curso, ela é pega no meio do ar pela garota, a apenas alguns centímetros da testa de seu amigo.

— É uma lâmina muito bonita — ela diz admirando o polimento da faca.

O malabarista adquire um sorriso irônico. Agora ela ficou um pouco mais interessante.

— Tanto faz — Cain diz indiferente. — Eu cuido dela, mas vai ter que me recompensar depois.

— Como era de se esperar — Michael fala com um sorriso amigável.

Quando o encarregado da procura sai do espaço, o loiro mira seus olhos violeta na garota.

— Já faz um tempinho que eu notei isso, mas essas roupas não são dele?

— Sim. Elas são bem estilosas não acha? — Tzna diz se exibindo.

— Nisso eu concordo — ele diz satisfeito. — Qual seu nome?

— Tzvetana.

— É um prazer Sultana.

~ ❖ ~

Kolomna. Rússia

O apartamento cheirava a mofo. As paredes eram descascadas e encontravam-se cheias de rachaduras e lodo. Uma das janelas estava quebrada no canto e um vento frio e cortante entrava pela passagem sem pedir licença. Não existia muitos móveis no lugar, apenas uma cama velha que por sorte não rangia, uma mesa com um pé remendado e uma penteadeira que possuía um espelho antigo e empoeirado nos cantos. O apartamento era péssimo, a comida que serviam era horrível, mas era o único lugar barato que tinham encontrado naquela cidade.

Um garoto estava sentado na cama lendo um livro embaixo do cobertor velho e fino, de vez em quando parava a leitura e olhava para a janela impaciente. O livro se chamava Hamlet, de Shakespeare, era uma história muito boa, mas sua preocupação com algo lá fora o impedia de aproveitar a história.

— Ele não deve demorar — uma mulher de longos cabelos castanhos lhe conforta.

— Obrigado mãe — o garoto diz e a mulher apenas lhe devolve um sorriso gentil.

O garoto volta a ler o livro, prestando mais atenção dessa vez. Ele tinha a pele bem clara, lisa e macia. Seus cabelos eram curtos e loiros levemente repicados nas pontas e possuía calmos olhos azuis celeste. Era bonito, sua beleza era o que muitos consideravam como "boneca de porcelana". Por ser loiro de olhos azuis e principalmente por ter uma aparência frágil, como se o mínimo toque pudesse despedaçá-lo.

A porta é aberta alguns minutos depois, um garoto com o mesmo rosto que o seu entra animado carregando uma sacola de papel pardo cheia de comida.

— Você demorou — o primeiro reclama mais aliviado pela volta dele.

— Desculpe. Se sentiu sozinho sem mim aqui? — o outro diz colocando a sacola na mesa da cozinha e tirando um pacote de dentro dela.

O recém-chegado era exatamente igual ao outro. O mesmo rosto, os mesmos olhos azuis e o mesmo cabelo loiro. Ambos eram gêmeos idênticos, a única diferença era que ele tinha olhos azuis mais vividos, um sentimento de animação sempre presente lá no fundo.

— Não, mas fiquei preocupado com você sozinho lá fora.

— Também fiquei preocupado com você sozinho aqui dentro.

O outro senta-se na cama ao lado de seu irmão. Se existisse um espelho entre os dois era capaz de um observador experiente desconfiar que um deles era um reflexo, tamanha a semelhança entre eles. O primeiro colocou um marcador no meio do livro e o deixou de lado, iria terminar depois, já o segundo desembrulhou a embalagem que tinha pego da sacola e exibiu a seu irmão.

— Encontrei palitinhos de chocolate — ele diz abrindo um sorriso orgulhoso.

A caixa vermelha exibia palitinhos compridos mergulhados em chocolate. Os olhos azuis do irmão não conseguiram esconder a surpresa da descoberta.

— Onde encontrou isso? — o outro pergunta animado.

— Não importa. Agora é nosso — ele diz retirando um palitinho do pacote e colocando em sua boca. — Experimenta — diz inclinando a caixa em direção ao outro.

Seu irmão olhou a caixa vermelha e em vez de pegar outro do pacote ele preferiu morder a outra ponta do palitinho que já estava com seu irmão. O primeiro foi pego de surpresa, mas logo em seguida avançou mais uma mordida competindo pelo doce.

Os dois começam a comer cada um seu próprio lado, diminuindo a distancia que há entre eles. Quando seus rostos já estão a uma mordida de distancia eles param. Olham no fundo dos olhos um do outro em silêncio, esperando por algum tipo de permissão para avançarem.

— Você é impossível.

Quem continua é o segundo irmão, que avança minimamente, tomando os lábios do primeiro para si em um beijo rápido.

Após se afastar e terminar de engolir o resto do doce ele lambe os próprios lábios abrindo um sorriso sarcástico para o primeiro enquanto desamarrava as próprias botas.

— Se quiser brincar ao menos me deixe trocar essa roupa, está muito frio hoje e entrou um pouco de neve dentro dela.

O outro se inclina para trás e deita na cama satisfeito, pega o cobertor entre os dedos e esfrega uma ponta na outra avaliando sua espessura. Aquele cobertor fino não iria esquentá-lo.

Franzindo o cenho ele olha para o outro que já tinha desamarrado o cadarço da primeira bota e o cutuca com o pé.

— Você trouxe lenha?

O segundo olha para o lado, envergonhado, e responde:

— Muito caro, tentei pegar um pouco, mas não consegui. Só comida.

Com a resposta que precisava o irmão que estava deitado na cama abre o zíper e tira a própria blusa, ficando só com a camiseta e se enrolando no cobertor fino. O outro franze o cenho com a atitude, intrigado.

— Conheço um jeito de te esquentar que não precisa de roupas, mas se não quiser pode vestir minha blusa e só ficar por perto para que eu não morra de frio — ele diz estendendo a blusa para o segundo.

Ele olha para a blusa e dela para o garoto que a oferecia, vendo os pelinhos de seus braços recém-descobertos se arrepiarem na primeira brisa de vento gelado.

— Droga, Leopold. Você faz ideia do que isso faz comigo?

Seu irmão avança pela cama e o prensa contra o colchão, ele por cima e o outro por baixo. O primeiro até abre um sorrisinho irônico por já ter previsto aquela reação.

— Calma, eu não vou sair correndo. Não precisa ter pressa em me devorar.

— Mala. Se você ao menos soubesse-...

Sem qualquer cerimonia Leopold toma os lábios do outro sentindo o gosto doce do chocolate, ambos entrelaçam suas línguas e aos poucos sentem a temperatura do corpo aumentando. Com único beijo já quebravam dois tabus, era inevitável.

O primeiro separa seus lábios do segundo, ambos em busca de ar, encosta sua testa contra a testa do outro e mergulha silenciosamente em seus olhos. Os dois possuíam estampados o desejo que tinham um pelo outro em seu olhar, como uma forte conexão magnética, mas então uma leve sombra de tristeza passa pelos olhos do gêmeo que está por cima. Ele realmente temia pelo irmão, a vida dura que tinham era sua culpa? Algo seria diferente se eles não estivessem juntos?

— Ei — o segundo diz. — Eu iria para o inferno sorrindo se vivesse minha vida inteira com você. Não temos que prestar contas com ninguém.

O outro sorri mais aliviado.

— Realmente não se sentiu sozinho quando eu não estava aqui?

— Não. Nossa mãe me fez companhia.

— Leo... nossa mãe morreu.

— "Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia".

— Hamlet?

— Acertou.

— Não me provoque, sabe que eu te desejo ainda mais quando faz isso.

O irmão desliza uma das mãos em direção a barra da camiseta que o outro estava usando, fazendo ela entrar discretamente por baixo do tecido, alisando o abdômen do loiro, sentindo a maciez de sua pele enquanto lentamente ergue a camiseta dele.

Fortes batidas são ouvidas na porta, sons poderosos que poderiam derrubar a estrutura a qualquer momento.

— ABRAM! É A POLICIA!

Os dois arregalam os olhos com o susto. Rapidamente eles se separam e correm pelo apartamento pegando o que podem antes de fugir. A sacola de comida, as roupas, as malas. Por onde fugiriam? Aquela porta era a única saída. Olham desesperados pelo quarto procurando um lugar para saírem.

— SENHOR, UM INTRUSO! — eles escutam alguém gritar do outro lado da porta.

— Quem é você? — o policial que bateu na porta diz.

Gritos de terror são ouvidos pelo corredor, mas não são do tipo de pessoas que levam um susto (tem esses também, mas não é só isso), são do tipo que alguém faria quando encontrasse o diabo em pessoa.

— MALDITO! QUEM DIABOS É VOCÊ? — o policial do outro lado da porta grita furioso, desesperado e acima de tudo amedrontado.

Sons de tiros são ouvidos, vários, muitos tiros. Com certeza mais de um policial estava atirando em alguma coisa que estava lá fora. Os gêmeos ouviam tudo com o coração batendo rápido, o que diabos estava acontecendo? Então tudo fica em silêncio. Nem mesmo o vento da janela faz barulho, não há mais gritos, nem nenhum som do outro lado. As batidas dos corações dos irmãos pareciam tambores naquele silêncio pesado. É quando a porta do quarto deles range lentamente, enquanto é aberta de maneira vagarosa por algo ou alguém. Quem está do outro lado? Um homem loiro com um sorriso muito doce e gentil nos lábios. Ele entra no quarto de maneira leve e despreocupada, olhando em volta como uma criança inocente que está em um lugar novo pela primeira vez. Quando ele já está praticamente no centro do quarto os gêmeos recuam um passo, confusos com o estranho que estão vendo.

— Olá — o estranho diz de maneira amigável com um sorriso gentil e acolhedor no rosto.

De onde saiu aquela figura? Ele era uma das vitimas que escapou de sabe-se-lá o que que estava no corredor ou era o próprio demônio?

— Vocês gostam de chocolate quente? — ele pergunta alternando seu olhar de um para o outro.

— S-Sim... — o segundo irmão se manifesta de maneira confusa e desconfiada.

— Ótimo. Querem tomar um copo comigo? Eu pago. Sempre quis experimentar um direto da Russia.

Eles recuam um passo, algo estava muito errado ali.

— Não, obrigado — o primeiro diz.

— Vamos. Não precisam ser tão tímidos — o estranho diz e abraça os dois casualmente, contornando o pescoço de cada um com seus braços como um velho amigo. — Meu nome é Michael, como vocês se chamam?

Que sujeito estranho, estava agindo como se nada tivesse acontecido e sua presença não fosse suspeita, quão forçadamente simpático ele poderia ser? Estava abraçando os dois como um tio que acabou de encontrar os sobrinhos depois de uma longa viagem.

— Leopold Vasilliev, mas pode me chamar de Leo — um dos garotos responde.

— Nikon Vasilliev, mas pode me chamar de Nick — o outro diz.

Nick e Leo, se não saírem logo daqui esse lugar vai estar cheio de policiais em pouco tempo — o estranho sussurra próximo dos dois.

Eles congelam, não havia vários lá fora até pouco tempo atrás? Iriam vir reforços? O estranho pega uma mão de cada um, como os pais geralmente fazem quando as crianças vão atravessar a rua e os guia para fora fazendo-os acompanharem-no.

Ao entrarem no corredor encontram carcaças de corpos queimados por toda a sua extensão. Alguns estavam podres e com um cheiro fétido, outros tinham seus músculos ressecados com um braço levantado para cima arranhando a parede. Todos, sem exceção, estavam definitivamente mortos, mas os cadáveres pareciam tão podres que possuíam até mesmo vermes em suas entranhas, normalmente isso não demoraria mais tempo para acontecer? O que afinal tinha acontecido ali?

Notas finais
Tzvetana Tschaikowsky: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/99/be/08/99be0873c53c46c99d2d2f461e470af7.jpg Gêmeos: Nikon: http://images6.fanpop.com/image/photos/35800000/Len-len-kagamine-35867266-1800-1274.jpg Leopold: http://static.zerochan.net/Kagamine.Len.full.238285.jpg Desculpem a demora pelo capítulo pessoal! Sofreram muito com a espera?