Dead Line Circus - Interativa
10 Mudança
Notas iniciais
"Palavras, são só brinquedos
Que as pessoas , teimam em brincar."
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Em uma sala cinzenta com paredes de concreto havia cinco bancos em um círculo perfeito no centro do lugar. Quatro meninas estavam sentadas nos bancos, com expressões vazias e indiferentes para a situação. Elas pareciam clones umas das outras de tão idênticas que eram. Tinham cabelos grisalhos escorridos emoldurando os rostinhos infantis que pareciam de porcelana e olhos dourados de cor âmbar. Usavam vestidos que pareciam ser camisolas de hospital mas pareciam pouco se importar com as roupas que usavam. Os olhos amarelos só estavam enegrecidos pelas olheiras que adornavam suas pálpebras inferiores, evidenciando o tempo que passaram sem dormir.
– Vamos para o próximo – Uma delas diz com a voz sem emoção.
– Para o próximo – Outra concorda.
– O mestre fez o relógio voltar ao zero. Um novo jogo vai começar, não é?
– Sim, um novo jogo.
– Besta parece feliz com a mudança.
O quinto individuo ali presente, era uma figura esguia, magra e horrenda. Seu corpo esquelético não era coberto por uma camada de pele, apenas pela cartilagem dos músculos e pelos ossos de seu esqueleto. A cabeça era feita de um crânio afilado com dentes de piranha e pernas (ou patas) de crustáceos saindo pela boca. A pouca carne que ele tinha caia-lhe em tendões pelo seu corpo e apesar da magreza excessiva, seu estômago era estufado como se tivesse engolido uma bola.
A criatura estalava um osso a cada mínimo movimento, as patas que lhe saiam pela boca moviam-se num movimento de vai e vem experimentando o gosto do ar. Pelos grunhidos roucos e engasgados que emitia parecia ansiosa para sair correndo com as outras. Queria ouvir a permissão de seu mestre, correr em busca da presa enquanto esta fugia de suas mandíbulas em uma busca desesperada pela vida. Sentir o gosto quente do sangue escorrendo pelos seus dentes e umedecendo sua língua, ouvir o som da voz que lhe ordenava aquilo fazia seu corpo sentir prazer.
– Besta gosta de brincar – Uma menina constata.
– Precisamos preparar a atualização logo. As novidades estão se encaixando muito rápido, dá-me dor de cabeça.
– Uma mudança de ares, talvez?
– O mestre quer ir para Berlim – Uma menina inclina a cabeça para ouvir melhor. – Sim, ele disse Berlim.
– Lá é o próximo lugar?
– Não temos mais nada para fazer aqui. Vamos nos mudar e deixá-los aprender na prática como se adaptar.
– Eles tem muito tempo para isso. Tempo é o que não falta nesse lugar.
O monstro grunhe agitando seus músculos e produzindo estalos em seus ossos. Era hediondo ver aquela criatura se movendo e produzindo um som de galhos se partindo. No entanto, aquilo não parecia incomodar nenhuma das meninas, realmente, havia pouquíssimas coisas que as incomodavam.
– Sim besta, sabemos disso – Uma delas respondeu estendendo sua mão aberta para as outras. – Todas nós...
– Estamos aqui... – Outra continua juntando sua mão à outra estendida.
– Por um único motivo. – A terceira prossegue.
– Cometer um-... – A quarta continua mas tem sua última palavra escondida no meio de um grunhido da besta, que completa o voto para elas.
As mãozinhas femininas tocavam as outras em um pequeno monte no centro do círculo, e Besta estende sua mão, com dedos compridos que mais pareciam garras longas, envolvendo o conjunto de todas as palmas das garotas e beijando o conjunto com seus tendões crustáceos que lhe saiam pela boca. Parecia engolir as mãos das meninas com aquele gesto.
~ ❖ ~
Ênia fechava os olhos em seu quarto e tentava se concentrar no som do silêncio que imperava no ar. O dormitório que Magnus lhe dera era bem diferente do que imaginava no começo. Primeiro, ele não tinha uma porta. O quarto não era exatamente um quarto, pois ficava no subsolo e para chegar nele tinha-se que passar por vários túneis e labirintos. Lembrava-se do primeiro dia em que o acompanhou até o seu atual espaço.
O mordomo tinha encontrado-a na saída de um tipo de brinquedo que envolvia barcos flutuando por um túnel, ela estava com Michael que relutantemente lhe cedeu a companhia naquela ocasião. Ênia seguiu o mordomo até uma acolhedora casa de chás, onde ele entrou explicando que ela sempre o encontraria ali caso precisasse de alguma coisa. O lugar parecia bem simples e modesto, mas Magnus provou ser o contrário quando fez um tipo de entrada surgir de uma parede. Naquela ocasião Ênia tinha se distraído com o barulho da porta se fechar sozinha e não viu o que ele fez para abrir a entrada, mas o mistério não havia nem mesmo começado.
A passagem dava em um túnel que por algum motivo descia em linha reta para baixo. O mordomo tinha lhe puxado pela mão para o túnel escuro caminhando na frente sem exitar como se conhecesse aquele corredor de cabeça. Os dois caminharam no escuro indo cada vez mais para baixo, o único som presente era o dos passos que eles davam naquela trilha. Depois de andar muito Ênia já se perguntava até onde aquele corredor ia, quando Magnus pára de repente e vira para a direita, entrando dentro de uma parede com Ênia, que sentiu uma textura esponjosa quando entrou, percebendo que naquele lugar a parede era falsa.
– Tenho companhia – Ele disse para o nada à sua frente.
E com a observação o lugar se iluminou, mas não com uma lâmpada ou uma tocha, as paredes e o chão emitiam uma luz própria avermelhada no que pareciam veias ou raízes dentro de suas estruturas. O lugar onde Ênia pisava adquiriu uma coloração vermelha um pouco mais forte, e quando Magnus deu um passo para o lado, ela percebeu que a marca dos passos ficava um tempo marcada no chão até sumir gradualmente.
– Este é meu labirinto. Quero que você o grave na memória; cada corredor, cada porta, cada quantidade de passos, lembre de tudo. Você é livre para ir a qualquer lugar aqui dentro, mas eu lhe proíbo de passar pelas portas trancadas.
– O que tem nelas? – Ênia tinha perguntado naquela ocasião.
– Coisas que apenas eu posso mexer – Magnus respondeu. – Curiosidade é um mal que você deve evitar enquanto estiver aqui embaixo.
Não era uma resposta satisfatória, mas para não provocar a ira naquele homem, a garota achou mais prudente aceitar.
Ele lhe guiou por vários corredores, que mudavam de padrão na cor dos passos tantas vezes que ela imaginou que tipo de lugar era aquele para ter tantas mudanças bruscas. As paredes e o chão eram sempre iguais, as mesmas veias avermelhadas e as mesmas estruturas sólidas as protegendo, mas conforme se caminhava um pouco, a cor das marcas dos passos mudava quando pareciam atingir algum ponto invisível. De vermelho passavam para o azul, e então mudavam para o verde depois de um tempo. Ênia percebeu que aquela mudança devia ser alguma forma de separar os corredores uns dos outros, era a única coisa que mudava naquele labirinto perfeitamente igual e simétrico. Magnus as vezes olhava para ela, tentando ver algum lampejo de loucura ou confusão em seus olhos, mas Ênia nunca expressava nada.
– Seu quarto é aqui – Ele diz enfim parando em frente de uma parede.
O corredor em que estava era exatamente como todos os outros, com exceção dos seus passos que eram verdes. Ênia observou aquela parede procurando por alguma coisa que a diferenciasse das outras; um botão, um risco, uma marca, qualquer coisa, mas não havia nada.
Olhou para Magnus esperando que ele fizesse alguma coisa, e ele fez. Juntou as mãos enluvadas e bateu palmas duas vezes, fazendo as veias que iluminavam o local se apagarem. No escuro, a garota viu rosas transparentes com um brilho luminoso florescerem na parede à sua frente. Maravilhada, viu aquelas flores espectrais brilharem fantasmagoricamente no escuro e teve vontade de tocá-las, eram tão lindas.
– Esmague essa flor com uma mão. Ela abrirá a entrada para seu quarto – Ele explica indicando uma rosa.
A garota obedece, segurando a flor entre os dedos e amassando suas pétalas delicadas. Como ele disse uma entrada realmente se abriu. A porta tinha a aparência de um buraco oval, era na parede, entre as folhagens das rosas.
– Entre.
Ela pensou em questionar, mas em vez disso obedeceu. Mais um túnel e de novo para baixo. Era um corredor bem longo, chegou a se sentir sufocada pela estranha sensação que tinha ao andar ali, sentia que mãos invisíveis poderiam sair das paredes e pegá-la a qualquer minuto, aquilo era claustrofobia? Tinha lido isso em um livro uma vez, mas possivelmente não era. Por que seu quarto tinha que estar tão escondido?
Quando chega ao final atravessa uma abertura na parede e entra.
O quarto era lindo. Maior que um salão e muito mais espaçoso. A cama ficava em um canto e tinha um dossel vermelho, com grandes almofadas vermelho-vinho. O guarda-roupa estava abarrotado de todo tipo de roupa, as paredes tinham barras de ferro como se fossem de alguma prisão ou gaiola e Ênia também notou uma coleção de bonecas ao lado de uma estante de livros. Elas eram estranhas, um pouco realísticas demais, mas eram bonitas.
Magnus entrou um pouco depois. Observando em volta para avaliar a limpeza e se havia algo desagradável que pudesse concertar.
– Se não se importa, posso fazer uma pergunta? – Ênia tinha dito aquela vez.
– Não garanto que responderei.
– Pra que tudo isso? – Ela tinha se virado para ele – Existe algum motivo para meu quarto ser tão distante e tão oculto?
– Existe um motivo, mas não tenho permissão para dizê-lo. Considere um capricho do dono deste lugar.
– Então mudarei a pergunta: Por que ficarei aqui?
Magnus abriu a boca para falar, mas se calou duas vezes. Ele olhou uma rosa vermelha que enfeitava os cabelos negros de Ênia e em silêncio se aproximou dela e alisou seus cabelos, retirando a rosa vermelha que estava atrás de sua orelha. Aquela rosa foi um presente de Michael, que havia sido colhida enquanto flutuava em um certo lago. Ao retirar a flor, jogou-a no lixo com certa frieza.
– Aproveite sua estadia – Ele disse e se retirou em silêncio. Sem responder a pergunta.
Ênia se lembrava disso por que aquelas ações não lhe faziam sentido, e agora, com os olhos fechados no silêncio, queria esquecer suas perguntas por um momento.
A bailarina abre os braços e se ergue na ponta dos pés. Não estava usando sapatilhas e nem tutu, mas de qualquer forma era apenas um treino improvisado. Na ponta dos pés ela salta de trinta em trinta centímetros de distância, conseguia calcular perfeitamente seus passos como um computador. Junta os pés depois de oito passadas e muda de direção. Girava com os braços abertos no mesmo lugar, podia visualizar uma fila de bailarinas dançando em uma caixa de brinquedos, sendo manipuladas pelas cordas de marionetes junto com as outras que acompanhavam o seu ritmo. Sim, os passos curtos e rápidos, quase alegres, que eram perfeitamente controlados pelas cordas. O coque, os braços marmóreos, o vestido flutuante e branco. Por algum motivo pensou em Für Elise de Beethoven, aquela música parecia se encaixar com sua imagem e só então percebeu que realmente estava ouvindo aquela música.
Parou de dançar e observou de onde saía aquele som. Uma caixinha de música com uma bailarina girando em cima de um espelho havia começado a tocar sozinha. Ênia não se lembrava de ter aberto a caixinha ou de ter dado corda, mas ali estava ela tocando enquanto a bailarina dançava.
Se aproximou do objeto e então o examinou. A caixa era de madeira, retangular e bem trabalhada. Não conhecia muito sobre espécies de madeira, mas era provavelmente mogno ou tabaco pela sua cor. Seu interior era forrado por um veludo verde folha e tinha uma repartição com um espelho quadricular, onde uma bailarina de porcelana girava.
A bailarina era bem delicada e bela. Estava paralisada em Passé enquanto girava, e seus braços fininhos levavam uma mão ao peito e a outra estendida para fora. Usava um tutu negro com mangas que iam dos pulsos até os ombros num estilo espanhol. Tinha cabelos dourados presos em um coque e uma franja em V invertido, que começava lisa e fazia cachos nas pontas, mas sem dúvida eram seus olhos castanhos, embaixo de cílios perfeitamente pintados, que a tornavam bela. A bonequinha de porcelana foi pintada com uma expressão afiada, seus olhos pareciam transmitir arrogância em vez de inocência como era característico nas bailarinas.
Seu momento de observação foi interrompido quando Magnus entrou.
– Você parece ter gostado. Essa música a agrada?
Ênia não responde.
O mordomo se aproxima dela com serenidade e observa a caixinha de música. Retira a bailarina de seu pedestal com cuidado e a aproxima de seu rosto para vê-la melhor. Observa aquele rostinho familiar com seus habituais olhos gélidos.
– Lamento interromper seu descanso, mas acredito que está na hora de conhecer o seu palco – Ele se dirige a Ênia.
A garota dá de ombros e avança um passo para perto dele. Magnus guarda a bailarina dentro da caixinha e fecha a tampa. Os dois saem do quarto, enquanto um sussurro baixinho escapava de dentro da caixa.
~ ❖ ~
Um incômodo raio de sol atravessou uma brecha entre as cortinas e atingiu os olhos adormecidos de Oliver. Ele franziu as pálpebras incomodado e puxou o cobertor até cobrir a cabeça. Precisava acordar, mas não queria, a cama era tão fofa e quentinha...
– Nii-chan, pode fechar a janela pra mim?
Ele estende a mão tateando o colchão em busca do corpo do maior para cutucá-lo. De certo que Michael fecharia quando acordasse. Esticou o braço o quanto pôde mas não encontrou o obstáculo que procurava.
– Mik-nii-chan? – Oliver retira o cobertor da cabeça e olha para o espaço em que ele deveria estar.
Michael não estava ali. Será que já tinha acordado antes?
Oliver se senta na cama e olha para o relógio no criado-mudo. Era muito cedo.
– Mik – Oliver chama e fica em silêncio esperando a resposta.
Nada.
O menino escorrega as pernas para fora da cama e olha em volta. Tudo estava como na noite anterior, até o copo que ele tinha lhe servido ainda estava no criado-mudo, mas Michael não estava ali. Oliver salta da cama e caminha pelo quarto procurando pelo loiro. Abre o guarda-roupa, passa pela porta do banheiro, olha embaixo da cama, mas não o encontra. Onde ele foi?
Senta-se de volta na cama e abraça um travesseiro emburrado, inspira o tecido sentindo o perfume de Michael impregnado nele, o loiro sempre tinha cheiro de hortelã. Tinha que encontrá-lo, se ele já havia levantado seria vergonhoso de sua parte dormir até tarde. Calça suas botas e põe seu quepe, saindo pela porta a procura de seu querido irmão.
~ ❖ ~
No céu dos acrobatas, os novos integrantes para o grupo estavam enfileirados verticalmente em frente a Arman, o tutor e responsável pelo espetáculo. Este, folheava um caderno de capa negra seriamente e quando termina fecha o objeto e olha para seus alunos.
– Anteriormente eu pedi para que vocês me mostrassem o que sabiam fazer. Depois do que vi fiquei com vontade de arrancar meus olhos. Sinceramente, onde a cabeça de vocês estava ? Eu esperava que tivessem ao menos o mínimo de conhecimento sobre isso, mas ficou claro para qualquer um que vocês são amadores com A maiúsculo – Ele diz irritado. – Mas a culpa também é minha, esperar por pessoas que ao menos entendessem o propósito de um espetáculo é pedir demais.
– Somos grumetes inexperientes – Aegeon leva uma mão à testa em uma cena de drama. – Pobre pirata, tendo que começar do zero...
– Pirata? – Arman franze uma sobrancelha e leva uma mão ao tapa-olho entendendo a piada – Isso não é da sua conta.
– Então nos explique, o que exatamente você quer fazer nyan? – Satsuki segura o cotovelo com uma das mãos e com a outra usa o dedo indicador para apoiar a cabeça.
– Depois de analisar cuidadosamente cada um de vocês, percebi que não vai valer a pena me dedicar em concertar cada ponto fraco sem uma base sólida. E por falar nisso são tantos pontos que tenho vontade de matá-los e esperar uma nova remessa, mas se foi Michael que os trouxe até mim, foi por que viu alguma coisa em vocês que eu não consigo ver. Até eu tenho que admitir que se tratando de pessoas aquela coisa tem bons olhos. Ou eu não consigo ver suas qualidades ou ele bebeu até ficar zonzo antes de ir para fora. De qualquer forma, irei começar do básico, primeiro com alguns exercícios de força.
– Está dizendo que eu sou fraca? – Isis avança um passo.
– Eu não disse isso, mas sim, isso mesmo – Arman provoca com um sorriso sarcástico.
Uma criança de cabelos loiro-acinzentados entra timidamente no local e vai até Arman, puxando a barra de sua camiseta para ter sua atenção.
– O que você quer Oliver?
– Você viu o Mik-nii-chan por aí?
– Eu não vi o Michael hoje, porque quer saber?
– Eu não o encontrei.
Arman olha Oliver descrente. Michael tinha sumido? Normalmente quando alguém sumia isso só poderia significar uma coisa, mas Arman estava em duvida se era isso mesmo. Michael não podia morrer, essa era sua maldição, mas onde ele poderia estar?
– Ruiva – Arman se dirige à Isis. – Consegue farejar o cara que te trouxe aqui?
– Seu-...! Eu não sou um cão farejador! – Isis se revolta.
– Não consegue fazer nem mesmo isso? Que inútil.
– Eu não disse que não consigo. Eu só não quero.
– Tudo bem, tudo bem, eu vou continuar procurando – Oliver diz e se retira. – Obrigado pela informação.
Arman observou Oliver se afastar, prevendo uma dor de cabeça com aquele menino tão pequeno. E tão logo Oliver saiu, um homem de olhos dourados entrou e cabelos negros. Callisto estava empurrando uma improvisada carriola cheia de rochas e algumas cordas.
– Desculpe a demora, isso é pesado.
– Pra que essas rochas? – Aegeon pergunta.
– Para vocês é claro. Vamos começar com pesos leves – Arman responde como se fosse óbvio.
– Nyan? – Satsuki olha para as rochas com aparente descrença.
"Leves? Sério?" – A felina pensa.
– Devem ser de isopor – Aegeon caminha até a carriola e pega uma pedra do conjunto. Seu braço treme enquanto a levanta para exibir ao pessoal. – É leve sim, tranquilo.
"Só se for as cordas." – Callisto pensa.
– Pois bem, vocês vão ter um desses pesos amarrados ao pé e irão até aquelas barras – Arman aponta para um conjunto de barras a quatro metros do chão. – Vocês as seguram com as mãos e levantam o corpo até a cabeça passar da linha da barra. Simples, não? Façam esse movimento 43 vezes. Xisto, Mephisto, seja lá qual for seu nome, pode colocar os pesos neles?
– Onde você vai? – Sheng pergunta se aproximando de Callisto, não ia questionar o exercício por ver lógica nele, força e resistência eram habilidades essenciais para acrobacia.
– Fazer uma perguntinha ao Magnus. Não demoro. É apenas uma curiosidade minha.
Arman sai pela entrada e deixa o moreno com seus quatro alunos, que sentem o chão tremer um tempo depois.
~ ❖ ~
Oliver caminhava pelos corredores e trilhas que o circo possuía quando sente o chão embaixo de seus pés tremer. Junto com ele, as barracas e repartições que haviam ali também tremiam. O menino continuou a caminhar, se divertindo com as vibrações que saíam do chão. Estava quase rindo quando encontrou um dos novos membros se segurando firmemente à uma coluna. O novato de óculos olhava ao redor estranhando o fenômeno tão repentino. Curioso, Oliver se aproxima dele.
– O que está fazendo agarrado a esse poste?
– T-t-t-tentando não cair d-durante este terrem-m-moto – Will respondeu.
– O que é um terremoto? – Oliver inclinou a cabeça curioso.
– O que está ac-c-c-contecendo agora. – Will abre um braço mostrando a amplitude do lugar. – Quando o c-c-chão começa a trrrrrremer é sinal de um terremoto.
Oliver ri, nem ele que era criança tinha medo daquilo. O menino pega a mão de Will e o conduz para longe da coluna, parando no meio da estrada.
– Nós só estamos nos mudando, olha lá – Ele diz apontando para cima.
Um estranho mosaico se formou no céu, parecia uma flor ou um sol com formatos geométricos semelhantes a cristais. Essa flor se expandiu como uma explosão, cobrindo o céu com um manto que brilhava maravilhosamente e as pontas caíam levemente para baixo indo em direção ao chão. A flor era o centro e à sua volta múltiplas figuras geométricas se espalhavam como os vitrais das igrejas, eram tão coloridas e vívidas que chegavam a hipnotizar.
– Que bonito – Will comentou baixinho olhando para o céu multicolorido que se abria como uma mandala à sua frente.
Oliver sorria satisfeito, vendo o gigante vitral refletido nos olhos de Will.
Quando aquele imenso manto se completou, o centro do vitral desceu com tudo em direção ao chão. Aterrorizado, Will pulou para o lado de Oliver levando o menino ao chão o protegendo com seu próprio corpo. O que pareceu ser uma onda sem forma ou textura, semelhante às ondas sonoras, atravessou o corpo de ambos, mas não os esmagou como Will supôs que ia acontecer. Receoso, ele abriu os olhos (que tinha fechado antes do impacto) e olhou em volta. Tudo estava como antes, o chão havia parado de tremer e o céu voltou a ser azul como sempre foi.
– Porque ficou com medo? Mudanças também existem lá fora não é? – Oliver pergunta vendo a proteção instintiva que ele fez para si.
– M-mudança?
Oliver afirma com a cabeça. O menino sai de baixo de Will e se levanta, dando alguns tapas em sua roupa para tirar a poeira. Caminha até uma pilha de caixotes e sobe em um deles, olhando para o horizonte. O garoto faz o mesmo, notando a mudança da paisagem lá fora. As torres de Londres haviam desaparecido, dando lugar a um novo arranjo de prédios, catedrais e casas.
– Berlim!? – Will exclama surpreso.
Conhecia aquela paisagem e alguns daqueles pontos turísticos por ver em vários cartões postais e em livros turísticos. Como tinham ido parar lá? Teletransporte? Abdução?
Aquele estranho evento multicolorido fez o circo inteiro mudar de lugar e tudo que estava nele foi junto; os artistas, as barracas, as grades, os caixotes, tudo, menos o chão que parecia ligeiramente diferente do antigo.
– Como isso é p-p-p-possível?
– Não deveria ser? – Oliver inclina a cabeça não compreendendo o raciocínio do maior.
Para Oliver, que estava no circo desde que nasceu, algumas coisas eram naturais. O circo ia e vinha em várias cidades, mas seu lar nunca mudava de estrutura. Coisas como magia, maldição, assassinatos e destino lhe eram tão comuns que só se surpreendia pelo fato das pessoas de fora se espantarem com isso. O "bem", o "mau", o "possível" e o "impossível" estavam distorcidos em sua curta existência. Oliver vivia em um mundo e via as coisas diferente do modo como todos viam e viviam.
– De qualquer forma, você viu o Mik-nii-chan por aí?
– Q-Quem? Quem é esse?
– O homem que te trouxe aqui. Alto, loiro, tem um brinco de estrela, te prendeu em uma caixa...
– Ah, a-a-aquele cara surreal de N-n-n-n-nova York. Não, eu não o vi. M-mas tirando isso, você sabe onde tem u-u-uma caixa de brinq-q-q-q-q-quedos por aqui?
– Hã?
– Seryu m-m-me disse para ir na Caixa d-d-de Brinquedos, m-mas não estou achando nenhuma por a-a-aí.
– Ah, a Caixa de Brinquedos.
– Isso. Você viu uma p-p-por aí?
– Não é um objeto, é um lugar. A Caixa de Brinquedos – Oliver diz apontando para uma porta.
– A-Ah, obrigado – Will agradece mais parecendo se desculpar e se dirige até o lugar que Oliver indicou.
A Caixa de Brinquedos era conhecida por seus espetáculos instáveis. Nada parecia fazer sentido lá dentro, bonecas adquiriam vida, o chão e o teto se confundiam, monstros andavam livremente, plantas maldosas sussurravam mentiras, pessoas dançavam com fantasmas e muitos outros eventos estranhos aconteciam dentro da Caixa. Normalmente os VIPs a frequentavam para buscar a insanidade, o surreal. No entanto durante o dia ela era muito alegre e colorida.
Mas a Caixa de Brinquedos não era a única a fugir dos padrões. A Casa de Chás, apesar do nome comum, não tinha a função de apenas servir os VIPs com bebidas. O nome foi escolhido por Magnus, que não queria um título extravagante para sua tenda, apesar dos VIPs oferecerem vários nomes que se encaixavam nas atividades feitas lá dentro ele recusava todos, preferindo o nome original que escolhera. A Casa de Chás era como um amplificador para toda a escuridão e loucura que se escondiam nas almas dos humanos. Oliver nunca tinha entrado lá durante o horário VIP, mas fosse qual fosse a misteriosa atividade praticada lá dentro, deixava os VIPs mais sombrios do que já eram.
O menino já tinha visto uma vez os VIPs saindo de lá, estava com sua mãe naquele dia, e quando um dos visitantes se aproximou dele e muito levemente fez carinho em sua cabeça, Oliver pensou ter visto o rosto da morte refletido nos olhos daquele homem. Foi a primeira vez que sentiu medo de alguém que não lhe fez nada.
Por falar em mistério, sem dúvida a barraca mais misteriosa do circo era com certeza a Lua Minguante. Seryu podia ver tudo em suas cartas, tanto o passado quanto o futuro. Talvez fosse por isso que ela agia de um modo diferente dos demais, na perspectiva de Oliver ela era um pouco estranha, não conseguia explicar bem o por que. Os VIPs a procuravam geralmente para sentirem algum tipo de paz que a Lua Minguante transmitia, para pedir ajuda sobre duvidas ou decisões que não conseguiam tomar ou simplesmente para ver o seu futuro. Também haviam outros motivos para se entrar na Lua Minguante, uma vez que ela oferecia várias possibilidades com apenas uma visita, mas Oliver só se lembrava destes três.
– Seryu...
Como não tinha pensado nisso? Se alguém podia descobrir o lugar para onde Michael tinha ido esse alguém era ela. Não precisava ficar procurando às cegas pelo circo, era só perguntar para Seryu. Decidido ele se põe a caminho da cartomante.
Enquanto caminhava, passou em frente ao Candelabro e ouviu alguns gritinhos histéricos vindos lá de dentro. Apressou o passo sem nem olhar para lá. Por algum motivo, tinha sido proibido de sequer chegar perto do Candelabro, sua mãe que criou essa regra. Sem lhe dar os motivos para essa atitude e mostrando-se exageradamente protetora, Oliver ficou proibido de ver o que acontecia lá dentro. Michael partilhava a mesma opinião de sua mãe, também sem lhe dar motivos.
Sabia que o Candelabro era a barraca de Madame Sondhein e os clientes que entravam saiam corados e quentes, como se estivessem com febre. A Madame era uma mulher animada e falava várias coisas que Oliver não compreendia. Os brinquedos dela tinham nomes esquisitos, as atividades que promovia eram estranhas e ela era fanática por seu trabalho, fosse ele qual fosse. Sondhein o tinha classificado como "shota" uma vez, delirando em um mundo imaginário de romances proibidos. Naquela vez Oliver tinha lhe dito que não precisava de ninguém além de Michael e com vários gritinhos femininos e abraços apertados, ela de alguma forma tinha gostado de sua resposta.
Um outro lugar que tinha muitos gritos animados era a Roleta das Lâminas, o palco perfeito para sádicos e masoquistas. Cain gostava muito daquelas facas e adagas, quase tanto quanto de pessoas. Durante o horário VIP era praticamente um banho de sangue, as vezes Oliver ia assistir, sempre ficava animado com as apresentações.
Também gostava muito do Palco dos Pierrots. Sempre ria com as travessuras dos palhaços mas preferia visitá-los durante o dia, tinha um certo receio de ir durante o horário VIP por que a alegria deles convertia-se para uma emoção bizarra e assustadora. Ficou com medo de palhaços depois de vê-los durante a noite, sentindo-se um pouco mais seguro com eles durante o dia.
Fantasia também era um lugar incrivel. O Mago era quase tão misterioso quanto Seryu, só perdendo na capacidade de prever o futuro. Durante o dia era quase como se o público estivesse mergulhado em um sonho, Fantasia era exatamente o que o próprio nome dizia. E durante o horário VIP, parecia um daqueles contos de terror onde se pega algo bom e inverte. Como um País das Maravilhas ao contrário.
Outra drástica mudança acontecia na Selva das Bestas. Erich tinha muitos animais em sua família, eram tantos que se admirava dele conseguir cuidar de todos. Uma pena que nenhum deles estava vivo de verdade, a luz do dia criava um tipo de ilusão de ótica mostrando-os como adoráveis e vívidos mascotes, mas quando o sol se punha eles pareciam mais zumbis malignos do que animais de verdade. Os olhos foscos ganhavam um brilho avermelhado, uma costela ou um osso aparecia onde o tecido entrava em detrimento e eles pareciam mais ferozes. As bestas da selva de Erich.
Falando em zumbis, o Jardim dos Monstros também tinham figuras bizarras. "Aberrações" como todos diziam, elas não conseguiam fingir alegria nem durante o dia, quanto mais à noite. Formas deformadas e inaceitáveis na sociedade, eram os excluídos que o mundo criou e cuspiu fora. Por algum motivo o Mestre amava aquelas criaturas, ou foi o que Magnus lhe disse. O Jardim era como um zoológico onde ficavam em exposição, os VIPs também as amavam, de um jeito que Oliver não entendia. Como poderia dizer? O Jardim existia para trazer amor aos VIPs, amor e carinho de criaturas que estavam longe de serem assim.
Era um lugar popular, assim como o Céu dos Acrobatas. Arman era rude, grosseiro e mal-humorado, mas ninguém podia dizer que seus espetáculos eram ruins. De alguma forma seu pulso firme rendia bons frutos, ele não aceitava coisas mal feitas. Todos que estiveram com ele um dia reclamaram durante horas sobre que tipo de pessoa terrível ele era, mas tinham que admitir que melhoravam em sua arte. Em uma palavra, seus espetáculos eram incríveis, e ele sempre conseguia melhorar. Os VIPs que assistiam encontravam um sentimento de liberdade e leveza, assim como a diversão. Dependia do espetáculo, cada apresentação trazia de volta um sentimento diferente.
O menino enfim chega à Lua Minguante, mas antes mesmo que ele pudesse bater na porta Seryu já a abriu para ele.
– Seryu, você viu o Mik-nii-chan por aí?
– Sim.
– Sabia que você o acharia, como era de se esperar – Oliver sorri alegre e aliviado – Onde ele está?
A mulher faz uma pausa, olhando para os olhos acinzentados do menino.
– Debaixo da grande tenda, dentro de uma borboleta.
– Ok. Obrigado – Oliver agradece e se retira acenando para a mulher.
Não tinha entendido como ele estaria embaixo da tenda e nem como coube dentro de uma borboleta, mas como ela falava por enigmas acreditava que o entenderia quando fosse até lá.
A mulher observa o menino se afastar com uma calma anormal, até escutar os sibilos das cobras de Saga atrás de si. Volta para dentro do aposento e fecha a porta.
Saga estava em cima de um armário, com as pernas cruzadas em uma pose elegante. Segurava em uma das mãos o cadáver de um rato, que comia de pedaço em pedaço. Primeiro as patinhas, depois a cabeça e em seguida o corpo.
– Saga se recusa a fazer o que Seryu disse.
– Não me surpreende.
– Você pode não saber, mas Saga não obedece ninguém além da Saga. Esses lixos nunca estarão acima dela.
– Sua linha de raciocínio me entristece – Seryu disse sem emoção alguma. – Mas se tem tanta confiança em si própria eu não vou interferir. Talvez não obedecer ninguém seja uma coisa boa.
– Apesar de Saga não se importar com os assuntos de vocês, ela quer saber por que você mandou o garoto lá fora em uma missão e não deixou a Saga ir junto. Ela também vai ficar na Caixa de Brinquedos não vai?
Seryu se dirige até o armário em que a garota estava e abre uma porta, retirando um baralho de cartas de seu interior.
– Você não precisa ir lá hoje. Isso é tudo.
Saga faz um muxoxo, saltando de cima do armário emburrada. Ela vai até a sala e se joga no sofá, suas cobras logo vem se enroscar em seu corpo. As cabeças das víboras sibilam para sua dona.
– Saga está se vendo obrigada a conversar com esses lixos para não ficar perdida, vocês bem que podiam conversar com eles por ela.
Mais sibilos.
– Tem razão, eles não iam entender. Saga é a única que entende – Faz uma pausa. – Ela está entediada, quer que vocês saiam por aí para lhe trazerem histórias. Os lixos daqui tem um cheiro diferente dos lá de fora.
As cobras sibilam e descem dos membros da mulher, serpenteando para fora do aposento.
Seryu pega suas cartas separando uma em especifico que coloca no topo da mesa virada para baixo. Embaralha as cartas e separa cinco alinhando-as em ordem. Observa a base que fez e a carta separada que colocou no topo. Ficou um bom tempo com o olhar fixo na carta do topo, até que voltou para a fila e virou a primeira carta para cima.
A figura era colorida com o formato de vitral, as bordas da carta eram douradas imitando caules emaranhados como as figuras medievais. A figura central eram dois pares de olhos, o primeiro estava em destaque olhando ingenuamente para frente e o segundo se escondia atrás desses, com um olhar cauteloso e perspicaz.
– Olhos duplicados... parece que teremos um espião nesse jogo.
~ ❖ ~
No ateliê de Johanne, V e D faziam pedidos impossíveis à costureira. A mulher alinhava alguns carreteis de linhas em sua mesa enquanto os ouvia passivamente. Alma estava sentada em um banquinho, acompanhando seu tutor com os olhos. Só tinha conhecido-o oficialmente no fim da reunião, ele tinha lhe dado um abraço sem nenhum motivo e se apresentado como seu professor. Tinha levado um susto, não era todo dia que via duas pessoas grudadas daquele jeito, e não sabia como reagir às personalidades tão opostas deles.
Tirando seu tutor duplo, estava ainda mais atenta com a costureira. Não conseguia não olhar aquelas agulhas enormes e de grande destaque nas mãos dela.
– Qual seu nome? – Johanne lhe pergunta com um sorriso.
Alma pega uma folha e escreve seu nome mostrando para ela.
Johanne espera pacientemente a garota lhe dizer.
Alma ainda articula com os lábios sem emitir algum som, e a costureira apenas leva uma mão a orelha para ouvir melhor.
– Vamos, pode me dizer. Qual o seu nome?
Ela era cega? Alma entra em pânico. Olha para os lados pensando em alguma forma de responder, tudo tinha ficado tão quieto que até tinha se esquecido de seus tutores, eles poderiam ajudar. Olha para eles em um pedido de ajuda, mas V e D tinham se calado. A mão de um tampava a boca do outro, V expressava claramente em seus olhos que estava perto de ter um ataque de risos, enquanto D apenas olhava tudo indiferente, ambos assistindo silenciosamente o desespero da pequena pierrot.
Alma pensa em algum jeito de responder para uma cega o que uma muda poderia dizer. Nenhum lhe veio à mente.
– Você não tem nome? Hum... isso deve ser bem incômodo, nesse caso te chamarei de-...
– Bernardo – D completa a costureira.
V começou a rir mesmo com sua boca tampada, tinha libertado D para coçar seu olho e nesses segundos ele já vem com uma resposta daquelas.
– Ah, você é um menino? Do jeito que eles estavam falando eu pensei que fosse uma garota. Desculpe Bernardo, me enganei completamente.
Alma fuzila os dois com o olhar, de onde veio aquele nome?
"Meu nome não é esse!!!!" – Alma pensa irritada.
– Venha Bernardo, vamos tirar suas medidas.
Johanne estende uma mão no ar procurando o corpo de Alma, e esta se afastava cada vez que ela se aproximava. Morria de medo de agulhas.
– Bernardo não pode fugir da Johanne, ele precisa de um novo figurino – V fala pegando Alma em um abraço.
– Ele está aqui – D guia Johanne até Alma com sua voz. – Venha aqui buscaar.
A costureira encontra a garota e pousa suas mãos em volta da cintura dela.
– Te achei – Johanne diz com um sorriso. – Não se mexa, ok? Me avise se doer, então eu paro.
Alma se debate naquele abraço duplo com agulhas de uma costureira bizarra entrando em sua pele.
"Está doendo! Está doendo!" – Alma pensava tentando articular as palavras sem som.
V assobiava uma melodia alegre como o canto de um passarinho, enquanto D fazia um fundo para a canção cantando com a boca fechada uma melodia fúnebre. Johanne balançava a cabeça devagar acompanhando a melodia enquanto fazia seu trabalho.
Quinze minutos depois, Johanne termina de tirar as medidas e Alma cai exausta de tanto se debater.
– Sabe, você tem um corpo meio feminino para um garoto... – Johanne comenta – Mas darei meu melhor. O que vocês querem que eu faça?
– Um vestido muito fofo e macio! Daqueles bem coloridos, cheio de flores, corações, fitas, borboletas e com aquelas coisas fofas das bailarinas. E... se possível uns tentáculos de polvo cor de rosa com patas de borboleta, também pode colocar umas penas coloridas e uns lacinhos. Não! Melhor encher de lacinhos em vez das penas, também quero um chapéu de bruxa cheio de coisas fofas e brilhantes – V explica animado.
– Um vestido preto com rasgos nas pontas, não, rasgos em vários lugares, com algumas correntes de prisioneiro e sendo o mais escuro e sem brilho possível. Faça algo bem simples para se mover facilmente – D explica.
Johanne abre um sorriso torto.
– São dois vestidos diferentes?
– Não, o mesmo vestido com as duas ideias – Os dois respondem juntos.
Ela congela. Como ia fazer isso?
– Boa sorte Johanne, mal posso esperar para ver seu talento – D se despede com mesura.
Os pierrots levantam Alma do chão e saem aos pulinhos com a nova aluna que ganharam. Johanne coça a bochecha olhando para o nada, era mesmo um pedido bem complicado, por onde supostamente deveria começar?
~ ❖ ~
Ivan e Ivie se encontravam na cozinha. A ruiva de cabelos alaranjados e olhos da mesma cor retirava alguns livros da prateleira de um armário e os jogava de qualquer jeito na mesa de platina da cozinha, o albino observava aquela desorganizada pilha de livros aumentar pacientemente esperando a ruiva lhe dar alguma explicação.
Quando termina seu trabalho ela apoia os braços na mesa e olha divertidamente para o maior.
– Faça essas.
Ivan observa os livros e sem entender direito o pedido pede por uma explicação mais especifica.
– "Essas" o que?
– Receitas é claro. Era para o Michael te explicar quando terminasse o serviço, mas por algum motivo Magnus disse para não contar com ele, e como o mordomo está ocupado com sua nova menina eu fiquei com a tarefa de te explicar como as coisas funcionam – Ivie faz um biquinho infantil estendendo os braços pela mesa em desanimo.
– Sinto muito.
– Pelo que está se desculpando? Mas bem, vamos começar. E me escute bem se não vou te punir por me deixar falando com o vento.
– C-Claro.
– Caham. Como novo chef responsável pelas nossas refeições é essencial que você não coloque veneno na comida.
– Eu nunca faria isso!
– Quem sabe? O cozinheiro pode matar todo mundo sem que ninguém descubra. Não vou te proibir se quiser matar alguém especifico, mas tente minimizar o número de mortos, ok?
– Eu realmente não pretendo fazer isso.
– Ok. Apesar de muitos comerem de tudo, tem que se ficar atento com as preferências. Tem algumas pessoas que não gostam de coisas quentes, então é necessário ter pratos crus, e outros que não gostam de coisas amargas então vivem à base de coisas doces. Tem gente que não come tomate, alface, cebola, etc, então ficam separando no prato, isso é um desperdício de comida e tempo. Para evitar isso, seguimos as preferencias. Por exemplo... – Ivie pega um dos livros que tinha jogado na mesa e o entrega a Ivan – Eu amo coisas picantes. Quanto mais quentes, ardidas e apimentadas melhor. Os chefs antes de você reuniram receitas que se encaixam nos gostos de cada um, foram várias tentativas de erros e acertos que eles anotaram para a próxima geração, sinta-se livre para usar o que puder.
– Obrigado, mas e esses livros que estão com páginas em branco? – Ivan pergunta folheando um fino livro que tinha pego.
– Ah sim, só tem um livro desse jeito. Este aí é do Doutor, ele não come. O Doutor nunca foi visto comendo alguma coisa que não fosse água. Normalmente ele vem até a cozinha para buscá-la então não precisa se incomodar.
– Ele só bebe água? Como é que ele sobrevive?
– Não se incomode com esses detalhes, o Doutor é o Doutor, quanto menos você se interessar por ele melhor.
– Tudo bem, então quantos pratos eu tenho que fazer por refeição?
– Isso vai do seu gosto. Desde que tenha pelo menos um que se encaixe nas preferências dos membros listados então não importa muito quantos você faça. Mas de qualquer forma isso é só meio caminho andado, temos vários membros novos que sabemos pouco ou quase nada. Sua tarefa vai ser descobrir e anotar os novos gostos.
– Entendi, obrigado por vir me ajudar.
– Não me agradeça, esse não é meu trabalho. Se precisar esquentar a temperatura então estou à disposição, esse sim é meu trabalho – Ela se despede com um olhar malicioso.
Depois que ela sai Ivan pega um dos livros e folheia as páginas olhando "por cima" seu conteúdo.
– A 1 e 2 só comem coisas cruas, fará mesmo tão mal a elas se eu esquentar um pouco os bifes? – Ivan aperta os olhos com as receitas – Bem, por enquanto acho melhor seguir as instruções.
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Oliver entra na grande tenda, local onde foi realizada a primeira reunião com todos os novatos, e olha em volta.
– Debaixo da grande tenda, dentro de uma borboleta... – Ele repete olhando ao redor.
Devia existir alguma passagem que levasse para o subsolo, já que a tenda era rente ao chão, então só tinha que encontrá-la. O menino percorre o lugar procurando pela passagem, dando saltos pelo chão na esperança de uma passagem se abrir para o subsolo, observando a lona, olhando embaixo da arquibancada e então acidentalmente encontrando Isadora.
– Você? O que está fazendo aqui? – Oliver pergunta se aproximando.
– Hã? Quem é-... Ah sim, o garoto do homem loiro. Seu nome é...
– Oliver.
– Isso, Oliver. Eu perdi uma pulseira, acredito que foi durante aquela reunião, então vim aqui procurar.
Um miado seguido de um ronronar se anuncia atrás da garota e a Russian Blue surge esfregando seu corpo na cintura de Isadora.
– Essa é a Biruta, ela está me ajudando.
– Biruta...? – Oliver reflete sobre o nome engraçado – Então tá. Também vou ajudar, eu também estou procurando por uma coisa mesmo.
– Valeu. Já é de grande ajuda.
– Uma pulseira... uma pulseira... – Oliver fica repetindo enquanto procura.
Vinte minutos depois, quando Isadora e Oliver se separaram para procurar, este último sendo acompanhado pela felina, ele ouve uns chiados vindos da gata quando ela parece encontrar alguma coisa.
Oliver vai ver se ela achou a pulseira, mas em vez disso encontra uma abertura escura na lona, como se fosse um buraco que tinha a forma de uma borboleta com as asas abertas.
– Ah, dentro da borboleta. Ela estava falando do formato. Bom trabalho Biruta. Quando eu voltar ajudo vocês com a pulseira de novo.
Oliver se agacha e engatinha para dentro do buraco escuro. Quando chega ao outro lado vê uma estranha cena que parecia saída daquelas pinturas de terror. Uma paisagem cheia de montanhas de corpos acumulados de abria à sua frente, os montes de cadáveres eram irregulares, enquanto uns pareciam formar pirâmides, outros eram planos como precipícios. Centenas de bilhares de cadáveres formando uma unica paisagem montanhosa.
Quando vê aquilo Oliver se levanta e caminha normalmente pelo chão de corpos que se abria à sua frente.
– Eca. Não sei o que o Nii-chan pode querer em um lugar desses – Ele fala enquanto pisa nos corpos que compunham seu solo sem se importar deles terem estado vivos anteriormente.
A plenos pulmões ele chama Michael por aquele lugar, parando por alguns minutos para escutar se vinha alguma resposta. Nada. Continuou a procurar, ele deveria estar ali em algum lugar como Seryu lhe disse, a cartomante nunca errava.
Depois de três minutos procurando, acabou escorregando no muco do corpo de uma senhora e teria descido ladeira abaixo se não tivesse se agarrado no braço de um deles. Oliver usou aquele braço como apoio para subir de volta, e perto do topo visualizou por acidente o rosto do morto.
Cabelo dourado, o inconfundível olhar azul e aquele brinco na borda da orelha com formato de uma pequena estrela. Michael!?
O menino sobe de volta até o caminho em que estava e arrasta aquele corpo do meio dos outros para vê-lo melhor. Havia sangue seco nos cantos da boca e um enorme buraco no peito onde devia ficar o coração. As roupas eram as mesmas de seu irmão e até mesmo as luvas que ele sempre usava ainda cobriam aquelas mãos gentis. Os olhos estavam opacos e não pareciam enxergar nada em especifico, foscos como os olhos de um peixe.
"Não é ele." – Oliver pensa. Devia ser um irmão gêmeo que não tinha a mesma força para sobreviver como Michael. Afinal, era impossível que Michael morresse.
Um doloroso conflito acontecia na mente dele, a certeza inegável de algo que acreditou sua vida inteira com o que via à sua frente. O sol era quente, a grama era verde, o céu era azul e Michael não morria. Sempre viu aquilo como uma lei natural, mas por que via o corpo dele na sua frente? Por que ele parecia estar morto? Por que estava frio? Não entendia.
– Eu sei que é brincadeira. Está tentando me dar um susto. Vamos, acorda. Não é possível que você esteja morto.
Oliver olha para o corpo de Michael que nem mesmo respirava.
– Olha, eu vou brincar com você. Também sei me fingir de morto, mas você mesmo disse que não é uma coisa muito honrada.
O menino se deita ao lado do loiro e tomba a cabeça de lado para olhar para ele, esperando alguma reação. Como Michael não se moveu um único milimetro Oliver pega a mão dele e a pousa em cima de seu coração.
– Eu fico quietinho, nunca mais peço pra você ler mais nada pra mim. Nii-chan... por favor acorda – As lágrimas caem por seus olhinhos quando abre a boca, ele nem entendia por que elas estavam caindo se devia ser uma brincadeira do maior. – Vamos, me assuste. Levanta e ria de mim, me pegue desprevenido, me jogue do outro lado, faça alguma coisa. Diga que eu tenho que eu tenho muito a aprender.
Oliver pousa suas mãos no corpo dele e chacoalha-o devagar.
– Vamos. Eu deixo você bagunçar meu cabelo, deixo fazer o que quiser. Eu sei que é brincadeira. Eu não posso achar que alguém está morto só por que ele parece que está morto. Eu não posso cair na armadilha do inimigo, por mais bem elaborada que ela seja – Ele soluçava. – Por favor, ria de mim.
Oliver não aguentando mais deixa de reprimir o choro. As lágrimas quentes deslizam por sua bochecha enquanto seu coração se apertava cada vez que uma caía em cima de Michael, sua voz era um lamento desesperado de seu coração. Sentia-se machucado sem precisar de uma faca ou uma bala lhe perfurando, era como se seu coração tivesse sido arrancado do peito.
Não conseguia mais pensar racionalmente, só queria ele de volta. Imagens de Michael floresciam em sua cabeça em uma torrente interminável. O jeito que ele sorria quando os dois estavam andando, quando lhe dava um caramelo por ter acertado uma resposta, o calor de seu corpo e a segurança que sentia quando lhe dava um abraço, o modo como ria quando via algo engraçado, como os gatos o arranhavam quando ele chegava perto, e muitas outras coisas que só tornavam tudo pior do que já estavam quando o menino se lembrava. Não era pra ele morrer, Michael devia viver até depois que os ossos de Oliver tivessem virado pó, essa era a unica certeza que tinha em sua vida.
– Esse não é um lugar para crianças.
Oliver escuta uma voz e vira a cabeça na direção do som, por seus olhos estarem embaçados por causa das lágrimas não consegue ver o rosto de quem é, mas julgando pelo formato do corpo e a predominante cor branca em sua figura presumiu que fosse o Doutor. Tentou falar em meio ao choro mas não conseguiu exprimir palavras exatas, mesmo assim o albino pareceu adivinhar o que ele pedia, dada a situação não era muito difícil imaginar.
– Eu não posso trazer os mortos de volta à vida, como médico apenas cuido da saúde dos que estão vivos.
Oliver se agarra à Michael o abraçando e escondendo seu rosto entre suas vestes. Queria ficar ali, não queria voltar sozinho e principalmente não queria deixar seu irmão sozinho naquele lugar estranho. Indiferente a isso, o Doutor pega o menino e o joga sobre seu ombro, saindo dali com ele. Oliver se debate tentando se soltar mas o Doutor não atende seu desejo. A pequena passagem com o formato que lembrava uma borboleta se estica com a aproximação do albino para ele não precisar se agachar e fecha-se por completo depois que ele entra.
Já fora daquela paisagem surreal, ele solta Oliver vendo que agora não importava muito o que ele fizesse.
– Eu saí por alguns minutos e pensei que não teria importância se deixasse um buraco tão pequeno aberto, mas percebo que me enganei – O médico fala olhando para Oliver. – Não pretendo puni-lo, mas lembre-se de não ir entrando em qualquer passagem que encontrar por aí. Você pode acabar morto como o resto da sua família se for tão descuidado.
Dito isso o médico se retira indiferente aos sentimentos do menino de volta para dentro da passagem, e frustrado, Oliver tremia enquanto seu choro diminuía.
– Achei! Encontrei minha pulseira Oliver – Isadora se aproxima exibindo o acessório enquanto corria. – Estava enroscada na madeira da arquibancada e... Wow! O que aconteceu com você?
Isadora olha espantada para o rosto molhado do menino, vendo as mãos dele tremerem, mas mais espantada ainda por ver ele sorrindo com uma pontada de malícia e arrogância no olhar selvagem que exprimia.
Sentada em sua poltrona, bem longe dali, Seryu retira uma carta da mesa e olha a figura que ela ocultava. O esqueleto de um lobo rugindo furiosamente enquanto perseguia seu caçador fugitivo.
– A vingança – Ela diz baixinho para si mesma com um sorriso divertido.
~ ❖ ~
Magnus empurrava um carrinho em que tinha preparado várias especiarias para uma pessoa especial. Mini tortas recheadas com doces e frutas, sanduíches, pães de mel, doces variados, frutas frescas e é claro, um bule de chá recém preparado. Empurrando o carrinho ele passa por uma suntuosa e imponente porta de carvalho escura e entra em uma misteriosa sala com fraca iluminação.
As paredes eram cobertas por um papel verde escuro com detalhes em arabesco verde esmeralda. Colunas douradas erguiam-se nas bordas e no centro das paredes em intervalos de dez metros, e nesses intervalos centralizavam-se castiçais de vela. Haviam muitos castiçais naquela sala, todos feitos de puro ouro cujas velas de cera arroxeada ostentavam chamas douradas. Mas não eram só as paredes que apoiavam as velas, restos de estátuas também estavam nessa mesma incumbência.
Embutidas nas paredes ou saindo delas, estátuas de mármore enfeitavam o salão com seus alvos e bem trabalhados músculos. O dorso de um cavalo empinado, cujas patas dianteiras pareciam ter congelado no ar, estava eternamente paralisado em seu relincho rebelde, mesmo o movimento da crina contra o vento estava perfeitamente esculpido. Oposto a ele, o corpo de um homem parecia se inclinar para frente saindo da parede, um braço pendia ao lado de seu corpo (infelizmente sem a mão) enquanto do abdômen para baixo junto com metade de seu outro ombro, eram cortados pela parede. Na lareira, em margens opostas, duas mulheres vestindo túnicas troianas seguravam os candelabros, cada uma com uma mão na altura do pescoço, ambas infelizmente sem as cabeças. E havia várias outras estátuas irrompendo da parede ou decorativas em algum canto, mais pareciam ter sido resgatadas da Grécia depois de um ataque. A maioria tinham perdido os braços, a cabeça, uma perna ou talvez uma combinação de tudo. Quebradas ou mutiladas, mesmo com membros ou partes faltando, de alguma forma irresistível, não conseguiam deixar de serem belas.
Outro destaque também decorativo eram as raízes de pedra que se emaranhavam pelas paredes como grossas e poderosas veias. Imitavam muito bem as raízes de uma grande árvore, umas mais grossas outras mais finas formando um harmonioso arranjo natural (se não fossem do mesmo material que as estátuas, mas nem por isso sendo menos perfeitas).
Indiferente à decoração única, Magnus continua empurrando o seu carrinho até uma mesa forrada por uma longa toalha de linho branca. No centro dela, um vaso escarlate ostentava um buquê de rosas brancas com caules roxo escuro e folhagem da mesma cor. Magnus parou perto de uma das cadeiras estilo Luiz XV onde, apesar das velas, uma figura sombria envolta em escuridão se sentava.
– Você deve estar cansado por cuidar das preparações de seu entretenimento. – Magnus fala calmamente pegando o bule de porcelana e servindo o chá de coloração avermelhada em uma xícara, que entrega em cima de um pires para o homem a sua frente. – Preparei um chá de morango com algumas folhas de hortelã e um banho quente para animá-lo.
No momento em que o mordomo soltou a xícara, seu anelar quebrou-se ao meio repentinamente, rasgando o tecido e deixando duas gotas de sangue cair por acidente dentro da xícara. Era semelhante ao que tinha feito com o pulso de Alma, só que em menor escala e mais repentino. Magnus suspira e recolhe a mão, colocando seu osso de volta no lugar. O homem solta um leve riso na forma de um sopro.
– Animar-me? Você diz. – O homem pega a xícara e a trás para perto do rosto, colando seus lábios na porcelana e experimentando um gole do chá. – Magnus, você ainda se lembra por que estou aqui?
O mordomo pousa um pedaço de torta de morango em um prato na mesa e põe um garfo do lado para ele. Haviam várias sobremesas para ele apreciar.
– Como ia esquecer? – Magnus possui um tom acalentador e sereno ao dizer isso.
Fazia um longo, longo tempo, mas ainda se lembrava.
– Não tem como eu ficar desanimado no começo de um jogo. – O homem diz bebendo mais um gole. – Você pelo contrário parece ansioso, percebo uma impaciência contida em seu sangue.
– Impaciência? – O mordomo sorri. – Não, só estou um pouco aflito. Ver meu mestre se envolvendo diretamente nesses assuntos me deixa preocupado.
– Por acaso acha que alguém vai me machucar? Que ser poderoso e inumano seria esse capaz de me enfrentar?
– Não vejo inimigos em potencial e sei que meu Mestre não precisa de proteção. Apenas me preocupo com sua segurança mesmo assim.
– Magnus, está tentando me irritar?
– Não tenho motivos para isso. Se meu mestre quiser saber o que sinto pode me perguntar diretamente em vez de me fazer sangrar.
– Gosto de sentir o gosto de meu mordomo. – Ele explica terminando a xícara e cortando um pedaço da torta com o garfo à sua frente. – Mal posso esperar para sentir o gosto de minhas novas aquisições, meu procurador fez um bom trabalho.
– Não vejo como eles podem ser boas escolhas, comparado à remessa anterior eles são...
– Deliciosos. – O homem completa. – Michael percebeu isso quando os encontrou, fez um bom trabalho mas foi fundo demais. Acabou colhendo informações que não deveriam ser colhidas. Magnus, você sabe como se mata alguém que não pode morrer?
O mordomo fica em silêncio, sabia o desejo que o loiro possuía e conhecia seus pontos fortes e fracos, não gostava dele mas era provavelmente a pessoa mais próxima de um colega que já teve lá dentro. Mas aquilo era irrelevante, entre um colega e seu mestre não precisava nem pensar qual era mais importante.
– É só fazê-lo desejar abandonar a imortalidade. Uma vez que seja normal novamente qualquer coisa pode matá-lo. – O homem sorri cinicamente. – Você foi bem rápido e preciso, por acaso não queria que ele sentisse dor?
Magnus não concorda e nem nega a afirmação, simplesmente responde:
– Foi apenas um capricho pessoal.
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