Dead Inside
3 Escolhas
Notas iniciais
Uma torrente de lembranças me afogava desde que eu havia chegado naquela casa. Eu não conseguia me levantar da poltrona, estava presa a um show de horrores que só acontecia na minha mente. Meus olhos estavam abertos e atentos, mas eu não enxergava nada além da floresta, do meu pai, e walkers. Algumas vozes sobrepujavam meu estado inerte, mas ainda assim, eu não conseguia reagir o suficiente para respondê-las, por mais que eu quisesse.
Dois dedos estalaram na minha frente. Senti como se algo tivesse sido repentinamente sugado de mim, e o cenário doloroso das árvores foi arrancado da minha visão. Respirei fundo, ofegante, temerosa de que tudo voltaria a se agarrar em forma de alucinações. Eu não queria mais ver.
Meus olhos se ajustaram ao cômodo, começando a procurar fervorosamente por quem havia me despertado de minha hipnose. Uma mulher negra estava sentada à minha frente. Seus cabelos eram compridos e puxados para trás por algo que eu descreveria como facha. Usava uma camisa social branca, e por cima dela, um colete. Ao seu lado, repousava uma espada, cujo cabo ela segurava com força. Seus lábios grossos roçavam enquanto ela tentava me decifrar; seus olhos assemelhavam-se a dois buracos negros, chamando-me para a morte.
“Você pode me ouvir?” – ela disse. Parecia preocupada, mas acima de tudo, uma mescla improvável de curiosidade e indiferença.
“Sim” – queria que meus membros me obedecessem, queria tocá-la e dizer que precisava de ajuda. No entanto, meus lábios eram os únicos que se mexiam.
“Muito bem” – ela suspirou. Talvez não esperasse pela minha resposta tão de imediato, e estava ponderando o que ia dizer a mim. – “Qual o seu nome?” – ela pôs uma expressão zangada no rosto, e então me permiti observar que havia alguém ao lado dela, e este havia a cutucado. Era o homem. Parecia surpreso em como eu havia sido trazida de volta à vida.
“Blair. Blair Winston” – eu suspirei de alívio ao sentir meus dedos. Eu levei a palma de minha mão até a frente de meu rosto, mexendo os dedos furiosamente. Era bom senti-los. Cada músculo meu estava relaxado, a tensão tinha partido. Fechei os olhos apenas para abri-los rapidamente, receosa com o que poderia haver atrás de minhas pálpebras.
“Eu sou Michonne. Esse é Rick” – ela falou demoradamente, sílaba por sílaba, e em seguida, apontou para o homem ferido.
Meus pensamentos lúcidos foram devolvidos a mim, e eu me senti completamente retardada. Eu devia ter parecido a eles exatamente como um louco teria parecido a um estagiário no hospício – se é que possa existir tal comparação. Uma onda de ofensa percorreu por mim, perguntando-me por que eles achavam que deviam me tratar como se eu tivesse problemas mentais.
“Eu não sou louca” – eu me apressei em dizer. Capturei o olhar incrédulo e cômico em seus olhos e continuei antes de dar a ela a chance de me falar algo reconfortante que na verdade ela não queria dizer. – “Eu não quero atrasar ninguém” – eu disse, quase que em um tom melancólico, recordando-me das palavras cortantes do jovem Carl.
“Pode ficar, se quiser. Cada vida é importante, eu percebo isso agora” – Rick sussurrou, sua voz tentava achar caminho pelo inchaço de sua garganta. Contudo, ele parecia estar em um estado bem menos lastimável do que quando eu o vi pela primeira vez.
“Eu não sei se quero viver” – Michonne engoliu em seco, e Rick me encarou incrédulo. Ele parecia ter propriedade para assumir tal postura, seu olhar me dizia que havia perdido tantas pessoas queridas quanto eu. Porém, eu não queria sua incredulidade. – “Sabe, eu não tenho ninguém. Não tenho motivos” – segurei as lágrimas que lutavam para achar uma saída no canto dos meus olhos. Solucei, mas não permiti que o choro fosse libertado.
“Você tem a nós agora, e agora, vai me ajudar a procurar o Carl” – disse Michonne, levantando-se do sofá tão rapidamente quanto se pronunciou. Ela parecia séria, incontestável. A espada estava firme em suas mãos, e ela não olhou para trás para verificar se eu estava a seguindo.
Rick encostou-se no sofá soltando um gemido de dor, permitindo que seus olhos se fechassem lentamente. Ele dizia Bom, você ouviu. Forcei-me a levantar. Afinal, eu não era corajosa o suficiente para entregar meus últimos suspiros a um walker, e sei que meu pai não se orgulharia disso também. Se eu ficasse ali parada me deixariam para trás, e tentar seguir em frente com alguém é melhor que tentar seguir em frente sozinha. Respirei fundo e agarrei o resto de força de vontade que costumava circular em meu corpo como sangue nas veias.
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O sol estava se pondo, e entendi a necessidade de procurar por Carl. Não era bom deixá-lo sozinho perambulando por aí durante a noite. Mesmo que eu não tivesse tido uma boa impressão em relação a ele, e ele a mim, não queria que ele morresse. As palavras de Michonne me tornaram mais sensível e suscetível a ajudar. Você tem a nós agora.
Ela andava a poucos metros de distância, um andar calculado e arrogante, e eu presumi que fosse resultado de algum tempo de solidão. É normal que pessoas solitárias estejam acostumadas a ter de lidar com tudo sozinhas, o que as tornam amargas e com o ego inflado. Era esse ego andando, não Michonne. Não duvidada das habilidades dela, contudo.
“Então... Blair” – ela começou, sem diminuir o passo. – “Você sabe se defender?” – ela perguntou em um tom cuidadoso, como se a pergunta pudesse me ferir emocionalmente.
“Eu sei atirar. Posso me virar com uma faca, mas eu diria que não” – respondi, calculando minha resposta. Não era certo dizer que eu sabia, porque todas as vezes em que eu tirei meu pai e a mim mesma de situações difíceis foi por pura sorte. Tanto que, para comprovar essa teoria, eu simplesmente dei azar quando meu pai morreu.
“Aí está o problema. Você precisa escolher a arma certa. Veja, eu tenho minha katana, Rick e Carl gostam dos revólveres, Daryl tinha sua besta...” – ela disse, em um tom melancólico e saudoso. Não reconheci o nome porque o tal de Daryl não estava entre nós, possivelmente estava morto e por isso ela pronunciava seu nome com tanta saudade. Ponderei perguntar sobre quem ele foi, mas desisti. – “Enfim, vamos encontrar uma arma pra você” – ela recuperou seu tom frio e autoritário e acelerou o passo.
O calor vespertino estava partindo, deixando em seu lugar uma brisa agradável. As nuvens engoliam umas as outras, escurecendo-se para formar o céu noturno. A Lua já estava visível – crescente. Porém, a luz natural do dia ainda nos mantinha tranqüilas, por mais que a tensão que se formou por não avistarmos Carl em parte alguma, estivesse pairando no ar.
Casas e mais casas e nenhum sinal de lojas, bares ou farmácias. Precisávamos de analgésicos para o Rick. Eu gostei dele e quis que ele se sentisse bem. Ele me lembrava meu pai.
Michonne parou subitamente. Avistou uma pequena cabana entre duas casas, feita de madeira, cujas tábuas estavam pintadas com tinta branca. Parecia um pequeno depósito, estreito e com altura suficiente para apenas ficarmos de pé. Andamos em sua direção, e com um movimento rápido, ela cortou com sua katana o cadeado enferrujado que trancava a porta.
“Fique aqui, eu já saio. Não tem muito espaço para nós duas, de qualquer forma” – ela disse. Não achei que ela estivesse preocupada comigo, mas sim que estivesse pedindo para que eu ficasse de guarda. Assenti e deixei que ela entrasse sozinha no cubículo. Não que eu pudesse fazer alguma coisa para impedi-la, pensei.
Não demorou para que ela saísse de lá, cerca de alguns segundos depois que entrou. Em uma das mãos segurava um machado, e na outra, um pé de cabra. Eu os olhei e fiz uma careta, pareciam sujos e... Selvagens.
“Escolha” – ela os ergueu majestosamente na direção de meu olhar.
Eu encarava as duas possíveis armas com uma mistura de nojo e de curiosidade. Qual seria sua eficácia? Eram pesadas? Qual era a sensação de matar um walker usando uma delas? Percebi que ela olhava de soslaio para o lado, e um sorriso de canto se esboçava em seu rosto.
“Eu escolheria o machado” – disse uma voz que logo reconheci como pertencente ao Carl. Infelizmente, esta soou tão indiferente e fria como antes.
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