Notas iniciais
- O jogo acabou.
- O jogo nunca acaba, John. Mas pode haver novos jogadores agora. Tudo bem. O Vento Leste leva a todos.
- Como?
- Uma história de criança do meu irmão. O Vento Leste é uma terrível força que destrói todos em seu caminho. Ele busca os indignos e arranca-os da Terra. Geralmente, era eu.
- Legal.
- Ele é um péssimo irmão mais velho.
- E você? Para onde você vai?
- Um trabalho secreto no Leste Europeu.
- Por quanto tempo?
- Seis meses. Estima o meu irmão. Ele nunca erra.
- E depois?
- Quem sabe?
...

E então nós trocamos um sorriso antes dele olhar para o lado e eu dar um suspiro involuntário.

Caçamos palavras para serem ditas, para que elas possam cortar aquele silêncio, para que este seja desfeito, mas não encontramos. As palavras que queremos realmente dizer pesam toneladas e não conseguem sair, ficam reféns de nossos próprios medos e orgulhos.

Olho para o céu. Ensolarado apesar de estar repleto de nuvens.

Percebo que este mesmo céu que o levará para longe e para sempre de mim.

Este é o céu que eu observarei em meus dias nostálgicos. Lembrando de tudo que vivemos juntos e sei que nesses dias ainda me sentirei como me sinto neste instante: perdido, sem palavras e com raiva.

E tais sentimentos se repetirão pelo resto dos dias que passarei longe dele. Dias em que eu me perguntarei como teria sido se ele não tivesse ido embora.

Sim, porque já vivi isso antes. Por dois malditos anos. Deus, isso é um pesadelo e está acontecendo de novo.

Olho para o céu e me pergunto como um dia tão belo consegue ainda assim ser tão triste.

“Se eu pudesse fazer algo para mudar isso. Qualquer coisa. Para fazer você ficar, eu faria” penso em dizer mais de uma vez, mas ao invés disso trocamos mais um breve olhar.

Sei que aquilo é difícil para ele tanto quanto é para mim e é isso me faz ter raiva. Lá está ele, como uma rocha. Intocável. Impecável na minha frente. Assistindo eu despedaçar, cair diante dele e mesmo assim não pensando em nada, não encontrando nenhuma solução mirabolante para mudar aquela situação.

“Ele fez por você” repito a mim mesmo pela centésima vez e fico envergonhado por ser tão egoísta, mas a verdade é que vê-lo me deixar novamente e sem poder fazer nada me deixa com raiva de mim mesmo.

Vejo-o então tirar a luva antes de estender sua mão para mim e dizer:

- Aos melhores momentos, John.

Aqueles olhos me encaram de um jeito que parecem ler a minha alma. Um nó nasce e minha garganta e meus punhos cerram. “É isso. Só isso. Acabou. Para sempre.” penso e não faço nada além de esticar minha mão e cumprimentá-lo de volta.

Nossas peles se tocam e isso mais machuca do que ajuda. Enquanto sinto seu toque quente, suave e seu cumprimento determinado percebo que eu mesmo não consigo me mover. Eu simplesmente não quero e não posso acreditar.

Ele então solta sua mão da minha e me dá um meio e rápido sorriso antes de se virar, se afastar e entrar no avião sem olhar para trás.

Não quero e não posso acreditar.

Tudo que se passa a seguir é tão rápido diante dos meus olhos e única coisa que consigo pensar é que eu não o verei mais.

Minha atenção é desperta quando Mary se aproxima e se apoiando em meu ombro, diz:

- Ele fez por nós três.

Ela está certa. O que deveria me encher de orgulho na verdade me sufoca e eu me afasto e entro no carro para ir embora.

Ela me acompanha, entrando no banco de trás comigo enquanto despede-se de Mycroft. Eles ainda trocam algumas palavras sobre coisas do qual não tenho interesse nenhum.

- Oh, querido. Você está chorando? – ela me pergunta assim que nos olhamos e só assim percebo também. Antes, porém, que eu possa disfarçar e o carro dar partida, Mycroft nos chama de maneira muito alarmada.

- O que houve?! – saio do carro enquanto enxugo de meu rosto de qualquer jeito.

- James Moriarty! Ele está vivo. E nas TVs de todo o país neste exato momento.

- O quê?! Como isso é possível...ele não morreu, John? – Mary pergunta saindo do carro.

- Sim, há dois mais de dois anos atrás. – respondo de maneira automática ainda sem acreditar.

Meu coração e minha mente agora travam uma batalha enquanto eu tento absorver tudo o que está acontecendo. Mary conversa com alguns seguranças de Mycroft enquanto eu o vejo dar duas ligações. Por fim, observo-o passar as mãos em seu rosto de maneira nervosa e pegar seu celular e dizer:

- Olá de novo, irmãozinho. Como está seu exílio?

Meu coração dispara e eu me aproximo dele.

- Pois espero que tenha aprendido a lição. – responde após um tempo – A Inglaterra precisa de você.

Ele voltará? Eu entendi corretamente? Seu irmão me encara como se lesse meus pensamentos e me diz:

- Sim, ele está voltando. Jamais poderíamos sem ele.

Fico então sozinho enquanto Mary e Microft falam sobre o ocorrido. Meu coração bate tão forte que eu acho que ele sairá pela boca.

Ele está voltando.

Ele está voltando para mim. De novo.

Não acredito em destino. Em sinais. Conviver com Sherlock me fez me apegar ainda mais aos fatos, mas aquilo...era inegável.

Sim, vejo seu avião voltar e isso me faz sorrir ainda que as lágrimas tenham voltado e estejam pelo meu rosto.

Sem pensar em mais nada saio correndo e passo pelos seguranças e pelo portão que separa onde estava da pista de aterrissagem. Assim que o jatinho para eu aguardo.

A porta se abre e eu não consigo mais esperar. Eu não posso. Eu não quero.

Subo apressadamente os degraus antes mesmo da porta se abrir e passo pelo comissário que me olha de maneira assustada.

Atrás dele eu o vejo. Sherlock ainda sentado perto da janela com uma expressão muito séria e com sua mala ao lado.

- John? – ele pergunta muito surpreso ao ver me ver ali e naquele estado, se levantando no mesmo instante enquanto eu me aproximo.

Nossos olhos se encontram e eu percebo o jeito doce como ele me encara. Como fui tão cego, como pude omitir por tanto tempo?

Estamos agora a poucos centímetros e só ouço a minha respiração pesada. Eu não deveria ter corrido tanto.

Então eu o puxo em um abraço apertado, para bem junto de mim, com uma de minhas mãos em sua nuca, entre os seus cachos.

Nossos lábios se encontram de maneira desajeitada e perfeita. A minha respiração falha quando percebo que ele me abraça de volta permitindo o meu beijo, inclinando sua cabeça para o lado. Merda, eu definitivamente não deveria ter corrido tanto.

Uma de suas mãos agora está em meu pescoço e apenas isso faz meu corpo se arrepiar por inteiro. Nossas línguas se tocam e eu posso senti-lo pressionando o seu corpo contra o meu.

Como fui tão cego, como pude omitir por tanto tempo?

Assim que meu fôlego termina eu me afasto sem soltar suas mãos.

Nos olhamos e eu pela primeira vez o vejo completamente sem graça. Concluo então que Sherlock Holmes sem argumento é ainda mais sexy do que Sherlock Holmes dono da razão e isso me faz sorrir.

- Suas mãos, John. Estão frias. – ele comenta enquanto observa nossos dedos entrelaçados.

- Esta foi a atitude mais egoísta...- eu digo encarando-o.

- E a pior...- ele me interrompe sem me olhar.

- ...a mais egoísta e mais certa que eu tomei em toda a minha vida. – concluo.

Ele então me olha em resposta e desta vez eu vejo determinação, eu vejo certeza em seus belos olhos. Trocamos um sorriso e ele me puxa para um abraço apertado, para dentro de seu longo casaco escuro.

- Eu nunca mais vou embora. – ele sussurra.

- Não. Porque eu não permitirei mais. – respondo firmemente.

- Duas vezes foram suficientes para uma vida toda. – ele então se afasta e segura meu rosto, enxugando aquelas lágrimas que agora são apenas uma vaga lembrança de uma realidade que não existe mais.

- Você é a única coisa que eu preciso, Sherlock. A única. – respondo enquanto seguro suas mãos, beijando a ponta do seus dedos.

Ele então abre um sorriso e me beija bem lentamente em resposta. Sinto seu coração bater muito forte contra o meu peito, de tal maneira que me permito, aos fechar os olhos, acreditar pelo menos naquele momento, em destino, em sinais.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!