De várias cores
1 Único.
Notas iniciais
Quando passou pela porta sua chegada foi anunciada pelo sino. A recepcionista o cumprimentou com um sorriso mínimo; mas agradável. Vash fingiu tossir para simular uma invencibilidade que não existia. De forma alguma queria mostrar que tinha se perturbado com algo tão simples. Essa atuação apenas pareceu deixar a ucraniana preocupada.
— Está se sentindo mal? Posso conseguir um remédio...
— Não é nada. — Vash disse balançando as mãos nervoso, arruinando por completo sua intenção — O de sempre, por favor.
Vash virou o rosto de lado. As maçãs de seu rosto não poderiam ser vistas tão vermelhas; se aproximou do balcão. Teve que repetir outra vez para que a ucraniana fosse convencida de que estava bem e aliviasse a expressão. Mesmo que não fossem nada mais que cliente e funcionária Yekaterina parecia que ia chorar por ele a qualquer momento.
Isso pesava o peito de Vash ainda que se sentisse alegre. Mais alegre que qualquer outra coisa.
O cheiro convidativo dos pães se fazia presente e abria o apetite do suíço. Suas mãos repousaram nos bolsos da calça enquanto a ucraniana — visivelmente aliviada ao saber que não se tratava de algo sério — desaparecia do outro lado da portinha que havia ali.
Sua mente afirmava que não podia baixar a guarda. As mãos no bolso significavam a linha que o separava do mundo exterior. “Com razão” Vash relembrava para si sombrio. Queria e não queria poder se aproximar desse mundo e daquela pessoa em particular.
O sino tocou algumas vezes; clientes apareceram e Vash fingiu checar artigos da padaria com o olho. Queria diminuir ao máximo as possibilidades de interagir com aquelas pessoas, embora parecessem simpáticas. Sentia-se angustiado com a presença delas.
Não fazia sentido quando comparava a sua vontade de falar com aquela garota. Mesmo que as reservas no comportamento fossem claras era notável que era diferente. As possibilidades não eram fechadas. Sua neutralidade era em parcial desligada por Yekaterina.
O sorriso no rosto da ucraniana o desestabilizava; mesmo que não fosse apenas para ele. Era um sorriso genuíno que encantava como uma canção.
O rubor voltou a colorir suas bochechas. “Essa garota provavelmente se machuca fácil”. Pensamentos assim não poderiam deixar de aparecer na mente do suíço; tal qual como as outras vezes que testemunhou esse sorriso deslumbrante Vash tentava fingir que não existiu sem sucesso.
A mão direita pegou um dos papéis que se encontrava no bolso; era complicado fazê-lo: o lembrava de coisas desagradáveis. De resultados angustiantes. Quando fez promessas que não deveria ter feito, pois não conseguiria cumpri-las.
O olhar confuso de Yekaterina foi depositado sobre si assim como os irritados dos demais. A moça devia estar tornando a se perguntar se Vash não estava mesmo com algum problema. A sacola com pães ainda estava em seus braços. Vash viu o vapor sair do alimento e sumir no ambiente.
Vash agradeceu e saiu da fila que aumentava; constrangido por estar divagando tanto nesses tempos corridos. Ao fim não tinha conseguido convidar a ucraniana. As palavras entalaram em sua garganta fechada; não teria hesitação ao dizer que não se arrependia ou se lamentava por isso. Mesmo que tivesse achado aquela cor de íris bonita.
Algo assim não devia mesmo importar a moça que o atendeu. O rapaz ainda ousou contemplá-la com o canto do olho antes de sair.
Qual foi sua surpresa quando viu que Yekaterina retribuiu seu olhar? Vash teve um sobressalto tamanho que teve que fazer esforço para não fazer nenhum papel ridículo como cair ou gritar.
Não eram completos anônimos um para o outro. Quando sua irmã Erika o presentou como aqueles pedaços de papel tinha ficado indeciso. Não conhecia ninguém de fato com que quisesse quebrar a parede de neutralidade que tinha construído ao seu redor e ao da irmã.
Com exceção da animada recepcionista da padaria. Entretanto quase um mês inteiro passou depois desse fato e Vash não havia dado um passo sequer. Se conheciam desde que tinha alugado a nova casa há cerca de dois anos.
Não era seu primeiro amor; nem havia sido a primeira pessoa que veio ajuda-lo. Ninguém veio. Vash que a encontrou como seu último recurso e ela não lhe foi menos salvadora. O irônico era que ela tão pouco estava bem. Eram tempos difíceis.
E mesmo com o passar dessa etapa não fazia ideia de quem Yekaterina realmente era: não sabia da idade ou mesmo gostos dessa mulher. Não perguntou aquela época e Yekaterina também não tinha dito por conta própria. Não perguntaria algo assim até porque não gostaria de intromissão em seus próprios assuntos.
Isso não mudou: a disposição que conseguia manter era insuficiente para superar seu lado reservado. Ainda não tinha se tornado devoto a ponto de esquecer sua própria personalidade. Se isso era bom ou mal Vash não sabia.
Yekaterina sorria para Vash e quando podia ajudava quando fazia um pequeno ajuste ou dois na sua lista costumeira. Nunca tiveram uma conversa mais longa do que cinco minutos. O máximo que conseguia, como mais cedo, era que a ucraniana perguntasse quanto a sua saúde.
A ucraniana tinha um tom de voz doce como o pão de cobertura que queria comprar; mas ao observar o preço hesitava. Algo que tinha a possibilidade de alcançar e que, no entanto, não sabia quanto a sua disposição para sair de sua zona de conforto.
Vash queria que o tempo ali se prolongasse mais; mesmo que quisesse se ver longe de problemas. Eram tentadoras as mãos que tocavam as suas por meros segundos naquele negócio lícito.
Quando em outros tempos elas o animariam ainda mais; tinha se simpatizado com o corpo gasto de trabalho de Yekaterina. Vash tinha trabalhado em coisas tão ou mais reprováveis socialmente do que a ucraniana tinha feito. Ao dar o troco daquele desjejum Vash não poderia deixar de lembrar isso.
O barulho daqueles seios ao mais leve movimentar da moça ainda chegaram aos seus ouvidos quando a passos rápidos se foi dali. Vash não se demoraria mais. Seu rosto tinha esquentado outra vez.
Seus pés se movimentava mais rápido por mais um dia do trabalho puxado que teria. O dia seguiu tal qual como esperava: carregar sacos recheados de tijolos, areia, e similaridades não era realmente algo que sonhava fazer quando era criança. Mas relembrando que essa deveria ser a tarefa mais lícita que tinha feito em sua vida. Se perguntou por um momento se a essa altura ainda conseguia esboçar um sorriso sincero como ela. Provavelmente não.
Sua irmãzinha Erika deveria pensar o mesmo, pois assim que chegou ao lar o ocupou de perguntas por uns bons minutos. Ao final da “entrevista” a expressão não melhorou. Eram poucas e difíceis coisas que faziam Erika se aborrecer. Uma delas era o que ela considerava a sabotagem do irmãozinho com relação a si mesmo.
— O que é isso, Eri? Vamos... — Vash disse tentando passar por desentendido.
Erika continuou em pé diante de si. O olhar era determinado. Quando colocava algo na cabeça podia ser tão teimosa quanto Vash. Como negar quando as pessoas diziam que era sua irmã de sangue? Não que pretendesse fazê-lo um dia. Amava Eri tanto quanto se realmente fosse.
Com um suspiro a garota disse:
— Irmão, me desculpe por essa insistência, mas... você é lindo e dedicado. Protetor também. Não tem porque você ficar se segurando assim. — Erika disse tentando manter a voz calma — Você pode se divertir também. Quero vê-lo sorrindo...
— Mas não preciso ir em um encontro para fazer algo assim. — Vash disse tentando insistir mais.
— É verdade. E pode me culpar o quanto quiser quando ele não der certo e eu ter insistido muito. — Erika disse com um sorriso de que pensava o contrário.
“Afinal se não houvesse nenhuma chance não os teria pego desde o início” Era o que conseguia ler na íris verde da irmã.
Vash bagunçou os próprios cabelos. Se fosse qualquer outra pessoa que fizesse algo assim ele prontamente recusaria. Fez mais uma última tentativa:
— Sabe que eu não gosto desse tipo de lugar...
— Não tem problema. Eu quem vou pagar então não precisa se preocupar. Só quero que saia um pouco já que se empenha tanto.... Desculpe. — Erika disse amenizando a expressão para que um sorriso se desenhasse em seus lábios.
Mas não era uma brecha suficiente para que Vash desistisse do compromisso.
Ele deveria ter tentado ficar um pouco menos surpreso quando encontrou Yekaterina sentada na mesa em que seria o jantar de ambos; não conseguiu, ainda mais quando não havia um sorriso no rosto da ucraniana como das outras vezes.
Usava um vestido azul onde as alças se cruzavam sobre seu colo. Um broche de flores de mesmo tom estava preso junto a tiara. Quando os olhos se encontraram havia tanta incerteza nos dela quanto nos dele. Mas os dela pareciam que iam se quebrar a qualquer momento.
Vash não a seguraria mesmo que doesse: Yekaterina poderia se arrepender. Ao tocá-la, entretanto, o olhar da ucraniana se clareou como se apenas naquele momento estivesse percebendo a presença do rapaz. Isso o fez franzir as sobrancelhas em confusão.
— Senhor Vash! Cheguei muito cedo? — Yekaterina disse com um tom claro como o sol.
— Sim... na verdade faltava meia hora chegamos bem cedo. — Vash disse inconscientemente coçando a bochecha sem jeito.
Quando viu estava sentado e observando o cardápio.
Sentiu-se esfaqueado na garganta e peito quando viu o preço dos pratos. Não se sentiria bem em deixar Erika pagar aquela conta sozinha mesmo que tivesse se oferecido.
Estava prestes em arrumar uma desculpa banal para sair do local opressor; mas não diria nenhum desses pensamentos em voz alta.
Yekaterina não parecia afetada pelos números do cardápio, mas seu olhar tinha ficado tão longe quanto.
— Senhor Vash...
— Não me importo que me chame só pelo nome. — Vash disse rápido.
Devia ser aquele o momento em que levaria um fora da moça ou pior: ia fazê-lo pagar aqueles preços absurdos!
— Quero que me escute por um momento...
Vash parou com suas lamentações mentais e não ficou menos aflito. A expressão de Yekaterina não estava nada boa. Estava definitivamente pior de quando a havia encontrado mais cedo.
— Fico feliz que tenha me convidado. — Yekaterina disse com um sorriso triste — Mas não estou me sentindo bem com isso.
— Se quiser ainda pode pensar nisso como um encontro de amigos. — Vash disse tentando não soar muito decepcionado.
— Ah, mas não tenho problemas com o senhor, sabe? Do outro jeito... — Yekaterina disse se atrapalhando nas palavras — Só não me sinto nem um pouco bem aqui... me lembra das contas que tenho para pagar. De como conseguir mais dinheiro...
Vash tomou as mãos de Yekaterina entre as duas com um brilho diferente no olhar.
— Vão pedir alguma coisa? — O garçom francês perguntou em um tom animado.
— Com toda a certeza não. — Vash disse cortando o diálogo e levando a moça junto a ele.
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