Notas iniciais
Prontos para o desfecho? :D

Ele havia sido o culpado pelo surto de Nora.

Controlar o corpo de alguém era uma coisa, mas influenciar uma pessoa era outra completamente diferente. Freddy nunca havia atacado alguém sonâmbulo, mas bastou um pequeno cochilo de Nora para que dominasse sua vontade. E sussurrar em seu ouvido que aquela era a única saída...ah! Como isso foi delicioso!

Aquela ilha o tornava mais forte. Era como se seus poderes tivessem uma espécie de amplificador que os multiplicava muitas e muitas vezes. Mas matemática nunca havia sido o forte de Freddy Krueger. Se fosse, talvez ele tivesse se divertido um pouco mais com os jovens da ilha.

Mas estavam todos mortos agora, com exceção daqueles dois.

Todos devorados pelos seus piores medos.

Se Freddy fosse um pouco mais paciente, teria brincado com eles como uma aranha brinca com sua presa na teia.

Mas agora era tarde demais.

Faltava pouco. Faltava muito pouco.

X

O grito de Mike alcançou Jonas antes de suas passadas. Ele teve que se apressar, praguejando e temendo pelo pior.

Até que o viu parado, o corpo inerte do irmão nos braços enquanto tentava reanimá-lo. Sem sucesso.

— Steve! Fale comigo, Steve! Steve! STEVE! – As lágrimas corriam por seu rosto, pingando sobre o irmão gêmeo. Aquela dor... a dor era tão forte que parecia que tinham arrancado seu coração do peito. Mike tremia, movimentando-se com o corpo do irmão, tentando trazê-lo de volta. Tentando...

— Ele está morto, Mike. – Jonas disse, o tom de voz mais sério do que ele já havia escutado.

Algo sussurrou em seu ouvido, uma voz tão antiga que ele mal a reconhecia. Todos os pelinhos de sua nuca eriçaram.

— Sabe, essa ilha é engraçada. – Jonas tocou a nuca e estalou o pescoço. Mike olhou ao redor, com receio de olhar para trás. Nada, nenhuma arma. Tudo o que ele tinha era o canivete suíço em seu bolso. O facão de Steve. Precisava do facão de Steve. Avistou-o um pouco distante e jogou-se no chão, rolando sobre o corpo morto do irmão. O peso do facão em suas mãos proporcionava certa calma; Jonas não pareceu se abalar. – Ela nos proporciona experiências únicas. Aqui podemos tomar qualquer forma. Até mesmo as nossas aparências originais.

— Você é ele?! – perguntou na defensiva, o ódio transbordando de si ao invés do medo. – Isso é um pesadelo?!

— Não me insulte, garoto. – O sorriso que pintava seus lábios era insano. Somente naquele momento, Mike notou que a tonalidade de seus olhos era mais escura do que o verde costumeiro. – Estava apenas fazendo um favor em troca de outro. É como funciona aqui.

— Quem é você?! – Trincou os dentes. Se aquilo não era um pesadelo, ele tinha chance. Mas precisava ser esperto.

— Eu já te disse quem eu sou, Mike. – Ele sorriu, deixando os dentes expostos. Os músculos em seus braços pareceram enfartar naquele momento. O tórax expandiu tanto que rasgou a camisa. O rosto se contorceu e enquanto o corpo ganhava massa, Mike decidiu agir, gritando e correndo naquela direção. – Estamos todos no mesmo barco aqui, entende? Os caras ruins, os pesadelos, os assassinos em série. Somos atraídos para cá como se esse fosse o nosso purgatório. Uma chance de nos recuperarmos. – A faca atravessou o tecido mole dos músculos em seu ombro profundamente. Sangue viscoso e escuro escorreu do ferimento, arrancando um sorriso de satisfação de Mike. – Freddy estava preso porque é um pesadelo. E, bem, acho que eu devia isso a ele.

Havia um brilho doentio em seu olhar.

— C-como?! – Mike tentou puxar o facão, mas não conseguiu. Como se os músculos de Jonas o tivessem absorvido. O rapaz caiu sentado no chão, arrastando-se para longe. O brilho rubro naquele olhar era apavorante.

— Da última vez em que lutamos... eu arranquei a cabeça dele. E Freddy me aprisionou em um pesadelo. Ele mexeu com a minha mãe, sabe? – Jonas inclinou o rosto para o lado. – E eu não gosto que mexam com ela. Mas nos entendemos e ele estava preso no limbo. Decidi ajudá-lo em troca de um favor.

A massa corporal cresceu junto com sua estrutura óssea. Jonas devia estar com quase dois metros quando puxou o facão de dentro do ombro, o sangue respingando no rosto de Mike. Ele apenas engoliu em seco, completamente paralisado naquele momento.

Morto. Estaria morto se não agisse no momento certo contra aquele monstro.

— Que favor? – Decidiu deixar que ele continuasse falando.

— Eu também precisava me fortalecer. – disse ele. – Não sou como Freddy que precisa ter sua história contada para isso, não me ofenda. Mas... eu precisava de poder. Precisava matar.

As mortes. As mortes na floresta que pareciam ter sido causadas por Freddy. Era real, o homem moribundo dissera.

— Mas como? Esteve comigo o tempo todo. Como?

A criatura apenas sorriu.

— Você adormeceu. – respondeu. – Freddy apenas manteve uma ilusão para você.

— Por quê?! – Mike arregalou os olhos se afastando um pouco. Até sentir as costas coladas contra uma árvore. Sem saída.

— Fizemos um acordo. – Ele parecia paciente, limpando a lâmina da faca na própria calça. – Eu entregaria seu bando a ele e em troca, ele te deixaria vivo para mim. Sou cristão, Mike¹. As coisas que você faz.... elas são impuras. E você morreria de um jeito ou de outro. Que seja por mim. Que eu o purifique.

— Tudo o que você me disse... – Jonas aproximava-se lentamente.

— Eu sabia do que você gostava. Lembranças, sonhos, memórias. É tudo fácil demais. E você era um livro aberto.

Mike não se lembrava de ter adormecido. Praguejou. Jonas parou diante dele, o facão brilhando prateado em sua mão. O rosto dele havia se contorcido. Os cabelos ruivos haviam desaparecido e toda a pele se tornara cinzenta e macilenta. Aterrorizante. O estômago vazio de Mike contorceu-se. Ele teria vomitado se pudesse. Havia beijado aquela boca?!

— Esse ao menos é seu verdadeiro nome?

Horroroso. Ele era simplesmente horroroso. Mas, como um passe de mágica, algo conjurou-se em sua mão esquerda. Uma máscara de hóquei que ele colocou sobre o rosto.

— Jason. – disse ele. – Jason Voorhees, muito prazer.

Um anagrama. O nome dele era um anagrama. Ele era o assassino de Crystal Lake.

X

Jonas havia sido a segunda pessoa que Freddy havia atacado nos sonhos. Não havia um motivo especial para isso, exceto que a aura dele lhe era muito familiar.

E Freddy nunca esquecia um sonho no qual já havia entrado.

O rapaz ruivo aparentemente esperava por isso, mas quando o encontrou no sonho, não foi aquele garoto que viu.

Foi Jason.

— Achei que nunca viria. – disse ele.

— Ora, ora, ora, e não é que o monstrinho sabe falar?! – Freddy caiu na gargalhada. – Me desculpe, eu não resisti.

— Eu não vejo necessidade de usar palavras quando minhas ações dizem tudo. – rebateu. – Eu o trouxe de volta. Quero que me retribua.

— Os garotos Parker me trouxeram de volta. – Freddy, o sempre ardiloso Freddy, sorriu. – Mas estou de bom humor. Diga-me o que posso fazer por você.

— Estou preso nesse corpo. – Jason disse.

— Parece ótimo. Melhor do que esse monstro horroroso. – O olhar de Jason tornou-se perigoso. Mas Freddy sabia que ele não faria nada ali.

— Preciso matar para me fortalecer. Para me libertar. – suspirou. – Já estou aqui há algum tempo e sei como as coisas funcionam. Posso explicar a você. Pois partirei no próximo barco.

Freddy fingiu desinteresse, polindo as próprias garras.

— Estou ouvindo.

Então, Jason explicou a ele. E Freddy não fingiu mais tanto desinteresse assim quando apertaram as mãos, afirmando uma trégua e firmando um acordo.

X

Jason precisava da sexta-feira 13. Ele precisava esperar, pois era o pico de seu poder. O dia em que ele havia morrido afogado naquele lago.

— Você me fez falante. – Uma risada abafada escapou por trás da máscara. – Serei rápido com você se você colaborar.

O facão desceu em sua direção. E Mike jogou areia nos olhos dele, atrapalhando a ação de Jason antes de correr dali.

— Feh... do jeito tradicional então.

Ele começou a caminhar, sem pressa alguma, atrás de Mike. Pois conhecia aquela ilha como a palma de sua mão.

X

Ele havia falado sobre um rádio antes daquele ataque. A lembrança veio rapidamente à mente de Mike e por isso decidiu voltar da direção que haviam vindo. Precisaria dar a volta, é claro, pois Jason bloqueava o caminho. Mas talvez aquela fosse a sua única chance.

A memória nunca havia falhado para caminhos. Seus instintos eram bons. Ele conseguiria.

Até que sentiu uma pancada forte. E antes de desacordar, viu as botas sujas de lama de Jason ao lado de seu rosto.

X

Mike sentiu a brisa gélida tocar seu rosto. O ar era rarefeito e a sensação de seus pulmões explodindo lembrou-lhe de quando havia escalado uma montanha.

Suas mãos estavam firmes, presas sobre a barra da asa delta. Ao seu lado, Jonas sorria.

— Está pronto para o início da nossa aventura? – perguntou ele, os cabelos ruivos ao sabor do vento ponteados pelo brilho do sol.

— Claro.

Ele sabia que havia algo errado. Estranho quando o beijou. Mas não sabia o que era. O instrutor murmurou alguma coisa, o suéter vermelho e preto não condizendo com o local.

Vermelho e preto.

A risada ecoou em sua cabeça.

— É o que dizem por aí, Mike boy. – disse Freddy. – Não se deve meter em qualquer um! – gargalhou. – Ou não se deve meter com qualquer um? Não me lembro mais! Não faz diferença!

— Ele disse que você não me mataria! – Mike gritou, o desespero o permeando. Os olhos de Freddy Krueger brilharam.

— E não vou. Está na hora de acordar, Michael.

X

Mike despertou. Mas quando tentou se mover, as mãos estavam atadas em nós firmes. Ele viu as costas cheias de cicatrizes de Jason. Estava preso. Preso entre as árvores.

— Pensei muito. Decidi que o farei sofrer. Vou te purificar. – Ele quase podia enxergar o sorriso insano através da máscara de hóquei enquanto Jason se aproximava.

— ME SOLTA, DESGRAÇADO! ME SOLTA! – Mike tentava inutilmente se mover, mas não conseguia. Os nós eram firmes demais.

Ele apenas arregalou os olhos quando a lâmina do facão brilhou, descendo em sua direção, mostrando seu reflexo apavorado na mesma. O facão de seu irmão. Steve. Também morto e eternamente preso dentro de Freddy. Mike gritou.

X

Freddy observava, divertido, enquanto Jason limpava o facão de Mike.

— Vai ficar como recordação? – perguntou, sentado no galho da árvore. Era a sua forma física ali. Fora dos sonhos. O deus daquela ilha. Jason olhou-o de soslaio. Não se dignou a respondê-lo. – Voltou a ser chato novamente.

Ele havia assistido tudo.

O momento em que Jason havia aberto o tórax de Mike lentamente arrancando-lhe os gritos de agonia até que o corte fosse profundo o bastante para expor-lhe as costelas, mas sem ferir nenhum órgão vital no processo. Então ele passou a abri-las, uma a uma, com as próprias mãos. Mike gritava ensandecido pela dor, remexendo-se, tentando se libertar sem conseguir. Ele pediu para que Jason parasse. Depois implorou para que ele o matasse. Jason não falou nada durante o processo. Mas seus olhos sorriam até o momento em que Mike morreu. Com sua obra de arte completa, pareciam as asas abertas de um anjo.

Afinal de contas, Mike sempre quisera voar, não é mesmo?

— Sabe que isso é autoria minha, não é? – Uma mulher morena e de cabelos longos, recostada na árvore perguntou. Jason apenas soltou um ‘hunf’ como resposta, dando seu trabalho como concluído.

X

Finalmente, o ciclo havia terminado. 31 dias. Para sair da ilha, ele cobriu o rosto com um saco de papel e vestiu uma jaqueta de couro. Olhou para trás, para Freddy, que permanecia recostado em uma das árvores na entrada da floresta como se perguntasse: você não vem?

— Quero entender um pouco mais. – Freddy respondeu, o sorriso de dentes brancos sobre o rosto queimado. – Quero me tornar mais forte. Aqui... sou um deus. Invencível, imbatível. E ainda tenho fome. Quero me alimentar mais.

Jason anuiu.

No barco, outros conhecidos como Michael Myers e o boneco Chucky, que balançava os pezinhos que não alcançavam o chão. O capitão, por sua vez, não dizia nada. Apenas permanecia com o rosto baixo após ter explicado que uma espécie de magia gerada pela ilha impediria que os olhos normais o enxergassem como realmente eram. E que cada um deles estava proibido de matar até saírem do avião KoAnKa após partirem das ilhas Misaki. Fazia parte do trato. Quem não obedecesse, pagaria caro. E o último que havia pagado para ver... bem, não havia retornado para contar história. Havia sido no verão passado.

Ele ergueu um dedo de cada mão, e olhou de soslaio para Freddy.

— Um a um? – questionou. – Heh. Tudo bem. Um empate. Desempataremos na próxima vez.

Freddy tocou a aba do chapéu e caminhou para dentro da floresta, enquanto o barco partia dali, levando os terrores pessoais de volta para o mundo real.

— Um, dois... Freddy está atrás de você. – cantarolava.

Muitos segredos permeavam a Ilha Escuridown. Segredos que as pessoas nem desconfiavam. Elas achavam que tudo era uma grande piada de mau-gosto, uma brincadeirinha onde 31 dias seriam passados em uma grande pegadinha, mas o que não sabiam, é que aquela ilha era o lugar onde os verdadeiros terrores noturnos nasciam. Aquela era a casa deles. Sempre que alguém achava que os havia derrotado, era para onde retornava e onde se estabeleciam para voltar. Para todo o sempre.

“Aprendeu agora?

Como se faz a contagem?

Não? Não tem problema, tio Freddy não tira vantagem!

Basta contar comigo, vamos, sem demora!

Do um até o dez

Até chegar a você

E então começo outra vez!”

Notas finais
¹ - Na Wikipedia sobre Jason, tem uma curiosidade a respeito dele que fala que ele era cristão e matava jovens que faziam sexo antes do casamento. Aí quis usar a ideia de que ele quis purificar o Mike de um jeito bem trash. Não me condenem, por favor. —-- Eeeee, fim! Alguém aí tinha sacado o meu anagrama? Jonas O'Reehvs Jason Voorhees? Pois é, faltou um 'O', mas não dava, gente. Ficava feio demais. E só descobri que era Voorhees quando já tinha feito. Não ia voltar atrás, né? A princípio, minha ideia era que fosse apenas o lar do Freddy. Mas fiquei pensando: é o local onde habitam as criaturas mais sombrias. E aí pensei que deveria ser o lar de todos aqueles que sempre voltam! E foi o que eu fiz. Tanto que no final, altas pessoas são citadas. Pegaram as referências? Porque adoro elas, hohoho. Sobre a morte que Jason causou a Mike, acho que foi uma das piores, se não a pior. Ela foi baseada na morte mais escrota de Jogos Mortais, do terceiro filme, causado pela Amanda. Não sei se deu pra perceber que era ela ali pedindo os direitos autorais! Enfim. Jason e Freddy maquinaram juntos para que Jason pudesse sair da ilha e para que o Freddy pudesse se recuperar. A ideia é que essa ilha é tipo um hospital pra eles. As pessoas são levadas pra lá como se fosse um abatedouro e eles fazem a festa. Se alimentam das mortes, dos medos e voltam a ser quem eram para poder aterrorizar de novo, hohoho. Isso não seria possível em nenhum outro lugar. Sei que a história não é de dar medo, é um terror trash. Mas espero ter divertido vocês um pouco com as mortes e com a ideia de Freddy. Essa história é um desafio pessoal pra mim, porque morro de medo do Freddy. Então eu quis postar algo que seria no estilo do filme, que, como disse, nunca vi. Mas pesquisei bastante a respeito. E aqui ficou o resultado final. Tentei manter a personalidade dele, motivo pelo qual fiz o poema. O título da fic é por conta da musiquinha dele, onde ele conta até dez. Daí a ideia de recuperação. Acho que ademais é isso. Todos os mistérios mortos! Deixo aqui no final o poeminha que foi todo feito por mim e os agradecimentos por todos os que acompanharam e comentaram! Espero que tenham curtido! Até a próxima e bons pesadelos... Ao fim de cada dia Com um pouco de rebeldia Ensinarei a vocês Que o pior pesadelo Vive outra vez Manto brilhante De estrelas fascinantes Céu noturno Faça um pedido Sou um ser soturno Fique atento! Essa pode ser a sua última noite Diga para mim Quais os seus maiores medos? Seu lençol todo vermelho tecido em sangue carmesim? Ou perder todos os dedos? A noite é o meu lar E cada um de vocês, vou pegar! A primeira noite veio, de medo me alimentei Com ela veio a dúvida. O que decidirei? Matar todos vocês ou não? Eis a minha questão! Seja dia, seja noite Se você não estiver desperto Tenha certeza Eu estarei por perto! Se você não se cuidar Nos seus sonhos vou caminhar E, pequenino, essa certeza vou te dar: Você nunca mais vai acordar! Aprendeu agora? Como se faz a contagem? Não? Não tem problema, tio Freddy não tira vantagem! Basta contar comigo, vamos, sem demora! Do um até o dez Até chegar sua vez E então começo outra vez!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!