Apesar da praia ser muito próxima à casa, apenas duas quadras de distância, Lilian as levou de carro, por insistência das gêmeas e, também, para exibir sua nova caminhonete SUV, presente do seu dedicado marido. Em seguida, a madrasta iria até a casa de alguma amiga, onde seu grupo de mulheres se reuniam para jogar e conversar, bebendo à beira da piscina, como sempre faziam naqueles dias ociosos de verão. Mas, antes de partir, Lilian recomendou, que o pai as esperaria para almoçarem juntos.

Rodrigo, como sempre, já devia estar enfiado no escritório, onde passava praticamente, quase todo o seu tempo livre, lendo, escrevendo ou estudando algo sobre história, economia ou política, só saindo de lá para as refeições ou para dormir, poucas vezes, saía a rua e, raramente, ia até a praia.

Assim, logo que desceu do carro, Elisa tirou os chinelos e pensou como era tão bom enterrar os pés na areia fina e fria, de novo. O cheiro de maresia e a brisa fresca que vinha do mar, sentindo o sol morno da manhã na pele fizeram que uma imensa alegria a invadisse, depois de tanto tempo longe daquele lugar que amava, por isso respirou fundo e olhou ao redor, como se quisesse capturar todas aquelas sensações, para guardar na memória. As irmãs caminharam pela areia fofa e alva, em direção do mar, avistaram algumas crianças, que brincavam alegres na espuma das ondas. Nesse momento, Elisa se lembrou de quando ela e as irmãs eram pequenas, como aquelas, brincando nas ondas do mar, recolhendo conchinhas e construindo castelos na areia, fazia tão pouco tempo, mas aquela cena parecia pertencer a um passado muito distante.

Em uma segunda olhada, Elisa reconheceu as crianças morenas e de cabelos cacheados dourados, olhou ao redor, procurando até encontrar a vasta cabeleira negra e cacheada, sentada de costas para elas e de frente para o mar.

— Carla! – Elisa gritou, alegre, pulando e acenando, em resposta a garota, dona da tal cabeleira, levantou-se em um pulo, virando-se para elas, e correndo na sua direção.

— Elisa! – A garota respondeu na mesmo entusiasmo, ao ver a amiga de infância.

Há muitos anos, Elisa e Carla se conheceram naquela mesma praia, em um verão do passado, tinham a mesma idade, eram duas molecas magrinhas e espevitadas, que brincavam e aprontavam juntas e, mesmo quando estavam separadas, sempre mantinham contato.

A amiga era filha de um famoso cantor do passado, que atualmente era um conhecido produtor musical, e havia se casado como uma bela modelo italiana, que conheceu durante uma excursão pela Europa e, também, passavam as férias de verão, naquele condomínio, com sua família. Sua amiga Carla havia herdado uma cor chocolate ao leite e de cabelo volumoso negros do pai e olhos esverdeados e um corpo esbelto e elegante da mãe.

— Quando vocês chegaram? – Carla perguntou, feliz ao abraçar as amigas.

— Nós chegamos hoje mais cedo – informou Elisa, retribuindo o abraço apertado.

— Que bom que vocês chegaram, meninas! Adorei o seu cabelo, Elisa! E você, Joana está linda, parecendo uma estrela de cinema com este chapéu! – Carla elogiou e Joana fez uma pose, como estivesse pousando para uma foto, elas riram, felizes.

— Não tem nada de interessante por aqui. Nós vamos dar uma volta – Lídia declarou, de um jeito entediado – Vocês vêm? – perguntou as irmãs mais velhas, demonstrando que não estava com a mínima paciência de ficar ali parada, naquele lugar, onde não havia nenhum garoto bonito por perto.

Elisa interrogou Carla com os olhos.

— Não posso, estou olhando os pequenos – ela respondeu, apontando para as crianças perto da água, Laila de dez anos, Marcos de oito e Lucas com seis anos.

— Eu vou ficar, também. Quero conversar com a minha amiga – Elisa afirmou, mais interessada em papear com a amiga e saber as novidades.

— Eu também vou ficar aqui – Joana disse, decidida. – Vocês sabem que não posso pegar muito sol nos primeiros dias de praia – explicando-se, apesar das irmãs não estarem interessadas nas desculpas dela.

Assim, as gêmeas deram de ombro e saíram a procura um lugar mais animado e pessoas que achavam mais interessantes.

— E não esperem a gente para o almoço! – Maria avisou, antes de se afastarem.

Elisa imaginou com Lilian iria reclamar, mas depois esqueceria e ficaria tudo por isso mesmo, porque era sempre assim que acontecia, as gêmeas só faziam o que queriam. As garotas só apareceriam, outra vez, depois do pôr do sol, para desaparecerem, logo em seguida, para alguma festa ou balada.

Elisa e Joana abriam as cadeiras e acomodaram-se ao lado de Carla, tinham muitos assuntos para colocar em dia.

— Que tal um mergulho? – Elisa as convidou, ansiosa, para entrar, mais uma vez, no mar e sentir a água fria e salgada na pele.

— Eu já entrei hoje. Água está muito fria! – Carla informou, recusando o convite, enrugando o nariz, porém Joana aceitou animada, já tirando a roupa.

As duas deram uma pequena corrida na areia e pararam na espuma das ondas, sentindo a água fria envolver e molhar seus pés.

— Vamos! – Elisa sorriu para irmã, incentivou-a.

— Não, está muito fria! – Joana se acovardou, sacudiu a cabeça em negação, com a pele arrepiada.

— Pois, eu vou entrar — Elisa deu de ombros e correu para a água, cheia de determinação, pulando as ondas baixas, mergulhando de cabeça, desaparecendo na água salgada.

Joana entrou no mar bem devagar, deixando-se envolver, para acostumar-se com a temperatura, depois, abaixou-se até ser encoberta pela água.

— Viu! É só se acostumar! – Elisa falou para irmã, satisfeita por estar ali, sentindo o vai e vem das ondas contra o seu corpo.

Depois de algum tempo aproveitando o mar, voltaram para o lado de Carla, Joana aproveitou a sombra do guarda-sol para se proteger, com medo de ficar muito queimada e vermelha e estragar o começo das suas férias.

— Você parece uma turista, Joana. Debaixo desse guarda-sol, com esse chapelão enorme – Elisa caçoou.

— Você sabe muito bem o que acontece se tomo muito sol, vou ficar vermelha e inchada e não poderei vir mais a praia por um bom tempo.

— Minha mãe está preparando uma reunião lá em casa, amanhã. Por isso, preciso cuidar dos pequenos – Carla explicou. — Vai ter muita gente e vocês vão ter que ir!

— Claro que iremos, não perderia isso por nada! – Elisa confirmou, animada, pois as reuniões na casa de Carla, que eram encontros musicais, com gente que apreciava boa música e conversas agradável, sempre foram muitos animados e divertidos e abastecidos por uma bela macarronada da mama.

Elisa adorava a leveza e simplicidade da casa da amiga, por isso, ela e Joana passavam a boa parte do tempo das suas férias por lá, pois era sempre cheia de vida e animada, sem as frescuras de Lilian e, ainda por cima, tinha Enzo, o irmão mais velho de Carla. Elisa sempre teve uma quedinha por ele, que nunca olhou duas vezes para ela, sempre a viu como uma amiguinha da irmã mais nova.

— Seus irmãos cresceram, Carla! – Elisa afirmou, olhando as crianças construírem um castelo de areia na beira da água.

— É! Esses pestinhas não param de crescer – Carla concordou, em um tom divertido.

— E o resto da família, como vai?

— Você quer saber se o Enzo está aqui? – Carla indagou, com uma expressão maliciosa, Elisa sorriu, confirmando a suspeita da amiga, que continuou: – Não, ele não veio. Agora, está em Milão na casa da nonna.

As garotas continuaram conversando animadamente, contando as novidades, que viveram nesses meses de separação, era difícil resumir quase um ano de escola, namorados, viagens e fatos interessantes, em tão pouco tempo. Contudo, pararam de falar, quando a sua atenção foi atraída por um pequeno grupo de moças e rapazes, com idades próximas das delas, que acabavam de chegar e se acomodaram na areia, a alguns metros dali. Elas olharam pelos cantos dos olhos, disfarçadamente.

— Você sabe quem são eles? — Elisa perguntou a Carla, cheia de curiosidade, pois não se viam muitas caras novas por lá.

— Eu não conheço ninguém, mas sei que chegaram há pouco tempo. Eles alugaram aquela casa amarela grande, logo na frente da praia. Mas, não se misturam muito e ficam sempre juntos – respondeu amiga, em voz baixa, apesar da distância.

Por alguma razão, elas sentiram, que também estavam sendo observadas.

— Eles são meio estranhos, ficam sempre na deles – Carla reiterou.

— Você quer dizer que eles são metidos – Elisa tirou suas conclusões, com um sorriso irônico, Carla assentiu com a cabeça e uma risadinha.

— Vocês estão sendo preconceituosas, nem conhecem eles! – Joana protestou.

— Falou a Santa Joana – Elisa provocou a irmã, com sarcasmo, que fez beicinho.

Minutos depois, Carla bateu com as mãos nos braços da cadeira, já se levantando.

— Tenho que ir agora, garotas! Preciso levar os pequenos para almoçar. Por que vocês não vêm comigo e almoçam lá em casa? – Carla as convidou, começando a recolher os objetos ao seu redor

— Não podemos – adiantou-se Joana, a fim de impedir a resposta afirmativa da irmã, pois aquela ideia era tentadora. – É o nosso primeiro dia aqui, vamos almoçar com o nosso pai. Acho que é melhor a gente ir também, Elisa.

— Que pena! Fica para próxima – Carla lamentou. Depois, chamou os irmãos, mandando-os recolher os brinquedos.

As irmãs também se levantaram e começaram a guardar seus objetos, quando uma rajada de vento mais forte, levou o chapéu de Joana, que rolou pela areia, em grandes e rebeldes voltas. Joana ensaiou uma pequena corrida atrás dele, mas a fuga do chapéu já havia terminado, aos pés de um dos rapazes do grupo de forasteiros, que estava parado em pé na beira do mar. Ela estancou bem na frente dele, ambos sorriram, sem jeito, e, em uma reação rápida, os dois se abaixaram ao mesmo tempo para pegar o chapéu fugitivo, e suas cabeças se chocaram, ruidosa e dolorosamente. Os dois se levantaram, massageando o couro cabeludo no local do impacto, tentando disfarçar a face de dor, no entanto, o rapaz havia sido mais rápido e segurava o chapéu com a outra mão, que estendeu para ela, ambos bastante envergonhados pela atrapalhada.

— Desculpa e obrigada – Joana disse, timidamente, aceitando a oferta.

— Não foi nada – o rapaz respondeu, com um sorriso luminoso para ela, seguiu-se um pequeno e incômodo momento de silêncio, até ele criar coragem e falar: – Eu nunca vi você por aqui, antes.

Joana sorriu, sentiu seu rosto ficar mais vermelho e quente, encarou o bonito rapaz de olhos verdes e cabelos cacheados louros escuros, com alguns fios mais claros pelo sol.

— É que eu cheguei hoje mais cedo, vou passar o verão aqui, na casa do meu pai – Joana informou, um tanto encabulada.

— Ah! Que bom! Eu também! Quer dizer, vou passar o verão aqui, também! Meu nome é Charles – ele sorriu, feliz com a novidade.

— Eu me chamo Joana – os dois trocaram sorrisos tímidos e um brilho no olhar.

Ao longe, ouviu-se o nome dele sendo chamado, quando olharam na direção de onde vinha o som, Joana reparou na bela garota muito magra, de corpo perfeito, com cabelos castanhos claros esvoaçantes, as mãos nos quadris, demostrando sua impaciência.

— Sua namorada está chamando por você – Joana o avisou, um tanto desanimada.

— Não, aquela é Caroline, minha irmã. – Essa resposta fez o sorriso de Joana reaparecer, ainda mais radiante. – Nós vamos andar um pouco pela praia. Quer vir conosco?

— Não posso, prometi que almoçaria com o meu pai. Minha irmã está me esperando – Joana olhou para trás, para ver Elisa e Carla dando risadinhas debochadas e irritantes, deixando-a ainda mais sem graça.

— Ah! Que pena – ele falou, realmente, chateado.

— Mas, amanhã, eu estarei aqui – Joana emendou, rapidamente, ele respirou aliviado. – Tenho que ir agora. Até amanhã, Charles.

— Até amanhã, Joana.

Os dois se afastaram andando para trás, sem tirar os olhos um do outro, até se virarem e seguirem o seu caminho.

— E aí, Joana? Ele é um gatinho – Elisa gritou, provocando a irmã, que olhou para trás para ter certeza, que Charles não havia ouvido aquilo, e revirou os olhos.

— Sim, ele é – Joana confirmou. — O nome dele é Charles e eu disse a ele que estaria aqui amanhã – informou, animada, ao se aproximar delas.

— E a garota morena? – Carla quis saber, intrigada, quando viram Charles jogando água nela.

— É a irmã dele – Joana respondeu, sorrindo aliviada.

— Mais tarde, a gente podia tomar um sorvete no Nico — E antes de se separarem, Carla se lembrou.

— Combinado. Até mais tarde, Carla – as irmãs se despediram.