Antes de sentar-se à mesa, Maria parou, assustada, ao encontrar com Leo ali.

— Oi! – cumprimentou, sem jeito, sabendo que ele era uma das testemunhas do que aconteceu naquela madrugada.

— Maria, você já conhece o amigo de Elisa, Leo? – Lilian perguntou, sem notar a alteração da filha.

— A gente já se esbarrou por aí – Leo se adiantou, Lilian não se interessou muito por aquela resposta.

— Daqui a pouco, vou ao aeroporto pegar Eduardo. Alguém quer ir comigo? – Rodrigo indagou, animado.

— Não, pai. Eu dispenso – Elisa respondeu, franzindo a testa, prontamente.

— Eu também – Maria a seguiu, fazendo cara de nojo.

— Onde estão Joana e Lídia? – Rodrigo quis saber, percebendo a ausência das outras filhas.

— Joana foi almoçar com o namorado e Lídia está doente de cama – Lilian informou, já se servindo.

— Joana está namorando? Quem? – Ele ficou surpreso e perdido com as novas informações.

— Um dos nossos vizinhos, um rapaz de boa família – Lilian se adiantou a responder, sem disfarçar sua satisfação.

— E o que Lídia tem? É grave? – Rodrigo indagou, com uma ruga de preocupação entre os olhos.

— Não, só um problema de estômago, deve ter comido algo que lhe fez mal, ontem à noite – Lilian respondeu de modo casual, não percebendo que os outros ocupantes da mesa se entreolharam, incomodados.

— Certo – Rodrigo se deu por satisfeito e parou de perguntar.

Depois do almoço, Lilian foi jogar cartas na casa de uma das amigas, Rodrigo foi para o aeroporto receber o sobrinho Eduardo, Maria conversar no telefone com as amigas, fazendo companhia a Lídia, que estava de ressaca, deitada no seu quarto. Elisa foi para a varanda com Leo, para fugir do calor da tarde, sentaram-se nas redes, balançando-se suavemente.

— Sua madrasta é legal – ele elogiou, com sinceridade.

— Você está brincando? – Elisa indagou, em um tom sarcástico, franzido a testa.

— Mas ela parece tão simpática. Você não gosta dela? – Leo ficou surpreendido com a reação da garota.

— Não é que eu não goste, só somos muito diferentes. Ela só se preocupa demais com as aparências, não liga muito para o meu pai e nem para as filhas. Aquelas garotas fazem o que querem. Eu não entendo porque meu pai se casou com ela. Lilian é muito diferente da minha mãe.

— Talvez, seja por isso mesmo, por elas serem tão diferente. Talvez, por não ter sido feliz no primeiro casamento – Leo opinou, depois percebendo sua falha. — Ops! Desculpa, Elisa. Sabe, eu não quis dizer isso, exatamente.

— Mas, acho que você pode estar certo, Leo. Às vezes, acho que minha mãe é muito preocupada. Você nem imagina como é, ela se preocupa com a gente, com a família, com a economia, com o país, com o mundo. Ela vive preocupada, diferente de Lilian, que nem percebeu que a filha de quinze anos está de ressaca, porque chegou bêbada, em casa, às duas da manhã.

— Sabe, você é muito responsável para sua idade, Elisa.

— Talvez, eu pareça muito com a minha mãe.

Já no fim da tarde, ele se despediu, dizendo que tinha uma longa caminhada até a casa dos amigos, onde estava hospedado, porém, antes iria conversar com Gaspar, o pai de Carla, que estava tentando uma oportunidade de trabalho para ele, como músico.

— Esse mundo musical é muito difícil, tem que batalhar muito e, quando se consegue uma chance, tem que se agarrar a ela com unhas e dentes – ele considerou, em um tom resignado.

— Mas você é bom, tem uma linda voz, Leo. Eu percebi isso, ontem, na festa.

— Mas não basta ser bom, tem que ter sorte, trabalhar duro e além de um bom patrocínio para se ter sucesso – disse, para depois observar, preocupado, o céu carregado de nuvens cor de chumbo. — Tenho que ir agora, Elisa, pois eu acho que vai começar a chover muito daqui a pouco.

Logo em seguida a saída de Leo e um pouco antes de Rodrigo chegar em casa com o primo Eduardo, o temporal desabou, tal qual uma cortina de água. O vento forte fazia com que as árvores envergarem como se quisesse parti-las, a chuva era intensa transformava as sarjetas em riachos e os repentinos clarões dos raios eram seguidos pelos estrondos dos trovões que assustavam, mesmo aqueles que estavam protegidos por um teto. Elisa imaginava se Leo já havia chegado em casa e se Joana estaria segura em algum lugar protegido contra a chuva. Mas, logo em seguida, a irmã mandou uma mensagem, avisando que ficaria na casa de Charles até a chuva passar.

Pouco tempo depois, a porta da frente abriu, abruptamente, impulsionada pelo vento forte, assustando as mulheres que se reuniram na sala, e Rodrigo e o primo Eduardo entraram, molhados pelo curto trajeto na chuva intensa, carregando malas dele.

— Ainda bem que chegamos em segurança! A chuva está muito forte, mal podia enxergar nada na estrada – Rodrigo parecia aliviado, ao entrar em casa. – Seja bem-vindo, Eduardo! – Depois seguiu-se as apresentações, já que há algum tempo não se viam.

Elisa se lembrava pouco daquele primo, a imagem da infância que vinha na sua cabeça era de um garoto mirrado, muito pálido, com óculos de aros escuros, cabelos lisos cortados curtos, além de ser muito mimado e voluntarioso. Agora, o que se podia dizer é que o primo estava mais alto, porém sua aparência continuava a mesma, magro e pálido, usando óculos de aros pretos e sua camisa xadrez de mangas curtas, calças caqui e mocassins marrons, colaboravam ainda mais com o visual nerd.

— É bom rever a senhora, tia Lilian – Eduardo disse de maneira um tanto formal.

— Tia Lilian, não, por favor. Só Lilian.

— Essa são suas primas Elisa, Maria e Lídia – Eduardo se

aproximou beijou os rostos das primas, precisou se abaixar para cumprimentar Lídia, que continuou deitada no sofá, com um ar doentio.

— Ela comeu algo que lhe fez mal, está com dor de estômago – Lilian explicou o aspecto abatido de Lídia, sob olhar pesaroso de Eduardo.

— Onde está Joana? – Rodrigo olhou em volta, com as sobrancelhas erguidas, a procura da filha mais velha.

— Ela ficou na casa do namorado, por causa da chuva – comunicou Elisa, de modo casual, Rodrigo fez uma careta de contragosto.

— Vou levar você até o seu quarto – Rodrigo se adiantou, pegando as malas do sobrinho. – Espero que não se importe, Eduardo, pois tivemos que improvisar um quarto no depósito.

— Tenho certeza, que eu vou gostar, tio – Eduardo disse de maneira simpática.

Se fosse outra pessoa, o almoço, com aquele grupo de pessoas presunçosas, teria sido maçante, mas não para Joana, que sempre via o lado bom de todos, mesmo tendo que aguentar a futilidade de Caroline e Louise, a apatia de Tom, que só parecia interessado em comer e a arrogância e o mau humor de Dani, porém nada disso importava, pois estava ao lado de Charles, tão gentil e atencioso, que fazia o mundo dela iluminar-se, como se estivessem em um universo paralelo dos apaixonados, onde tudo podia ser perfeito e nada mais importa, a não ser pela companhia da pessoa amada, onde todas aquelas chatices eram impedidas de entrar.

Quando regressava para casa, de carro, começou a chover muito forte, até se transformar uma tempestade com rajadas de ventos violentas e estrondosos trovões. Caroline estava quase histérica dentro do carro, pois morria de medo de raios e trovões, por isso foram direito para casa deles, sem deixar Joana na sua, que como prêmio de consolação, poderia ficar por mais algum tempo ao lado do seu namorado.

Aquela era a casa onde eles estavam hospedados agora, havia ficado desocupada, por um longo tempo, apesar de ser a mais bonita e maior do condomínio, com suas imensas janelas envidraçadas que davam para varandas, com vista para o mar revolto com altas ondas que quebravam com violência na areia, naquele momento.

Caroline correu para o quarto se escondendo entre as cobertas, sendo consolada pela irmã, Tom se estirou em um dos sofás e cochilou, Dani deu uma desculpa que precisa responder as mensagens da irmã, para deixar o casal sozinho. Assim, Charles e Joana sentaram-se de frente para a janela da sala de estar, observando o mar bravio, que parecia querer tomar a praia. Eles se abraçaram, aconchegados, seus primeiros beijos eram leves e suaves, quase castos, mas foram se tornando mais intensos e fortes, as mãos de Charles passeavam pelas costas macias de Joana, ficaram um pouco mais audaciosas, um carinho mais ousado e ela se afastou, assustada consigo mesma.

— Não, por favor, Charles – ela pediu, quase sem folego.

— Tudo bem, Joana – ele disse, compreensivo, afastando-se, delicadamente, depois passando os dedos sobre a pele macia rosto dela.

— A chuva melhorou e eu gostaria de ir para casa agora – Joana pediu a ele, com gentileza.