Naquela mesma noite, deitadas nas suas camas, na penumbra do seu quarto, o coração de Joana não conseguia descansar, devido ao turbilhão de sentimentos dentro dela, voltou-se para irmã, quase adormecida.

— O que você achou do Charles, Elisa? – indagou com a voz baixa, ansiosa por uma resposta positiva.

— Bem, você quer saber exatamente o que eu penso?

— Sim

— Eu achei que ele é um gatinho e parece ser bem legal, muito diferente daquele amigo dele.

— Você acha que ele gostou de mim, Elisa? – Joana perguntou, insegura

— Está na cara que sim! Ele não conseguiu tirar os olhos de você nem por um minuto, Joana. Com certeza, ele está a fim de você. — Joana sorriu no escuro, feliz, pois não conseguia tirar Charles da sua cabeça desde que se conhecera pela manhã. – Mas, vá com calma, Joana. Cuidado para não cair em outra roubada – Elisa preveniu, já acostumada com as suas paixonites e amores improváveis da irmã, que não deram certo e a fizeram sofrer muito. Elisa jamais havia entendido como uma pessoa bonita e inteligente como Joana, tinha se apaixonado tantas vezes por caras tão errados para ela. Porém, sua irmã não ouviu mais nada, apenas fechou os olhos, querendo sonhar com um grande amor.

Na manhã seguinte, Elisa acordou com os sutis barulhos no quarto, abriu os olhos com dificuldade, ainda pesados de sono, para ver Joana andando de um lado para o outro, atarefada, se aprontando.

— Que horas são? – perguntou, ainda sonolenta.

— Deve ser umas sete horas – Joana respondeu, sem parar para olhar as horas.

— E o que você está fazendo acordada a essa hora? É muito cedo! – quis saber, com a voz saindo arrastada pelo sono, cobrindo a cabeça e virando-se para o outro lado.

— Estou me arrumando para ir à praia – a irmã explicou, pegando um biquíni e colocando na sua frente do seu corpo, olhando-se no espelho, descartando-o, pois não havia gostado do resultado e, depois, pegando outro, fazendo a mesmos movimentos. Isso despertou Elisa, que desistiu de tentar dormir de novo e sentou-se na cama, para observar a agitação da irmã.

— Elisa, me empresta aquele seu biquíni azul? – Joana pediu, finalmente, desistindo dos seus.

— Pode pegar! Está na primeira gaveta. Você está mesmo interessada naquele carinha, não é mesmo, Joana? – Elisa ficou um tanto preocupada com a irmã, pois sabia como ela era uma garota romântica, tinha medo que sofresse mais uma desilusão.

— Acho que estou mesmo, Elisa. Ele parece ser tão legal, eu não sei, mas sinto que a gente tem muita coisa em comum. Os olhos deles são tão bonitos e sinceros – a irmã falou de um jeito sonhador.

— Sabe de uma coisa, Joana? Vou me arrumar e ir com você para a praia – disse, jogando as cobertas de lado.

O restante da casa estava silencioso, quando elas saíram do seu quarto, só havia algum barulho vindo da cozinha, onde encontraram o pai já tomando café da manhã e lendo o seu jornal, sozinho, enquanto a empregada lavava as louças deixadas na pia.

— Já acordadas tão cedo?! – O pai se espantou, ao ver as duas filhas mais velhas, já prontas para irem à praia.

— Queremos pegar o sol da manhã – Elisa mentiu, sentando-se à mesa, pegando uma fatia de bolo, mas Joana estava ansiosa, só conseguiu tomar um copo de suco.

— Tem razão, meninas, o sol da manhã é mais saudável. Eu sempre falo isso para as suas irmãs, que ficar na praia até tarde faz mal para a saúde – o pai fez sua pequena preleção, as garotas sorriram, solidárias, sabendo que saúde era a última coisa que as gêmeas se importariam – Querem que eu leve vocês?

— Não, obrigada, pai. Só são duas quadras daqui, podemos ir andando numa boa, pai — Elisa se adiantou, mas continuou: — A não ser que você queria ir conosco à praia – Joana deu uma olhada de canto de olho para irmã, exaltada, pois, apesar de gostar muito do pai, não precisa dele junto a elas, logo no dia que marcou de se encontrar com Charles.

— Não, meu tempo de ficar sentado na areia, ocioso, pegando sol, já passou há muito tempo. Atualmente, prefiro a companhias dos meus livros. Nos vemos na hora do almoço?

— Claro, pai!

— E a tarde, faremos uma partida de xadrez, Elisa. Você ainda se lembra como se joga?

— Está pronto para perder, pai? – provocou-o.

— Como perder se fui que te ensinei?!

— É o discípulo superando o mestre – Elisa brincou, inclinando-se com as mãos juntas, em uma leve reverência oriental.

— Ah, outra coisa, meninas! Seu primo Eduardo chegará amanhã.

As duas tentaram esconder a careta de desânimo do pai, saíram de casa.

Àquela hora da manhã, as ruas estavam quase vazias e ainda sombreadas, já que o sol ainda não vencera a altura das casas e árvores, as poucas pessoas por ali estavam ocupadas nas suas atividades cotidianas, havia algumas mulheres passeando com seus cachorros, algumas empregadas varrendo à frente das casas, outros moradores regando as plantas, alguns pais preparando a toda a bagagem para algumas horas na praia, carregados de baldes e pazinhas, brinquedos, toalhas, entre outros objetos essenciais para distrair seus pequenos.

Apesar do caminho ser curto, para Joana, parecia que demorou uma eternidade até chegarem ao lugar combinado, a praia estava praticamente vazia, e ninguém ainda não tivera coragem para entrar na água ainda gelada, naquela hora do dia.

Logo perto d’água, uma mulher de cabelos louros, já estava sentada em uma cadeira de frente para o mar, cuidando dos filhos pequenos, ao vê-la, as irmãs tiraram os chinelos e andaram na sua direção. Rafaela, a mãe de Carla, ralhava em italiano, com as crianças, que jogavam areia um no outro, acabando por acertar o olho do menor, que chorava sem parar, no colo dela.

— Ragazzas! — Rafaela gritou ao ver as garotas, soltando a criança, que distraída, parou de chorar e voltar para a brincadeira. – Que bom ver vocês! Carla me disse que vocês haviam chegados. Sejam bem-vindas! – Ela abraçou e beijou o rosto das duas.

— É bom ver você também, Rafaela – Elisa respondeu, com sinceridade, pois gostava da mãe da amiga, que era direta e sincera, mas muito amorosa e carinhosa, era na casa dela que se refugiaram várias vezes, fugindo das chatices da sua madrasta e da indiferença do seu pai – Cadê Carla? – ela perguntou já sabendo a resposta.

— Dormindo, está muito cedo para ela, só os bambinos acordam cedo. Mas, está cedo para vocês também! – Ela reparou, enquanto Joana deu uma longa olhada a sua volta, ficando um pouquinho desiludida, antes de sentar na sua cadeira.

— Ainda está cedo! – Elisa cochichou no ouvido da irmã, tentando animá-la.

— Eu sei! – Joana disse, com um sorriso esperançoso, tentando se distrair com as histórias engraçadas de Rafaela.

A manhã avançou lentamente, diferente do coração angustiado de Joana, que estava acelerado, pela incerteza, o medo do desencontro, os olhos dela percorriam a areia, na espera de algum sinal de Charles, mas não havia novidade.

Carla chegou para render a mãe, na guarda dos irmãos menores, também, ficou decepcionada por Joana. No entanto, foi quando Rafaela se despedia, reforçando o convite para a reunião à noite em sua casa, que Charles apareceu, infelizmente, para Elisa, acompanhado por seu amigo Dani.

— Olá! – Charles disse, sem jeito, para todos – Pedir a hora, porque saímos para dançar, ontem à noite, com causa de Caroline – ele deu uma explicação não exigida e, como por encanto, o rosto de Joana se abriu em um luminoso sorriso, e o tempo de angústia foi esquecido.

—Tudo bem! – Joana o perdoo, com sinceridade, pois Charles estava ali e agora nada mais importava – E suas irmãs não vieram?

— Não, elas ficaram em casa, dormindo.

Dani cumprimentou a todas, com uma seco bom-dia e Rafaela continuou sua despedida.

— Não esqueça de hoje à noite, meninas. Ah! E os seus amigos também estão convidados – ela sorriu para eles e piscou um olho para Joana, entendendo a situação que rolava ali.

— Uma festa? – Charles perguntou, interessado, enquanto Rafaela ia embora.

— Mais ou menos, na verdade, é um tipo de reunião musical – Carla começou a explicar. – Alguns músicos, amigos do meu pai, vão tocar e cantar lá, em casa, hoje.

— O pai de Carla é produtor musical – Joana continuou. – Tem sempre muitos músicos bons nesses encontros.

— Acho muito legal! – Charles falou, animado. – Como certeza, nós iremos, não é Dani? – afirmou, voltando-se para o amigo, que não parecia muito feliz com o convite.

— Claro, Charles – Dani respondeu, meio a contragosto, mais para deixar o amigo feliz.

— Alguém, quer dar uma caminhada na praia? – Charles fez um convite geral, mas olhando direto para Joana, que se levantou, prontamente.

— Não, tenho que olhar os meus irmãos – Carla foi a primeira se desculpar.

— Vou fazer companhia a Carla – Elisa respondeu, rapidamente.

— E você, Dani? – Charles perguntou ao amigo.

— Eu prefiro nadar um pouco – ele respondeu.

Assim, felizes e sozinhos, Joana e Charles saíram para andar na areia da praia, Carla e Elisa se entreolharam e sorriram com cumplicidade, foi quando elas se deram conta da presença de Dani, calado, junto a elas.

— Você e Charles se conhecem há muito tempo? – Elisa começou uma conversar civilizada, querendo ser simpática.

— Estudamos juntos por muito tempo – ele respondeu, sem se prolongar, deixando Elisa no ar.

— Está gostando daqui, Dani? – Carla tentou ajudar a amiga.

— Não gosto muito de praia, estou aqui por causa de Charles. Com licença, eu vou nadar um pouco – Dani encerrou a conversa, levantou-se e caminhou em direção da água. Enquanto, observava Dani se afastar em direção ao mar, a mente rebelde de Elisa se admirou e considerou, que, realmente, ele devia gostar muito de nadar, pois tinha os ombros largos, costas e braços com músculo bem definidos e pernas longas, um andar seguro.

— Belo ragazzo! Pena que seja tão antipático – Carla falou, com um sorrido malicioso, como se adivinhasse os pensamentos da amiga.