Como esperado, Lilian conhecia uma boa empresa especializada em organizar festas, apesar do pouco tempo de antecedência, conseguiram resolver tudo para a data escolhida, porque dinheiro não era um problema, por isso tudo está quase pronto.

— Charles, tudo está ficando muito lindo, mas você não está preocupado com que possam estragar algo na casa? – Joana perguntou, pois sabia que a casa era alugada, enquanto observavam a preparativos da festa pelos empregados da empresa contratada para isso, que trabalhavam freneticamente, a fim que tudo estivesse perfeito na hora prevista.

— Não se preocupe, temos seguro contra danos. E ainda, tiraremos todos os objetos que poderão ser destruídos e quebrados e se algo acontecer sempre dá para pagar o conserto ou substituir – Charles deu um sorriso tranquilizador. – Além do mais, estou gostando dessa história de festa e quero que seja uma ocasião especial para nós dois – Aquela afirmação deixou Joana ao mesmo tempo apreensiva e excitada, com a expectativa do que estaria por vir.

Naquela tarde, Elisa e Joana foram até a casa de Charles, oferecer ajuda na preparação da festa que aconteceria à noite e ficaram impressionadas com a decoração com balões de gás brancos, que flutuavam na piscina, pequenas lanternas foram suspensas pelo belo jardim, um DJ preparava o seu equipamento de som. Charles mostrava para Joana, orgulhoso de todos os detalhes. Sentindo-se sobrando, Elisa resolveu deixar o casal sozinho, enveredando pela casa, pois nunca havia entrado ali antes e estava curiosa em conhecê-la. Distraída, prestava atenção nos detalhes de bom gosto, até parar para apreciar um belo tabuleiro de xadrez esquecido em um canto da sala, tocando suavemente as peças com pontas dos dedos.

— Você sabe jogar? – Desatenta, Elisa se assustou ao ouvir alguém perguntar nas suas costas, quando se voltou encontrou Dani ali, parado um pouco mais adiante, seu olhar era suave e amigável.

— Um pouco – respondeu, um tanto sem graça, ao ser pega xeretando.

— Quer jogar? Aqui ninguém joga – ele propôs, ela a sacudiu afirmativamente e os dois tomaram assento.

— Você tem as brancas – ele anunciou, assim ela começou o jogo.

— É difícil encontrar uma garota que jogue xadrez – ele comentou casualmente, depois de ela fazer seu primeiro movimento.

— Meu pai me ensinou, porque ele gostava de jogar e não tinha ninguém para fazer isso e acabei gostando, também – relatou, observando-o movimentar um peão.

— Meu pai também me ensinou a jogar – ele confessou, com um certo ar de tristeza.

— Você deve sentir muita falta dele? – ela se atreveu.

— Muita.

— E como aconteceu? — Elisa indagou e ele a olhou, surpreso, pela coragem dela ao desafiá-lo a quebrar sua muralha protetora e se expor.

— Foi tudo muito rápido, minhas lembranças são muito confusas. Eu me recordo que dormia no meu quarto, quando acordei com uma discussão no meio da noite, os gritos desesperados da minha mãe e de ódio do meu pai, eu ouvi a porta da frente bater com força, no momento que ele saiu de casa e depois os pneus do carro cantarem, daí ele nunca mais voltou. Depois, eu soube que ele bateu com o carro em uma árvore, a polícia disse que perdeu o controle pois estava correndo demais – ele relatou, em voz baixa e monótona, ela sentiu um aperto no peito, imaginando sua dor daquele garotinho ao descobri que perdeu o pai que tanto amava.

— Quantos anos você tinha quando isso aconteceu?

— Onze e minha irmã, 6. Eu estou em xeque – ele disse, apontando para o tabuleiro, mas Elisa estava jogando sem prestar atenção.

— Deve ter sido muito ruim para você – Elisa afirmou, admirada por ele está se abrindo assim com ela.

— Foi bastante, pois apesar de ser um homem de negócios muito ocupado, meu pai sempre tinha algum tempo para mim e minha irmã. Ao contrário de minha mãe, que nunca tinha tempo para nós ou estava em casa, sempre envolvida com suas festas de caridades e associações, quando não estava fazendo compras ou em salões de beleza. No enterro do meu pai, eu chorei muito, depois nunca mais chorei na minha vida, resolvi que cuidaria da minha irmãzinha, seria o homem da casa. Xeque-mate – ele finalizou, em um sussurro.

Elisa olhou para o tabuleiro, sem dar muita importância ao resultado da partida, para em seguida, encarar Dani.

— Como assim, você nunca mais chorou, depois disso? – ela quis saber, surpresa.

— Nunca – respondeu, sem dar mais explicações, os dois ficaram em silêncio, apenas um olhando nos olhos do outro, por infinitos segundos. Inexplicavelmente, Elisa não sabia o que dizer, nem queria tentar, com medo que aquele momento se perdesse.

— Achei você, Dani! – Caroline surge juntos deles, os dois desviam o olhar apressados, sem jeitos e um tanto decepcionados por serem interrompidos. — Precisamos da sua ajuda para escolher as músicas de hoje à noite.

— Eu? Eu não sou a melhor pessoa para isso, Caroline – Dani retrucou, a contragosto, mas Elisa percebeu que ela só pretendia tirá-lo dali, de junto dela, como se fosse uma adversária no seu joguinho para o conquistar.

— Como não? Você tem muito bom gosto musical, pode ajudar escolher as melhores músicas para festa – Caroline insistiu, derrotado, sabe que ela não iria desistir, Dani se levantou para segui-la.

— Você vem também, Elisa? – Ele a convidou, esperançoso.

— Não, eu fico por aqui. Ou melhor, acho que vou para casa agora. Por favor, avisem Joana que já estou indo – queria se afastar, sair de perto deles, não entendendo porque a intromissão de Caroline a deixou tão irritada.

Antes de regressar para sua casa, Elisa deu uma passada na casa de Carla, para conversar, ainda perplexa pelas confissões de Dani e com o clima que os envolveu.

Rafaela, mãe da amiga, abriu a porta e a abraçou, carinhosamente.

— Carla, está lá fora no jardim. Você fica para o jantar, não é, Elisa? – Rafaela afirmou, sem esperar pela resposta.

Assim, Elisa entrou pela casa, que já conhecia tão bem, e encontrou a amiga sentada no jardim, tocando violão, Leo estava ao lado dela, a ajudando com os acordes.

— Elisa! – Carla exclamou, surpresa com a chegada da amiga.

— Você está tocando? – Elisa perguntou, surpreendida com a cena.

— Treinando, Leo está me ajudando a relembrar, já que faz muito tempo que não pegava no violão.

— E aí, Leo? Tudo bem? Você andou sumido – Elisa o cumprimentou com entusiasmo.

— Andei trabalhando por aí, tocando em alguns bares à noite, para descolar algum dinheiro, enquanto a fama não vem.

— Legal! E você vai à festa hoje à noite? – Elisa quis saber.

— Com certeza, que não. Acho que não sou bem-vindo àquela casa. E além do mais, eu tenho uma apresentação em um bar hoje à noite, por isso já estou indo, porque preciso me preparar. Vou deixar vocês conversarem. Até mais, garotas e boa festa – Leo se despediu, parecia displicente, bem diferente do Leo tão amigável que conheceu.

— Ele parece ser um cara bem legal – Elisa comentou, logo que Leo foi embora.

— E por que você não está se preparando para festa, Elisa? – Carla a provocou, brincando.

— E você, por que não está se preparando? Afinal, quem vai se encontrar com o namorado não sou eu.

— Porque eu já sou naturalmente preparada para qualquer ocasião – Carla respondeu, com um sorriso maroto.

— Então, por que, realmente, você veio até aqui, Elisa? – Carla encarou a amiga com seriedade, já se conheciam tempo suficiente para perceber que havia algo diferente.

— Porque, hoje, aconteceu uma coisa muito estranha entre mim e Dani – Elisa relevou em tom sério.

— O que? Vocês brigaram outra vez? – Carla bufou, desanimada.

— Não foi nada disso! Muito pelo contrário, a gente só conversou numa boa. Foi bem estranho.

— Só conversaram, isso é realmente muito estranho para vocês dois – Carla declarou, irônica.

— Não brinca, Carla! Foi uma conversa muito séria! Ele se abriu comigo, contou sobre coisas que aconteceram na vida dele.

— Você tem razão, isso é muito estranho para o Dani. Mas, por que será que ele fez isso?

— Eu não sei – Elisa deu de ombros. – Talvez, precisasse se abrir com alguém.

— Será que ele está interessado em você, Elisa?

— Você está louca!

— Ragazzas, o jantar está na mesa! – Rafaela as chamou da porta, acabando com a conversa.