Naquela noite, de volta ao seu quarto, Elisa observava, com o ar divertido, enquanto irmã desarrumar todo o armário em busca de uma roupa perfeita par se encontrar com Charles. Joana escolhia um vestido, o colocava na sua frente e olhava-se no espelho, parecia que gostava do resultado, mas insegura, perguntava a irmã.

— E esse está bom?

— Como eu já disse a três vestidos atrás, este está ótimo. Joana, por favor! É só a casa de Carla, já fomos lá um milhão de vezes – Elisa ponderou, revirando os olhos, com a sua paciência chegando ao fim, achando que a irmã estava exagerando.

— Eu sei, mas é que Charles também vai, e eu quero ficar bonita para ele – Joana confessou, pegando mais um vestido em cima da cama. – Eu já contei que a família de Charles tem origem francesa? Que os país deles estão esquiando nos Alpes, mas ele preferiu vir para praia, pois não gosta de frio.

— Sim, umas duzentas vezes. Por favor, decida-se logo, Joana! Você já é naturalmente bonita. E além disso, eu acho que se ele tem mesmo o sangue francês, não vai se preocupar com suas roupas. Na verdade, deve preferir você sem elas – Elisa afirma, que já está pronta há algum tempo, usando bermuda, camiseta e sandálias rasteirinhas, como sempre.

— Pare com isso, Elisa! – Joana exclamou envergonhada com a insinuação, jogando o vestido que está na sua mão sobre a irmã.

— Será que aquele amigo dele, também, vai? O pior vai ser aguentar aquele cara a noite toda! – Elisa previu, já irritada com a possibilidade do provável reencontro.

— Não fale assim dele, Elisa. Você não sabe nada sobre ele, que o seu verdadeiro nome é Daniel. Charles me contou que o coitado deve a vida bem difícil, o pai dele morreu, a mãe ficou meio desequilibrada e ele teve que ficar responsável pela irmã mais nova. Eles têm tutores que gerenciam o dinheiro da família, mas ele quem toma conta da irmã.

— Eu nunca imaginaria isso – Elisa falou um pouco penalizada, depois mudou o tom para mais incisivo. – Mesmo assim, pois ter problemas de família, não dá o direito a ele de ser grosso com todo mundo.

Finalmente, após muitas trocas de roupa, Joana escolheu um vestido, penteou os cabelos e fez uma maquiagem leve, colocou perfume com cuidado em pontos estratégicos, sobre o olhar entediado da irmã, que a esperava, pacientemente.

— Como eu estou? – perguntou a irmã, finalmente, dando uma volta em torno de si mesma.

— Ótima! Agora, podemos ir – Elisa pediu, já cansada de esperar.

Encontraram as gêmeas saindo pelo corredor, também, arrumadas para sair.

— Por favor, Elisa, se papai ou mamãe perguntar, diga a eles, que iremos com você – suplicou Lídia, o que não era costume dela.

— Eu não vou mentir por sua causa, Lídia – Elisa falou, aborrecida.

— Por favor, Joana – Lídia pediu a outra irmã. – Vou sair com o meu namorado.

— O da sorveteria? Quando anos aquele carinha tem? – Elisa a interrogou, desconfiada.

— Dezessete, não é mesmo, Maria? – Lídia pediu a intervenção da outra irmã, de um jeito vacilante. Maria confirmou com a cabeça, um tanto hesitante.

— Mentira! – Elisa desafiou com firmeza, seu olhar duro dançando de uma irmã para a outra. – Ele deve ter mais de 20 anos, está na cara! Por acaso, ele sabe que você só tem 15 anos, Lídia?

— Sabe, eu disse para ele – Lídia garantiu, mas as irmãs mais velhas pressentiam que fosse mentira.

— Já falei não vamos mentir por vocês, pois se acontecer algo errado, nós seremos acusadas de encobrir seus erros. – Elisa insistiu. – E acho melhor você ir com calma com esse namoro, porque esse cara é muito velho para você, Lídia.

— Então, pelo menos, não falem nada para papai e mamãe, que não estivemos lá, e eu prometo que vou terminar com ele ainda hoje – Lídia retrucou, porém, Elisa tinha certeza que aquilo, também era mentira.

Porém ninguém perguntou nada, quando elas saíram de casa, separando-se logo do lado de fora da porta.

— Acha que deveríamos contar para eles sobre esse namorado de Lídia? Apesar que também achar que Lilian não vai fazer nada em relação a isso – Joana ponderou com a irmã, enquanto caminhavam em direção à casa de Carla.

— Vamos dar mais uma chance a ela, apesar de saber que está mentindo – Elisa argumentou, sem ter muita certeza se estava tomando a atitude correta, enquanto andavam pela rua.

Localizada no fim da rua, a casa de Carla tinha cor de terracota, lembrando as casas romanas, estava toda iluminada e já do lado de fora podiam ouvir o som suave de um violão e uma bela voz cantando músicas românticas, as conversas sussurradas e algumas risadas, como elas sempre se lembravam.

O pai de Carla as recebeu na porta, com um belo sorriso, ele era bastante alto e tinha a pele muito negra e com uma voz grave de tenor.

— Garotas, há quanto tempo! Vamos, entrem, entrem! Carla está na cozinha com a mãe. Vocês já sabem o caminho – convidou-as com gestos largos e animados.

E elas sabiam mesmo, enquanto entravam pela casa a dentro, Joana esticava o pescoço, olhando em volta à procura de Charles. Até chegarem a cozinha, onde um pequeno grupo de mulher e alguns homens circulavam, ocupados em diversas tarefas. Carla estava lá arrumando uma pequena bandeja com pequenas bruschettas de tomates maduros.

— Olá, meninas! – Ela falou, sorridente, trocando beijos no rosto, depois estendeu a bandejas para elas – Provem! Estão deliciosas!

Elisa pegou uma, contudo, Joana estava com o estômago bastante embrulhado para comer, ansiosa enquanto os olhos espreitavam as redondezas.

— Acho que ele ainda não chegou, Joana – Carla respondeu aos pensamentos da amiga, que não pode esconder o desapontamento e o medo de Charles não ir, assim mudou de tom para animá-la. — Vamos lá para fora. Tem um carinha novo que papai está pensando em lançar, é ele que está tocando agora.

Pela porta da cozinha que dava para o jardim e a piscina nos fundos da casa, onde haviam mesas espalhadas, algumas pessoas conversando baixo e na varanda, um rapaz moreno, de cabelos castanhos e cacheados, que caíam sobre sua testa, cantavam músicas românticas, com uma voz melodiosa, e tocava violão, as garotas se aproximaram mais para ouvir melhor, ocupando uma mesa vazia, ele levantou a cabeça e sorriu para elas.

— Ele é bom, não é mesmo? O nome dele é Leopoldo, mas usa o nome artístico de Leo – Carla explicou para as amigas.

O rapaz cantou e tocou várias músicas, algumas conhecidas e outras da sua própria autoria. Em alguns momentos, ele parecia olhar diretamente para Elisa, que retribuiu com um sorriso, e quando parou, foi aplaudido, animadamente, depois levantou e sentou-se ao lado das garotas, enquanto outra pessoa assumiu o seu lugar e começou a tocar algumas músicas mais antigas, no violão.

— Oi! Vocês gostaram? — Leo perguntou, de um jeito confiante e um sorriso cativante, pois já sabia a resposta.

— Muito! Você canta e toca muito bem! – Elisa disse, empolgada.

— Obrigado. Eu sou Leo.

— Nós já sabemos – Carla esclareceu. – Eu sou Carla, filha do Gaspar, e essa são minhas amigas Joana e Elisa.

— E vocês tocam algum instrumento ou sabem cantar, garotas?

— Não – Elisa se adiantou a responder, e sua atenção se voltou para ela, os dois trocaram sorrisos simpáticos, mas Gaspar o chamou, para apresentá-lo a algumas pessoas.

— Só um minutinho, que eu vou falar com uma pessoa e volto logo – Leo explicou, já se levantando e saindo.

— Ele é um gatinho, Elisa, e parece que gostou de você – Carla cogitou, animada pela amiga.

— Joana, seus amigos chegaram! – Rafaela anunciou e atrás dela, estavam Charles e Dani.

A garota se levantou, em um pulo, ficando frente a frente com Charles, ambos com um grande sorriso de felicidade, porém, Dani parecia aborrecido por estar ali.

— Bebem algumas coisas, rapazes? Carla, pegue algo para seus amigos! – Rafaela ordenou e a filha bufou, revirando os olhos, irritada com a ordem, mas seguiu a mãe.

— Suas irmãs não vieram? – Joana perguntou para Charles.

— Não, elas têm uma outra festa hoje, na casa de uns amigos dos nossos pais.

— Que pena, que vocês perderam o show. Um cantor muito bom. Qual era o nome dele, Elisa? – Joana comentou, casualmente.

— Leo – Elisa respondeu.

— O que tem eu? – Leo reaparece, curioso pela menção do seu nome.

— Estávamos falando de você para os nossos amigos – explicou Joana. – Esses são Charles e Dani e esse é Leo.

Foi como se o ar se congelasse a volta deles e uma espessa camada de mal-estar os envolvesse. Leo deu um passo para trás, como se atingido por um soco, estava pálido, assim como Dani, os olhos de Charles dançavam de um para outro, com se esperasse por algum tipo de reação violenta de um dos dois, onde teria que intervir rapidamente.

— Já estou indo, Charles. Acho que você pode voltar para casa sozinho – Dani falou abruptamente, com um fio de voz rouca, sem espera nenhuma resposta, virou-se e marchou com passos duros para a porta, deixando para trás os outros, atônitos e sem ação.

Lentamente, aquele clima estranho foi se dissipando, até só ficarem muitas perguntas no ar.

— Quer dar uma volta, Joana? – Charles perguntou, mas sem esperar uma resposta, segurou-a pela mão e a puxou dali, deixando Elisa e Leo, sozinhos.

Ela mesmo confusa, não esperava por uma resposta àquela situação, mas Leo começou a falar, na tentativa de explicar-se:

— Sei que pode parecer muito estranho para você, esse clima entre mim Dani, Elisa – ele começou, com um tom pesaroso.

— Eu não tenho nada com isso, Leo, mal conheço vocês dois – Elisa deu de ombros.

— Mas, eu prefiro esclarecer essa história para você, antes que conheça a outra versão – ele insistiu, Elisa concordou com a cabeça. – Essa situação entre mim e Dani começou há algum tempo atrás, quando eu era bolsista na escola onde ele e Charles também estudavam. Era uma escola muito cara e minha família não tinha dinheiro para bancar por ela, mas foi o pai de Dani, que era amigo do meu pai, que conseguiu a bolsa para mim. No início, nós dois nos dávamos bem, mas eu não sei o que aconteceu para ele mudar tanto. Talvez, deve ter achado que eu não era bom o suficiente para circular no meio deles, assim Dani começou a tentar me prejudicar, inventando mentiras sobre mim, até conseguir que eu fosse expulso da escola. Eu perdi minha grande chance de ter uma boa educação e garantir um futuro melhor. Agora, depois que meu pai morreu, preciso que tocar em barzinhos à noite para sobreviver.

— Não acredito! Isso é horrível! – Elisa exclamou, indignada. – Por que ele faria algo assim tão ruim?!

— Eu não sei, talvez, por ciúmes. Por eu me destacar mais do que ele, pois era um aluno melhor e chamava mais atenção na escola ou por todos gostarem mais de mim, realmente, não sei, Elisa – Leo cogitou, com pesar, dando de ombros.

— Isso parece ser bem típico dele! Aquele jeito todo metido dele, se achando melhor do que todo mundo! – ela concluiu, contrariada, já que a partir de agora, tinha um motivo real para ter raiva de Dani.

— O que houve com seu amigo, Charles? – Joana quis saber meio tímida, ainda surpresa com a atitude de Dani. Os dois haviam encontrado um banco de madeira escondido em um canto do jardim, junto alguns arbustos, longe dos olhares de todos.

— Dani pode ser muito impulsivo, faz o que tem vontade, às vezes, mas, ele tem suas razões para agir daquela maneira. Uma coisa você pode ter certeza, Joana, que ele é o melhor amigo do mundo quando gosta de uma pessoa, mas pode ser o pior inimigo quando não gosta – Charles deu um sorriso terno e olhou dentro dos olhos de Joana e continuou: — Mas, agora, não quero falar mais sobre isso. Você é tão bonita, Joana, que quero me perder nesse azul dos seus olhos, pois desde que a conheci, não consigo parar de pensar em outra coisa a não ser em você – ele declarou com a voz suave, depois segurou a mão de dela, com delicadeza, cruzando os seus dedos de uma das mãos com os delas, e com a outra ele levantou seu queixo, aproximou-se, lentamente, testando, até seus lábios se encontrarem. O primeiro toque foi suave, uma carícia, depois mais forte, até que as bocas se abriram e o beijo foi ficando mais intenso, os braços dele a envolveram pela cintura, a trazendo para mais perto e os braços delas se elevaram para circundar o pescoço dele, trazendo-o mais para perto, seus dedos mergulharam nos cabelos dele, então se esqueceram do resto do mundo a sua volta.