Os dias se passaram depressa, nem percebemos quando já havia feito uma semana, cuidar da bebê sem nome ainda era uma tarefa um tanto quanto complicada. Um sempre tentava empurrar a responsabilidade para o outro e por esse motivo acabávamos entrando em discussão.

Por outro lado, Inferno acabou se apegando um pouco a criança, pois com a falta de componentes ele largou um pouco da garagem e a esperança de conseguirmos mais peças foi depositada em mim, que a três dias estou trabalhando quase sem descanso para fazer o motor do antigo carro que encontrei funcionar.

Nosso objetivo é que ao fazer o carro funcionar, possamos andar com ele por Marte para tentar encontrar algo que possa nos ajudar, como outro carro quebrado ou naves antigas que possam ser desmontadas para reaproveitamento de peças. Ultimamente Cobra e Mercúrio tem relatado que está cada vez mais difícil de encontrar comida e mais fácil de encontrar alienígenas hostis, com o carro a fuga fica mais fácil e também podemos ir para lugares mais longes.

— Ta aqui a pirralha – Cobra entrega a Plutão uma bebê totalmente enrolada dos pés à cabeça por uma toalha branca – Não sei porque eu que continuo a dar banho nela! Na próxima vai ser você.

— Mas você tem mais experiencia, faz isso a dias – Plutão segura o riso, Cobra está coberto de água dos pés à cabeça.

— Na verdade acho que é a bebê quem dá banho no Cobra – Mercúrio que está sentando no sofá lendo um livro comenta fazendo Plutão soltar uma gargalhada.

— Há Há muito engraçado – Cobra revira os olhos com ironia – Na próxima vai ser um dos dois, então vou querer ver se são bons mesmo!

Mercúrio e Plutão voltam a rir ao ver cobra escorregar em sua própria poça d’água antes de ir embora.

— Vou vestir ela, depois você fica com ela viu – Plutão aponta pra Mercúrio que parecia prestes a falar algo – Não quero desculpas, estou ocupada reorganizando nosso kit de primeiros socorros.

Com um suspiro de derrota Mercúrio aceita ficar com a criança, Plutão vai até o quarto e veste a pequena com a frauda de pano e uma camisetinha costurada por ela a partir de uma camiseta de Cobra que a platinada rasgou.

— Prontinho! – Plutão entrega a pequena para Mercúrio e em seguida sai.

— Você não vai me atrapalhar, não é? – O moreno direciona o olhar para a bebê sentada ao seu lado no sofá, ela pisca os olhinhos confusa – Acho que não.

Não demora muito, quando menos espera a pequena se encanta com o livro que ele lia e curiosa rasga a metade de uma página com um puxão só.

— Mas o que?! – Mercúrio levanta desesperado – Que força! Meu deus, a página!!

A criança parece não se importar com o chilique de Mercúrio, sua atenção está na folha em suas mãozinhas, ela puxa o pedaço de papel de um lado para o outro fazendo ele rasgar mais.

— A Bc vai me matar! – Mercúrio encara o livro emprestado – Eu tenho que colar. Meu deus! Pare com isso! – Ao finalmente olhar para a bebê ele nota que ela tinha um dos pedaços da página em sua boca, desesperado ele segura suas bochechas – Cuspa! Cuspa!

— O que ta acontecendo aqui? – Inferno surge, em sua mão há uma “mamadeira” projetada por ele.

— Eu preciso dessa folha! – Depois de fazer a pequena cuspir, Mercúrio abria as mãozinhas dela para pegar o resto da página.

— Ta na hora dela comer, o que ta acontecendo? – Inferno insiste ao ser ignorado.

— Vai dar comida a ela? Boa sorte com esse monstrinho – Mercúrio resmunga antes de sair da sala furioso.

— Eu em. Que bicho mordeu ele? – Inferno pergunta a bebê que parece com raiva de algo, suas bochechas vermelhinhas de raiva – Não ligue pra ele! Ta na hora de mamar!

Com um estranho sutiã com seios, Inferno senta no sofá. A “mamadeira” foi projetada por ele para ser parecida com a forma de amamentação comum das mães. Quando lhe questionado o por que ele não apenas fez uma mamadeira comum com um bico em uma garrafa, Inferno falou que isso não havia se passado em sua cabeça no momento em que estava construindo, por este motivo ele ficou encarregado de sempre “amamenta-la”.

Hades andava com um copo de vitamina em mãos quando passou pela sala e se deparou com a cena. Inferno segurando a bebê no colo, balançando-a levemente enquanto ela sugava com força o leite de um dos seios da mamadeira.

“Bizarro” – Hades estremeceu, mas não interrompeu, apenas seguiu seu caminho.

Escuto batidas na lataria do carro anunciando que alguém acabou de entrar na minha oficina improvisada. Me arrasto de baixo do carro e ao me sentar no chão me deparo com Hades que segura um copo, ele sorri.

— Oi, isso é pra mim? – Aponto e ele concorda com a cabeça, levanto e pego o copo – Valeu.

Hades dá uma volta pelo ambiente analisando meu trabalho, embora eu saiba que ele não entenda sobre mecânica. Bebo minha vitamina em silêncio aproveitando essa pausa, estou a horas trabalhando desde que acordei com a bebê me chutando.

Falta muito pra terminar?— Hades questiona em línguas de sinais.

— Bem, se eu estivesse na minha oficina de verdade, estaria pronto em poucas horas – Largo o copo em cima da mesa com ferramentas e peças – Mas aqui é complicado achar coisas que funcione, tenho muitas peças, mas elas nem são para esse modelo.

Você sabe mexer nesse tipo de carro? Ele não era dos colonizadores?

— Na camada da Ralé não temos nada de moderno, já vi minha mestra concertando um desses, mesmo com as peças necessárias em mãos, ela teve dificuldades – Lembro nostálgica do passado quando eu sempre passava na oficina de Karina, uma mulher muito engraçada que me dava doces quando criança e que passou a ser minha inspiração com o tempo – Se ela me ensinou bem, e eu sei que sim, mesmo com todas as dificuldades vou fazê-lo funcionar.

Você consegue, eu sei disso.

— Valeu, mas sem pressão né, só precisamos dele para poder sobreviver aqui na superfície. Todos contam comigo – Ironizo e já vou me sentando no chão para voltar para baixo do carro – Principalmente a bebê, tudo bem passarmos fome, mas ela ainda é muito nova – Começo a ficar nervosa, lembranças das vezes que faltaram comida para mim e meus irmãos e a dor de passar dias com a barriga vazia.

Sinto uma mão em meu ombro, olho para o dono dela e ele está sorrindo compreensivo com a minha preocupação, o copo vazio já está em sua mão.

Vai dar tudo certo, não se preocupe. É o que seus olhos me dizem. Respiro fundo me acalmando.

— Ta tudo bem – Seguro sua mão que está em meu ombro e retiro com delicadeza – Eu to bem, não se preocupe.

Não lhe encaro novamente, apenas me deito no chão e me arrasto para baixo do carro. Escuto os passos de Hades soar indo para longe, suspiro.

Mais tarde durante a madrugada – segundo meu relógio de pulso – eu ainda não havia parado do tentar fazer o carro pegar. Me sento no banco do motorista e giro a chave, sem sucesso. Estou a dias sem dormir direito, passando horas junto com o automóvel, ando pulando as refeições, estou me sentindo cansada, física e mentalmente.

— Funciona porra! – Esmurro o volante e volto a girar a chave, nada acontece. Suspiro cansada – Por favor, funciona, eu não posso deixar todos na mão...

E então escuto.

O som do carro ligando ao girar a chave preenche toda a base. Estou desacreditada, pisco diversas vezes e acelero fundo, o carro rugi alto, seu motor trabalhando, os faróis acessos, muita fumaça sai do escapamento.

— Bc! Bc você ta bem?! – Plutão vem gritando, a bebê no colo tem os olhinhos cheios de lágrimas.

— O que ta acontecendo? – Mercúrio pergunta para ela, toda oficina improvisada está coberta de fumaça.

— Me dá uma arma, eu vou entrar – Cobra estende a mão a Inferno que procura a primeira coisa mais próxima e lhe entrega uma vassoura – Sério?

— É o que temos – Inferno dá de ombros.

— Calma Bc estamos indo! – Cobra posiciona a vassoura em mãos, mas quem entra na frente é Hades.

Quando a fumaça vai se dissipando estou siando do carro, ele ainda está ligado. Todos me encaram surpresos, eu não estranho as roupas de dormir que vestem, a bebê parece agitada com o barulho alto do motor.

— Funcionou haha! O carro, eu consegui! – Sorrio contente, todos retribuem aliviados.

— Agora podemos ir atrás dos componentes e... Bc?! – Inferno me encara, sinto a exaustão me atingir – Bc?!

A última coisa que vejo são os olhos assustados dos meus companheiros.

Notas finais
Desculpem o sumiço, é algo normal na realidade kkk, o lado positivo é que desta vez não durou 1 ano. Mas nunca largo algo pela metade, sempre volto para concluir. Semana que vem sai capitulo novo!