Meus olhos piscam se acostumando com a claridade do quarto, pouco a pouco a imagem de plutão vai se formando. Estou deitada em nossa cama, ela dorme com a luz acessa, a bebê mexia em seu cabelo deixando as mechas todas embaraçadas.

Meu primeiro questionamento é se tudo não passou de um sonho. Afinal a ultima coisa que lembrava era de fazer o carro funcionar. Me levanto e percebo que visto a roupa comumente de dormir. Olho para Plutão dormindo e fico envergonhada, ela ou alguma outra pessoa me trocou.

— Deixe-a dormir – Seguro a bebê que tenta voltar para cama e continuar sua brincadeira.

Saindo do quarto percebo a casa silenciosa. Passo pela sala e não encontro ninguém, na cozinha nem sinal de Hades. Vou até onde deixei o carro e ele não está lá.

— Não se preocupa, o carro está funcionando perfeitamente – A voz de Plutão surge por trás, seguro o riso ao ver seu cabelo todo assanhado – Eles saíram para explorar.

— Eu queria ir junto...

— Eu sei, mas você dormiu dois dias inteiros – Me espanto com a revelação – Precisávamos de comida – Ela se aproxima – Sabe como é Inferno, ele queria porque queria ir atrás dos componentes.

— Eu sei...

Plutão é alguns centímetros mais alta que eu – pouca coisa – subo um pouco o olhar para lhe encarar, ela parece preocupada, antes que eu pudesse questionar algo sinto suas mãos passarem envolta do meu corpo me abraçando – e consequentemente abraçando a bebê também.

— Fiquei tão preocupada, você não acordava por nada – Ela sai do abraço, mas deixa suas mãos nos meus ombros me prendendo e chacoalhando um pouco ao falar severa – Nunca mais faça isso! Você passou tantos dias pulando refeição, evitando o sono. Não temos um hospital aqui Bc, o Hades vai te encher de porrada quando voltar.

— Desculpa, não era a intenção, ui! – Pulo assustada, a bebê segura com força meu ceio – Isso dói!

— Argh, ela ta assim agora, desde que os meninos saíram, Inferno tinha que dar comida com aquela coisa estranha dele – Plutão revira os olhos.

— Então isso é fome? – Seguro sua mãozinha para longe do meu corpo.

— É sim, mas não se preocupe, Hades deixou muita coisa preparada.

[...]

Brinco com a bebê no sofá, faço a famosa brincadeira de “cadê o bebê?” e ela cai na risada contagiando a mim e a Plutão que fatia uma maçã em pequenos pedaços.

— Ela é fofa! – Sorrio para a bebê que parava de rir aos poucos – Você é uma fofa! É sim – Faço uma voz fininha enquanto passeio meus dedos em sua barriguinha lhe fazendo cosquinhas – Fofa demais!

— Eu achava que seria mais difícil cuidar dela – Plutão comenta chamando minha atenção – Quer dizer, é complicado, você viu o que essa mostrinha fez no meu cabelo hoje de manhã...

— Hahaha, é só que ela não tem brinquedos e seu cabelo é o mais “chamativo” por ser platinado – Faço aspas com os dedos.

— Pois é... Mesmo assim, sei lá – Plutão termina de cortar a maçã pega um pedaço e dá na mão da pequena que enfia na boca – Eu meio que gosto dela.

— Eu também.

— A quem você vai entregar ela?

— A um casal bastante amoroso – Meus olhos brilham com a lembrança dos meus pais – Ela vai ter uma família grande, com irmãos pra brincar, vai estudar e ser uma pessoa fantástica.

— Mesmo morando na Ralé?

Encaro Plutão que me direciona um olhar triste. De fato, não há muitas opções de carreira que faça uma pessoa na Camada da Ralé ter um futuro brilhante. Só o fato de sobreviver cada dia é uma vitória, ricos na Ralé são quem tem comida todo dia na mesa – o que infelizmente são poucas pessoas.

— Mesmo ela morando na Ralé... – Confirmo, minha voz um pouco mais melancólica.

— E se ela não fosse pra Ralé?

— O que? Como assim?

— Bem... Aqui é difícil, mas com a gente-

— Não tem essa de ‘com a gente’ Plutão. Eu já pensei nisso – Encaro a bebê que come outra fatia da maçã que a platinada lhe oferece sempre que ela engole o pedaço anterior – Somos procurados pela polícia. Vivemos constantemente lutando contra alienígenas, não sabemos quando vamos comer. Não da pra ela aqui, isso não é um futuro, viver com criminosos.

— Não somos criminosos – Ela se corrige ao ver meu olhar – Ta bom, somos criminosos. Mas não porque somos ruins, apenas queríamos ajudar os nossos.

— Fomos ajudar a Ralé e olha no que deu – Abro os braços mostrando envolta.

— Sim, foi um preço a se pagar. Mas sabe quem ta agora agradecendo? A galera da Ralé, não ficamos com nem uma misera moeda, mas antes de pararmos nesse buraco conseguimos entregar o dinheiro aos cidadãos.

— Aonde quer chegar com essa conversa?

— Que não somos tão ruins, que podemos fazer mais para ajudar a população. Com o nosso conhecimento, imagine o que podemos ensinar a ela.

— Você quer transformar a bebê em uma Rebelde? Ficou louca?

Plutão suspira antes de voltar a falar, dessa vez ela entrega o ultimo pedaço da maçã a pequena que está alheia sobre nossa conversa sobre seu possível futuro.

— Ela pode se tornar incrível, pensa só um pouco, Inferno poderia ensinar tudo sobre tecnologia, você ensinaria tudo sobre carros, Hades sobre comida, língua de sinais, código morse, Cobra ensinaria a caçar, Mercúrio a atirar e eu ensinaria a cuidar dos ferimentos – Ela vai listando nos dedos ficando empolgada com as possibilidades – O Professor ensinaria tudo sobre liderança e planos. Pensa Buttercup, ela seria uma gênia!

— Ela seria uma arma... – Concluo ao final do discurso, Plutão me encara neutra – Não gosto disso.

O som do carro na noite silenciosa chama a nossa atenção. Os rapazes estão voltando, a bebê está quase cochilando quando a pego nos braços. Plutão guarda a faca que utilizava para cortar a fruta e me acompanha até a garagem, quando o carro entra eu me seguro pra não gritar ao ver a situação em que se encontra.

— Mas que porra é essa?!

Arranhões enormes na lataria, pneu furado, marcas de queimadura na parte de trás, farol direito apagado, sem retrovisor, vidro trincado.

— Bc acordou! – Cobra sorri claramente desviando do assunto.

— O que vocês fizeram? – Volto a questionar.

— A culpa não foi minha – Mercúrio sai do banco do motorista com as mãos para cima.

— A culpa não foi de ninguém – Cobra enfatiza.

— De ninguém não meu amigo. De você apenas – Inferno acusa, ele tira da mala um enorme saco cheio de objetos.

— Cobra o que você fez?! – Minha voz se eleva e a bebê em meus braços resmunga chorosa entre o sono.

— Digamos que alienígenas cismaram com a gente.

— Ele jogou o carro para cima de dois aliens que nos perseguiram – Mercúrio conta a verdade sem se importar com o olhar de raiva de Cobra sobre ele.

— Quase morremos – Inferno complementa.

— Estamos vivos não estamos? – Cobra finge indignação com o que os amigos contam.

— Por pouco meu camarada – Inferno responde antes de começar a esvaziar a bolsa que trouxe.

— Vocês são loucos – Plutão conclui.

Começo a discutir com Cobra quando me surpreendo recebendo um abraço. Hades que até então estava quieto se separa de mim falando em línguas de sinais.

Eu fiquei preocupado, você não acordava por nada! — Ele me dá um soco com força moderada no braço – Nunca mais faça isso! Se não estivesse com a bebê no colo eu te bateria.

— Foi mal... Pelo menos vocês aproveitaram o carro – Olho novamente o automóvel parcialmente destruído.

— Ta tudo bem, você pode concertar, por que no fim conseguimos – Inferno sorri – Temos tudo de necessário e até mais que isso.